O Incomparável Jesus Cristo – Índice e Introdução

Índice (basta clicar):
1 – O retrato de Deus – 11
A parábola do filho perdido – 16
Para ponderar – 25
2 – O irmão do filho pródigo – 27
A segunda parte da parábola – 31
Para ponderar – 36
3 – O Fariseu e o Publicano – 41
A oração do “justo” – 46
O publicano – 48
Para ponderar – 51
4 – Quem é o meu próximo? – 55
Jesus e o mestre da lei – 58
O relato do bom samaritano – 62
Para ponderar – 67
5 – Abre-me os olhos – 69
Segundo ato – 75
Para ponderar – 79
6 – Jesus Cristo segundo o evangelho de Marcos – 81
Marcos e sua audiência – 85
O Cristo compassivo e misericordioso – 86
Encontros – 88
Jesus e o endemoninhado geraseno – 88
A mulher enferma – 92
A ressurreição da filha de Jairo – 96
Para ponderar – 98
7 – O incomparável Cristo – 101
Os paradoxos de Jesus – 107
Politicamente incorreto – 108
Ele era Deus? 113
Evidências de sua divindade 117
Para ponderar – 120
Sua identidade – 120
Sua missão – 125
Introdução
Um autor anônimo, no século 19, escreveu uma belíssima página sobre Jesus Cristo, sob o título “One Solitary Life” [Uma vida solitária], que desde então tem capturado a atenção de pessoas em muitas partes do mundo.
“Ele nasceu numa vila obscura, filho de uma camponesa. Cresceu em outra vila, onde trabalhou numa carpintaria até os 30 anos. Então, por três anos, foi um Pregador itinerante. Ele nunca escreveu um livro. Nunca assumiu qualquer posição. Nunca teve uma família ou possuiu uma casa. Ele não cursou uma faculdade. Nunca visitou uma cidade grande. Nunca viajou mais do que 160 quilômetros do lugar onde nascera. Não fez qualquer uma daquelas coisas que usualmente associamos com grandeza. Tinha apenas 33 anos quando a maré da opinião pública se ergueu contra Ele. Seus amigos O abandonaram. Foi entregue aos Seus inimigos e suportou o escárnio de um julgamento injusto. Foi pregado numa cruz entre dois ladrões. Enquanto morria, Seus executores disputavam o Seu manto, a única propriedade que Ele possuía. Depois de morto, foi colocado em um túmulo emprestado, pela piedade de um amigo. Dezenove séculos vieram e se foram, e hoje Ele permanece como o personagem central da raça humana, o líder de todo avanço da humanidade. Todos os exércitos que já marcharam, todos os navios que já navegaram, todos os parlamentos que já se reuniram, todos os reis que já reinaram, colocados juntos, não tiveram o impacto sobre a vida dos homens neste planeta como essa única vida solitária” (citado por Michael Green, em Who is This Jesus?, pág. 2).
Desde tempos imemoriais, pelos corredores da história, passaram comandantes, caudilhos, ditadores, governantes, líderes militares, presidentes, políticos, poetas, gênios, artistas, filósofos e teólogos. A maioria deles passou sem deixar qualquer informação sobre suas realizações, destruídas pela mão ferruginosa do tempo. Mas o transcorrer das eras não exerceu nenhum efeito sobre Jesus Cristo. Sua vida, conforme registrada nos evangelhos, permanece hoje tão atual como nos dias em que Ele viveu. Por qualquer critério que adotemos, Ele é o personagem central da história. Sua vida e ensinos ainda causam enorme impacto transformador em todos aqueles que se detêm para considerar Sua carismática e irresistível pessoa.
Seus inimigos têm, de muitas formas, tentado transformá-Lo em mito ou descaracterizar Sua identidade com base em descobertas arqueológicas forçadas ou interpretações sensacionalistas delas; filmes e canções irreverentes, produtos da ficção humana, surgem de tempos em tempos. Nisso, eles não ficam muito longe dos inimigos clássicos, os antigos fariseus, saduceus, herodianos, Anás, Caifás, o Sinédrio, Herodes e Pilatos, que, inutilmente, também tentaram destruí-Lo e silenciá-Lo. Contudo, os inimigos passam e seus esforços terminam desacreditados, apenas despertando em muitos o desejo de conhecer melhor a Jesus Cristo. Jesus continua com a palavra final sobre Deus, a vida, a morte, nós próprios e a vida eterna. Em última instância, como escreveu Julie Cameron, de Noranda, Austrália, diagnosticada com câncer terminal: “Jesus é o meu consolador; protetor; escudo nos meus medos; o conhecimento que me faz distinguir o certo do errado, […] o grande músico na orquestra da vida. Jesus é o verdadeiro arquiteto; a luz que brilha em mim; a rocha na qual eu me ergo; o constante companheiro; o único mestre; a fé dentro de mim; a benção e a minha vida eterna. Ele morreu; assim eu poderei viver. Ele é a minha firme segurança. A força quando me sinto fraca. O poder dentro do meu coração, do qual eu sinto os batimentos. Ele é a sombra que me acompanha. Ele é o grande autor, pois escreveu o livro da vida […] Ele é a resposta para nossas lutas e provações”.
Jesus não precisa de defesa ou de testemunhas, Ele disse. O livro que o leitor tem em mãos é um pequeno testemunho. Um pequeno tributo à sua incomparável pessoa e o que Ele significa para mim. O propósito, ao escrevê-lo, não foi primariamente acadêmico, mas inspiracional. Assim, as notas de rodapé, referências e citações foram reduzidas ao nível mínimo. A intenção foi manter o que escrevi próximo de suas parábolas, para que o leitor possa encontrar para si novos significados e aplicações, adequados à sua própria vida e circunstâncias pessoais.

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O Retrato de Deus – “O Incomparável Jesus Cristo”, de Amin Rodor

O Retrato de Deus – capítulo 1
Como é Deus? Para muitas pessoas, Deus é apenas uma ideia abstrata. Outros o confundem com um severo juiz, distribuindo sentenças às suas criaturas. Para outros, Deus é um caprichoso policial cósmico, buscando nossos erros. Há, ainda, aqueles que o veem como um tipo de Papai Noel complacente distribuindo presentes uma vez por ano.
Como é Deus, ou quem é Deus? Deus tem sido em muitas circunstâncias caricaturado pela religião e pelos religiosos. As respostas podem variar de pessoa para pessoa, mas provavelmente elas dirão mais a nosso respeito do que a respeito de Deus. Um dos ensinos mais evidentes do Novo Testamento é que Jesus Cristo veio para revelar a pessoa do Pai (João 14:9-13). Em várias ocasiões, o próprio Jesus fez a mais completa e absoluta identificação entre Ele e Deus: perdoou pecados, aceitou culto e adoração, fez promessas que apenas Deus poderia fazer (Lucas 5:21; 24:52; João 14:12-14 ).
Provavelmente, um dos quadros mais claros a respeito de Deus pintado por Jesus aparece em Lucas 15, o capítulo conhecido como “evangelho dentro do evangelho”. “Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir. E murmuravam os fariseus e escribas, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles” (Lucas 15:1 e 2).
Em resposta à acusação que Lhe é feita pelos austeros representantes do estabelecimento religioso dos seus dias, Jesus conta três parábolas. Tais histórias não são primariamente uma exposição do evangelho, mas uma defesa dele. Elas representam o poderoso contra-ataque de Jesus diante daqueles para quem a graça de Deus parecia um desperdício. Aqueles que se sentiam indignados ante a afirmação de que Deus Se interessa pelos pecadores.
As palavras e ações de Jesus chocaram e ofenderam os líderes religiosos do judaísmo do primeiro século. E provavelmente elas ofendem ainda hoje muitos que se julgam conhecedores de Deus. Uma das surpresas do ministério de Cristo é que Ele atraiu pessoas das quais os religiosos nem se aproximavam: enfermos, pobres, samaritanos, mulheres e coletores de impostos. Todos eles marginalizados dentro do sistema religioso e social dos judeus. O desdém da elite religiosa por essas pessoas de quem Jesus Se aproximou e por quem Ele Se interessou e manifestou respeito, não é porque elas fossem mais pecadoras do que as outras, mas porque eram pessoas ordinárias, ignorantes das intrincadas cerimônias religiosas e, por isso, consideradas impuras.
O que ofendeu os representantes do judaísmo do primeiro século não foi tanto a resposta dessas pessoas a Jesus, mas a resposta de Jesus para elas. “Este recebe pecadores e come com eles” (Lucas 15:1-2) era a acusação dupla dos opositores de Cristo. Aqueles que diziam conhecer a Deus, se ofenderam com o tipo de pessoas com quem Jesus Se associou. No centro do confronto entre Jesus e os fariseus está a compreensão da doutrina de Deus. Afinal, pode Deus associar-Se com os pecadores? Os fariseus diziam que não. Jesus então contou três parábolas para demonstrar o contrário. Estas são histórias de Deus, na linguagem humana:
– A parábola da ovelha perdida (Lucas 15:3-7);
– A parábola da moeda perdida (Lucas 15:8-10);
– A parábola do filho perdido (Lucas 15:11-32).
Essas histórias têm uma estrutura comum: elas enfatizam a tragédia da perda, a diligência da busca e o regozijo da recuperação.
Não podemos dizer que conhecemos a Deus se não sabemos o que Lhe causa dor, ou o que Lhe traz alegria. Jesus deseja demonstrar que o coração do Pai se parte por aqueles que se perdem e exulta em abundante alegria por aqueles que são encontrados.
Como se sente você ao perder qualquer coisa considerada valiosa? Jesus utiliza um conceito que facilmente podemos compreender. É óbvio que os seres humanos se sentem frustrados, deprimidos e tristes quando perdem aquilo a que dão valor, e se alegram quando encontram o que foi perdido. A estupenda revelação que Jesus faz é que Deus também Se sente assim. O ponto principal dessas histórias não é falar da ovelha, da moeda ou do filho, isto é, daquilo que fora perdido. O propósito dessas parábolas é focalizar o caráter do pastor que perdeu a ovelha, da mulher que perdeu a moeda e do pai que perdeu o filho. Essas parábolas revelam como Deus é.
Em termos literais, eu nunca perdi uma ovelha, mas já participei da agonia de minha filha pequena, vagando pela vizinhança em busca do seu cãozinho perdido. Eu nunca perdi uma moeda valiosa, mas já perdi minha aliança de casamento, cartões de crédito ou a carteira de motorista. Recordo-me perfeitamente do pânico, do retorno aos lugares onde estivera, dos telefonemas dados na tentativa de recuperar esses bens.
Em semelhantes circunstâncias, muitos já experimentaram a agonia de ter um filho perdido por algum tempo. O desespero inexprimível quando não o encontramos em meio a uma multidão. Em nível diferente, mas não menos real, muitos pais conhecem o sofrimento por saberem que um filho ou uma filha, adultos, encontram-se perdidos moral ou espiritualmente. Nesse caso, pode-se saber onde eles estão e o que estão fazendo, mas não se sabe o que fazer para recuperá-los. Sabemos que eles estão longe, no “país distante”, desperdiçando seus recursos, seu potencial, sua vida. Provavelmente apenas um pai ou uma mãe que conheça tal dor pode realmente entrar no espírito da parábola contada por Jesus.
A lição clara é a de que, em cada caso, os bens perdidos não foram esquecidos e não perderam o seu valor, o que é indicado pela intensidade da busca. No caso da ovelha (uma em cem), o pastor deixa as noventa e nove e sai em busca da única extraviada. No ocaso da moeda perdida (uma em dez), a mulher acende uma luz, ajoelha-se no chão da casa e procura até encontrá-la. No caso do filho perdido (um em dois), a lição é evidente: o perdido passa a absorver toda a atenção do proprietário.
Há alguns anos, viajando de ônibus de Toronto para Nova York, parei na cidade de Buffalo. Chamou-me a atenção toda uma enorme parede, como um mural enorme, naquele terminal rodoviário. Ali estava uma grande quantidade de fotografias de pessoas desaparecidas. Dezenas de fotos. Homens, mulheres, rapazes, moças e, principalmente, crianças. Todos eles, filhos, filhas, esposos, esposas, netos de alguém. Acima das fotos, escrita em letras enormes, havia a seguinte frase: “Perdidos, mas não esquecidos!” Não pude deixar de fazer a associação entre aquele quadro e as histórias de Jesus sobre os perdidos!
Um outro aspecto pungente das parábolas de Lucas 15 é o caráter pessoal do envolvimento. Nos três casos, não é um servo que é mandado para buscar o bem perdido, mas o próprio dono é quem toma a iniciativa da busca. Assim é Deus. Ele próprio, em pessoa, entrou em cena para recuperar o que se havia perdido. Aqui, também o perdido não foi esquecido.
A parábola do filho perdido
“Disse-lhe mais: Certo homem tinha dois filhos. O mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me toca. Repartiu-lhes, pois, os seus haveres. Poucos dias depois, o filho mais moço ajuntando tudo, partiu para um país distante, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente. E, havendo ele dissipado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a passar necessidades.
Então foi encontrar-se a um dos cidadãos daquele país, o qual o mandou para os seus campos a apascentar porcos. E desejava encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam; e ninguém lhe dava nada. Caindo, porém, em si, disse: Quantos empregados de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus empregados.
Levantou-se, pois, e foi para seu pai. Estando ele ainda longe, seu pai o viu, encheu-se de compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. Disse-lhe o filho: Pai, pequei conta o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.
Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e alparcas nos pés; trazei também o bezerro cevado e matai-o; comamos, e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a regozijar-se. Ora, o seu filho mais velho estava no campo; e quando voltava, ao aproximar-se de casa, ouviu a música e as danças; e chegando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo. Respondeu-lhe este: Chegou teu
irmão; e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo. Mas ele se indignou e não queria entrar. Saiu então o pai e instava com ele. Ele, porém, respondeu ao pai: Eis que há tantos anos te sirvo, e nunca transgredi um mandamento teu; contudo nunca me deste um cabrito para eu me regozijar com os meus amigos; vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado. Replicou-lhe o pai: Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu; era justo, porém, regozijarmo-nos e alegramo-nos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado” (Lucas 15:11-32).
A terceira história, a parábola do filho pródigo, é a mais longa, a mais conhecida, a mais amada, a mais citada das parábolas de Jesus e, provavelmente, uma das menos compreendidas. Ela representa a grande e final pincelada no quadro que Jesus pinta de Deus. “Certo homem tinha dois filhos”, inicia Ele a sua história. “O mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me cabe” (Lucas 15:12).
O pedido desse filho é, no mínimo, desrespeitoso. Especialistas na cultura oriental sugerem que o pedido do filho equivale a um “desejo de morte”, porque só depois da morte do seu pai ele poderia receber sua herança. O pedido do filho parte o coração do pai, porque a única preocupação desse filho era com a propriedade. O pai poderia ter negado o pedido, poderia ter obrigado seu filho a ficar, mas de que isso adiantaria? Seu filho já estava emocionalmente distante. Aqui está o ponto vulnerável do amor: o amor pode ser rejeitado e desprezado! Mais tarde, em seu retorno, ele não seria açoitado apenas pelo fato de que ele “não fora bom”, mas também que ele “havia desprezado a bondade”.
A parábola revela que Deus não viola nossa vontade. Ele oferece espaço para nossas escolhas, mesmo sabendo que aquilo que queremos muitas vezes é precisamente o que nos destrói. “Liberdade” é a fantasia de milhões na busca do desconhecido. Eles querem “se encontrar”. Sem perceber que os seres humanos não têm nenhum “eu” para ser “encontrado”. Apenas temos um “eu” para ser desenvolvido.
O jovem da parábola havia decidido viver de maneira independente, seguir o seu próprio caminho em busca da felicidade e da emancipação. Antes das ideias de Freud e de Nietzsche sobre as grandes forças propulsoras na vida das pessoas, Blaise Pascal concluiu que o fator mais importante por trás das decisões humanas é a busca da felicidade. Sem dúvida, esta é a grande busca do coração humano. Mesmo no sexo (Freud) e no poder (Nietzsche), as pessoas buscam a felicidade. A tragédia é que frequentemente buscamos a felicidade nos lugares errados, onde ela não pode ser encontrada. Nas buscas erradas da vida (e isso é o que não vemos) já estamos permitindo que os fios dos ventos comecem a tecer a capa de nossas maiores agonias.
A audiência judaica teria esperado que o pai da história, irado, recusasse a exigência do seu filho. Mas este não era um pai típico. Generosamente ele oferece posse imediata ao seu filho mais jovem, sua parte da propriedade. Geralmente isso seria um terço, embora em circunstâncias especiais, pudesse ser menos. Apenas alguns dias depois, o filho já havia transformado em dinheiro sua partilha dos bens. E, “ajuntando tudo o que era seu, partiu para uma terra distante” (Lucas 15:13). Além de sua atitude de desrespeito e insulto ao seu pai, uma vez que, em uma sociedade agrária como a de Jesus, a terra era parte da identidade das pessoas e, portanto, nunca vendida, o jovem também deixa claro que não pretendia voltar. O que planejava ele? Tentar sua sorte no próspero mundo comercial dos gentios? Talvez. Mas isso ainda está no ventre do futuro.
A realidade, em geral, tem sua forma cruel de surpreender nossas fantasias e acordar-nos de nossos sonhos. Até onde a busca de emancipação e felicidade conduz o jovem filho da parábola? Segundo Jesus, ao “país distante”. Onde fica tal país? Geograficamente, o “país distante” provavelmente ficava entre os gentios, caracterizado pelos valores pagãos, marcado pela moralidade pagã. Espiritualmente, “o país distante” é a inconsciência e a distância de Deus. Viver como se Deus não existisse!
Distante, o jovem persegue a sua fantasia. “E lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente” (Lucas 15:13). No país distante, o rapaz passou a viver sua liberdade ilusória. Como atestado em fontes da antiguidade a respeito de muitos jovens, a fortuna herdada foi consumida em vinho, mulheres e canções. No judaísmo, a conduta deste filho era duplamente reprovável. Não apenas pelo estilo de vida de dissipação, mas também pela perda dos meios de suporte ao pai em sua velhice. Dos filhos se esperava assistirem financeiramente os pais idosos em casos de necessidade.
Gradualmente, o jovem desceu ao seu próprio inferno. Os amigos duraram enquanto durou o dinheiro. Observe a sequência trágica: ele perdeu o dinheiro, começou a padecer necessidade, mas ninguém lhe dava nada (Lucas 15:14-16). O jovem filho fizera da vida um carnaval, dias alegres e noites deslumbrantes. Mas já tinha um encontro marcado com o desastre!
Sua aparência radiante de príncipe tornou-se imersa em depressão e tristeza. Suas roupas custosas converteram-se em trapos. As leis, os conselhos, a sabedoria que desprezamos, tornam-se anjos vingadores. “Há caminhos que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte”, diz o sábio (Provérbios 14:12). A história desse filho é a nossa história, a nossa biografia! Uma descrição exata da família humana. Todos nós nos desviamos como ovelhas desgarradas. Em nossa cegueira e rebelião, tentamos criar os nossos pequenos paraísos, nossa felicidade própria, baseada em prazeres, aquisições e realizações pessoais, apenas para descobrir o sabor amargo da decepção e do engano de nossas escolhas. E, assim, terminamos apenas com o gosto de cinza nos lábios.
Foi empregado por um gentio para apascentar porcos, uma atividade nem mesmo imaginável para um judeu. A guarda do sábado, a observância dos rituais de pureza (Levítico 11; 23:3; ver Lucas 15:15-16) ou aderência aos detalhes das leis judaicas, dificilmente observáveis agora. Seu estágio final no país distante, sugere completa apostasia de sua identidade, que aparece desfigurada e esquecida. Mas o seu desespero desconhece o orgulho! A fome desconhece escrúpulos! Suas ilusões passaram como um fogo de artifício. Ele, que havia sonhado com liberdade e felicidade distantes, termina poluído, em companhia imunda. “Mas ninguém lhe dava nada”, conclui o relato. Neste ponto, associamos a narrativa com um quadro comum, que pinta o jovem mal vestido assentado, cabeça pendida nos joelhos, cercado de porcos. Praticamente, muito pouco sobrara do rapaz que saíra da casa paterna.
Se Jesus tivesse parado neste ponto da história, seus críticos teriam batido palmas de entusiasmo, como sinal de aprovação. “O Senhor está correto”, eles teriam dito. “Isto é precisamente o que acontece com o pecador. Ele recebe o que merece. Na companhia dos porcos”. Mas não é aí que Jesus termina. O Salvador deseja ter o filho perdido de volta, na casa do Pai!
O ponto de retorno na parábola é extraordinário. Jesus diz que o moço “caiu em si” (v. 17). As palavras de Cristo são profundamente reveladoras. “Caindo em si”. Isso significa que quando ele abandonou o pai, o jovem estava fora de si. Todo abandono de Deus é um ato de insanidade. Está fora de si todo aquele que busca ser feliz longe de Deus, e cria substitutos precários. Tal busca é uma forma de demência, pois o “país distante” nunca pode ser o nosso lar. Ele será sempre terra estranha. Observe-se que Jesus não trata o pecado com leviandade. Ele pintou suas trágicas consequências com terrível fidelidade. Mas Ele não podia crer que a separação de Deus é um ato de genuína humanidade. “Caindo em si”. Esse é o extraordinário e invencível otimismo de Cristo!
“Cair em si” é voltar-se para uma compreensão realista de Deus, de nós próprios e do pecado. O jovem começa a ver as coisas com clareza, pela primeira vez. Afinal, o lar não era um lugar tão ruim assim. E começa a compreender o que havia perdido: o status de filho. Uma resolução incontrolável explode em seu peito. “Levantar-me-ei e irei ter com meu pai”. O filho então, prepara o seu conficteor, o seu discurso de admissão de culpa. Sua demonstração de arrependimento. “Direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho […] trata-me como um dos teus trabalhadores” (Lucas 15:18-19). Os “trabalhadores” ou “jornaleiros”, eram diaristas, em condição inferior aos servos da casa, que gozavam de maior grau de intimidade. Ele saíra de casa dizendo “dá-me”; agora, em seu retorno ele pretende dizer, “trata-me”. À distancia, ele se lembra do seu pai; seu amor e bondade emergem em sua mente. Fragmentos de memórias vêm à sua lembrança. Esta é a base da sua iniciativa de retorno: as memórias do pai. As lágrima não podem ser evitadas.
O pai que não manda perseguir o filho nem vai atrás dele, está presente na lembrança do rapaz, quando este, sofrendo miséria e fome junto a sua vara de porcos. Sem escusas, ele assume responsabilidade por suas ações. Reconhece seus erros. Ele havia saído de casa pensando “eu tenho que ser eu mesmo”, mas descobre que nossa verdadeira identidade não é encontrada à distancia, em indulgência com as nossas fantasias. Ele havia partido para encontrar sua liberdade, e termina algemado à falta de esperança. E é à distancia, entre os porcos, que ele chega a compreender a glória da casa do pai. Ele perdera o status de filho, imagina ele, mas mesmo como um diarista, lar é lar! Ele não esperava ou mesmo nem desejava qualquer tratamento preferencial, apenas uma oportunidade de provar que mudara.
“Levantar-me-ei e irei ter com o meu pai” (Lucas 15:18). Não há lugar mais difícil para se retornar do que aquele onde falhamos. Os lugares de nossos fracassos são lugares cruéis. As ações do moço haviam sido objeto das conversas na pequena vila. Ele sabia que voltar seria assinar sua admissão do engano, e ser forçado a enfrentar a crítica, sem ter nada para dizer em sua defesa. Ser forçado a deparar-se com sua vergonha. Voltar para casa, com o cheiro dos porcos, com os trapos do seu fracasso, esta era, provavelmente, a humilhação final.
Note, porém, que Jesus não diz que o jovem decide voltar para a vila, ou mesmo para o seu antigo lar. “E, levantando-se, foi para seu pai” (Lucas 15:20). Então, quando Jesus descreve o pai, percebemos o mais surpreendente dos fatos. Esse pai não é uma figura austera que tinha deserdado o filho, banido-o de suas afeições ou arrancado o rapaz da sua memória e do seu coração – embora isso fosse precisamente o que ele podia merecer. Não se trata aqui de nenhum pai neurótico, incapaz de sentir os arranhões e machucaduras do filho.
“Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou” (Lucas 15:20).
O pai o vê à distância. A implicação é extraordinária: aqui está um pai que não apenas deseja receber o filho, mas espera por ele. Dia após dia, ele nunca deixou de esperar pelo filho. Apenas o amor do pai poderia reconhecer o filho sob os andrajos que o cobrem, porque, “o amor tem bons olhos”. O pai discerne o seu filho enquanto ele caminha à distância. Devemos notar o momento: o filho ainda estava longe para expressar a seu arrependimento, como os judeus esperariam, mas a graça do pai já estava presente e atuante!
A doutrina do arrependimento na religião judaica provia a expiação, desde que ele fosse sincero e acompanhado pela determinação de separação do pecado. No judaísmo posterior, os rabis passaram a ensinar que Deus e o homem operam juntos no arrependimento. Para cada passo, que é tomado em sua direção, Deus toma um passo em direção ao homem. Aparentemente, o arrependimento do filho pródigo parece preceder o perdão do pai. Isso é porque o jovem procede de acordo com o conceito judaico de arrependimento. Entretanto, a conduta do pai revela um princípio diferente.
Para entender a história, devemos lembrar que no oriente um homem idoso, respeitado, não devia correr publicamente. Tal ato era considerado inapropriado e indigno. Mesmo nos nossos dias, a maioria das pessoas que se julga importante reprime suas emoções em público, considerando tal ato como um sinal de fraqueza. Mas o pai da parábola de Jesus, apoderado pela compaixão, desconsidera todos os protocolos e etiquetas de sua cultura, corre ao encontro do seu filho. Aqui nós encontramos o elemento redentivo da história.
Correndo, lançou-se ao pescoço do filho e o beijou. “Ternamente” ou “muitas vezes”, os dois significados são possíveis na leitura do original. O pai quer ter certeza de que ele é o primeiro na vila a encontrar-se com seu filho, para protegê-lo das críticas ou das atitudes hostis e julgadoras de outros, das faces que não expressam qualquer atitude de boas vindas. O pai não quer correr o risco de que seu filho seja desencorajado pela zombaria ou desdém, e acabe desistindo. O gesto do pai deixa os observadores atônitos; ele se lança ao pescoço desse estranho vestido em trapos e o cobre de beijos. Os moradores do vilarejo não poderiam ter antecipado a cena do dramático reencontro entre pai e filho.
O pai segura o rapaz e o aperta contra o seu peito, impedindo que ele caia de joelhos, posição de subserviência. Ele nem mesmo permite que seu filho complete o discurso que havia ensaiado. A confissão e pedido do filho que retorna são sufocados pela mesma bondade do pai que os despertara (Lucas 15:19, 21). Surpreendentemente, o pai não pronuncia nenhuma palavra ao filho. Mas suas ações dizem tudo. Depressa ele ordena aos servos que tragam a melhor veste, roupa festiva, usada em grandes ocasiões. O seu garoto é o hospede de honra. Coloca-lhe na mão um anel. Não um anel de ornamento, mas um anel-sinete, símbolo de autoridade. Coloca-lhe sandálias nos pés, porque apenas os servos andam descalços.
Ele ordena que preparem o “novilho cevado” e comecem a celebração, justificando sua atitude com palavras que explodem de gozo. “Comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado” (Lucas 15:23-24). Observe-se como nesse ponto, e justamente nele, a alegria é pintada com as cores mais fartas e abundantes. As alegrias ilusórias do país distante não poderiam se comparar com o gozo exuberante que irrompe na celebração do pai. Este é o tipo de Deus revelado por Jesus Cristo.
A proximidade de Deus é o mistério do nome “pai”, nos lábios de Jesus, uma noção ausente em todas as religiões. Não a encontramos mesmo entre os 99 nomes para Deus do Islamismo, no budismo ou no hinduísmo. “Abba” é o termo aramaico, frequentemente utilizado por Cristo para descrever Deus. O termo reflete extrema intimidade, equivalente ao nosso “paizinho” ou “painho” ou, ainda, ao carinhoso e íntimo termo “daddy”, do inglês. No Antigo Testamento e no judaísmo, Deus é chamado de pai, mas em um sentido totalmente diferente. Deus é pai, mas da nação, no contexto da eleição de Israel. A relação “pai-filho”, descrita por Jesus, tem sempre características pessoais. Nunca é utilizada em referencia ao povo. Tampouco a filiação constitui uma prerrogativa exclusiva dos piedosos. Deus é pai “para bons e maus, justos e injustos” (Mateus 5:45; 21:28-32).
A parábola de Jesus não coloca ênfase na indignidade do filho, mas no amor do Pai. Tudo perdoado. Tudo esquecido! Os dias de fome e de convívio com os porcos estão no passado. Com um toque de mestre, Jesus leva a história ao clímax final: uma festa é preparada para celebrar o retorno do seu filho. Nenhuma palavra de recriminação moralista. Nenhuma exigência de prestação de contas. Nenhuma condição imposta. Nenhum tempo de prova. Nenhum período de disciplina, para observação. Nenhuma “quarentena” ou penitência é exigida.
O clímax da história contada por Jesus é, no mínimo, ofensiva à sua audiência judaica. Os fariseus teriam aplaudido a narrativa se o pai tivesse demandado arrependimento e prova positiva de mudança e emenda antes de receber de volta o filho dissoluto. Arrependimento era o coração da teologia farisaica. Ele precedia a aceitação e o perdão divinos, envolvendo um período de “prova” e “separação” para tornar evidente a sua autenticidade. Os “sinceramente religiosos” se sentiram chocados pelo ensino deste jovem Rabi, que parece subverter a ideia de Deus da doutrina farisaica.
A história do filho pródigo, a última do trio de parábolas que Jesus conta em sua defesa por aceitar e comer com os pecadores antes mesmo do arrependimento deles. Ela subverte o retrato de Deus pintado pela tradição do judaísmo. Segundo Jesus, Deus não exige “reforma” e “santificação” antes de aceitar os que O buscam. Ele não espera “transformação moral” ou mesmo nosso arrependimento para nos receber. Tão importantes quanto sejam “reforma”, “transformação” e “arrependimento”, eles não são a base pela qual somos aceitos por Deus, mas o resultado. Em outras palavras, é a aceitação divina que causa o arrependimento, não o contrário. Deus opera sempre com base na graça. Fazemos apenas uma contribuição para nossa salvação. Nossa única contribuição para a salvação é o pecado, do qual devemos ser libertos. Nada mais!
Como Ellen White observa: “Os judeus ensinavam que o pecador devia arrepender-se antes de lhe ser oferecido o amor de Deus. A seu parecer, o arrependimento é obra pela qual os homens ganham o favor do Céu. Foi este pensamento que induziu os fariseus atônitos e irados a exclamarem: ‘Este homem recebe pecadores!’ (Lucas 15:2). Conforme sua suposição, não devia permitir que pessoa alguma a Ele se achegasse sem se ter arrependido […] Cristo ensina que a salvação não é alcançada por procurarmos a Deus, mas porque Deus nos procura […] Não nos arrependemos para que Deus nos ame, porém Ele nos revela seu amor para que nos arrependamos” (Parábolas de Jesus, cap. 15 – A esperança da vida).
Em comovente simplicidade, Jesus descreve como Deus é. Sua bondade, sua graça, sua infinita misericórdia. Este é o Deus a quem Jesus representou. O Deus que recebe os envergonhados, cegos, leprosos, surdos, imundos. Que não nega a culpa, mas a perdoa e cura. Querido leitor, encontra-se você hoje no país distante? Alienado de Deus e de si mesmo? Chegou você ao fim de suas ilusões? Sua jornada parece ter chegado ao final, numa viela sem saída? Está você desanimado, deprimido pelos descaminhos da vida que o levaram a viver longe do Pai, imaginando que não há esperança para o seu caso?
Aqui está o Deus que Jesus veio revelar. Aquele que “justifica o ímpio” (Romanos 4:5). Que purifica e restaura, que não apenas oferece roupas de puro linho, mas que “deu o Seu Filho unigênito, para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16). Aqui está o Deus do Evangelho, que celebra e Se regozija com a volta dos perdidos. Que corre ao encontro deles. Que estende os Seus braços para recebê-los e abraçá-los. O Deus que agora mesmo pode torná-lo uma nova criatura, um novo homem, uma nova mulher. Que pode dizer-lhe neste mesmo instante, com júbilo que invade o universo: “bem vindo ao lar!”
Para ponderar
O jornal USA Today, em 1997, publicou uma entrevista feita com os norte-americanos mais ricos: cerca de 1 milhão de famílias, com renda anual superior a US$ 250.000 e patrimônio líquido de pelo menos US$ 2.5 milhões. O que estes ricos disseram estar dispostos a comprar e por quanto:
Para ser presidente US$ 55.000
Por grande beleza US$ 83.000
Reencontro com um amor perdido US$ 206.000
Juventude eterna US$ 259.000
Talento US$ 285.000
Grande Intelecto US$ 407.000
Verdadeiro amor US$ 467.000
Um lugar no Céu US$ 640.000
Em primeiro lugar, seiscentos e quarenta mil dólares por um lugar no céu. O irônico é que as pessoas desejam pagar uma enorme soma de dinheiro por aquilo que, em primeiro lugar, não tem preço, e, em segundo, é oferecido de graça.
Não é estranho que a religião e os religiosos, como os judeus dos dias de Jesus, tenham confundido a oferta de salvação a tal ponto que ela dificilmente se torna compreensível para a maioria das pessoas? A salvação é baseada na graça, dom imerecido de Deus. Qualquer outro elemento, tal como arrependimento, reconciliação, regeneração, reforma, novo nascimento, ou santificação, não constituem a base da salvação. A base da salvação é a graça de Deus, estes outros elementos são, pela ação do Espírito Santo, resultados de nossa aceitação de sua graça e amor. Devemos entender ainda que a justiça de Deus, não é primariamente uma exigência, mas um dom. Não é o que Ele pede, mas o que Ele oferece.
Com frequência utilizamos a expressão “justificação pela fé”, mas se isto não for entendido claramente, tornamos a fé um outro tipo de obra. Segundo Efésios 2:8, “pela graça sois salvos, mediante a fé”. A graça é a base da salvação, a fé é o seu instrumento, ou o meio. Quando eliminamos a graça de Deus de nossa compreensão da salvação, como o elemento primário, a porta está aberta para todo tipo de confusão. Sobre a fé devemos entender:
– A fé não é a base da salvação, mas o meio, o instrumento pelo qual nos apropriamos dela (Romanos 3:21-22, 25, 31; Efésios 2:8).
– A fé não é autogerada. A fé também é um dom. Segundo Romanos 10:17, “a fé vem pelo ouvir da Palavra de Deus”.
– A fé não é meritória (Efésios 2:8-10). Para Ellen White, “mediante a fé recebemos a graça de Deus; mas a fé não é o nosso Salvador. Ela não obtém nada (Tiago 2:24). É a mão que se apega a Cristo e se apodera de Seus méritos, o remédio contra o pecado” (O Desejado de Todas as Nações, cap. 17 – Nicodemos).
– A fé não depende do seu tamanho, mas do seu objeto (Lucas 17:6). Muitos, por exemplo, têm grande fé no dinheiro, em posições, na ciência, em prestígio, na aparência, no preparo acadêmico. Mas essa fé, grande como ela possa ser, nada vale para a salvação. A fé vale pelo seu fundamento, que deve ser única e exclusivamente a pessoa de Jesus Cristo, o seu autor e consumador (Hebreus 12:2).
– A fé bíblica não está em oposição às boas obras. As únicas obras contra as quais a fé se opõe, são aquelas entendidas ou praticadas como método de salvação (Romanos 3:20, 28). A fé não é contra a observância da lei, como alguns pensam. A fé se opõe à observância da lei como meio de salvação (Gálatas 3:1-5, 11). A lei deve ser observada como norma da conduta cristã, como a expressão da vontade de Deus, para aqueles que receberam sua graça.
– A fé bíblica é basicamente “transferência de confiança” (Hebreus 4:14-16). Aquele que confiava em si, ou em qualquer recurso humano, passa a confiar sem reservas em Cristo.
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O Irmão do Filho Pródigo – “O Incomparável Jesus Cristo”, de Amin Rodor

O irmão do filho pródigo – capítulo 2
“Ora, o filho mais velho estivera no campo; e, quando voltava, ao aproximar-se da casa, ouviu a música e as danças. Chamou um dos criados e perguntou-lhe que era aquilo. E ele informou: Veio teu irmão, e teu pai mandou matar o novilho cevado, porque o recuperou com saúde. Ele se indignou e não queria entrar; saindo, porém, o pai, procurava conciliá-lo. Mas ele respondeu a seu pai: Há tantos anos que te sirvo sem jamais transgredir uma ordem tua, e nunca me deste um cabrito sequer para alegrar-me com os meus amigos; vindo, porém, esse teu filho, que desperdiçou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele o novilho cevado. Então, lhe respondeu o pai: Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu. Entretanto, era preciso que nos regozijássemos e nos alegrássemos, porque esse teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado” (Lucas 15:25-32).
A conclusão idêntica nos versos 24 e 32 (“porque esse teu irmão [“meu filho”, v. 24] “estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado”) indica a divisão natural da parábola em duas partes. Na segunda seção, Jesus expõe a atitude dos fariseus. Seu ensino de que a misericórdia divina é espontânea, livre, abundante, os ofendia. A atitude de Cristo de aceitar pecadores e comer com eles (Lucas 15:2) antes de reforma e sem a exigência de qualquer período de “observação” era particularmente vista como questionável. O irmão mais velho da história de Jesus reflete a atitude dos fariseus antigos e modernos.
A grande maioria de sermões sobre o filho pródigo termina com o verso 24, como se a sessão que segue não fizesse parte da história original de Jesus. Devemos, contudo, notar que o irmão mais velho do rapaz que abandona o lar e viaja para o “país distante” é parte integral da parábola. No primeiro nível, ele reflete a atitude dos murmuradores fariseus, a audiência primária de Jesus, para quem a graça divina oferecida aos “publicanos e pecadores” é um desperdício. Mas num nível mais profundo, o filho mais velho representa um grupo que está muito mais perto de nós. Em última instância, ele trai sentimentos que estão dentro de todos nós.
Embora o caráter do irmão mais velho fique exposto apenas no final da história, alguns traços já podem ser percebidos nas entrelinhas da narrativa. Ele é mencionado duas vezes na abertura da cena. Primeiro, o versículo 11 nos informa que o pai tinha dois filhos, e, segundo, no versículo 12 lemos que a sua parte da herança lhe é assegurada, porque o texto diz que o pai “lhes repartiu os haveres”. Teria ele também recebido a parte dos bens que lhe cabia? Talvez. Se esse foi o caso, os contornos do seu caráter começam a se delinear.
Quais foram as implicações da demanda do filho mais novo? Pelos padrões culturais, sua atitude é completamente absurda. No contexto judaico ou helênico da época, seu pedido nem deveria ser considerado. Mais que uma afronta, tal pedido equivalia virtualmente a um desejo de morte do seu pai, como já mencionado anteriormente.
Nós esperaríamos que o irmão mais velho reagisse ao pedido do seu irmão mais novo de duas formas: primeiro, ele deveria recusar vigorosamente aceitar sua parte da herança, em protesto às implicações da demanda. Seu silêncio fortemente sugere que seu relacionamento com o pai também não é muito diferente. Então, em segundo lugar, o ouvinte oriental esperaria que o irmão mais velho entrasse verbalmente na história e assumisse o seu tradicional papel de conciliador. Entre os orientais, o rompimento de relações era restaurado pela figura de uma terceira parte, que era sempre escolhida em termos de proximidade de relacionamento com cada uma das partes envolvidas. Nesse caso, a função de conciliador caia naturalmente sobre ele, o primogênito, como parte do costume da comunidade.
Seu silêncio significa consentimento. O Talmude, a codificação das tradições judaicas, especifica que os filhos tinham a responsabilidade de reconciliação nas questões familiares. Mesmo que o filho mais velho odiasse seu irmão mais novo, ele deveria tentar a reconciliação por amor do seu pai. Mas esse filho permanece em silêncio. E seu silêncio deixa transparecer seu problema de relacionamento com o pai. A essa altura, o suspeito passa a parecer culpado.
O filho mais velho sabe que o pedido do seu irmão é impróprio e dele se esperava no mínimo a recusa em partilhar de tal demanda, em clara afirmação de lealdade ao seu pai. Mas, ao contrário, ele aceita a transação em silêncio e provavelmente se beneficia dela. Significantemente, os filhos mais velhos no Antigo Testamento são em geral descritos como mesquinhos, exteriormente ortodoxos e hipócritas. Assim, torna-se fácil perceber no perfil desse filho mais velho um quadro já visível nos versos iniciais.
Alguns intérpretes têm sugerido reformular o título da parábola e chamá-la de “a história dos dois filhos perdidos”. Há certo sentido nisso, porque se o filho mais novo estava perdido no “país distante”, o mais velho está igualmente perdido, mas em “casa”. Perdido por trás da fortaleza de sua religião, hipocrisia e justiça própria. Mas o título “os dois filhos” tiraria do ensino de Jesus o seu verdadeiro centro, pois o principal personagem da história não é nenhum dos dois filhos, mas o pai.
Lucas 15:25-32, apresenta a segunda metade da parábola. Essa seção, de certa forma, corresponde a uma repetição da primeira metade. Os detalhes são dessemelhantes, mas em natureza essencial as duas partes se completam.
A segunda parte da parábola
É na última cena que o verdadeiro caráter do filho mais velho se torna evidente. O texto (v. 25), bem no estilo de Lucas, extremamente observador quanto aos detalhes importantes, informa que ele vem do trabalho e, mais tarde, é o trabalho que ele usa como evidência dos seus méritos. Esse filho vive exteriormente com seu pai e o serve também exteriormente. Interiormente, porém, ele está tão distante quanto o irmão e sua condição talvez seja pior, uma vez que ele não tem consciência dela.
A tragédia daqueles que são representados pelo filho mais velho na parábola é mais sutil, pois eles se escudam sob a inconsciência da culpa. Eles não só esperam, mas reclamam recompensa com base nos méritos próprios, enquanto estão alienados de Deus. Na verdade, estão mais longe de Deus. Na história de Jesus, não temos nos dois filhos duas categorias: um culpado porque saiu de casa e outro justo porque ficou. Apenas há culpados aqui: o filho mais moço, a quem o pai aceita e perdoa a culpa, e o filho mais velho, que não tem consciência de sua distância do pai.
Ao se aproximar de casa (Lucas 15:26), ele ouve os sons do festejo. Um filho em relacionamento normal com sua família entraria imediatamente em casa, ansioso por juntar-se à celebração, qualquer que fosse a razão. Mas esse filho, não! Ele recusa entrar e exige uma explicação. A resposta do servo é cuidadosamente elaborada. Ele informa que o seu irmão que estivera fora havia retornado e que seu pai estava dando uma festa porque o jovem voltara são e salvo. Note que a ênfase novamente é colocada nos sentimentos e atitudes do pai. A nossa habilidade de nos regozijar pelo retorno do perdido mede a sinceridade de nossa profissão de entender e conhecer a Deus.
Segundo o versículo 28, o filho mais velho não se interessa por aquilo que está no coração do seu pai, sua preocupação se centraliza nele próprio. O filho mais velho reflete sobre a questão e resolve ficar do lado de fora. O costume exigia sua presença. Em semelhante banquete, o filho mais velho tinha uma posição particular e semi oficial. A cultura esperava que ele se movimentasse entre os convidados, cumprimentando-os, e certificando-se de que nada faltava a eles. Dele se esperava que entrasse, abraçasse seu irmão, apresentasse publicamente as boas vindas e se congratulasse com o seu pai pelo retorno do irmão mais novo. As reclamações poderiam ser tratadas depois que todos saíssem.
O filho mais velho, entretanto, escolhe humilhar o seu pai publicamente, discutindo a questão enquanto os convidados estão presentes. O pai preparara um banquete, o que implica na presença de todas as pessoas importantes da vila. Assim, a ira do filho mais velho é um público desacato. O costume oriental, que coloca alta consideração na autoridade do pai, torna a atitude insolente desse filho um vexame. Se no início da parábola é o filho mais novo que rompe as relações com o pai, agora é o filho mais velho que o faz.
Novamente o pai vem para fora, pela segunda vez no mesmo dia, oferecendo em pública humilhação uma demonstração de inesperado amor. Aqui também o pai vem para fora, não menos ansioso pelo filho mais velho do que quando saíra pelo filho mais novo. Ele sai, mas não para repreender esse filho, como se poderia esperar.
Entramos aqui no clímax da segunda parte da história. “Saindo, porém, o pai, procurava conciliá-lo” (Lucas 15:28). Ao contrário de uma confissão, o filho mais velho faz uma dupla queixa. Note em primeiro lugar que ele se dirige ao seu pai sem usar nenhum título, nenhum tipo de tratamento respeitoso. Títulos são utilizados ao longo da narrativa até este ponto. Entretanto, na queixa registrada nos versos 29 e 30 notamos a ausência de qualquer indicação de respeito.
O filho mais velho demonstra a atitude e o espírito de um escravo, não de um filho. “Olha, tenho trabalhado como um escravo há tantos anos.” Aqui a máscara cai completamente, revelando a distância do seu coração. O pai pensara que tinha um filho, mas para o filho mais velho a casa do pai equivalia à escravidão. Ele tem vivido na casa com o espírito de escravo, não com a familiaridade de um filho. Para ele, um cabrito lhe era devido em pagamento por causa dos seus serviços. Sua atitude é clara: “eu tenho trabalhado, onde está a minha recompensa?” Ele reflete a atmosfera de uma disputa por salário. Como o seu irmão mais novo, no início da história, ele demonstra mais interesse nas posses do seu pai do que no próprio pai.
Ele insulta o pai publicamente e ainda é capaz de afirmar que nunca havia transgredido um mandamento dele (Lucas 15:29). Ironicamente, o filho mais velho viola o mandamento da honra devida aos pais precisamente na reivindicação de que observava os mandamentos. Ele se considera justo e, portanto, não necessita de arrependimento. Essa é a tragédia do legalismo. Esse é o espírito do farisaísmo, dos noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento. Em sua arrogância, ele é capaz de afirmar que nunca transgrediu o mandamento do seu pai, mas sua obediência é mera questão de formalismo exterior. Essencialmente ele reclama que o pai recompensa o que não merece e negligencia o diligente. A questão não é tanto a generosidade do pai, mas o objeto dela. O pai, na sua compreensão, recompensa a pessoa errada.
A diferença entre ele e o seu irmão mais novo é que aquele demonstrou rebeldia ao partir de casa em direção ao país distante. O filho mais velho é rebelde no coração, enquanto permanece dentro de casa. A rebelião do filho mais novo foi evidente em sua decisão de deixar a casa do pai, mas a rebelião e alienação do mais velho é mais sutil, uma vez que ela atua no interior, invisível aos olhos.
Ele acusa seu pai de favoritismo e nega qualquer favor estendido a ele, mesmo o que ele merecia. Ao anunciar sua noção de alegria (“nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos” – Lucas 15:29), ele revela que alegria para ele se resume em divertir-se na companhia dos amigos. A recuperação do seu irmão, não significa nada para ele. Ele deseja organizar a sua própria festa e fruir a sua própria concepção de alegria, a qual não inclui o seu pai ou seu irmão. Emocionalmente, a sua comunidade está lá fora, entre os amigos. Virtualmente, esse filho declara não ser parte da família. Assim, ele não é melhor do que irmão mais novo. A diferença entre eles é que o mais novo é “um pecador confesso”, enquanto o mais velho é “um santo hipócrita”. Ele permaneceu em casa enquanto alienado do seu pai.
O filho mais velho recusa considerar o pródigo, seu irmão, limitando-se a referir-se a ele como “este teu filho”, negando, assim, qualquer relacionamento com seu irmão ou com o seu pai. Ele ataca seu irmão e o acusa de desperdiçar os bens do pai com as meretrizes. Mas como ele sabe? Provavelmente porque isso é precisamente o que ele faria. Aparentemente, sua tese é a de estabelecer que seu irmão mais novo caiu na categoria de um filho rebelde e, sendo esse o caso, deveria ser apedrejado de acordo com a lei (Deuteronômio 21:18-21). Em suma, seu discurso é uma extravaso de rancor e rebelião reprimidos.
Como o seu pai responde, diante de tal cena?
A festa certamente havia parado. A música e a dança haviam cessado e pesado silêncio tomara o ambiente. Os convidados esperavam uma violenta reação paterna. Contudo, pela segunda vez no dia, o pai se humilha. Sua resposta explode em profundo amor. O pai poderia silenciar o filho. Fazê-lo entrar, se necessário com a ajuda de alguns servos, caso sua autoridade não fosse suficiente. Ele poderia humilhar o filho e obrigá-lo a assumir sua função na festividade. Mas o que ele ganharia com isso? Ele já tem um escravo na pessoa desse filho.
O pai esquece a omissão de um tratamento respeitoso, a amargura, a arrogância, o insulto, a distorção dos fatos e as acusações injustas. Não encontramos em sua resposta nenhuma crítica ou rejeição. Em agudo contraste com o filho mais velho, ele começa com um título afetivo: “filho”. A língua portuguesa aqui não captura a profunda afeição envolvida no termo grego utilizado. A conciliatória palavra “filho” é extraordinariamente significativa à luz do amor rejeitado que o pai tem que tolerar.
As palavras finais, registradas nos versos 31 e 32, são palavras que procedem do coração ferido, porque esse pai ansiava ter a alegria completa e ver seus dois filhos em sua casa, na sua festa de celebração. O pai afirma que os direitos do seu filho mais velho estão plenamente garantidos, mesmo quando a graça foi estendida ao pródigo. “Tudo o que é meu é teu.” O retorno do seu irmão não afeta em nenhum grau a sua posição. Extraordinárias palavras: “Tudo o que é meu é teu”.
De forma sutil, o pai observa que a categoria de servo expressa por seu filho é inapropriada para o relacionamento deles. O filho dissera: “há tantos anos sou teu servo […] e nunca me deste um cabrito sequer” (Lucas 15:29). O pai responde: “tu és o herdeiro e nesta posição tudo já lhe pertence” (Lucas 15:31). Gentilmente, o pai o lembra de que o pródigo é seu irmão, e de que ele deveria agir como parte da família.
A inesperada oferta de amor diante do ato de pública humilhação tem sua contrapartida na cruz. O Deus descrito por Jesus na parábola transcende o mesquinho, vingativo e autoritário deus de nossa própria criação. O Deus de Jesus não necessita possuir nada, nem controlar ninguém. O que Ele tem, Ele oferta, e para Ele, a única resposta satisfatória é aquela que brota do amor. Livre e espontaneamente. Entretanto, na oferta de amor do pai e na resposta do filho mais velho, nos encontramos mais uma vez com o ponto fraco do amor: o amor pode ser rejeitado!
Embora a parábola represente os fariseus e os publicanos, a real identificação é muito mais profunda. Jesus, em última análise, está discutindo dois tipos básicos de pessoas. Um que vive fora da lei, sem a lei, e outro que vive sem lei, mas “dentro da lei.” Um que está perdido por ser “mau”. O outro que está perdido por ser “bom”, “muito bom”. A lei está presente na parábola. O filho mais novo a transgride, o mais velho a “guarda”. Ironicamente, o filho mais velho representa aqueles que transgridem a lei por “guardarem a lei”. Se pecado é apenas “transgressão da lei”, eles não se sentem pecadores, por que “guardam todos os seus mandamentos”.
Mas ambos são pecadores e rebeldes. O mais novo é culpado de sua injustiça e o mais velho é culpado por sua “justiça”. Ambos partem o coração do pai. Ambos terminam no país distante. Um fisicamente, o outro emocional e espiritualmente. O mesmo amor é demonstrado em humilhação em cada caso. Para ambos, o amor é crucial, porque só o amor pode transformar servos em filhos. Não temos na parábola a ideia de que um filho é tratado com favoritismo e o outro repudiado. O mesmo amor paterno estende a ambos o privilégio da filiação.
Perceptivamente, Ellen White observa: “Foi levado o irmão mais velho a ver seu espírito mesquinho e ingrato? Chegou a reconhecer que embora o irmão tivesse agido impiamente, era ainda e sempre o seu irmão? Arrependeu-se o irmão mais velho de seu amor próprio e dureza de coração? Com referência a isso, Jesus guardou silêncio. A parábola ainda não terminara e restava que os ouvintes determinassem qual seria o epílogo” (Parábolas de Jesus, cap. 16 – A reabilitação do homem).
Ellen White, claro, tem ampla percepção da audiência original da parábola e seus desdobramentos ao longo da história. “Pelo irmão mais velho foram representados os impenitentes judeus contemporâneos de Cristo, como também os fariseus de todas as épocas, que olhavam com desprezo aqueles que consideravam publicanos e pecadores” (Idem).
O irônico na história de Jesus é que também corresponde a uma séria advertência às vítimas do legalismo religioso, os “justos” dentro da igreja, que se julgam merecedores de recompensa especial por seus atos de justiça própria. É quando a cortina desce sobre esse drama que encontramos uma poderosa inversão. O filho mais novo, que estava fora, termina dentro da casa do pai. O mais velho, que pretendia estar dentro, permanece fora. A parábola chega a uma conclusão inimaginável. Deliberadamente, Jesus deixa o irmão mais velho em seu estado alienado. O filho mais novo, “o mau caráter” da história, entra na festa do seu pai, enquanto o filho “bom” permanece fora. Podemos quase ouvir o pigarro dos fariseus quando a história termina com essa completa inversão de tudo aquilo que eles haviam aprendido e ensinado!
Para ponderar
Para quem o ensino de Jesus nessa parábola é dirigido? Primariamente para os escribas e fariseus. É em resposta à atitude deles, criticando o fato de Jesus receber “pecadores”, que Ele inicia a história dos dois filhos. A parábola provê uma visão ampla da alma do filho mais velho e termina com um poderoso apelo para que ele também mude seu coração.
Do lado de quem Jesus está? Em termos concretos, do lado de ninguém, porque, na realidade, ninguém está completamente do Seu lado. Contudo, nos evangelhos (particularmente no Evangelho de Lucas), aqueles que eram estranhos ao mundo religioso e às suas observâncias moralistas nos dias de Cristo foram especialmente atraídos ao Salvador.
Nos casos em que Jesus se encontra com alguém religioso e um excluído sexual, como em Lucas 7 (a pecadora que lava e perfuma os Seus pés), ou com um religioso e uma pessoa marginalizada por racismo, como em João 3 e 4 (Nicodemos e a mulher samaritana), ou ainda com um religioso e alguém socialmente excluído, como em Lucas 19 (Zaqueu), são as pessoas excluídas e marginalizadas da religião que mais facilmente se conectam com Cristo. Aqueles simbolizados pelo irmão mais velho, os representantes da religiosidade, permanecem afastados e distantes. Não é por acaso que aos respeitáveis líderes religiosos dos Seus dias, Jesus dirige um poderoso julgamento: “publicanos e meretrizes vos precedem no Reino de Deus” (Mateus 21:31).
Os ensinos de Cristo consistentemente atraíram os não religiosos, os que pertenciam à “prateleira de baixo” do judaísmo, enquanto ofenderam a religiosidade de muitos dos “santos” de então. A razão para tal ofensa é que Jesus redefiniu tudo o que os fariseus (tanto os antigos como os modernos) pensavam e sabiam acerca da conexão com Deus. Ele redefiniu a noção de pecado e também o que significa estar perdido e ser salvo.
O irmão mais velho se orgulha diante do pai de nunca haver quebrado nenhum dos seus mandamentos, portanto não há nele verdadeira consciência de pecado. Pecado, para os “irmãos mais velhos” é basicamente falhar em guardar uma lista de regras de conduta, enquanto que a definição de pecado de Jesus vai muito além de mero desempenho humano exterior. Podemos evitar a Jesus como Salvador, enquanto guardamos todas as regras, simplesmente porque as regras passam a funcionar como um salvador substituto. Muitas pessoas religiosas correm esse sério risco. Passam a confiar em sua “obediência”. Concentram-se na lista do “faça e não faça” e, dessa forma, se tornam orgulhosos do seu desempenho, julgando ter controle sobre Deus.
É óbvio que a confusão sobre a noção de pecado engendra, além de confusão sobre a salvação, espírito de comparação competitiva como a principal maneira pela qual “irmãos mais velhos” alcançam o seu senso de significado e superioridade espiritual.
Em Romanos 14:23, a revelação define pecado em termos de relacionamento e motivação: “tudo o que não provém de fé é pecado”. Isso vai muito além de todas as regras que podemos observar exteriormente. A questão não é apenas o que fazemos, mas por que fazemos! Dessa forma, mesmo uma pessoa que virtualmente não viola nenhum dos mandamentos na lista do “mau comportamento” pode, como o filho mais velho da parábola, estar espiritualmente perdido, tanto quanto os imorais, condenados por eles. Por quê? Porque confiam neles mesmos como salvador, senhor e juiz, em vez de confiar na pura graça de Deus.
Membros da igreja com a “síndrome do irmão mais velho”, justos e superiores aos seus próprios olhos, na idolatria das formas sem essência e exigentes, se tornam frios, acusadores e julgadores de todos os outros que não alcançam o seu “padrão” de justiça própria. Provavelmente, a atitude deles tem sido responsável pelo fato de muitos “irmãos mais novos” deixarem a casa do Pai. E certamente eles se tornam um grande obstáculo para o retorno desses. Contudo, os “irmãos mais velhos” se tornam obstáculo ainda maior para aqueles que nunca conheceram a casa do Pai, cuja impressão que têm dela é inteiramente negativa face ao moralismo patológico e “santidade” vazia daqueles que dizem conhecer a Deus.
Os “irmãos mais velhos” da igreja facilmente se tornam irados com aqueles que discordam deles e, em sua defesa, passam a citar seu desempenho. Como os fariseus dos tempos de Jesus, eles “dizimam o endro, o cominho e a hortelã” em termos do perfeccionismo atual, escorado em uma enorme quantidade de textos de Ellen White, lidos equivocadamente. Esquecem-se, porém, de que “o cristão está no mundo como representante de Cristo, para a salvação dos outros” e que “na vida que se centraliza no eu não pode haver crescimento nem frutificação” (Parábolas de Jesus, cap. 3 – O desenvolvimento da vida). Esquecem-se, ainda, de que é “recebendo o Espírito Cristo – o espírito de amor abnegado e do sacrifício por outrem […] [que] mais e mais refletirão a semelhança com Cristo” (Idem). Assim, o caráter de Cristo se reproduzirá perfeitamente em Seu povo, não por obediência legalista e perfeccionismo enfermo, mas pelo amor e pelo serviço abnegado. Só “então [Cristo] virá para reclamá-los como Seus” (Idem).
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O Fariseu e o Publicano – “O Incomparável Jesus Cristo”, de Amin Rodor

O Fariseu e o Publicano – capítulo 3
“Propôs [Jesus] também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros: Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar: um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: ‘Ó Deus, graças Te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho’. O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: ‘Ó Deus, Sê propício a mim, pecador!’ Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado” (Lucas 18:9-14).
Jesus era mestre em arrancar máscaras e destruir pretensões infundadas. Desde os Seus dias, os pretensiosos de todas as épocas têm encontrado nEle o poderoso desafio de se ver como na verdade são, sem os corretivos cosméticos dos quais tanto gostamos. O “serviço”, a “santidade”, a “perfeição” e a “justiça” baseados em distorcidas avaliações próprias enfrentam o seu devastador contra-ataque. E isto porque Jesus sabe que, se existe alguma esperança para as vítimas de ilusões patológicas sobre si mesmos, essa tem que ver com o chamado dEle para que se enxerguem sob ótica realista.
O grande problema com a mentira (e a pior forma de mentira é aquela que nos engana a nosso respeito) é que, quanto mais repetida, ela cria enormes raízes e passa a se transformar em verdade, na nossa verdade. Dessa forma, a probabilidade de restauração torna-se praticamente impossível. Por outro lado, aqueles que genuinamente passam a ver sua verdadeira condição já estão parcialmente curados.
Autoimagem negativa, bem como sentimento crônico de culpa e inferioridade, são distorções associadas com inúmeras atitudes doentias. Por outro lado, contudo, menos criticado ou avaliado é o outro extremo destes comportamentos. Complexo de superioridade e autoavaliação inflacionada de justiça própria geram outras formas de males, em última análise até mais sérios e sutis, menos discutidos, menos vistos e de cura mais difícil. Tais atitudes frequentemente são vistas como “autoimagem positiva”, passando-se, assim, por virtudes. Na cultura em que Cristo viveu (o judaísmo do primeiro século), a autoimagem, em grande medida, passou a ser determinada pelo desempenho religioso. Os fariseus não tinham rival em “autoestima positiva”. Ninguém poderia amá-los mais do que eles se amavam. Eles eram como Edith, na descrição do novelista: “Edith estava cercada no leste, oeste, norte e sul por Edith”.
A história de Jesus nesta parábola, como Ele costumeiramente faz, coloca em contraste duas figuras clássicas dos Seus dias. [Em várias de suas histórias e nos seus ensinos, encontramos o contraste entre duas figuras: os dois filhos (Lucas 15:11), os dois devedores (Lucas 7:41), os dois construtores (Mateus 7:24-27), dois caminhos (Mateus 7:13,14) dois senhores (Mateus 6:24) etc.]. Em geral, fazemos um julgamento negativo dos fariseus, considerando-os como consumados hipócritas, e facilmente os condenamos ao apedrejamento privado. Sem dúvida, os fariseus aparecem como vilões nas narrativas dos Evangelhos. Eles são descritos como cheios de justiça própria, cobiça, inveja e hipocrisia. As ocasionais exceções não afetam essa imagem dominante que deixaram. Eles eram os atores dos dias de Jesus. As megacelebridades religiosas. Quem poderia competir com eles?
Contudo, esse não é o quadro completo. Longe de ser apenas modelos de falsa piedade, corrompidos por justiça própria e orgulho, os fariseus representavam também um modelo de piedade e virtude, dignos do padrão que eles haviam estabelecido. Os fariseus não formavam um corpo separado, como uma denominação. Ao contrário, eles permeavam todo o judaísmo. O grupo era unido por severas regras de conduta. O farisaísmo era um tipo de irmandade exclusiva, evitando contato com aqueles que eram considerados imundos ou desobedientes à lei. O ideal religioso deles era cumprir a integridade da Torah (as leis do Pentateuco), e aplicar os detalhes legais a cada aspecto da vida diária (alimento, associação na mesa de refeições, jejum, oração, guarda do sábado, sacrifício, dízimo e ofertas, nascimento e funeral). De fato, os fariseus não eram o pior, mas o melhor que o esforço humano podia produzir. Embora não fossem muitos em número, eles formavam um corpo religioso de extremo poder. [Flavio Josefo, o historiador judeu do primeiro século, descreve os fariseus de maneira que coincide com as impressões que extraímos dos Evangelhos. Ele fala de um corpo de judeus que professava ser mais religioso do que o resto da nação, explicando as leis mais detalhadamente, e que se orgulhava do seu zelo, pela exata interpretação delas. O Talmude  reconhece a existência de vários tipos de fariseus e faz diferença entre sete grupos deles, caracterizando-os com adjetivos descritivos que os expunham ao ridículo: 1) os fariseus do tipo “espere-um-pouco”: os que sempre encontravam uma desculpa para adiarem uma boa ação; 2) os do tipo “machucado e sangrento”: para evitar olhar para uma mulher, fechavam seus olhos e tropeçavam e caíam, machucando-se e sangrando; 3) o tipo de fariseus que usavam “ombreiras”: suas boas ações eram ostentadas nos ombros, onde todos podiam ver; 4) os do tipo “corcunda”: caminhavam curvados, demonstrando humildade; 5) os do tipo “contador”: contando continuamente suas boas ações para fazer o balanço dos seus atos; 6) os fariseus “tementes a Deus”, que se portavam como amedrontados e aterrorizados por Deus, e, finalmente, 7) aqueles que “amam a Deus”, ou seja, os que eram verdadeiros filhos de Abraão e, portanto, genuínos fariseus].
O problema teológico da atitude dos fariseus em busca pessoal de aceitação diante de Deus é que ela passava a desconsiderar a graça divina, ou mesmo a vê-la como supérflua. O que Jesus condena não é tanto a busca da justiça, mas o tipo de justiça que se isola da oferta de graça. Uma justiça falsa, que se torna um método de salvação, e que, ao mesmo tempo, desconsidera a profundidade e gravidade do pecado. Este é o problema do perfeccionismo, antigo e atual. Visão errada do pecado e, consequentemente, visão errada da graça. A grande ironia no ensino paulino presente no início da carta aos Romanos é que, se por um lado, os gentios estão sob a ira de Deus por sua injustiça (Romanos 1:18-32), por outro, a religiosidade judaica é condenada tanto pelo pecado quanto por sua justiça (Romanos 2:1-3:18). E assim, a conclusão é a de que todos estão debaixo da condenação da ira de Deus (Romanos 3:9-19): injustos e “justos”.
Os fariseus eram obcecados pela perfeição religiosa. “Perfeccionistas” inveterados, absorvidos por uma enorme e exaustiva quantidade de detalhes externos de práticas piedosas, em si mesmas até louváveis. Entre eles encontramos homens como Nicodemos e Saulo de Tarso, o posterior apóstolo aos gentios. Paulo, depois de seu dramático encontro com Cristo, descreve sua experiência passada de maneira reveladora e quase pungente: “se qualquer outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu, quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível” (Filipenses 3:4-6). Paulo foi curado, por uma radical transformação na maneira pela qual, como fariseu, ele se via.
Não é de admirar que na introdução da parábola somos informados pelo comentário editorial de Lucas que Jesus “propôs também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros” (Lucas 18:9). A confiança dos fariseus era baseada neles próprios. Essa é a característica comum de todo sistema de autoestima centralizado nos homens e na dependência deles. A história de Jesus refere-se a dois relacionamentos truncados: primeiro, o relacionamento confuso com Deus; segundo, o resultado natural desse engano, o relacionamento distorcido consigo e com os outros.
Todos necessitamos de autoimagem positiva, contudo é necessário entender claramente que existe uma diferença crucial entre a autoimagem baseada em nossa própria avaliação, em nossas realizações e desempenho, e a autoimagem positiva baseada em Deus e no valor que Ele nos atribui. Neste caso, a autoimagem realista se coloca acima de complexos, quer de inferioridade ou de superioridade, porque passamos a depender da revelação sobre quem realmente somos como criaturas de Deus. Por um lado, pecadores, mas por outro, objetos do infinito amor e da graça de Deus, que “não faz acepção de pessoas” (Atos 10:34). O resultado pode parecer ambivalente, mas em última análise e a única solução final para uma percepção realista de nós mesmos.
A oração do “justo”
O autor da carta de Tiago escreve que “muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo” (Tiago 5:16). Na parábola do fariseu e do publicano, Jesus fala sobre a oração de um outro tipo de “homem justo”, afetado por seu próprio julgamento. Por que? Parece que para Jesus existe uma justiça que exclui a vida proveniente da graça de Deus. O farisaísmo era a presunção religiosa em frontal oposição à graça. Bons cidadãos, bons vizinhos, excelentes membros da igreja, colunas da comunidade, observadores meticulosos das regras e exigência, mas tudo isso na busca da santidade em termos de estilo de vida, o que em última instância não acrescenta absolutamente nada para a salvação em Cristo. O legalismo é incrivelmente ingênuo, porque subestima os efeitos do pecado nos seres humanos. Como corretamente observado por Richard Rice, “mais do que ingênuo, [o legalismo] é diretamente pecaminoso. Ele surge da orgulhosa pressuposição de que seres humanos caídos, neles próprios, podem merecer o favor divino, quando nada poderia estar mais longe da verdade”.
O fariseu da história de Jesus vem ao templo e, em pé, passa a orar com fervor, separado de outros adoradores. Mas Jesus, num diagnóstico simples, desmascara sua pretensão. Ele orava consigo, acerca de si mesmo ou para si mesmo. A oração, que deveria ser primariamente centralizada em Deus, acima da idolatria das formas, no intuito de se buscar a essência, aqui se centraliza no ser humano. Ele ora para si e não para Deus. Nas suas palavras faltam expressão de louvor, agradecimento genuíno ou verdadeira adoração. Tal oração se apresenta sem qualquer preocupação verdadeira com aquilo que Deus é ou faz.
Sua oração é apenas uma forma de autocongratulação. Com as mãos levantadas, ele apenas dá “tapinhas” de reconhecimento pessoal em suas próprias costas. Embora ele agradeça a Deus por “não ser como os demais homens”, aparentemente não há nenhum senso de estar na presença de Deus. Isso certamente o poria em espírito contrito de reverência e submissão. Ele permanece de pé, convencido de que faz parte de uma classe especial, acima de todos os outros.
O fariseu tem tudo documentado, preto no branco, e a lista é impressiva. Ele, entretanto, não está impressionado por aquilo que ele é comparado com Deus, mas com o que ele é comparado com os outros, descritos como “roubadores”, “injustos”, “adúlteros” e “coletores de impostos”. Ele não se concentra em falar o que é, mas o que ele não é. Sua personalidade é negativa. É claro que qualquer um descrevendo o que ele não é pode gastar muito tempo discursando. Sua oração poderia impressionar os membros de sua sociedade religiosa. Se o Antigo Testamento requeria cinco dias de jejum por ano, ele jejuava duas vezes por semana. Se o dízimo era requerido das rendas, ele dizima tudo o que possui. Estas eram a marca de sua piedade: os fariseus faziam muito mais que o exigido, e se orgulhavam disto!
Jesus não sugere que as reivindicações do fariseu sejam mentira. O seu problema é um inflacionado conceito de si por um lado, e, por outro, um deflacionado conceito de Deus. Ele, em última análise, não estava na presença de Deus. Ele ora para si mesmo, cercado no leste, oeste, norte e sul, por ele mesmo. Este ator do primeiro século poderia concordar com Joseph Kennedy, que costumava dizer aos seus filhos: “o que você é não é nem de perto tão importante como aquilo que você parece ser”. Mas esta é a ética dos políticos, em aberta negação da ética cristã e bíblica.
O publicano
O que está errado com a oração do fariseu? Ela poderia até ser considerada sincera e verdadeira. Ele andou a segunda milha no cumprimento da lei. A falha da sua oração, contudo, torna-se aparente apenas em contraste com a súplica do coletor de impostos.
O outro personagem, segundo Jesus, também veio ao templo para orar. Sua reputação é o extremo oposto em relação à do fariseu. A palavra “publicano”, no português, vem do latim “publicanus”, que significava “um oficial romano de impostos”. O termo sofreu ao longo do tempo desdobramentos semânticos e históricos. Assim, os homens que encontramos nos evangelhos como publicanos eram geralmente judeus a serviço de Roma. Eles eram apenas agentes menores do sistema, contudo, ainda assim odiados pela população. Para a nação escolhida, os coletores de impostos eram o último elo de uma corrente intolerável. A maioria dos judeus cria que os publicanos haviam desertado o judaísmo para servirem os odiados romanos.
O estigma acrescentado pelos judeus a essa desprezada atividade é ilustrado pelo tipo de pessoas geralmente associado com os coletores de impostos, nas fontes judaicas. Na Mishnah, por exemplo, eles aparecem ligados a ladrões, cambistas, gentios e assassinos. Nos evangelhos, eles aparecem mencionados com as prostitutas (Mateus 21:31), ladrões, trapaceiros, adúlteros (Lucas 18:11) e pecadores (Mateus 9:11; Lucas 19:7). De fato, os coletores de impostos tornaram-se sinônimo de pecadores (Lucas 15:1).
Os publicanos não podiam ser membros da comunidade farisaica, e se um fariseu se tornasse coletor de impostos, ele era automaticamente expelido. Socialmente, os publicanos passavam a viver em ostracismo, privados mesmo de direitos civis, concedidos até aos bastardos. Não sendo político ou membro do clero, Jesus tornou-Se amigo deles. E certamente Ele chocou o senso de decência dos Seus contemporâneos, chamando um coletor de impostos para ser um dos Seus discípulos (Levi Mateus), e livremente Se associando a coletores de impostos e partilhando refeições com eles.
Se o publicano da parábola de Jesus merecia a reputação do seu grupo profissional, não é declarado. Mas sua posição e comportamento revelam a atitude de alguém que, ao mesmo tempo em que quer vir à presença de Deus, também se sente profundamente desqualificado para isso. Ele permanece à distancia, “longe” (Lucas 18:13). Tão longe quanto possível do altar ou do lugar onde o confiante fariseu se havia posto. O fariseu se colocava separado a fim de evitar contaminação. O publicano ficou longe porque se sentia impuro. Seus olhos fitam o chão, incapaz mesmo de levantar a cabeça. A linguagem do seu corpo revela culpa. Ele bate no peito num bem conhecido gesto de arrependimento e tristeza. [O costume judeu durante a oração era levantar os olhos (João 11:14; 17:1; Salmos 121:1) e as mãos (Isaías 1:15), em direção ao céu. O senso de culpa do publicano, o impede de levantar os olhos para o céu (Lucas 18:13)]. Ele age como se estivesse na presença da morte (Lucas 23:48). O publicano não tem nenhuma ilusão a respeito de si. Tudo a seu respeito fala de arrependimento e da plena falência humana. Aqui encontramos um homem sem qualquer pretensão a seu respeito.
Sua oração dificilmente é uma prece, mas um grito do coração. Como Lutero, o grande reformador do século XVI, que no leito de morte foi ouvido dizer com frequência e em voz baixa, dirigindo-se ao Senhor: “Ó Deus, tem misericórdia deste pecador fedorento”. O publicano não se dirigiu para o templo a fim de lembrar a Deus dos seus méritos, mas para encontrar-se com Ele. Há um senso de desespero nesse personagem. Sem mencionar suas falhas, ele se limita a descrever a si próprio como um “pecador”. Não há em sua oração nenhuma escusa, porque ele sabe que Deus não perdoa escusas, apenas pecados. Rejeitado pelos outros judeus, e condenado por si mesmo, ele faz a única oração que lhe resta – a súplica pela misericórdia de Deus. Ele implora a Deus em linguagem penitencial, aparentemente extraída de Salmos 51:1.
Jesus não permite que a parábola termine com as pontas soltas, para cada um extrair sua própria conclusão. Ele não deseja que haja qualquer confusão ou dúvida sobre sua mensagem. A inversão é estarrecedora e inesperada: “Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele” (Lucas 18:14). O texto não diz que o publicano desceu “sentido-se” justificado, num tipo de “ficção legal”. Ele “desceu justificado”. “Justificar” ou “justificação” são grandes termos das Escrituras. Não significa primariamente “fazer/tornar justo”, como no latim “justificare”, mas “declarar justo”, como no grego “dikaiŏ”. Aquele que é justificado é declarado (ato forense) justo pelo Juiz do Universo. Como é dito de Abraão, “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça” (Romanos 4:3). Imputar, significa atribuir, creditar. Isto é, à conta falida do fariseu é creditada a enorme riqueza da graça de Deus. Jesus não está dizendo apenas que o coletor de impostos foi perdoado, mas justificado, colocado em correto relacionamento com Deus.
O que Jesus está dizendo é de profundo significado e nos deveria fazer pensar seriamente. As pretensões humanas de justiça, nada significam. Nossa lista de virtudes e práticas não tem qualquer mérito. Nossa folha de serviço nada vale para a nossa justificação. Jesus aqui inverte todo o sistema de valores, uma vez que, segundo as Escrituras, Deus não justifica os justos (Romanos 4:5).
A justificação é impossível para os que estão confiantes em sua justiça própria, em seu desempenho religioso e mérito pessoal. Isso simplesmente porque aqueles que se sentem assim têm outra justiça que não a única que realmente é efetiva, aquela que é baseada na graça divina. Muitos religiosos podem ter autoimagem vigorosa e autoconfiança impressiva. Mas o problema é que tais noções estão construídas sobre o fundamento errado, e o resultado final é uma grande decepção.
O fariseu, na verdade, perdera o seu tempo construindo em fundamento falso, “porque todo o que se exalta será humilhado” (Lucas 18:14). Sua religião era vazia. Sua oração inútil, sua arrogância, uma tolice. A menos que nos prostremos em genuína atitude de humildade e absoluta dependência da graça, nosso caso está perdido diante do tribunal de Deus. Ele pode justificar apenas aqueles que nada têm a reclamar com base nos seus méritos. Nada a reivindicar, senão misericórdia.
A parábola não foi intencionada para nos oferecer uma fórmula de oração a ser usada perante Deus. O que Deus espera é atitude semelhante à do publicano. Um coração sensível ao pecado sob a ação do Espírito, dependente inteiramente do dom gratuito de Deus. É aí que a salvação começa – em humilde aceitação do dom divino. Mas não é aí que a salvação termina. O espírito de fé e humildade que nos qualifica para a justificação torna-se o princípio ativo no crescimento cristão, na santificação e no serviço.
Longe de ser complexo de inferioridade, tal espírito é uma realística aceitação da avaliação divina da condição humana. Aquele que aceita a justiça de Cristo sabe que é um pecador, sem qualquer esperança em si. Mas, ao mesmo tempo, tem consciência de que, justificado pela graça, ele é exaltado por Deus à plena participação na família celestial. É apenas quando nos vemos pelo prisma divino que nossa autoimagem pode ser restaurada plenamente. Autoimagem positiva não é resultado da idolatria do eu, ou da autodeificação, mas da consciência da soberania da graça de Deus.
Para ponderar
Carroll menciona que quando foi pastor numa cidade do Estado de Nova York, costumava colocar semanalmente uma frase no quadro externo de anúncios para chamar a atenção de pessoas que passavam pela frente da igreja. Em certa ocasião, a frase dizia: “Esta Igreja é apenas para pecadores”. No final daquela semana, ele recebeu pelo correio uma carta na qual um membro anônimo escrevia indignado: “Eu estou chocado em saber que nossa igreja é apenas para pecadores. Eu tenho sido membro desta igreja por vinte e cinco anos e nunca percebi que eu estava no lugar errado e não era bem vindo”. Na semana seguinte, o pastor Carroll escreveu no quadro de anúncios um texto bíblico: “Todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Romanos 3:23).
A conclusão da parábola de Jesus deve ter estarrecido e irado os seus devotos ouvintes. Um piedoso judeu e um ganancioso publicano, acostumado a extorquir os outros, sobem ao templo para orar, mas é o último que desce justificado. Qual o problema? O fariseu procurou estabelecer a sua justiça própria (Romanos 10:3) e, portanto, perdeu de vista a justiça divina (Romanos 9:30, 31). O coletor de impostos, não tendo nada do que se gloriar perante Deus (Romanos 4:2), confiou naquele que “justifica o ímpio” (Romanos 4:5).
O escândalo da graça, expresso nessa história de dois homens em oração, é que o “justo” não está mais perto de Deus (como ele poderia pensar), do que os injustos que reconhecem a presença divina (a verdadeira santidade) que envergonha todo o desempenho humano erradamente motivado. Porque, em última análise, mais que “transgressão da lei”, o pecado tem uma dimensão relacional, que desce ao nível das motivações. E como o apóstolo relembra, “o que não provém de fé é pecado” (Romanos 14:23). Assim, a questão não é apenas o que fazemos, mas por que o fazemos.
Nessa parábola, Jesus condena todo o elitismo religioso daqueles que se julgam melhores por causa de suas práticas ostentadas como realizações humanas superiores, mesmo quando externamente atribuídas a Deus. Perfeccionismo religioso é divisivo, precisamente porque ele cria a noção de que alguns na Igreja são melhores que outros. Enquanto a consciência de nossa verdadeira condição pecaminosa e permanente necessidade é o grande fator de aproximação com os demais conservos, o orgulho separa as pessoas porque desenvolve a noção de superioridade e competitividade. Junto à cruz, entretanto, todos se erguem no mesmo nível. Não está disponível aí nenhum pedestal, escadas, tronos ou altas patentes para acomodar justos pretensiosos.
A parábola é para todos. Para pregadores e líderes eclesiásticos também. Porque aqueles que proclamam a Palavra do púlpito, ou ocupam cadeiras de responsabilidade religiosa são susceptíveis a grandes ilusões a respeito de si mesmos. Os que, por desempenho ou por serviço, pensam que são superiores ou mais importantes, desconhecem a Deus e não conhecem a si mesmos.
Os que julgam que em algum ponto da experiência cristã serão tão justos e santos que não precisarão mais de Cristo, estão ironicamente afirmando que a santidade acaba tendo o mesmo resultado do pecado: separa-nos de Deus (Isaías 59:2). Em nenhuma circunstância chegaremos a um ponto onde não mais precisaremos orar a Deus “perdoa as nossas dívidas”. Verdadeira santificação é crescente dependência de Deus, não independência dele. C. S. Lewis corretamente observa: “Quando um homem está se tornando verdadeiramente melhor, ele entende mais e mais claramente o mal que ainda permanece nele. Quando um homem está se tornando pior, menos e menos ele entende sua própria malignidade”. Nas palavras de Ellen White, “os que têm a mais profunda experiência nas coisas de Deus são os que estão mais longe do orgulho e da presunção” (Obreiros Evangélicos, pág. 323).
Devemos lembrar que o leitor moderno pode aplaudir a repreensão de Cristo aos fariseus e ser vítima da mesma atitude deles. Como certo professor de uma escola cristã, que, depois de contar a parábola do fariseu e do publicano para as crianças em sua classe, disse ao concluí-la: “agora vamos inclinar a cabeça e agradecer a Deus porque nós não somos como o fariseu”. Facilmente, também podemos pensar que nós não somos como o fariseu ou como aquele professor, tal é a condição infecciosa e enganadora do pecado em nós. Publicanos modernos podem, por outro lado, se julgar superiores, orando: “Graças Te dou, ó Deus, porque eu sou livre da obediência da Tua lei”, ou “eu como e bebo como quero, vivo como quero e nunca dou um centavo à igreja”. Quando coletores de impostos desprezam outros ou a importância da submissão a Deus, com semelhante tom de superioridade, eles estão apenas repetindo a oração do fariseu.
Finalmente, a graça de Deus parece ofensiva a todos nós, porque ela é naturalmente contrária à nossa natureza e naturalmente incompreensível à nossa miopia e astigmatismo espirituais. Não é por acaso que Jesus advertiu: “Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no Reino de Deus” (Mateus 21:31). Será que tais palavras também nos deixam ofendidos e irados? Então, que nos tornemos mais irados ainda, até que nos sintamos envergonhados e supliquemos em sinceridade como o publicano da história de Jesus: “ó Deus, sê propício a mim, pecador!”
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Quem é Meu Próximo? – “O Incomparável Jesus Cristo”, de Amin Rodor

Quem é o meu próximo? – capítulo 4
O Evangelho de Lucas descreve o ministério de Jesus como uma jornada que se inicia na Galileia em direção a Jerusalém. Pelo menos dez capítulos (40% do livro) são ocupados com a descrição dessa jornada. Da periferia para o centro. Em Lucas 9:51 lemos que “ao se completarem os dias em que devia Ele ser assunto ao Céu, manifestou, no semblante, a intrépida resolução de ir para Jerusalém”.
Galileia e Jerusalém se erguem como opostos. A Galileia é símbolo daqueles a quem Jesus, no Evangelho de Lucas, ministra de forma particular. Daqueles que, com maior facilidade respondem ao gracioso convite das boas novas (Lucas 14:23). Quem são eles? Uma grande formação social chamada de “o povo da terra”. Pessoas simples, muitas delas trabalhando em profissões consideradas com suspeita pelos líderes religiosos. Por outro lado, enfermos, pobres, coletores de impostos e mulheres, vistos como “não religiosos”, ignorantes da lei. Todos eles marginalizados dentro do sistema social e religioso do judaísmo. O elemento comum entre eles é que a todos falta alguma coisa: saúde, recursos, prestígio, aceitação, oportunidade na vida. O ministério de Jesus, particularmente em Lucas, toca a vida desses discriminados pela instituição religiosa. A questão, contudo, não é apenas que Jesus tolere a companhia deles, mas Ele claramente dá a entender que até prefere estar com eles.
O Evangelho segundo Lucas apresenta Jesus participando de vários banquetes. Quem são aqueles com quem Ele compartilha a refeição? Em geral, os “desclassificados”, todos eles caracterizados como “pecadores”. De fato, a acusação feita contra Jesus pelos seus oponentes, em Lucas, é a de que “Este recebe pecadores e come com eles” (Lucas 15:2). Comer juntos, partilhar da mesma mesa, na mente judaica, era símbolo do concerto. O termo hebraico para o concerto, “berit”, também significava “partir o pão”. Convidar alguém para uma refeição era uma honra, significando oferecer paz, confiança, fraternidade. Partilhar da mesa era partilhar da vida, uma oferta de perdão, aceitação. Sem dúvida, uma expressão da missão e mensagem de Jesus. Uma celebração antecipada do banquete  escatológico.
A grande ofensa de Jesus, no Evangelho de Lucas, a acusação que Ele assume sem qualquer objeção, é que Ele é “amigo dos pecadores, e come com eles”. Jesus Se apresenta como amigo dos marginalizados. Amigo dos que não tinham amigos. Ele justifica Seu interesse pelos pecadores com lógica incontestável, afirmando que “os sãos não precisam de médico, e sim os doentes” (Lucas 5:31).
Em Lucas 4:16-19, texto exclusivo do terceiro evangelho, citando o profeta Isaías, Jesus pronuncia o discurso programático do seu ministério, visto em termos de libertação: “O Espírito do Senhor está sobre Mim, pelo que Me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-Me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para por em liberdade os oprimidos e apregoar o ano aceitável do Senhor”. No texto paralelo de Lucas 7:22, Jesus demonstra perante os discípulos de João Batista, como prova de Sua identidade messiânica, que “os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres, anuncia-se-lhes o evangelho.” É evidente Seu especial interesse pelos sofredores, enfermos, cegos e leprosos, além das pessoas comuns, todos estes categorizados como “pobres” ou “pecadores”, em grande medida excluídos da vida religiosa de Israel (Mateus 9:36).
Jerusalém, “a cidade do destino”, por outro lado, com sua elite religiosa, é símbolo de oposição e rejeição a Jesus. Jerusalém, o centro da instituição religiosa, é precisamente o centro da oposição e das forças que culminam na rejeição final do Filho do Homem. Oposição e rejeição a Cristo, no terceiro evangelho, se intensificam progressivamente, à medida que Ele Se aproxima de Jerusalém.
Convém lembrar que em Lucas, como nos demais evangelhos sinóticos, ao contrário do Evangelho de João, Jesus vem a Jerusalém uma única vez. Mas enquanto no Evangelho de Mateus o lamento de Cristo sobre Jerusalém aparece como uma conclusão ao discurso contra os fariseus, sendo praticamente uma introdução ao discurso profético sobre o fim do mundo (Mateus 23:37), em Lucas o contexto é outro. A diferença diz respeito, primeiramente, à localização da narrativa e, em segundo lugar, o lamento de Cristo por Jerusalém, no terceiro evangelho, é motivado diretamente pelo tema da rejeição (Lucas 13:31-34).
Jesus e o mestre da lei
A oposição sistemática ao jovem Rabi galileu já se delineia em Lucas 15:10. Os eventos descritos aqui tomam lugar nas proximidades de Betânia: “E eis que certo homem, intérprete da lei, se levantou com o intuito de por Jesus à prova” (Lucas 15:25). O intérprete da lei pertencia à classe dos escribas, reconhecidas autoridades, especialistas no Antigo Testamento e na tradição judaica a respeito da lei. Ele se levanta para testar o pregador não oficial e determinar se os seus ensinos estavam em conflito com a interpretação tradicional do judaísmo. O relato do bom samaritano é um desdobramento do diálogo entre Jesus e o doutor da lei. O diálogo, como corretamente indicado por Kenneth E. Balley, se divide em duas partes:
Parte 1
A pergunta do doutor da lei: “Que farei para herdar a vida eterna” (Lucas 10:25).
A contra-pergunta de Jesus: “Que está escrito na lei? Como interpretas? (v. 26).
A resposta do doutor da lei: “Amarás o Senhor teu Deus […] e o teu próximo” (v. 27).
A exortação de Jesus: “Faze isto e viverás” (v. 28).
Parte 2
O doutor da lei pergunta: “Quem é o meu próximo?” (v. 29).
A contra-resposta de Jesus: “Qual destes três te parece ter sido o próximo?” (v. 36).
O doutor da lei responde: “O que usou de misericórdia” (v. 37).
A exortação de Jesus: “Vai e procede de igual modo” (v. 37).
É significativo observar que o incidente segue a autodeclaração de Jesus como Salvador (v. 21-24): “Tudo Me foi entregue por Meu Pai”. Em outras palavras, a salvação vem através de Jesus Cristo. No versículo 24, Jesus afirma: “Muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não viram; e ouvir o que ouvis e não o ouviram”. Aparentemente, a pergunta do intérprete da lei tem a intenção de se opor à afirmação de Cristo e mostrar que mais é requerido para a vida eterna do que “simplesmente” ouvir o que Jesus tem a dizer e aceitá-lo como o representante de Deus. Sua pergunta (“Mestre que farei para herdar a vida eterna?”) expressa a tradicional questão rabínica, envolvida na ideia de salvação pelas obras: “que devo fazer?”
Note-se, ainda, que o doutor da lei não pergunta como é possível alcançar a vida eterna, ou seja, qual o caminho, qual o meio. Ao contrário, ele sabe o como, conhece o processo. Sua pergunta segue em outra direção: “O que devo fazer?”. O método ele sabe: é fazendo alguma coisa! Mas, afinal, ele não parece realmente interessado no que Jesus tem a dizer, uma vez que sua intenção é a de provar o Rabi itinerante e provavelmente humilhá-Lo diante da audiência. O intérprete da lei busca apenas uma resposta intelectual de Jesus, para julgá-Lo e expô-Lo.
A paciência de Jesus é extraordinária. No versículo 26, Ele responde com uma contra-pergunta, que conduz o intérprete da lei ao Antigo Testamento. Dessa maneira, o cenário é invertido, mudando do ensino de Jesus para como o doutor da lei entende sua disciplina. Assim, é a sua interpretação que passa a ser julgada pela audiência. A resposta de Jesus indica que a pergunta do escriba envolve uma séria contradição: “fazer” e “herdar”. Essas são ideias opostas, que se excluem mutuamente: para herdar nada se pode fazer. Para herdar é necessário, sobretudo, que você seja herdeiro, pertença à família. Absolutamente nada que se possa fazer dá direito à herança celestial, uma vez que as obras são moeda sem valor diante de Deus.
“Que está escrito na lei? Como interpretas”? O interrogado passa a ser o interrogador. A estratégia de Jesus desarma o homem da lei, direcionando-o ao que está escrito no Antigo Testamento, não às intrincadas interpretações rabínicas desenvolvidas pela tradição. Assim, Jesus deixa claro que o homem já sabia a resposta para a sua pergunta, tornando o seu dolo, ou a sua tolice, evidente diante de todos. Por que, afinal, fazer uma pergunta para a qual já se sabe a resposta? Isso não é recomendado em termos de sinceridade ou inteligência. Por outro lado, Jesus extrai dele a reposta, levando o escriba a colaborar com Ele, o que remove a diferença e o antagonismo. A psicologia de Cristo é simplesmente perfeita.
No versículo 27, o escriba é obrigado a dar uma resposta bem conhecida, citando Deuteronômio 6:5: “Amarás o Senhor, teu Deus”, o mandamento considerado como o coração da religião judaica. Um conceito central na teologia do livro de Deuteronômio encontra-se expresso na passagem “amarás o Senhor, teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força”: dedicação absoluta e total a Deus.
O segundo mandamento, incluído na resposta, encontra-se em Levítico 19:18, que aborda o tema do amor ao próximo. Propondo, assim, o sumário da lei (amor a Deus e amor ao próximo), Jesus responde ao Seu interlocutor: “Você está absolutamente correto; faze isto e viverás”. O verbo está no imperativo, isto é, “continue fazendo sem cessar, do contrário seus esforços estarão perdidos”. Há aqui, por parte de Cristo, uma velada ironia. Ele responde da perspectiva do doutor da lei: “Se é possível alguém salvar-se pela obediência da lei, faça isto”. Em outras palavras: “Faça precisamente o que você julga ser o caminho”.
A teologia legalista do doutor da lei está em franca oposição ao que Jesus indicara no contexto, ou seja, que a salvação vem através dEle (Lucas 10:21- 23). Para Jesus, a obediência à lei é o resultado, não a base da salvação. Dando resposta tão simples, Ele expõe não apenas a tolice da pergunta, mas o teor da questão. Tentando justificar-se, o intérprete da lei faz uma nova pergunta (“Quem é o meu próximo?”), tentando demonstrar que a questão não é tão simples. “Quem é o meu próximo?” Os judeus interpretavam o mandamento do amor ao próximo em relação aos membros da comunidade religiosa judaica. Muitos não eram considerados “próximos”. Entre outros, samaritanos, escravos, coletores de impostos, prostitutas, treinadores de pombos, jogadores, os que emprestavam dinheiro a juros e pastores de ovelhas, todos vistos como desonestos, além de não poderem cumprir as regras cerimoniais de purificação.
Entre os fariseus, os limites eram ainda mais restritos. Mesmo o povo comum era excluído. “Quem é o meu próximo”? Esse tipo de pergunta implica na exclusão de pessoas ou grupos sociais da condição de próximos. O intérprete da lei queria que Jesus lhe desse uma norma objetiva, pela qual ele pudesse facilmente discriminar entre aqueles que deveriam ser tratados como amigos e aqueles que não precisariam incluir nesse círculo. Jesus aceita a nova questão e elabora uma situação, novamente chamando o escriba para um confronto com sua real condição perante a lei.
O relato do bom samaritano
“Jesus, prosseguindo, disse: Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de salteadores, os quais o despojaram e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. Casualmente, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e vendo-o, passou de largo. De igual modo também um levita chegou àquele lugar, viu-o, e passou de largo. Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou perto dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão; e aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; e pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte tirou dois denários, deu-os ao hospedeiro e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que gastares a mais, eu to pagarei quando voltar” (Lucas 10:30-35).
A história do bom samaritano, contada por Jesus, exclusiva em Lucas, responde à segunda parte do diálogo com o escriba. Para reconquistar o prestígio diante da multidão, após fazer uma pergunta para a qual ele conhecia a resposta, o mestre da lei faz uma segunda tentativa: “Quem é o meu próximo?” Sua pergunta agora ao menos parece sincera. A questão era objeto de debates infindáveis entre os mestres judaicos. O que o escriba deseja é saber até que ponto ele deve estender a categoria de próximo. Se perguntamos “quem é o meu próximo?”, claramente estamos indicando que deve haver aqueles que não são considerados “próximos”. O intérprete da lei requereu que Jesus apresentasse a norma pela qual discriminar quem era e quem não era o próximo.
Surpreendentemente, Jesus não responde a pergunta diretamente. Em lugar disso, Ele conta a história de alguém que agiu como próximo. A parábola do bom samaritano forma uma parte crucial da resposta de Jesus. Novamente, o Senhor coloca a responsabilidade final da resposta sobre o mestre da lei. Observe.
“Certo homem descia de Jerusalém para Jericó”, Jesus inicia. Esse caminho entre Jerusalém e Jericó representava uma jornada de aproximadamente 36 quilômetros por um desfiladeiro no deserto da Judeia. Constituía um atalho perigoso, descendo mais de novecentos metros. O terreno oferecia um refúgio natural para ladrões e salteadores. Cenário de constante violência, a estrada tomada por esse viajante solitário havia passado a ser conhecida como o “caminho de sangue”.
O homem da história de Jesus, provavelmente um judeu, tomou a perigosa rota e caiu nas mãos de salteadores, que, depois de lhe roubarem tudo, inclusive a roupa, lhe causaram muitos ferimentos, abandonando-o semimorto. O uso do plural “salteadores” indica que eram vários. Vários contra um. Nenhuma possibilidade de defesa. “Tentativa de homicídio sem dar à vítima chance de defesa”, diriam juristas atuais!
Com a ação dos ladrões, Jesus sugere precisamente o oposto do amor ao próximo. Propositadamente, Ele descreve um caso de extrema necessidade. Jesus reduz a vítima de sua história ao mais absoluto mutismo. Os ladrões, em geral, exigem a bolsa ou a vida. Mas esses roubaram tudo, a bolsa, a capa, o alforje e, possivelmente, a montaria. Roubaram tudo e quase a vida. Ferido, semimorto, coberto de sangue, é impossível identificá-lo ou que ele se identifique. Quem é ele? Filho de quem? Pai de quem? Qual a sua profissão? Status? É ele rico ou pobre? Ou, mais importante ainda, qual a sua raça? Judeu, samaritano ou outro gentio qualquer? Estas, em geral, são as perguntas que costumamos fazer. Jesus elimina qualquer possibilidade de identificação. O homem caído está completamente impotente para pedir socorro, para persuadir alguém a ajudá-lo ou oferecer uma recompensa. Ele não pode defender o seu caso ou pleitear misericórdia. Intencionalmente, Jesus coloca o ferido de sua história inteiramente nas mãos do “outro”, daquele que passa.
Com isso, Ele prepara o cenário para revelar a essência do verdadeiro serviço, cuja motivação é o amor que serve, independente de qualquer expectativa de retorno. Tal serviço nada tem a ver com campanhas de televisão, preocupações com Ibope ou audiência. Nada a ver com mero humanitarismo ou assistência social. Amar os que não são amáveis. Amar sem qualquer complexo de superioridade e sem esperança de receber de volta qualquer tipo de recompensa. Amar nos lugares e nas horas menos convenientes.
“Casualmente, descia um sacerdote por aquele mesmo caminho e, vendo-o, passou de largo” (v. 31). O sacerdote vinha do templo, de suas tarefas religiosas, para casa em Jericó, que era uma das principais cidades de residência dos sacerdotes. Ele viu o homem em necessidade, mas “passou de largo”. Frieza incomum; aberta violação do mandamento do amor. Aqui estava alguém, provavelmente do seu próprio povo, em situação de extrema necessidade. Mas ninguém viu; ninguém, nem mesmo o homem caído. Ninguém viu. Ninguém, exceto Deus.
De modo semelhante, um levita descia por aquele lugar (Lucas 10:32). Os levitas faziam parte de uma ordem de oficiais do culto religioso, inferiores aos sacerdotes. Entretanto, um grupo privilegiado, responsável pela liturgia e vigilância do templo. Aparentemente chegou mais próximo do homem ferido. Teria ele temido os ladrões? Ou teria ele temido contaminação levítica pelo contato com um cadáver (Levítico 21:1)? Afinal, ele não sabia se o homem estava vivo ou morto. O texto apenas diz que ele também não teve misericórdia. O levita também “passou de largo”. “Passar de largo” tornou-se a expressão proverbial para descrever  indiferença,  distância, afastamento.
Jesus então estabelece o contraste entre os dois primeiros viajantes e uma terceira figura. A audiência poderia esperar nesse terceiro caráter da história um leigo israelita. Essa seria a sequência lógica. Afinal, sacerdotes e levitas não tinham mesmo boa reputação entre o povo. No entanto, surpreendente e deliberadamente, Jesus introduz um membro de uma comunidade odiada. “Certo samaritano” (Lucas 10:33). Nós aqui perdemos a força da ilustração porque somos estranhos à hostilidade que havia entre judeus e samaritanos.
Para cristãos modernos, o substantivo “samaritano” atrai automaticamente o adjetivo “bom”. O termo samaritano tornou-se hoje sinônimo de ser um bom vizinho, disposto a ajudar os necessitados. Mas, nos dias de Jesus, tal associação seria a última coisa possível. Os samaritanos não eram vistos como bons. Pelos judeus, os samaritanos eram considerados pagãos, amaldiçoados nas sinagogas e publicamente. Não podiam ser aceitos como prosélitos. Não tinham parte na ressurreição e na vida eterna. Para os judeus, comer o alimento deles era como comer carne de porco. Assentar-se ao lado deles numa sinagoga era considerado um motivo para morte. O testemunho de um samaritano não tinha qualquer valor em uma corte.
Curiosamente, o samaritano é o único não religioso da história. E, com ele, Jesus introduz um perfeito exemplo de amor ao próximo. Jesus não apenas demonstra que o amor pode surgir nos lugares e com as pessoas menos prováveis; Ele desfere um poderoso golpe na intolerância racial, social, religiosa e “denominacional” dos judeus. Ele ataca a síndrome de superioridade do judaísmo. Jesus aqui subverte todos os valores da época. Quem pensaria num samaritano como “bom”?
A ação do samaritano é a perfeita representação do amor ao próximo. “Compadeceu-se dele”. Os gregos centralizavam as emoções nos órgãos nobres do corpo. No coração, pulmões, fígado. O verbo compadecer-se aqui significa estar cheio de compaixão, até as vísceras. Jesus descreve a base para todos os atos do samaritano: ele se compadeceu! Ele também vê o que os outros viram, mas responde em compaixão. Ele tinha maiores razões para também “passar de largo”. Tinha uma montaria, dinheiro e, sobretudo, era samaritano, enquanto o homem caído provavelmente era um judeu.
Mas ele resolve se envolver. Ninguém ama realmente até que saia do seu caminho, se desviando de sua rota para servir. Jesus reforça a profundidade da ação do samaritano narrando detalhes da sua ajuda. O samaritano utiliza as provisões da sua viagem para ministrar ao estranho. O óleo e o vinho, os remédios clássicos da antiguidade, servem para os primeiros socorros; o vinho, para purificar os ferimentos, e o óleo, para suavizá-los. Note-se ainda que o samaritano coloca o ferido em sua montaria e o leva para uma estalagem, onde vela por ele durante a noite. Isso sugere que sua atitude não é apenas uma reação sentimental, de humanitarismo barato, que busca uma porta de escape assim que o necessitado passa a ser visto com um fardo. Esse não é o caso!
A narrativa conclui com um surpreendente toque final de amor ao próximo. No verso 35, lê-se: “No dia seguinte, tirou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: Cuida deste homem, e, se alguma coisa gastares a mais, eu to indenizarei quando voltar”. Ele tomou todas as precauções para que o homem continuasse sendo atendido. Dois denários, provisão para alguns dias adicionais de cuidados. O samaritano vai além da superfície, garantindo o custeio de despesas adicionais, oferecendo ainda uma enfática promessa, indicada pela presença do pronome pessoal grego: “Eu te pagarei”.
Jesus, então, prepara o cenário para a conclusão, que é a chave do relato, geralmente mal compreendida. No verso 36, Ele pergunta ao intérprete da lei: “Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?”
Muitas vezes, no passado, eu li essa história, e confesso que não a entendi. Observe a pergunta inicial do escriba: “Quem é o meu próximo?” Veja, então, a pergunta de Jesus sobre a identidade do próximo: “Quem te parece que foi o próximo?” A compreensão da resposta de Jesus está num nível mais profundo, em geral passada por alto pela razão de nossa pergunta “quem é o meu próximo?” estar marcada pela mentalidade do mestre da lei. Para sempre, contudo, Jesus removeu qualquer limitação farisaica ao mandamento do amor.
Observe que, surpreendentemente, o próximo não é o homem caído, mas aquele que pratica a ação de amor. Em outras palavras, o próximo não é o objeto da ação, mas o sujeito dela. O próximo não é aquele a quem se serve, mas aquele que serve. Da perspectiva de Jesus, nós não podemos escolher quem será o nosso próximo, mas apenas viver e agir como o próximo. Colocando-se em termos claros: o próximo não é o homem que caiu nas mãos dos salteadores. O próximo se encontra entre os três que passam pelo caminho para Jericó. “Qual destes três te parece ter sido o próximo?” A sabedoria na resposta de Cristo é simplesmente desconcertante.
Se Jesus tivesse dito que o próximo é “alguém em necessidade,” Ele apenas teria colocado limites ao mandamento do amor, sugerindo novas questões: “que tipo de necessitado? o da minha raça? o da minha igreja?” ou: “que tipo de necessidade? física ou espiritual?” Mas não é isso que Ele faz. Jesus remove a questão do nível do necessitado, seja ele quem for, para ensinar que o próximo  é aquele que pratica a ação, eu, você, independentemente de quem seja aquele que está caído ao lado do caminho.
O extraordinário da história de Jesus é a enorme inversão que ela expõe. Seu herói, como é frequente no Evangelho de Lucas, é aquele menos provável. Assim como os marginalizados pastores de ovelhas, que testemunham o nascimento do Messias, e os pecadores que se reúnem à sua mesa, comendo com Ele. Os coxos, cegos, aleijados, mulheres, leprosos, publicanos. Os “pecadores” a quem Ele ministra.
Por outro lado, os vilões da história também são os menos prováveis. O sacerdote e o levita, membros da tribo sacerdotal. Os “religiosos profissionais”, os “remanescentes”, que conheciam o mandamento do amor, mas nada sabiam do amor real. Jesus deixa claro que religião pode apenas ser uma máscara para cobrir o egoísmo e interesses pessoais. O sacerdote e o levita eram escravos do personagem que interpretavam na trágica simulação religiosa que eles viviam. E sendo personagens, eles não eram pessoas. Ou as pessoas que Deus esperava que fossem.
Com um só golpe, Jesus desmascara os dois intérpretes e os milhões de outros a quem eles representam, os quais muitas vezes nem têm consciência da farsa da religião deles. Com o samaritano, Jesus contrasta a pessoa com o personagem. O samaritano é o único não religioso em termos convencionais. Ele respondeu ao agir. Porque é precisamente nesse ponto, no ponto da ação, que a religião deixa de ser mera teoria, ou uma questão de regras, e se encarna na realidade. É no ponto da ação que a crença deixa de ser crença (credencia), para tornar-se fé (fidúcia). O compromisso da vida com Deus! Certamente, o amor, manifesto em serviço, dá testemunho da realidade da salvação.
Com a história do samaritano, Jesus para sempre deixou claro que a pergunta real não é “quem é o meu próximo?”, mas “quem sou eu?” E é só então que podemos aceitar o desafio de Jesus seriamente: “Vai tu, e faze o mesmo” (Lucas 10:37).
Para ponderar
O intérprete da lei citou Levítico 19:18: “Amarás o teu próximo como a ti  mesmo” como resposta para sua pergunta inicial. Jesus aprovou sua resposta, mas a história do bom samaritano deu a essa resposta uma insuspeita profundidade.
A média dos leigos judeus (e isso incluía o mestre da lei) nos dias de Jesus tinha baixa opinião da classe alta dos sacerdotes do templo. A indiferença do sacerdote e do levita, “passando de largo” pelo judeu ferido ao lado do caminho, certamente não surpreendeu a audiência. É a compaixão do samaritano que deixa a todos em estado de choque. Muitos judeus teriam preferido morrer na estrada, em lugar de ser atendidos por um samaritano, tal o ódio entre eles. Jesus não conta aqui de um judeu que ajudou a um samaritano, depois exortando o escriba a agir da mesma forma. Em lugar disso, Ele narra sobre um inimigo tradicionalmente odiado servindo a um judeu, e é aí que Ele acrescenta a exortação.
Receber amor de um inimigo, ou de um “inferior” foi um golpe muito mais poderoso do que ser caridoso com um inimigo. “Quem foi o próximo?” é a surpreendente pergunta de Jesus. O mestre da lei evitou mesmo pronunciar a desprezada palavra “samaritano”. Assim, ele utiliza o circunlóquio: “O que usou de misericórdia” (Lucas 10:37). Dessa forma, nunca mais o imperativo “amarás o teu próximo” estaria ligado ao “odiarás o teu inimigo” (Mateus 5:43). Para Jesus, o mandamento do amor incluía o inimigo e o relato apresentado definiu perfeitamente o seu ensino básico. O samaritano amou alguém que não o amava (Lucas 6:32). Ele fez o bem, sem qualquer pensamento de benefício pessoal (Lucas 10:33-34). Ele agiu sem esperar nada em recompensa ou retorno (Lucas 10:35). Essa é a razão pela qual Jesus desafiou os Seus ouvintes com a declaração “amai vossos inimigos” (Lucas 10:27, 35).
O autoconfiante mestre da lei não fez qualquer protesto de que Jesus não tinha realmente respondido às suas perguntas. Sua questão original (“que farei para herdar a vida eterna?” – Lucas 10:25), recebeu resposta inequívoca: demonstre misericórdia para com os seus inimigos, como o samaritano fez (Lucas 10:37). E isso é possível apenas quando a vida é dominada pelo princípio do amor, a grande evidência de que conhecemos o segredo da vida eterna. Por outro lado, Jesus não deixou o escriba preocupado acerca de quem incluir em sua lista de “próximos”. A história deixou-o para sempre marcado acerca do que deveria fazer caso algum dia se encontrasse um samaritano ferido.
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Abre-me os Olhos – “O Incomparável Jesus Cristo”, de Amin Rodor

Abre-me os olhos – capítulo 5
“E foram para Jericó. Quando ele saía de Jericó, juntamente com os discípulos e numerosa multidão, Bartimeu, cego mendigo, filho de Timeu, estava assentado à beira do caminho e, ouvindo que era Jesus, o Nazareno, pôs-se a clamar: Jesus, Filho de Davi, tem compaixão de mim! E muitos o repreendiam, para que se calasse; mas ele cada vez gritava mais: Filho de Davi, tem misericórdia de mim! Parou Jesus e disse: Chamai-o. Chamaram, então, o cego, dizendo-lhe: Tem bom ânimo; levanta-te, Ele te chama. Lançando de si a capa, levantou-se de um salto e foi ter com Jesus. Perguntou-lhe Jesus: Que queres que Eu te faça? Respondeu o cego: Mestre, que eu torne a ver. Então, Jesus lhe disse: Vai a tua fé te salvou. E imediatamente tornou a ver e seguia a Jesus estrada fora” (Marcos 10:46-52).
Provavelmente a maioria de nós, numa ocasião ou em outra, já tentou imaginar o que significaria ser cego. Talvez, isto tenha sido quando criança. Nossa tradicional “cabra cega”, era a brincadeira preferida dos meus filhos quando pequenos. Vendar os olhos é comum em diversas brincadeiras das reuniões sociais, tal como, tentar formar pares de sapatos idênticos nas pernas de uma mesa ou colocar a calda em um animal desenhado no quadro. Certamente todos nós, por alguns minutos, tentamos imaginar o que significa viver sem visão, viver em trevas.
Nosso texto, contudo, descreve algo diferente. A situação de Bartimeu, o cego desta história exclusiva do Evangelho de Marcos, vive algo completamente diferente de nossas brincadeiras. Pessoas cegas, mendigando ao longo das estradas do antigo Oriente Médio, eram parte comum do cenário. A poeira e o brilho do sol, aliados a hábitos pouco higiênicos, espalhavam doenças contagiosas para os olhos. Bartimeu, provavelmente, segundo alguns intérpretes bíblicos, nunca havia visto anteriormente. E isso é inteiramente diferente do que simular cegueira por alguns instantes e, então, poder abrir os olhos. Bartimeu nunca fora capaz de ver, muito provavelmente, poucos de nós podemos entender como seria isso.
[Embora Mateus (20:29-34) e Lucas (18:35-43) se refiram a curas semelhantes em Jericó, a história de Marcos tem características exclusivas, pois é o único milagre de Jesus em que o beneficiado é tratado pelo nome. Também é a única história em que Jesus é chamado de “Filho de Davi” (o que pela tradição judaica, significava reconhecer ser Ele o Messias prometido). E é a única história onde a pessoa curada é ordenada a seguir Jesus. Essa narrativa em Marcos serve de clímax para o ministério de cura e ensino de Jesus e também como transição para a narrativa de sua jornada e destino em Jerusalém. Se tomarmos este como o quarto maior segmento (perícope) do Evangelho de Marcos, tal porção termina como começou em 8:22-26, com a história de uma cegueira sendo curada. Marcos provavelmente intencionou esse simbolismo, o qual indica que apenas aqueles que experimentam o milagre do poder de Jesus, mais claramente expresso na cruz e na ressurreição, têm os seus olhos abertos para a verdade. A história acrescenta ainda a dimensão de recepção do milagre: a importância da fé (v. 52). Tal fé significa persistir em clamar por Jesus a despeito de qualquer obstáculo (v. 47-48) e segui-Lo “pelo caminho” apesar de qualquer ameaça].
Este é o ultimo milagre de cura atribuído a Jesus no Evangelho de Marcos. O Senhor estava de passagem por Jericó, 24 quilômetros distante de Jerusalém, onde o último ato do drama da redenção iria tomar lugar. Então, a jornada é subitamente interrompida pelos gritos de Bartimeu, que estava assentado à margem da estrada. Possivelmente Bartimeu havia ouvido acerca da reputação de Jesus. Quando ele descobre que é precisamente Jesus que passava há uma pequena distancia, ele se lança na oportunidade, essa era a chance de sua vida.
Bartimeu começa a fazer tão grande alvoroço, ao saber que a multidão que passa é liderada por Jesus: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim”, grita ele. O barulho é tão grande que a cena é vista como algo embaraçoso. A multidão inicialmente tenta fazê-lo se calar. Por que o teriam tentado silenciar? Teria sido o título messiânico atribuído a Jesus que os ofendeu? Ou simplesmente os seguidores de Jesus não queriam qualquer demora na jornada rumo à festa? Difícil saber. Ao contrário da multidão, Jesus não tenta silenciar Bartimeu. Isso implica também que Ele não rejeitou o título “Filho de Davi”. Acima do barulho da multidão Jesus escuta o pedido de socorro, e Marcos 10:49 registra: “parou, pois, Jesus e disse: Chamai-o”.
“Jesus parou”. Nessa ação verbal existe uma extraordinária eloquência. Ao parar, Jesus demonstra absoluto tributo à pessoa em necessidade. Ele para em completa atenção a este pobre cego, esquecido de todos, marginalizado pelo sistema social e religioso dos judeus. Esse cego era a personificação precisa do termo “marginalizado”: ficar à margem do caminho, enquanto os outros passavam e avançavam.
De acordo com o “dogma da retribuição” do judaísmo, esse desafortunado estava simplesmente pagando os pecados dos seus pais ou os seus próprios pecados. Em Levítico 21:17-21, por razões tipológicas, o sacerdócio era proibido aos cegos, coxos, desfigurados ou deformados, mas aquilo que era algo específico e particular foi generalizado. Entre os fariseus havia a crença de que eles não eram obrigados a ter piedade destas pessoas e alguns chegavam a se vangloriar por atirar pedras nelas.
Para os essênios, uma seita separatistas do judaísmo, que vivia em comunidades ao longo do mediterrâneo, os cegos e fisicamente defeituosos deviam ser completamente excluídos. No chamado “Manuscrito das Regras”, qualquer pessoa ferida na carne, paralíticos de pés ou mãos, aleijados, cegos e mudos, não podiam fazer parte da congregação. Ainda, de acordo com o manual “A guerra entre os filhos da luz contra os filhos das trevas”, nenhum coxo, aleijado ou cego, era digno de ajuntar-se aos eleitos na guerra escatológica contra e a hostes de belial. Nenhum deles poderia participar do banquete messiânico, assim como não podiam ter acesso ao templo em Jerusalém, exceto, para pedir esmolas nos seus arredores. (Jeremias sugere a existência de uma tradição proverbial ligada a 2Samuel 5:8, no texto da Septuaginta, que parecia impor limitações ao acesso dessas pessoas “à Casa do Senhor”. Mais tarde, cegos, aleijados, desfigurados, etc, seriam limitados à corte dos gentios e portões externos da área do templo – ver Atos 3:2).
Na história de Bartimeu, Jesus Se eleva acima de regras religiosas inventadas para segregar seres humanos. Ele para demonstrando absoluto tributo e respeito à pessoa em necessidade. Com esse ato Ele diz àquele pobre coitado: “você tem valor, você é importante”. Penso, às vezes, que se Deus fosse colocar uma etiqueta de preço nos seres humanos, mesmo naqueles que padrões humanos podem considerar como sem qualquer valor, o número seria tão grande que seria impossível ler. Em sua aceitação das pessoas Jesus proclamou que ninguém é excluído, a não exceto aqueles que decidem, por si mesmo, se excluir.
Jesus era Mestre na arte de parar em reverência e aceitação à pessoa humana, atribuindo valor aos que eram considerados sem qualquer valor. Jesus era especialista em atribuir valor aos “fragmentos” humanos. Mesmo na cruz, em meio à grande agonia, precisamente no momento exato do desfecho de todo o drama da encarnação, com todo o universo focalizado nesse instante. Mesmo estando ferido e em excruciante dor física e agonia mental, Se considerando abandonado por Deus e pelos seres humanos, Ele para por uma fração de tempo, Se esquece de Si e Se dirige a um dos ladrões que estava pregado na cruz ao seu lado. Outro fragmentado, outro pobre necessitado, solitário, abandonado e moribundo, também em seus últimos momentos. Nesse instante, Jesus faz do Calvário um tanque batismal, e promete: “Estarás comigo no paraíso!”(Lucas 23:43).
Ele para em atenção ao cego que clama por Ele, deixando claro, para sempre, que às necessidades humanas são do interesse divino. Jesus então chama Bartimeu. A multidão que antes o repreendera passa agora a encorajá-lo: “Tem bom ânimo. Levanta-te. Ele te chama” (Marcos10:49). A frase “tem bom ânimo” aparece sete vezes no Novo Testamento. Seis vezes vem dos lábios de Cristo, a sétima vez aparece aqui. Deixando para trás o manto, que poderia servir de obstáculo, o cego se dirige a Cristo. Cabeça jogada para traz, face apontada para o firmamento, olhos opacos e semiabertos. Batendo desconexo e a esmo com o seu bastão, Bartimeu se aproxima.
Na presença de Cristo é lhe feita uma estranha pergunta, a qual aparece como uma grande surpresa. É lógico pensar que Jesus já deveria conhecer tal resposta, mas contrariando o senso comum, Ele pergunta a Bartimeu, que continua, ali em pé, desamparado, com grande confusão estampada em sua face, o cajado patético ainda nas mãos tremulas: “Bartimeu”, diz Jesus, o “que queres que Eu te faça?” Esta é uma pergunta estranha para ser fazer a um cego que clama por misericórdia: “Que queres que Eu te faça?” Isto é perguntar o óbvio!
Podemos imaginar como Bartimeu se sentiu: “Este Jesus deve estar brincando. Minha cegueira é evidente a todos, e Ele, certamente sabe que ninguém deseja viver em trevas”. Provavelmente o cego pensou: “Este Jesus não é muito esperto ou Ele está sendo sarcástico”.
Imagine-se na situação de Bartimeu. Não era apenas a debilidade física, mas o estigma da doença. Vagando perdido por Jericó, imerso em trevas, imaginando como seria ter esposa ou filhos, se ele os tivesse. Dependendo de favores, resignado a todos os tipos de humilhação para conseguir sobreviver.
“Que queres que te faça?” Tal pergunta poderia ser entendida como um golpe novo em uma ferida antiga, mas Bartimeu eleva-se acima de qualquer melindre pessoal e responde seguro: “Mestre que eu veja!” Bartimeu responde à pergunta como se realmente cresse que Jesus não sabe o que ele desejava. Como resposta, Jesus lhe diz: “Vai, a tua fé te salvou. E imediatamente tornou a ver, e seguia a Jesus estrada fora” (Marcos 10:52).
Segundo ato
Esse é o fim da história. Aqui temos tudo o que é relatado acerca de Bartimeu, que, após tal evento, desaparece completamente da narrativa bíblica, e nos deixa com um considerável número de perguntas. Neste ponto nós devemos refletir para completar o quadro. O que significaria se você tivesse sido sempre cego e recebesse a visão? O que teria acontecido com Bartimeu depois disto?
Li certa vez um artigo escrito por um especialista em olhos que analisava o que significa uma pessoa cega passar a ver depois de prolongado convívio com as trevas. Eu imaginava que deveria haver uma alegria extraordinária. Poder, finalmente, ver uma árvore, uma casa ou ver uma pessoa. Em nossa imaginação, provavelmente, criamos um quadro de cores bastante róseas, quase romântico. Abrir os olhos, estas extraordinárias janelas, para discernir formas e cores. Mas não é isto que dizem os especialistas. Ver pela primeira vez é uma experiência extremamente perturbadora e frustrante.
A primeira coisa que acontece, afirma aquele artigo, é uma séria desorientação. Desorientação mais severa mesmo do que perder a visão e tornar-se cego. Aquele que vê pela primeira vez, sofre de tonteira e cai. Segundo o artigo, tal pessoa irá sentir grande mal estar no estômago e enjoos. Em resumo, a pessoa que repentinamente recebe a visão, de inicio, é compelida a concluir que ver não é precisamente o que ela esperava.
Assim, podemos nos reencontrar com Bartimeu: apertado entre a multidão, tentando seguir a Jesus. Ele não consegue discernir direito para onde está indo. Ver lhe parece confuso e desorientador. Por vezes, ele tenta se orientar com o velho bastão numa das mãos, enquanto com a outra cobre os olhos para se proteger da luz que dolorosamente o incomoda. Quando vem a tarde, Bartimeu percebe que deve voltar para casa, e enfrenta uma nova dificuldade. Ele pode ver, mas não sabe como encontrar o caminho de sua casa. Seus prováveis auxiliares, certamente já o teriam abandonado, presumindo que por ele já poder ver não mais necessita deles. Além disso, Bartimeu não saberia como reconhecer sua casa. O fato é que ele enxerga, o que deve, agora, lhe estar trazendo grandes dificuldades em se organizar com a nova experiência da visão.
E o que você supõe que teria acontecido com Bartimeu uma semana depois? Ele começa a enfrentar novos problemas. As pessoas não estavam mais desejosas de esperá-lo ou cuidar dele, como faziam quando ele era cego. E acostumado a mendigar, agora se vê forçado a trabalhar. Quem daria esmola a um cego que agora vê? Mas, trabalhar como? Bartimeu não tinha nenhuma profissão. Ele não sabia fazer nada. Ele ainda dependia das pessoas, com o agravante de que ninguém mais toma tempo para ajudá-lo.
Em uma palavra, Bartimeu não está nada bem! Qual o seu problema? Ele começou a ver! As pessoas esperam que ele seja responsável, que tome conta de si mesmo, que entre na competição da vida, e acabe com sua dependência. Bartimeu então, podemos imaginar, começa a se perguntar se seu pedido a Jesus foi sábio. Ele sabia como se comportar sendo cego. Havia certa segurança vivendo nas trevas, mas agora ele não está mais seguro de si. A nova questão é: como se comportar quando você pode ver? A pergunta de Cristo, então, “que queres que eu te faça”, começa a fazer sentido para ele.
Muitas vezes me perguntei por que essa pequena história sobre Jesus e Bartimeu, aparece aqui em Marcos, apertada na narrativa? Esta é uma história curiosa, aquilo que se chama em teologia de um non sequitur, ou seja, algo que não se ajusta bem onde aparece. Jesus e seus discípulos estão a caminho de Jerusalém, onde a tragédia, a hostilidade e a oposição das autoridades do estabelecimento religioso, lhe esperam. A prisão, o julgamento ilegal, onde será covardemente espancado, humilhado, torturado e levado à cruz estavam a curta distancia dele. E aí, repentinamente, dentro desse contexto, aparece essa narrativa acerca de um homem cego a quem Jesus pergunta: “que queres que eu te faça?” Isso é realmente muito estranho.
Bem neste ponto eu e você entramos na história. Devemos lembrar que a Bíblia é uma grande tela. Seus vultos vão além deles mesmos, porque, em última análise, eles não são apenas eles próprios. Os personagens das Escrituras são representativos. Eles são tipos e parábolas apontando para verdades além de suas próprias histórias. Na verdade tais vultos são parte de cada um de nós, da maneira como agimos e reagimos, em nosso encontro com Cristo. Esta narrativa, de certa forma, é a nossa biografia. Você sabe o que Marcos está realmente dizendo com a história de Bartimeu? Marcos está afirmando que você e eu somos cegos. Nos termos de Jesus, você e eu não podemos ver, pois vivemos em trevas.
A luz do sol penetra até 100 metros por dentro do mar, dali para frente, predominam trevas impenetráveis, nas chamadas profundezas abissais. As criaturas que nascem e vivem nestas regiões de trevas, em contato prolongado com a escuridão, tem o nervo ótico atrofiado e perdido para sempre. O contato com as trevas tem efeito devastador sobre a visão. A nossa situação é consideravelmente pior. Nascemos espiritualmente cegos e o contato permanente com a escuridão nos torna duas vezes criaturas das trevas. Você está surpreso? Não se surpreenda. Ser cego é provavelmente o que nós queremos. Ser cego, afinal, não é tão mal assim, porque quando somos cegos não podemos ver as coisas como elas realmente são. Em outras palavras, não somos “incomodados” pela visão. Na maioria das vezes, não queremos ver o que não gostamos de enfrentar. Portanto, é conveniente ser cego. É conveniente não ver a Deus e a sua vontade ou mesmo a nós próprios, sem as máscaras de que tanto gostamos.
Mas quando a nossa cegueira é curada começamos a ver as coisas que realmente não gostaríamos de ver. E aí já não podemos facilmente fugir delas ou pretender que elas não existam. Passamos a ver as coisas que não podíamos ver antes. Porque, afinal, Jesus disse que a menos que nasçamos de novo não poderemos “ver o Reino de Deus” (João 3:3). O Reino de Deus, nos lábios de Jesus Cristo, não é uma questão de geografia. Não é primeiramente um lugar, mas um relacionamento com a pessoa do Rei, que nos convoca para maior dedicação, maior pureza e maior integridade. A visão nos leva a um confronto inevitável com Deus, conosco e com as coisas enterradas nos porões de nossas trevas. É provavelmente por isto que a visão nos parece tão ameaçadora. Segundo a Bíblia: “e o julgamento é este: a luz veio ao mundo, e os homens amaram antes as trevas que a luz, porque as suas obras eram más” (João 3:19).
Blaise Pascal está correto ao afirmar que não é a incredulidade que gera a desobediência. Ao contrário, é a desobediência que gera a incredulidade. Frequentemente buscamos desacreditar a luz ou exageramos nossas dúvidas, simplesmente porque nos escusamos de qualquer mudança. A luz nos coloca face a face com nossos gostos, preferências, escolhas e hábitos. A visão nos leva ao confronto com a verdade de que há coisas para serem consertadas em nossa vida, família, trabalho e relacionamentos.
Em nosso encontro com Cristo, Ele nos faz a perturbadora pergunta: “Que queres que Eu te faça?” Considerando que Cristo nunca impõe Sua vontade, Ele nos pergunta se realmente queremos ver. A pergunta de Cristo a Bartimeu não é, afinal, tão estranha. A questão é realmente muito simples e compreensível, mas difícil de ser respondida. Muitos não querem se “desorientar”. Não querem “sentir a tonteira” daqueles que passam a ver. “Cair ou sentir dores no estômago”. Não queremos ver, porque não queremos pagar o preço da visão. O que realmente nos incomoda em Cristo não é, como muitos alegam, aquilo que não entendemos, mas precisamente aquilo que entendemos, mas não queremos mudar.
Ele pergunta: “Que queres que Eu te faça?” Muitos tendem a dizer: “Nada Senhor. Está tudo bem do jeito que está. Eu não enxergo, mas está tudo bem. Realmente não preciso de nada”. Essa é frequentemente a nossa resposta. Convivemos bem com as trevas. Rejeitamos a luz porque ela interfere com nossas ideias de liberdade. Queremos ser deixados em paz em nossas trevas. Não é de admirar que Jesus tenha, em outra ocasião, afirmado ter vindo ao mundo para juízo, a fim de que os que não veem, mas querem ver, vejam e os que pensam que veem, continuem cegos (João 9:39).
Assim, como Bartimeu, diante da possibilidade da visão, podemos ter outra atitude. “Mestre, abre-me os olhos, pra que eu veja. Eu sei que há um preço na visão. Eu sei que não vou gostar das coisas da luz. De ver as coisas sobre Deus e sobre mim, que tenho evitado há tempos. Coisas a respeito de outras pessoas que tenho usado e explorado. Mas Senhor, eu quero ir para a luz e poder ver. Porque, só então serei um discípulo dAquele que disse ser a luz do mundo. Mestre, abre-me os olhos!”
Quando era criança, costumava assentar na varanda de nossa casa, numa pequena fazenda no interior do Estado do Espírito Santo, para presenciar o espetáculo de uma noite tempestuosa. Eu gostava de ver o clarão dos relâmpagos iluminando as colinas ao redor de nossa casa, ou rio que corria precisamente a frente de enormes coqueiros. Em fração de segundos, o relâmpago iluminava a escuridão impenetrável. O relâmpago revelava a realidade do mundo ao meu redor. Então as trevas retornavam, mas depois do relâmpago, a escuridão já não era mais a mesma. Eu aprendi, então, que o relâmpago transforma a escuridão para sempre. Ele destrói para sempre a tirania das trevas.
Jesus Cristo entrou em nosso mundo. Sua presença, Sua vida, ministério, ensinos, e Sua morte e ressurreição foram o “relâmpago” da revelação de Deus nas nossas trevas. Aqueles que veem o Seu clarão, passam a experimentar a vida de forma diferente. Após nosso encontro com Jesus, as trevas ao nosso redor nunca mais serão as mesmas. Nosso vazio interior. Nossa falta de propósito e solidão. Nossa impotência diante das perplexidades e absurdos da vida e o próprio medo da morte terão sido mudados para sempre. Depois de Cristo, as trevas nunca mais serão as mesmas. Ele é como a luz do Sol. Não cremos nela apenas porque a vemos, mas porque através dela vemos todas as coisas.
Para ponderar
Segundo o testemunho das Escrituras, Satanás, o deus deste século, cega o entendimento das pessoas, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho (2Coríntios 4:4). Isso significa que desde a queda da raça humana, registrada em Gênesis 3, todas as pessoas que nasceram e vão nascer no planeta Terra, naturalmente são criaturas das trevas. Como Cristo disse, não podemos ver (João 3:3), pois Satanás cegou e ainda cega as pessoas de tal forma que elas não podem ver o que elas são na verdade. Somos incapazes de ver que nossa vida avança para o desastre.
Há ainda um aspecto mais deplorável na condição humana. Não apenas não vemos, mas nos tornamos acostumados com as trevas e passamos a crer que esta é a forma natural das coisas. Nos acostumamos de tal forma com nossas insanidades que o antinatural, se torna o natural. E. Stanley Jones conta que conheceu, na Índia, um homem que se acostumou a andar numa bicicleta de guidão torto, o qual se fosse endireitado, o homem cairia. Ele se tornou, segundo Jones, “naturalizado na tortura”. Para aqueles que são naturalizados na tortura do mundo, sua filosofia, gostos, opiniões, conselhos e estilo, além dos seus sedutores deuses contrafeitos que tanto gostamos de cultuar, como divindades absolutas (sexo, sucesso, dinheiro, poder e consumo), é impossível ver clara e corretamente. O realismo de Cristo se torna idealístico. De fato, o Seu realismo é simplesmente incompreensível e sem sentido para todos os que estão presos nas trevas da pequena concha em que vivem.
Visão espiritual é possível apenas através do novo nascimento (que não é primariamente o que Deus exige, mas o que Ele nos oferece), experiência na qual o Senhor restaura, ou melhor ainda, ressuscita em nós, aquilo que originalmente morreu no Éden (Gênesis 3:3). Cristo nos oferece visão, mas Ele não a impõe. Daí Sua pergunta a Bartimeu, que, em última análise, é um tipo da pergunta que Ele faz a todos nós: “Que queres que Eu te faça?” Cristo vem a nós como luz (João 4:4-5:9). Ele ilumina nossas trevas para que vejamos todas as nossas distorções, a feiúra do pecado e seu caráter destrutivo. Ele revela as riquezas de Sua glória, para que vejamos, afinal, que o pecado não é natural à nossa verdadeira essência como criaturas de Deus.
A visão que Cristo nos oferece, como a verdadeira luz (João 8:12), nos ajuda a ver o que realmente é importante, além de impedir que sejamos enganados com a ideia de que tudo está como deveria ser. Muitos podem estar satisfeitos nas trevas, enquanto outros estão satisfeitos na sua justiça própria, que, por ironia, é outro tipo de cegueira, talvez até mais difícil de ser curada. Nossa necessidade de visão espiritual cobre um enorme campo e aspectos da vida na medida em que avançamos em santificação. A visão, de certa forma, como a própria santificação, é gradativa. Não há ponto final nela, assim como é permanente o desafio de Cristo cada vez que Ele nos pergunta: “Que queres que Eu te faça?”
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Jesus Cristo Segundo o Evangelho de Marcos – “O Incomparável Jesus Cristo”, de Amin Rodor

Jesus Cristo segundo o evangelho de Marcos – capítulo 6
O Evangelho de Marcos, o menor dos quatro evangelhos, é por um bom número de intérpretes, com considerável grau de consenso, considerado o mais antigo dos evangelhos. Seu caráter dinâmico e de cenas rápidas, torna-o de fácil e agradável leitura. Os detalhes das narrativas provam-se um indispensável complemento na leitura dos demais evangelhos canônicos. A tradição relaciona o Evangelho de Marcos com um personagem e com um lugar: o personagem é o apóstolo Pedro, o lugar, Roma. Estes dois elementos exerceram forte impacto na formação e conteúdo do segundo evangelho, e no quadro de Cristo que emerge de suas páginas.
Escritores cristãos, já a partir do segundo século, concordam que Marcos esteve com Pedro em Roma na última parte da vida do apóstolo, e que registrou em sua narrativa as coisas que Pedro falou acerca de Jesus Cristo. Quer Marcos tenha escrito antes do martírio de Pedro (aproximadamente entre 65-68 d.C.) ou depois, não é certo; argumentos para as duas possibilidades frequentemente são mencionados. O que é certo, contudo, é que houve uma conexão entre os dois e que o Evangelho de Marcos é, em certa medida, o registro do testemunho de Pedro. Já no segundo século, Marcos é descrito por Papias, bispo de Hierápolis, numa referência de Eusébio, como o “intérprete de Pedro”. [Eusébio Cesareia menciona ainda que, depois da morte de Pedro “uma grande luz de piedade iluminou a mente dos ouvintes de Pedro, de modo que não lhes era suficiente ouvir uma voz sem receber o ensino escrito da proclamação divina, mas, com todo tipo de exortação, suplicaram a Marcos, cujo Evangelho temos que, como companheiro de Pedro, lhes deixasse um registro escrito dos ensinos que lhe foram dados verbalmente”. A identificação de Marcos com Pedro é ainda confirmada por Irineu e Clemente de Alexandria, também em referência de Eusébio. João Marcos é conhecido como assistente Pedro, Paulo e Barnabé (Atos 12:12, 25; 13:13; 15:37-39; 1Pedro 5:13; Filemom 24; Colossenses 4:10; 2Timóteo 4:11). Não ignoramos, contudo, que a conexão Petrina do evangelho de Marcos é negada por autores de orientação “liberal”. Pelo menos, parte das objeções tem que ver com a confiabilidade do testemunho de Papias, como registrado por Eusébio, visto como a única testemunha independente acerca do Evangelho de Marcos, como “as memórias de Pedro”].
Ao escrever, portanto, Marcos não está dependendo de suas reminiscências, mas narrando de primeira mão o testemunho apostólico. Assim, lendo o Evangelho de Marcos, estamos vendo Jesus, através dos olhos de Pedro. De fato, Clemente de Roma, um dos primitivos pais da Igreja, cita o Evangelho de Marcos, como “as memórias de Pedro”. Esta conexão entre Marcos e Pedro, contudo, não depende unicamente da tradição. Ela tem o endosso do Novo Testamento. Nas palavras do próprio Pedro: “A vossa co-eleita em Babilônia vos saúda, como também meu filho Marcos” (1Pedro 5:13).
Aqui, “Babilônia” é um pseudônimo para Roma, e a “co-eleita,” uma referência à igreja na cidade de Roma, de onde Pedro escreve sua epístola. Com ele, neste tempo da furiosa perseguição de Nero à igreja cristã em Roma, está Marcos, a quem Pedro se refere como seu “filho”. Esta é a forte evidência de que os dois estiveram juntos em Roma e que houve entre eles íntimo relacionamento espiritual. Eles haviam experimentado grande fracasso e partilharam da graça redentora de Deus.
Se, como geralmente crido, não muito tempo depois, Pedro sofreu o martírio, não é difícil entender porque Marcos escreveu o seu Evangelho. A voz do apóstolo havia sido silenciada, seu testemunho, entretanto, deveria continuar vivo. O Evangelho de Marcos é virtualmente o “Evangelho de Pedro”, uma vez que Marcos grandemente dependeu das informações do apóstolo. [Nesse caso poder-se-ia perguntar como funcionou o fenômeno da revelação, uma vez que não temos nenhuma referencia a “sonhos e visões,” do que, como comumente, julgamos depende toda revelação? Devemos lembrar que embora “toda Escritura é divinamente inspirada”, (2Timóteo 3:16), o que não significa que toda Escritura seja inspirada da mesma forma. O Evangelho de Lucas também não dependeu do modelo de “sonhos e visões”, como fontes de informação, mas, segundo o próprio Lucas, de uma investigação cuidadosa entre testemunhas oculares do ministério de Cristo (Lucas 1:1-4). Ellen White sugere, nestes casos, que o autor inspirado foi guiado pelo Espírito Santo, na busca e seleção das informações incluídas em sua narrativa].
Tal conclusão é apoiada por um número de fatores adicionais:
Primeiro: O ponto de início do evangelho. A narrativa começa praticamente no ponto de contato inicial de Pedro com Jesus, depois da referência ao ministério de João Batista e do batismo de Jesus (Marcos 1:14-45) e termina com a mensagem especial do anjo às mulheres na tumba vazia: “Ide, dizei aos discípulos e a Pedro, que Ele vai adiante de vós para a Galileia, lá o vereis como Ele vos disse” (Marcos 16:7).
Segundo: O Evangelho de Marcos está repleto de vívidas cenas de testemunho ocular. Marcos não poderia pessoalmente estar informado dos muitos detalhes que ele registra, considerando-se que ele mesmo não pertenceu ao grupo dos primitivos apóstolos. Ele deve ter obtido suas informações de alguém, que fazia parte do círculo íntimo de Jesus, o qual, posteriormente, relembrou o que ele havia presenciado. E quem melhor poderia desempenhar este papel para Marcos, do que Simão Pedro? Então, sob a ação do Espírito Santo, tais informações foram selecionadas e incluídas no Evangelho, de forma mais temática do que biográfica.
Terceiro: Talvez o mais significativo de todos os argumentos é o quadro de Pedro que encontramos neste Evangelho. Raramente Pedro é mencionado, exceto quando aparece sob luz negativa. Nenhuma tentativa é feita para desculpar suas falhas, ao contrário, aquelas cenas onde os outros evangelhos o apresentam como “herói,” em Marcos elas são totalmente omitidas, por quê? Provavelmente há apenas uma explicação: o envelhecido apóstolo, não toma nenhum tempo para falar de si. Sua atitude do passado, marcada por destemperos e confiança própria, é agora vista como envolvida numa aura de tristeza, sob outra perspectiva.
Marcos e sua audiência
O teor não judaico deste Evangelho, claramente indica que ele é escrito para cristãos gentios, provavelmente romanos. Marcos não faz qualquer referência à genealogia de Jesus, porque certamente isso não poderia interessar aos romanos, mas inclinados à ação. Jesus, portanto é descrito como um homem de ação e movimento, em cenas rápidas.
Jesus Cristo, aqui, é particularmente destacado em Sua humanidade. Homem de dores, que trilha o caminho do sofrimento. De fato, Ele é, sobretudo, visto como o Servo sofredor, sem que Isaías 53 seja jamais citado. Cristo realiza Seu papel como Redentor, através da cruz, e é precisamente na cruz que a maior revelação de Sua dignidade messiânica é feita. De fato, metade do Evangelho concentra-se nas cenas da última semana do ministério de Jesus. Para Marcos, tais cenas, ligadas ao tema da paixão de Cristo, tem caráter central em sua narrativa.
Por que tamanha concentração na oposição que Jesus enfrenta e nos sofrimentos aos quais Ele é submetido? Porque, certamente, Marcos está escrevendo para cristãos enfrentando severa perseguição, sob o do reinado de Nero, o feroz e insano imperador romano. Perseguição e morte pairam no ar. Marcos praticamente está afirmando aos cristãos que a senda que eles agora palmilham já foi anteriormente ungida e consagrada pelo Salvador. Jesus trilhou antes a vereda da dor e com os Seus pés suavizou os espinhos do caminho, absorvendo a dor maior para que nenhum discípulo se sinta sozinho e desamparado. Continua sendo verdade que, “Seus discípulos não podem chorar, sem que Ele sinta o gosto de sal nos lábios”. Como Walter W. Wessel escreve na introdução do seu comentário de Marcos: “A maneira como Marcos prepara seus leitores cristãos para o sofrimento é colocando diante deles a experiência da paixão de Jesus. O caminho de Cristo foi a via dolorosa. O caminho do discipulado para os cristãos é a mesma vereda – a vereda da cruz. Cerca de um terço do Evangelho de Marcos é devotado à morte de Jesus. E não apenas na paixão de Jesus, o tema do sofrimento é encontrado. Muitas outras referências veladas ocorrem em outras circunstâncias da vida de Jesus em Marcos”.
O Cristo compassivo e misericordioso
Claramente, em Marcos, Jesus exerce absoluta soberania sobre os demônios, a doença e a morte, mas isso não é tudo. Marcos não está apenas interessado no poder revelado em Cristo, como mera exibição de força. Provavelmente isso não apelaria aos seus leitores. Jesus é sobretudo o compassivo Cristo, divinamente humano, gracioso. Seu poder não aparece divorciado da compaixão e do amor. É extraordinário, em Marcos, o interesse de Jesus pelas pessoas. O sofrimento delas o comove profundamente. Ao contrario de Mateus, Marcos não registra muitos dos ensinos de Jesus. Enquanto encontramos aqui apenas quatro parábolas, abundam os milagres: cerca de vinte deles são relatados. Alguns com riqueza de detalhes. Não é de surpreender que Marcos seja conhecido como o “Evangelho mais da ação do que dos ensinos”.
De fato, grande parte do segundo evangelho é tomada para narrar as poderosas obras de Cristo em favor de pessoas desamparadas. Combinadas com os sumários de curas, estas unidades compreendem um terço do evangelho e quase metade dos primeiros dez capítulos. Tais quadros da autoridade de Jesus são importantes para Marcos, o qual apresenta Jesus como quem ensina com autoridade, mas tendo a chave de Sua autoridade em atos de compaixão, e não apenas em Seus pronunciamentos. (Jesus é constantemente descrito, em Marcos, como “enchendo-Se de compaixão” – ver 1:41; 6:34; 10:13-16).
O ministério de Jesus é sumarizado pela afirmação em Marcos 10:45, quando Ele ensina aos discípulos a colocarem o serviço por outros antes dos interesses pessoais. “E quem quiser ser o primeiro entre vós será servo de todos, pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a Sua vida em resgate por muitos” (Marcos 10:43-44). Ele próprio é o sumo exemplo de serviço. Ele é o Servo do Senhor por excelência. Aquele que coroa Seu ministério com o sacrifício. De fato, o próprio Evangelho de Marcos parece organizado em termos destes dois temas: “o Filho do Homem veio para servir” e “o Filho do Homem veio para dar Sua vida em resgate por muitos”. A primeira metade tratando com Suas ações em favor de pessoas em necessidade e a segunda tratando com o Seu sacrifício em favor da humanidade. Que afinal, formam um único tema.
Encontros
O capítulo 5 de Marcos registra narrativas de três quadros de milagres, exemplificando o tipo de evangelismo vivido por Cristo, o Evangelista Mestre. Ele Se misturava com as pessoas, identificando-Se com as suas necessidades e, interessado nelas, ministrando a elas, e depois, as desafiando a aceitar e a segui-Lo. A cura do endemoninhado geraseno (v. 1-20); a cura de uma mulher enferma de hemorragia (v. 5–34) e a ressurreição da filha de Jairo (v. 39-43) representa três encontros de Jesus com o desamparo da condição humana. Curiosamente, pelo menos em dois destes casos, o objeto de Seu interesse é de pessoas gentílicas, que, além disso, representavam a periferia de qualquer valor pragmático. Mas Jesus era o Mestre no interesse pelos “fragmentos”.
Jesus e o endemoninhado geraseno
Jesus cruza com os discípulos o Mar da Galileia, dirigindo-Se para o lado oriental. A distância entre uma margem e outra é de aproximadamente oito quilômetros mar adentro. O destino era chegar à região de Decápolis, habitada desde tempos imemoriais, em sua maior parte, por não judeus. Esta região está incluída na descrição de Mateus, citando as poéticas palavras de Isaías: “Terra de Zebulon, terra de Naftali, caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios, o povo que estava em trevas viu grande luz, e aos que estavam na região e sombra de morte, raiou-lhe grande luz” (Mateus 4:15-17).
Ao desembarcar, Jesus confronta-Se com este endemoninhado, vivendo entre os sepulcros, provavelmente, banido do convívio social. Tentativas para contê-lo são testemunhadas pelos pedaços de correntes partidas, pendendo de seus pulsos e pernas. A tradição judaica cria que os cemitérios, pântanos e desertos, eram as regiões habitadas pelos demônios.
“Saindo Ele do barco, saiu-Lhe ao encontro, dos sepulcros, um homem possesso de espírito imundo, o qual morava nos sepulcros, e nem ainda com cadeias o podia alguém prender. Pois tendo sido muitas vezes preso com grilhões e cadeias, se foram por ele feitas em pedaços, e os grilhões em migalhas e ninguém pode subjugá-lo. Andava sempre, de dia e de noite, clamando pelos montes, e pelos sepulcros, ferindo-se com pedras. Quando ele viu a Jesus de longe, correu e O adorou. Clamando em alta voz: que tenho eu contigo, Jesus filho do Deus Altíssimo? (Marcos 5:2-7)”.
Estes versos descrevem o estado mental do homem. Seus gritos acompanhados pelo comportamento autodestrutivo, vagando dia e noite em meio dos túmulos, são claros sinais de anormalidade. Juntos, estes versos apresentam as quatro características de insanidade ou possessão, como entendidas no judaísmo: a) correr sem destino, durante a noite; b) passar noites em cemitérios; c) rasgar as roupas, e, d) destruir o que fora utilizado nele. Que valor poderia alguém atribuir a uma criatura dessas? Mas é precisamente aqui que nós encontramos a suprema especialidade de Cristo: ver além das aparências, discernir além do nevoeiro das circunstâncias. “Quando ele O viu de longe, correu e O adorou”, acrescentando sua tentativa inútil de manter-se afastado: “que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus altíssimo?” As ações descritas nestas palavras, são as ações do demônio. Curiosamente, o homem não chega a formular nenhuma súplica explicita. Contudo, Jesus ouve o pedido de socorro do seu coração. O real inimigo à Sua frente já era um velho conhecido. Um colecionar de fracassos em encontros anteriores, e agora, prestes a enfrentar nova derrota.
O atormentador muda o seu papel e apela para que Jesus não o atormente, em evidente demonstração de submissão e reconhecimento da superioridade de Cristo. A sequência dos versos 8 e 9 parece invertida. Jesus ordena que o demônio deixe a sua vítima e então pergunta: “Qual o teu nome?” Encontramos no texto um significativo detalhe: o exorcismo antecede a formulação do nome. Entre os rabinos havia a crença de que para se ganhar poder sobre o demônio e autoridade para o exorcismo, era necessário conhecer-lhe o nome. Contudo, esta não é a razão de Jesus. O demônio já fora expulso. Ele pergunta o nome para estabelecer uma distinção entre a identidade do homem recuperado e as forças malignas que o oprimiram. Tão completamente tais forças o haviam assediado e possuído que o homem tornara-se incapaz de ver-se ou agir separado delas. Os espíritos imundos, finalmente, haviam se deparado com alguém maior, que se colocou como defensor desta pobre criatura.
Em resposta à pergunta de Jesus, sobre o seu nome, o demônio responde: “Legião […] pois somos muitos” (Marcos 5:9). Seria este um nome coletivo? A referência à legião relembra a presença de Roma, poder invasor e a submissão a um poder estrangeiro. Uma legião era composta de seis mil soldados, incluindo infantaria e cavalaria. No texto, provavelmente, temos apenas a indicação de uma força agregada, de enorme poder de domínio.
Os demônios novamente são descritos em papel subserviente, suplicando que Jesus lhes permita que tomem posse de uma manada de porcos que pastava nas redondezas (Marcos 5:11-12). “Jesus o permitiu. Saindo aqueles espíritos imundos, entraram nos porcos, e a manada (que era de cerca de dois mil), precipitou-se por um despenhadeiro no mar, onde se afogaram” (Marcos 5:13). Há na cena certa dose de humor. Imagine essas centenas de porcos correndo, em enorme alvoroço, sem destino, seguidos por seus guardadores, vestidos em trajes inadequados para um exercício desta natureza, também aos gritos e desesperados, buscando controlar a situação, mas sem saber exatamente o que está acontecendo. Cômico, se não fosse trágico.
Impedidos de exterminarem o homem, os emissários da destruição aniquilam os porcos, vividamente demonstrando a natureza destrutiva das forças malignas. Ao permitir a possessão dos porcos, Jesus confirma no antigo possesso Sua autoridade sobre Satanás, e a certeza de que algo havia sido feito por ele. Ao ver os demônios no destino escolhido, ele sabe que eles o haviam abandonado para sempre. Sua identidade, separada dos espíritos imundos é finalmente restaurada. Em outras palavras, Jesus desejou dar ao homem, e às possíveis pessoas ao redor, tangível evidência de que os demônios realmente haviam deixado a sua antiga vítima.
O endemoninhado geraseno, que no início da narrativa aparece nu e desfigurado, termina aos pés de Cristo, em plena posse de suas faculdades. Ellen White observa em comoventes palavras: “Maravilhosa mudança se operara no possesso. Fizera-se-lhe luz no cérebro. Brilharam-lhe os olhos de inteligência. A fisionomia, por tanto tempo mudada à semelhança de Satanás, tornara-se repentinamente branda, tranquilas as ensanguentadas mãos, e louvava alegremente a Deus por sua libertação” (O Desejado de Todas as Nações, cap. 35 – “Cala-te, aquieta-te”).
O homem que havia sido possesso desejou acompanhar Jesus (Marcos 5:18), uma reação natural. Ele desejava a companhia de Cristo, pois ninguém jamais lhe havia demonstrado tal interesse e compaixão. Mas o Senhor não permite, e em lugar disso, Ele lhe dá uma tarefa mais difícil. O ex-endemoninhado recebe uma comissão especial: “Vai para tua casa, para os teus, e anuncia-lhes quão grandes coisas o Senhor te fez e como teve misericórdia de ti” (v. 19). A expressão “tua casa” poderia aqui ser traduzida como “teu povo” ou “tua região”. Em obediência, “ele foi, e começou a anunciar em Decápolis quão grandes coisas Jesus lhe fizera. E todos se maravilhavam” (v. 20).
A ordem de Jesus, curiosamente, aparece em explícito contraste com a instrução dele ao leproso purificado, em Marcos 1:44 – “Não digas nada a ninguém”, ou mesmo à ordem dada no último verso de Marcos 5, depois da ressurreição da filha de Jairo (Marcos 5:43). Isso faz contraste com o tema comum em Marcos, conhecido como “o segredo messiânico”, no qual Jesus com frequência ordena silencio a respeito de Seus milagres. Provavelmente, porque, no caso da ordem ao ex-endemoninhado, Ele está em território gentio e, assim, havia pequena possibilidade de que circulassem sobre Ele as ideias messiânicas populares entre os judeus.
Dessa forma, a ex-vítima de espíritos malignos tornou-se o primeiro missionário cristão aos gentios. Decápolis, as cidades gregas do lado oriental do Jordão, organizadas no período selêucida, foram iluminadas pelo menos provável dos missionários. Esse pré-evangelismo preparou a região para a plena mensagem do evangelho, posterior à cruz. Marcos provavelmente considerou este incidente como a inauguração da missão aos gentios. Os estrangeiros de além do Jordão já haviam tido contato com Cristo (Marcos 3:8), mas agora é Cristo quem havia entrado em seu território, e especificamente comissionado um mensageiro para eles. O último verso da narrativa afirma que diante testemunho do ex-possesso, “todos se maravilhavam” (Marcos 5:20), o que descreve, não apenas a estupefação diante do milagre que ocorrera nele, mas “em resposta à sua pregação”.
Devemos, afinal, observar a extraordinária sequência da narrativa. Jesus cruza em noite tempestuosa os oito quilômetros que O separavam do endemoninhado geraseno. Depois de restaurar o antigo morador dos sepulcros e comissioná-lo, imediatamente Ele toma o barco e retorna à margem de onde veio, o lado ocidental (Marcos 5:21). Aparentemente, Jesus cruzou o mar da Galileia com um único propósito: libertar este pobre coitado, completamente abandonado à sua sorte, sem absolutamente qualquer esperança e, então, voltar. As implicações são absolutamente impressivas; um tipo de Sua visita à família humana, também dominada por forças aparentemente incontroláveis.
Jesus age em favor deste homem e, através dele, está dizendo a todos que se Deus fosse colocar uma etiqueta de preço em cada pessoa, não importa em que situação ela esteja vivendo, o número seria tão grande que não seríamos capazes de ler. Tal o valor atribuído a cada um de nós. Aqui encontramos o registro do Seu inequívoco interesse, pelo indivíduo, aflito, ferido, dominado por poderes invasores.
Curioso é que as cenas de exorcismo parecem de interesse particular para Marcos. O primeiro milagre registrado no segundo evangelho é, significantemente, um milagre de exorcismo (Marcos 1:21-28). Parece que Marcos viu nestas obras uma extraordinária demonstração do supremo poder do Salvador. Ele exerce domínio absoluto sobre os espíritos malignos. No mundo moderno buscamos explicar fenômenos espirituais em termos científicos, mas nem tudo o que está errado com a personalidade humana pode ser atribuída a dificuldades psicológicas, curáveis em termos médicos.
Em seu interesse pelos desamparados, Jesus demonstra que há poder disponível para a libertação das forças que oprimem e escravizam Suas criaturas. Ninguém está excluído de Sua poderosa oferta de verdadeira liberdade, a não ser aqueles que decidem se excluir. Como Calvino escreveu, “embora não sejamos torturados pelo diabo [o que é de se duvidar], ele, contudo, nos retêm como escravos, até que o Filho de Deus nos liberte de sua tirania. Nus e desfigurados, vagamos sem rumo até que Ele nos restaure a sanidade da nossa mente”.
A mulher enferma
De volta para banda ocidental do lago, Jesus depara-se com o pedido de Jairo, “um dos principais da sinagoga”. Provavelmente um leigo, com responsabilidades administrativas na sinagoga local. Jairo certamente ouviu falar acerca de Jesus e acreditou que Ele poderia salvar sua filha. Sua necessidade é urgente. Na presença de Cristo, ele se despe de toda a dignidade e orgulho, cai aos pés do Senhor: “Vendo-O, prostrou-se aos Seus pés, e rogava-Lhe muito: minha filha está à morte. Rogo-Te que venhas e lhe imponhas as mãos para que sare, e viva” (Marcos 5:22-23).
Marcos não registra nenhuma resposta oral de Jesus ao pedido de Jairo. Aqui Jesus não fala, Ele age: “Pelo que Jesus foi com ele” (Marcos 5:24). O texto acrescenta que uma “grande multidão O seguia, comprimindo-O” (Marcos 5:24). Provavelmente curiosos que O acompanhavam, e provavelmente atrasavam Sua caminhada.
No meio da multidão, contudo, encontra-se alguém cujo destino seria mudado para sempre por esta aparente demora de Cristo. O contraponto na história é de extraordinária beleza. Representantes da tradição cristã sugerem que Jesus providencialmente interpôs uma demora propositada. No texto bíblico lemos que:
“Certa mulher, que havia doze anos tinha uma hemorragia, e que havia padecido muito à mão de vários médicos, e despendido tudo o que tinha sem contudo nada aproveitar, pelo contrário, indo a pior, ouvindo falar de Jesus, veio por detrás, entre a multidão, e tocou na Sua veste. Dizia ela: Se tão somente tocar nas Suas vestes sararei” (Marcos 5:25-28).
Eusébio registraria, mais tarde, a tradição a respeito desta mulher gentílica, sofrendo de uma hemorragia crônica, da qual nenhum médico conseguira libertá-la, em doze anos de gastos e buscas. Os rabinos tinham as mais absurdas  e ridículas receitas para a cura do fluxo de sangue. O rabi Jochanan sugeria uma série de alternativas para cura, todas elas terminando com o invariável refrão, “mas se falhar”. E invariavelmente cada uma das prescrições falhava. Segundo William Barcklay: “O Talmude oferece nada menos do que onze curas para tal problema. Algumas delas compostas de tônicos e chás; mas outras de pura superstição, como carregar as cinzas de um ovo de avestruz em um trapo de linho, no verão, ou em um trapo de algodão no inverno; ou carregar uma haste de milho, encontrada nos excrementos de uma jumenta branca”.
Não nos surpreende que também, segundo Lucas, esta mulher “gastara com os médicos todos os seus haveres, e por nenhum pudera ser curada” (Lucas 8:43). Além de fraca, tímida, exaurida das forças por este mal crônico, contudo, era a própria natureza da enfermidade que a deprimia e a deixava insegura. O fluxo de sangue não apenas a tornava cerimonialmente impura (ver Levítico 15:25), mas tornava-se imundo quem tocasse nela (Levítico 15:27). A doença tinha, assim, um terrível caráter embaraçoso. Um fardo emocional grandemente constrangedor para qualquer mulher na cultura judaica do primeiro século. Provavelmente ela se sentia profundamente envergonhada para expressar o seu pedido verbalmente na presença de outros, ou mesmo para dirigir-se a este Rabi, com este tipo de necessidade. Mas ali estava a grande oportunidade da sua vida. A providência divina a havia colocado na presença do grande Médico.
Ela, como Marcos nos informa, ouvira falar do jovem Pregador da Galileia. Ignorante e supersticiosa, pensava: “Se eu apenas tocar a orla de Sua veste” (Lucas 8:44). Segundo o livro de Levítico, a orla do manto era marcada por um cordão azul, símbolo da identidade de um israelita, membro do povo do concerto. Ela se aproxima por trás, determinada a tocar o manto de Cristo. Certamente não na parte mais conveniente, mas a mais sagrada. Prostrada, estende a mão e toca a orla do manto de Jesus. Contudo, não foi um toque casual. No capítulo “O toque da fé”, do livro “O Desejado de Todas as Nações”, Ellen White afirma que “quando Jesus ia passando, ela avançou, conseguido tocar-Lhe de leve, na orla do vestido. No mesmo instante, todavia sentiu que estava sã. Concentra-se naquele único toque e, num momento, a doença e a fraqueza deram lugar ao vigor da perfeita saúde”.
O contato foi feito e o resultado imediato é cura e gozo. A conduta de Jesus, na narrativa que segue, registrada em detalhes, é simplesmente extraordinária. Tal relato aparece como um encorajamento, a quem quer que seja, onde o Evangelho for pregado: “Voltou-Se na multidão, e perguntou: Quem tocou nas Minhas vestes?” (Marcos 5:30). Jesus desconhece completamente a ideia moderna da “exclusão digital”. Ninguém é excluído. Ele reconhece a todos, cada um é notado e perfeitamente incluído no círculo de Sua graça. “Quem Me tocou?” A pergunta parece absurda para os discípulos, que tentam dissuadi-Lo, quase irritados: “Vês que a multidão Te aperta, e dizes: quem Me tocou?” (Marcos 5:31). Para eles qualquer toque ali seria considerado natural. Mas a sensibilidade espiritual de Cristo não permitiria qualquer confusão. E “olhava ao redor, para ver quem isto fizera” (Marcos 5:32). A mulher, então, começa a se sentir aterrorizada. Ela pensou ter roubado uma benção sem permissão, e poderia, além de ser punida por isso, ser exposta. O propósito de Cristo, contudo, não era repreender ou expor, mas fazer contato pessoal, pois ela precisava saber que fora a fé, não uma crença supersticiosa ou alguma mágica, que fora a causa de sua cura.
A surpresa é ainda maior diante da brandura de Cristo ao confirmar a benção. Jesus queria que ela soubesse que fora pessoalmente notada. Então, não podendo esconder o que lhe tinha acontecido, “temendo e tremendo, aproximou-se, prostrou-se diante dEle, e declarou-lhe toda a verdade” (Marcos 5:33). Isso certamente deve ter-lhe exigido grande coragem, considerando-se a noção de sua impureza cerimonial. Jesus dirige-Se a ela brandamente: “Filha”. A forma de tratamento não poderia ser mais compassiva e doce. Esta é a única ocorrência da palavra nos evangelhos. “Filha, a tua fé te salvou. Vai em paz, e sê curada deste teu mal” (Marcos 5:34).
A expressão “vá em paz”, fórmula tradicional ligada à riqueza da palavra hebraica “shalom”, significa mais que libertação da ansiedade interior. Inclui a plenitude da vida que entra em relacionamento correto com Deus. Aqui, tanto a cura física e salvação teológica convergem. A última afirmação de Jesus à mulher (“sê livre do seu sofrimento”) é a confirmação final da benção que Ele lhe trouxera e a certeza de que a cura é irreversível, porque Jesus não está no negócio de “primeiros socorros”.
De acordo com a tradição, registrada por Eusébio de Cesareia, em sua “História Eclesiástica”, esta mulher, anônima nos evangelhos, chamava-se Verônica. Ela teria, posteriormente, se erguido em defesa de Cristo em Seu julgamento perante o Sinédrio e Lhe enxugado a face no caminho do Calvário, num lenço que recebeu a impressão do Seu rosto. Ou, ainda, segundo a tradição, ela teria construído um memorial a Jesus em sua cidade, na Cesareia de Felipe. Essas, contudo, são referencias que não podem ser provadas, mas servem como indicadoras de que sua fé foi grandemente apreciada entre os cristãos primitivos. O que realmente temos nesta narrativa é o enorme tributo de Jesus às pessoas que se sentem em necessidade, perdidas na multidão. Como então, Ele continua hoje atribuindo infinito valor a cada pessoa. “Você conta. Você é importante. Você é infinitamente valioso”. Ele queria que a fé desta mulher servisse de exemplo e estimulo a cada pessoa nos limites de suas possibilidades, porque é precisamente aí que se iniciam as inesgotáveis possibilidades de Deus. Deus trabalha melhor nas trevas, nas nossas trevas. Jesus desejou que a mulher enferma do fluxo de sangue levasse consigo, além da cura física, o permanente gozo de saber que ela tinha sido pessoalmente reconhecida. Na cena final da narrativa, Jesus está essencialmente dizendo a ela: “Não foi você quem Me tocou. Fui Eu quem tocou você”.
A ressurreição da filha de Jairo
Os últimos versos do capítulo 5 do Evangelho de Marcos narram o terceiro encontro, tratando da ressurreição da filha de Jairo. Enquanto Jesus ainda conversava com a mulher curada da hemorragia, chega a informação de que a menina havia morrido (Marcos 5:35). Uma vez que a morte é final, eles aconselham a Jairo a não incomodar mais a Jesus.
Jesus, contudo, ignorando a notícia e age com a naturalidade de quem tem pleno controle das circunstâncias. Em palavras de encorajamento, Ele diz: “Não temas, crê somente” (Marcos 5:35). “Não temas”: expressão comum nos lábios divinos, como uma fórmula usada quando Deus Se manifesta. Fórmula comum nas teofanias (ver Gênesis 15:1; 21:17; 26:24; 46:3; Juízes 6:23; Daniel 10:12 e 19). No entanto, mais que um encorajamento ao desalentado pai, a fórmula aqui é uma chave acerca de quem Jesus realmente é. Jairo é convidado a desviar o olhar das circunstâncias e fixá-lo naquele que pode mudar as circunstâncias. Ele havia crido que Jesus poderia curar a sua filha enferma, agora ele é chamado para exercer fé muito maior.
Jairo em nenhum momento tenta dissuadir Jesus de reassumir a jornada para o leito de morte da sua filha. Ao chegar ao destino, Jesus presencia o alvoroço dos que choravam e pranteavam (Marcos 5:37). “Por que vos alvoroçais e chorais? A menina não está morta, mas dorme” (Marcos 5:39), afirmação que provoca risos incrédulos e escárnios na audiência (Marcos 5:40), que não entendem as Suas palavras. Nas Escrituras a “morte” é apenas um “sono”, contudo não é da doutrina do estado dos mortos que Jesus está falando aqui. A morte da filha de Jairo não era final, uma vez que Ele Se havia determinado trazê-la de volta à vida, por isto Jesus pode referir-Se à tragédia da morte em termos de um sono.
A falta de sensibilidade da ruidosa multidão a desqualifica para presenciar o grandioso milagre que está para acontecer. Jesus escolhe os Seus discípulos mais íntimos, Pedro Tiago, além dos pais da menina, e despede a multidão. Apenas estes são permitidos entrar no quarto onde a criança está deitada.
Jesus provara Seu invencível poder diante dos demônios, da enfermidade incurável. Agora, o reino messiânico, presente em Cristo, está para subverter todas as antigas categorias, demonstrando superior à própria morte. Deliberadamente, Ele toma a mão da garota e lhe fala em aramaico, a língua que dominava a Palestina do primeiro século e, provavelmente, a língua que Ele próprio normalmente falava: “Talita cumi”, frase traduzida por Marcos, para benefício dos seus leitores gentios: “Menina, Eu te ordeno: levanta-te” (Marcos 5:41). Segundo a lei do Antigo Testamento, como mencionado acima, um corpo morto era impuro e contaminava qualquer pessoa que o tocasse (Números 19:11,16, ver Levítico 15:27). Mas, em lugar de tornar Jesus impuro, o Seu toque comunica vida. Em Marcos, a menina levanta-se imediatamente e começa a andar (Marcos 5:43). Os grilhões da morte estão partidos, como uma poderosa antecipação microcósmica da escatologia bíblica. Na Sua presença, a morte torna-se, de fato, apenas um “sono”. Lucas observa que “o espírito voltou a ela” (Lucas 8:55). “Espírito” aqui não é nada mais que o “fôlego de vida”, precisamente aquilo que fora acrescentado ao corpo, na criação (Gênesis 2:7), aquilo que se separa do corpo na morte (Eclesiastes 12:7).
No último texto da narrativa (Marcos 5:43), Jesus dá duas ordens às testemunhas do assombroso milagre. Primeiro, que evitassem publicidade desnecessária. Em Marcos, Sua identidade messiânica, plenamente revelada na cruz, ainda deveria ser mantida, nos limites possíveis, em segredo. A segunda ordem foi que dessem à menina algo para comer – belíssima evidência de Sua preocupação com as necessidades ordinárias da vida humana.
Para ponderar
Os três casos descritos em Marcos 5 têm pelo menos dois elementos comuns:
Primeiro: O objeto das três narrativas (a do endemoninhado, a da mulher enferma do fluxo de sangue e a da ressurreição da filha de Jairo) diz respeito à impureza cerimonial: contato com túmulo; contato com sangue e contato com cadáver. Para os judeus, ninguém podia tocar nestes símbolos de deterioração, destruição e morte. Quem o fizesse tornava-se impuro imediatamente. Jesus, contudo, Se eleva acima dos tabus do cerimonialismo e os reverte. Em Ageu 2:10-19, os sacerdotes consultados pela pergunta retórica do profeta anunciam o princípio de que o santo é menos “contagioso” do que o impuro. Enquanto a santidade não pode ser passada de um objeto ou pessoa para outra, a impureza pode. Jesus, entretanto, reverte essa compreensão comum. É Ele quem comunica purificação e cura, sem ser contaminado pelas fontes da impureza.
Segundo: Todos os três casos constituíam situações além de qualquer esperança humana. Quanto ao endemoninhado, “ninguém podia detê-lo”. Marcos 5:13 oferece o testemunho da enorme vantagem numérica dos demônios, em combate com Cristo. Mas tal vantagem é apenas aparente, diante do Seu soberano poder. Neste caso, a cura do possesso não é, primariamente, resultado da fé do endemoninhado em Cristo, mas da misericórdia do Salvador (Marcos 5:15).
No caso da mulher enferma, o texto demonstra a natureza incurável do seu mal. Ela gastara todos os seus recursos sem que ninguém pudesse ajudá-la. Jesus percebe o seu toque em meio à multidão que O aperta. Curiosamente, Jesus associa a cura da mulher com salvação (Marcos 5:34). Este significado é reforçado pela palavra “paz”, que tem clara conexão com a salvação e inteireza de cura, de acordo com o uso do termo no Antigo Testamento. Dirigindo-se a ela como “filha”, Jesus a inclui na família messiânica formada por aqueles que encontram nEle o caminho para Deus e, com isso, são colocados dentro da órbita da salvação.
Finalmente, a menina morta, o extremo de todas as desesperanças, que aparentemente a coloca além do poder de Jesus. Como anteriormente, porém, a própria morte não é um obstáculo para a Sua soberana pessoa, que, com o toque e a palavra, a restaura à vida.
Devemos ter em mente que essas não são, primariamente, histórias a respeito do endemoninhado, da mulher enferma ou da filha de Jairo. Elas são histórias a respeito de Cristo, do Seu poder e de Sua graça. Os elementos dessas histórias fornecem um quadro dAquele que opera pelo próprio poder de Deus, não como um profeta, mas como o próprio Deus. Todos aqueles que O ouvem e O buscam são transformados. Eles experimentam os dons da nova era, da qual Cristo é o representante. Sobretudo: salvação e plenitude de vida.
Tais histórias, nas quais Jesus manifesta Sua suprema soberania sobre todos os emissários da destruição, dão testemunho da Sua incomparável pessoa. Tais histórias contêm fortes sugestões para aqueles que leem hoje acerca de quem Jesus Cristo realmente é. Até o momento da cruz, como visto no livro de Marcos, más percepções acerca dEle eram possíveis, como aconteceu com os próprios discípulos. Para os que vivem depois da cruz e ressurreição, esta possibilidade fica dentro do reino da incredulidade voluntária. Já não há mais segredo a respeito dEle. NEle, todos os medos humanos podem ser transformados em confiança, certeza e esperança. O próprio medo da morte pode, afinal, ser vencido, como Ele um dia conquistará a morte de forma plena, final e para toda a humanidade.
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