Comentário da Lição da Escola Sabatina – Lição 11 – Os eleitos – Ligado na Videira – 9 a 16 de dezembro de 2017

Comentário da Lição – Ligado na Videira – Lição 11

(09/12) – Sábado – Introdução.

Sempre usei a parte de sábado para fazer uma introdução. Dessa vez vou fazer diferente. A introdução será no domingo, quase que partindo para as considerações gerais. No entanto, para hoje, vou simplesmente colocar um texto do Espírito de Profecia, desejando que toque o coração dos irmãos leitores, e contribua para uma reflexão que transforme a sua vida, e sirva para “esquentar as turbinas” para o belo estudo que teremos nesta nova semana.

O texto é esse:

“Os temas da redenção são momentosos, e somente os que têm inclinação para as coisas espirituais podem discernir-lhes a profundeza e o significado. Demorar-nos sobre as verdades do plano da salvação constitui nossa segurança, nossa vida, nossa alegria. É necessário fé e oração para contemplarmos as profundas coisas de Deus. Nosso espírito acha-se tão preso a ideias tacanhas que só temos visões restritas da experiência que é nosso privilégio desfrutar. Quão pouco compreendemos acerca do significado da oração do apóstolo, ao dizer ele: ‘Para que, segundo a riqueza da Sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o Seu Espírito no homem interior; e assim habite Cristo nos vossos corações, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus. Ora, Àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos, ou pensamos, conforme o Seu poder que opera em nós, a Ele seja a glória, na igreja em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!’ (Efésios 3:16 a 21)” (Fundamentos da Educação Cristã, pág. 180).

Irmãos, Deus nos abençoe. Oremos uns pelos outros. Somos os eleitos do Senhor! Oremos também pela atividade missionária. Igreja não é monumento. Igreja é movimento! Vamos pedir que Deus nos faça Seus trabalhadores, pois a seara está madura.

A pessoa mais feliz no mundo é a mais envolvida em servir a outros. A pessoa mais infeliz é aquela que está mais envolvida em servir ao eu“. Leia sobre isso. Clique aqui.

(10/12) – Domingo – Cristo e a Lei

A justificação pelas “obras” ignorava algumas coisas. Dentre elas, a que mais estudamos até agora, o fato de que a lei cerimonial foi estabelecida por Deus para que os israelitas aprendessem a respeito do Salvador vindouro, mas ela em si não era a salvadora dos pecadores. O mesmo em relação a Lei de Deus. Devia ser obedecida, mas essa obediência não fazia do obediente um “merecedor” da salvação. Não há obra humana que faça de Deus um devedor ao ser humano. Não há uma obra humana que promova o homem diante de Deus.

Paulo, então, numa tentativa de segurar os ventos do “legalismo”, explicou para a igreja de Roma que a salvação se dava só, única e exclusivamente pela graça de Deus – pelo precioso sangue de Jesus Cristo – pelo que foi realizado por Cristo na cruz do Calvário.

Disse ele que “o fim da lei é Cristo” (Romanos 10:4). Que a finalidade da lei era mostrar Cristo. Que a lei indicava que o Messias seria o Salvador da humanidade. Apontava para Cristo.

Irmãos, esse ensinamento de Paulo não era novidade alguma. Desde o Jardim do Éden (primeiramente a Adão e Eva), a humanidade foi ensinada, através da cerimônia da morte de um animal inocente, que essa cerimônia não era a sua salvadora, mas apontava para o Salvador vindo da parte de Deus. Os patriarcas sabiam disso!

Bem, o inimigo trabalhou de tal forma entre os israelitas que eles acabaram não enxergando através das cerimônias a solução divina, até que, finalmente, Cristo veio, e eles não O receberam. E como o inimigo não é preguiçoso, continuou seu trabalho de engano, só que, agora, entre os cristãos, dizendo que a salvação por Cristo significava que a lei havia sido extinta – ou seja, que Cristo era o fim a lei – que Ele finalizou a lei – e, sendo assim, obedecê-la não seria mais necessário. Ou seja, o inimigo ensinou uma interpretação errada, e os cristãos adotaram o erro.

Além dessas considerações, a Lição aproveita a oportunidade para reforçar o seguinte: “Devemos manter diante de nós a santidade de Deus”. Dessa forma – somente dessa forma – veremos a real condição de nossa natureza. É assim que deixaremos de pretender possuir justiça própria. Olhar mais e unicamente a santidade de Deus!

Cristo é o fim da Lei para justiça, mas não o fim da Lei“. Leia sobre isso. Clique aqui.

(11/12) – Segunda – A eleição da graça

Paulo é ciente de que Abraão havia recebido um presente duplo de Deus: a bênção de ser o pai de uma grande nação, da qual nasceria o Messias, e a responsabilidade de preparar as outras nações para receber o Messias. Ou seja, a bênção de ser bênção aos outros.

Bem, no raciocínio de Paulo, os israelitas (como nação) se afastaram dessa responsabilidade. Perderam o sentido da missão. Deixaram de ser evangelizadores. Então, no capítulo 9, quando disse: “Nem todo Israel é, de fato, israelita” – estava como que dizendo: “Os israelitas que não aceitam o duplo presente (a bênção e a responsabilidade) estão assinando sua própria rejeição”. Como povo, não aceitavam o Messias da bênção, e não aceitavam a missão de evangelizar o mundo – portanto – passaram a ser rejeitados.

No capítulo 10, o apóstolo continua com a mesma linha de raciocínio, até que, com ele, chegamos ao capítulo 11, onde faz a seguinte pergunta: “Terá Deus, porventura, rejeitado o Seu povo?” – “A rejeição é uma iniciativa da parte de Deus?” A resposta vem na sequência: “De modo nenhum!… Deus não rejeitou o Seu povo… Sobrevive um remanescente, segundo a eleição da graça”.

Irmãos, Paulo não perguntou se havia ou não rejeição. Havia! A pergunta era se Deus é quem estava rejeitando Israel.

Bem, a salvação sempre foi individual. Deus não salva em grupo. Cada pessoa tem que tomar sua própria decisão em favor de Cristo. Judeu ou gentio, todos são alvo da salvação. Todos foram eleitos pela graça. Portanto, a rejeição que Paulo reconhece que havia, tinha sido originada pelo próprio povo de Israel – mas isso não tinha nada a ver com a salvação individual do israelita. A rejeição era a respeito da missão, da função, da responsabilidade. Já que eles mesmos, como povo, recusaram o método divino de salvação e se negavam a evangelizar o mundo, o evangelho seria levado para outras pessoas por outros meios. Deus estava aceitando a recusa deles, mas não estava deixando de dar oportunidade para que os outros Seus filhos fossem alcançados pelo evangelho.

Também em Romanos 11, dos versos 7 a 10, mais uma vez se fala em “endurecimento”, como se Deus tivesse dado “espírito de entorpecimento, olhos para não ver e ouvidos para não ouvir”.

Na semana passada (terça 05/12) já havíamos explicado isso, através do que aconteceu com Esaú e com o faraó das pragas do Egito. Vale a pena dar uma olhadinha naquele comentário (clique aqui). “Na Bíblia, às vezes, Deus é representado por fazer o que não impede” – “Muitas vezes, a Bíblia representa aquilo que Deus permite como se fosse algo feito diretamente por Ele” (Comentário Bíblico Adventista, vol. 6, págs. 646 e 648).

Nunca poderemos ser como Jesus foi, mas podemos agir como Jesus agia“. Leia sobre isso. Clique aqui.

(12/11) – Terça – O ramo natural

Para a Lição de hoje, Paulo usa como ilustração a “oliveira”. Interessante é que ele transita entre a recusa dos israelitas, e o remanescente, e o cuidado que os cristãos devem ter para não cair no mesmo erro dos israelitas rejeitados.

O tronco/raiz é Deus – que permanece para sempre. Os ramos são os israelitas e os gentios. Os ramos naturais e os ramos enxertados. Nenhum é melhor que o outro. Ambos dependem do tronco, da raiz. Se os naturais foram arrancados, que os enxertados se cuidem!

Bem, o israelita que permaneceu fiel, ou aquele que se arrependeu e voltou, bem como o gentio recém converso, todos pertencem ao remanescente de Deus. São o povo de Deus.

Nessa ilustração, está sendo explicado que a salvação não está no ramo, mas no tronco, na raiz. Os frutos que os ramos produzirão não servirão para obter salvação, mas serão resultados da salvação concedida pela raiz.

E aproveitamos para formular a seguinte pergunta: Pode um ramo ligado em Deus não produzir fruto? Ligado em Deus, pode um ramo ser estéril?

Deus jamais Se separará de nós. Mas podemos decidir separar-nos dEle“. Leia sobre isso. Clique aqui.

(13/11) – Quarta – Todo o Israel será salvo

Sabemos que a responsabilidade de Israel era “israelizar” o mundo. Pela conversão dos outros povos, as fronteiras de Israel seriam alargadas. Todos seriam Israel.

Nos versos de hoje, Paulo fala da “plenitude dos gentios”. Isso significa que a obra evangelística que os judeus não cumpriram estava sendo cumprida pelo cristianismo. Os gentios conversos fariam a obra de evangelizar todo o mundo – e isso incluía a evangelização dos próprios judeus.

Porém, isso não significa que todos serão salvos. Apenas indica que a salvação continua à disposição de todo aquele que a aceita. E aquele que a aceita fará parte do remanescente de Israel. É nesse sentido que “todo o Israel [que aceitar Jesus Cristo] será salvo”.

Paulo desejava ardentemente que os judeus fossem salvos. Ou pelo menos alguns deles.

“Há uma poderosa obra a ser feita no mundo. O Senhor declarou que os gentios serão recolhidos, e não somente os gentios, mas os judeus. Há entre os judeus muitos que serão convertidos e por meio de quem veremos a salvação de Deus sair como lâmpada ardente. Há judeus por toda parte, e a eles deve ser levada a luz da verdade presente. Há entre eles muitos que virão para a luz, e que proclamarão a imutabilidade da lei de Deus com admirável poder” (Evangelismo, pág. 578).

Vitória não é algo que efetuamos. É algo que recebemos“. Leia sobre isso. Clique aqui.

(14/11) – Quinta – A salvação dos pecadores

Em Profetas e Reis (capítulo 59 – “A casa de Israel”), falando da volta de Jesus, Ellen White conclui um parágrafo com essas palavras: “É então que o redimido dentre os homens receberá sua prometida herança. Assim o propósito de Deus para Israel encontrará literal cumprimento. Aquilo que Deus propõe, o homem é impotente para anular. Mesmo em meio à operação do mal, o propósito de Deus tem prosseguido firmemente em direção do seu cumprimento”.

Que texto maravilhoso! O que Deus prometeu a Abraão será cumprido! Os salvos são o Israel de Deus!

Bem, finalizando Romanos 11, Paulo escreve um dos textos mais lindos da Bíblia. Quem não sublinhou ou não pintou esses versos, que trate de fazê-lo:

Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o Seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a Ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dEle, e por meio dEle, e para Ele são todas as coisas. A Ele, pois, a glória eternamente. Amém!

Os cristãos devem saber que têm a garantia da salvação hoje“. Leia sobre isso. Clique aqui.

(15/11) – Sexta – Conclusão.

“A vida de Cristo estava imbuída da divina mensagem do amor de Deus, e anelava intensamente transmitir esse amor aos outros, em abundante medida. O Seu semblante irradiava compaixão e Sua conduta caracterizava-se pela graça, humildade, verdade e amor. Todo membro de Sua igreja militante deve manifestar as mesmas qualidades, se deseja fazer parte da igreja triunfante. O amor de Cristo é tão amplo, tão cheio de glória, que em comparação com ele, tudo o que os homens consideram grande se reduz a uma insignificância. Quando obtemos uma visão a seu respeito, exclamamos: Ó profundidade das riquezas do amor que Deus conferiu aos homens na dádiva de Seu Filho unigênito!

Ao procurarmos descrever o amor de Deus em linguagem apropriada, notamos que as palavras são demasiado insípidas, demasiado débeis e muito abaixo do assunto, e depomos a pena e dizemos: ‘Não, não é possível descrevê-lo’. Só podemos fazer o mesmo que o discípulo amado, dizendo: ‘Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, ao ponto de sermos chamados filhos de Deus’. Ao fazer qualquer tentativa para descrever esse amor, sentimo-nos como bebês balbuciando suas primeiras palavras. Podemos adorar em silêncio; pois nesta questão só o silêncio é eloquência. Toda e qualquer linguagem é inadequada para descrever esse amor. Ele é o mistério de Deus na carne, Deus em Cristo e a divindade na humanidade. Cristo curvou-Se em inigualável humildade a fim de que, em Sua elevação ao trono de Deus, pudesse elevar os que nEle creem a um lugar com Ele em Seu trono. Todos os que olham a Jesus com fé para que nEle sejam curadas as feridas e contusões causadas pelo pecado, serão restaurados” (Fundamentos da Educação Cristã, págs. 179 e 180).

A Bíblia ensina que uma vez salvo, sempre salvo, enquanto se permanece salvo“. Leia sobre isso. Clique aqui.

Lição da Escola Sabatina 2017 – Comentário feito por Carlos Bitencourt

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Interpretação Bíblica – Wilson Endruveit (Parte 1) – Edificação

I – EDIFICAÇÃO – ALVO

O “ministério” adventista está baseado na Palavra de Deus. Embora o ministério adventista compreenda vários aspectos e não deva ser considerado como consistindo unicamente da “pregação”, não resta dúvida que ele alcança a sua expressão máxima na pregação da Palavra de Deus.

Se esta é a natureza do ministério adventista, então uma das considerações mais importantes do ministério adventista deva ser o uso correto da Palavra de Deus. Paulo admoesta Timóteo a manejar bem a Palavra de Deus (2Timóteo 2:15). Um pecado fundamental dos falsos ministros é que eles abusam da Palavra de Deus (2Coríntios 2:17).

A preocupação principal no uso correto da Palavra de Deus é a sua interpretação apropriada. E a disciplina teológica que tem como alvo a interpretação apropriada das Escrituras é a “exegese” ou “hermenêutica”. Portanto, uma boa exegese ou hermenêutica é a aspiração do ministro da Palavra de Deus.

Hermenêutica bíblica é o estudo dos princípios que se referem à interpretação das Escrituras. A hermenêutica bíblica pode ser dividida em “geral” e “especial”. A hermenêutica geral trata dos princípios que se aplicam à Bíblia toda, e a hermenêutica especial trata de princípios que se aplicam as partes literárias da Bíblia, tais como, profecias, parábolas, etc.

Exegese e pregação estão intimamente relacionados. A pregação nasce pela exegese. Na exegese o pregador se concentra no “significado do texto”. Ele não está primariamente interessado na aplicação do significado do texto para os dias de hoje. Na pregação, o ministro está interessado na aplicação e relevância do texto para hoje. Exegese sem aplicação é acadêmica; e pregação sem exegese é superficial ou errônea.

Bíblia, exegese e pregação formam uma série continua. A Bíblia é a fonte e a norma da pregação; exegese é a averiguação científica do significado do texto; e, pregação é a proclamação relevante do significado do texto à congregação. A Bíblia é a Palavra de Deus escrita; exegese é a Palavra de Deus compreendida; e pregação é a Palavra de Deus feita relevante ao tempo e lugar.

Não pode haver separação entre exegese e pregação. Um dos principais propósitos da Bíblia é produzir um efeito espiritual na vida daquele que a lê (2Timóteo 3:15 e 16). Isto quer dizer que o alvo de toda a interpretação é produzir resultados espirituais nos ouvintes. A simples exegese ou interpretação não é suficiente. Ela não é um fim, mas um meio. Seu uso deve fazer mais do que desenvolver o significado correto do texto; deve desenvolver um relacionamento correto com Deus.

Se a Palavra de Deus é o centro do ministério, então o ministro deve tratar o seu texto exegeticamente antes de tratá-lo homileticamente. E se ele deseja ser um exegeta responsável, então ele deve ter uma teoria certa sobre a hermenêutica bíblica.

Apostila: Interpretação Bíblica, de Wilson Endruveit, 1982. Então professor no Seminário Adventista Latino-americano de Teologia (SP). Disciplina: Interpretação de Romanos.

Leitura adicional sugerida:

Uma Visão Adventista Teocêntrica da Verdade“, de Alberto Timm – clique aqui.

 

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Interpretação Bíblica – Wilson Endruveit (Parte 2) – Princípios Gerais Especiais Para as Escrituras

II – PRINCÍPIOS GERAIS ESPECIAIS PARA AS ESCRITURAS

Sob certos pontos de vista, a Bíblia é igual a outra literatura. Ela é escrita em linguagem comum (humana); ela usa formas literárias típicas; ela trata de assuntos da experiência comum; e muito de sua história se relaciona com as outras histórias. Em todos estes assuntos que a Bíblia tem em comum com outra literatura, a Bíblia pode ser interpretada como a outra literatura. Mas as Sagradas Escrituras têm certos aspectos peculiares que exigem princípios gerais especiais de interpretação se quisermos fazer justiça à interpretação das Escrituras.

1. O FATOR ESPIRITUAL

Não há nenhuma qualificação “espiritual” necessária para compreender as obras dos clássicos. Entretanto, o requisito espiritual é central na interpretação das Escrituras. A Bíblia, sendo um Livro espiritual, exige do seu intérprete um mínimo de qualificação espiritual que não é exigido do intérprete dos clássicos.

Foi Paulo que observou que a Palavra de Deus é espiritual e, portanto, somente podia ser compreendida espiritualmente (1Coríntios 2:10 e 14).

Há dois aspectos a serem considerados quanto à espiritualidade da Palavra de Deus. Deus atua no homem através do Espírito Santo, que ilumina-lhe a mente e testifica-lhe a veracidade das verdades divinas. Mas o homem sobre quem o Espírito Santo atua deve ser um participante do Espírito na regeneração. As Escrituras serão mais provavelmente entendidas quando alguém convertido permite ao Espírito Santo iluminar-lhe a mente ao interpretar as Escrituras. Porém, dependência do Espírito não é substituto para o estudo.

Há os que procuram um critério exegético totalmente objetivo ou científico, e a função do Espírito Santo na exegese é rejeitada como subjetivismo ou pietismo. Mas, convém lembrar a estes que nenhum erudito em outras áreas está completamente livre de disposição subjetiva, e completamente livre de disposição emocional ou cultural. Não se pode negar a influência do Espírito Santo sobre o intérprete e consequentemente sobre sua exegese, mesmo que não seja possível explicar a ação do Espírito. A obra do Espírito Santo, embora intangível, pode ser mais real do que todos os princípios científicos aplicados ao texto.

2. O SOBRENATURAL NAS ESCRITURAS

O ministro adventista aceita o relato sobrenatural no texto. Desde o tempo do estabelecimento da ciência moderna e da filosofia moderna, o erudito secular tem rejeitado o supernaturalismo cristão. Para ele, Deus deixou de ser pessoal e transcendente, para se tornar numa força impessoal que permeia toda a natureza e nela age por leis imanentes. Desde o século 18, muitos teólogos têm defendido a mesma posição.

Em resultado disso, todo o relato sobrenatural das Escrituras é rejeitado sob alegação de que, em culturas pré-criticismo, o sobrenatural está em tudo. Portanto, afirmam eles, não é de admirar-se que o aspecto sobrenatural abunde nas Escrituras, pois elas foram escritas nos tempos pré-criticismo. O relato sobrenatural nas Escrituras é tratado como em qualquer documento antigo que relata um acontecimento sobrenatural.

O ministro adventista crê que há uma diferença radical entre o relato sobrenatural da Bíblia e de outra literatura. Quando confrontado com o sobrenatural no texto bíblico, ele o aceita como um importante elemento da revelação bíblica.

3. A UNIDADE DA BÍBLIA

A revelação progressiva defendida pelos protestantes leva à pratica de enfatizar a diversidade entre os Testamentos, a tal ponto de destruir a unidade entre eles. Segundo eles, há uma progressão (avanço) nas Escrituras, e a não ser que este princípio de desenvolvimento seja reconhecido, não haverá uma clara exegese das Escrituras.

Revelação progressiva significa que Deus toma o homem onde Ele o encontra, com suas noções a respeito de Deus, com os seus princípios éticos, e procura desenvolvê-lo mais e mais. Revelação significa também que, ao chegarmos no Novo Testamento, os propósitos de Deus tornam-se mais claros e mais plenos. Inclui o desenvolvimento da ideia sobre Deus, a purificação dos ideais éticos, a espiritualização do culto, e progresso na redenção divina. É por causa da revelação progressiva, dizem eles, que a Igreja encontrou a revelação plena, sua doutrina suprema de Deus, seu clímax da revelação, e seus finais imperativos éticos no Novo Testamento, e não no Velho Testamento.

A revelação progressiva significa duas coisas ao intérprete. Se houver qualquer tensão entre a mais velha revelação (Velho Testamento) e a mais nova (Novo Testamento), a mais velha deve dar lugar a mais nova. Embora, o Velho Testamento contenha material ético importante, a teologia cristã deve conscientemente construir suas formulações éticas finais do Novo Testamento. Além disso, significa que não há uma uniformidade de importância nas Escrituras. O lugar de um texto nas Escrituras determinará o método da exegese e o peso teológico que se atribuirá a ele.

O ministro adventista aceita a unidade “dentro” dos Testamentos e “entre” os Testamentos. Esta unidade é aceita devido à sua origem comum em Deus, em Jesus Cristo, e na inspiração do Espírito Santo. Ambos os Testamentos formam um todo inseparável, um dependendo do outro e um iluminando o outro.

4. O PRINCÍPIO DE “SÓ A BÍBLIA”

Este princípio insiste no fato de que só as Escrituras são a norma de caráter e de fé, e, exclui toda autoridade humana. Ele se baseia no reconhecimento da inspiração da Bíblia, da sua unidade e canonicidade.

Quanto aos escritos de Ellen White, o ministro adventista aceita o fato do Espírito Santo tê-los inspirado da mesma maneira que inspirou os profetas bíblicos. Contudo, eles não substituem a Bíblia, nem são qualquer acréscimo às Escrituras. Os escritos de Ellen White têm um papel subordinado ao da Bíblia e visam dar uma compreensão mais clara dela, exaltá-la, atrair a mente do povo para ela, chamar a atenção para verdades negligenciadas, fixar verdades inspiradas já reveladas.

Em virtude dos escritos de Ellen White serem um comentário inspirado sobre a Bíblia, e explicarem a sua aplicação à vida, o ministro adventista afirma que eles têm uma autoridade superior a de outros escritos, excetuando unicamente a Bíblia. Eles são para ele uma fonte constante de informação e orientação na interpretação bíblica.

5. A BÍBLIA COMO A SUA PRÓPRIA INTERPRETE

Isto significa que a Escritura “toda” interpreta “parte” da Escritura e, consequentemente, nenhuma “parte” das Escrituras pode ser interpretada de tal maneira que venha deformar o ensino da Escritura “toda”. Em outras palavras este princípio quer dizer que a Escritura toda é o contexto e guia para a compreensão de passagens isoladas da Escritura. Assim, passagens secundárias ou obscuras não podem ser usadas como pilares da verdade.

Este princípio também tem sido chamado de “círculo hermenêutico”. A Escritura toda pode ser aprendida somente pela interpretação de parte por parte. Contudo, nenhuma parte pode estar isolada do todo. De maneira que o intérprete deve seguir o círculo: da parte ao todo e do todo à parte.

O princípio de auto interpretação da Escritura foi usado por Jesus (Lucas 24:27), recomendado por Paulo (1Coríntios 2:13) e Pedro (2Pedro 1:20). Ellen White repete insistentemente o fato de que a Bíblia explica-se por si mesma – “A Bíblia explica-se por si mesma. Textos devem ser comparados com textos. O estudante deve aprender a ver a Palavra como um todo, e, bem assim, a relação de suas partes” (Educação, pág. 189).

6. A ANALOGIA DA FÉ

Usa-se este conceito de “analogia da fé” para exprimir a ideia da constante e perpétua harmonia da Escritura nos pontos fundamentais de fé e prática, deduzidos daquelas passagens onde eles são discutidos pelos autores inspirados de maneira direta ou explícita, e em linguagem clara, plena e inteligível.

A suposição básica aqui é de que há uma cadeia de verdades na Escritura e, por isso, todas as doutrinas devem estar combinadas, ou estar ligadas uma a outra. Isto quer dizer que a interpretação de passagens específicas não pode contradizer o ensino geral da Escritura sobre um ponto. É o mesmo que dizer que a Escritura interpreta a si mesma. Também sobrepõe-se ao princípio da unidade da Escritura.

Apostila: Interpretação Bíblica, de Wilson Endruveit, 1982. Então professor no Seminário Adventista Latino-americano de Teologia (SP). Disciplina: Interpretação de Romanos.

 

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Interpretação Bíblica – Wilson Endruveit (Parte 3.1) – Princípios Gerais de Interpretação – O Princípio do Contexto

III. PRINCÍPIOS GERAIS DE INTERPRETAÇÃO

1. O PRINCÍPIO DO CONTEXTO

Há porções da Escritura em que o contexto não fornece nenhuma ajuda ao intérprete para chegar ao significado. Mas, de um modo geral, o contexto deve ser rigorosamente considerado.

A. A primazia do contexto:

A negligência do contexto é uma das causas comuns da interpretação errônea e da aplicação irrelevante. O contexto é básico porque força o intérprete a examinar a total linha de pensamento do escritor. O contexto é importante porque o pensamento é geralmente expresso numa série de ideias relacionadas. Às vezes, a pessoa muda radicalmente o seu pensamento da direção que vinha vindo. Outras vezes os pensamentos estão ligados vagamente por um tema geral. Mas mesmo nesses casos, o significado é quase sempre controlado pelo que precede e pelo que segue.

B. Variedades de situações de contexto:

(1) Contexto imediato.

A primeira responsabilidade de cada intérprete é notar cuidadosamente o que precede e o que segue qualquer palavra, verso, ou unidade maior a qual ele esteja interpretando. Isto implica em voltar ou adiantar dois ou três parágrafos. A divisão de capítulos nem sempre serve como linha divisória. Talvez seja preciso, retroceder-se ou adiantar-se um capítulo para se obter o contexto verdadeiro.

Procurando observar o que precede e o que segue uma palavra, texto, ou unidades maiores, o intérprete terá uma oportunidade melhor para ver o que o escritor estava procurando transmitir aos seus leitores.

(2) Contexto no mesmo livro.

Material paralelo pode ser encontrado no mesmo livro. Material paralelo significa as palavras ou ideias idênticas num contexto diferente ao que se está estudando. Quando o paralelo é encontrado em outro lugar do mesmo livro, deve-se estar atento para ver se a apresentação mais completa do assunto nos diferentes contextos ajuda a esclarecer o significado em qualquer um dos contextos.

(3) Contexto em outros livros (a Bíblia como um todo).

Material paralelo em outros livros, embora de autores diferentes, espera-se que tenham alguma semelhança de significado. Isto é especialmente verdade nas Escrituras, pelo fato dos vários autores serem membros da mesma comunidade e guiados pelo Espírito Santo.

Este tipo de estudo comparativo de contexto exige um trabalho árduo e cuidadoso. Mas é compensador. Necessário é também dar uma palavra de alerta. Na busca do significado de palavras ou ideais idênticas pelo método comparativo de contexto, o intérprete não deve presumir que a fé e a prática bíblicas sejam idênticas às das culturas adjacentes. Um escritor bíblico pode empregar palavras ou ideias usadas por estas culturas e religiões adjacentes, dando-lhes, porém, um significado típico à compreensão e fé bíblicas e um novo significado estranho ao pensamento não hebraico. Outras vezes as culturas adjacentes podem ter sido influenciadas pelo pensamento hebraico, mas, usam conceitos hebraicos com novos significados ou degenerados.

O significado de palavras ou expressões emprestadas pelo escritor bíblico será determinado pelo contexto bíblico.

(4) Ausência de contexto.

Muito de Provérbios e Eclesiastes consiste de unidades individuais que são completos em si mesmos. Nos Evangelhos encontramos declarações de Jesus cujo contexto imediato não ajuda muito o intérprete. O contexto imediato não lhe fornece a informação que lhe daria uma compreensão mais profunda do significado (Lucas 12:49 a 59).

Neste caso, onde o contexto imediato é de pouco ou nenhum valor, o intérprete deve procurar paralelos genuínos do mesmo período ou do mesmo tempo. Exemplo: A parábola do rico e Lázaro.

C. Resumo de “O PRINCÍPIO DO CONTEXTO”:

Para que o intérprete possa fazer uso apropriado do contexto, ele deve conhecer o conteúdo bíblico. Resumidamente, o princípio do contexto significa:

(1) Observar cuidadosamente o contexto imediato – aquele que precede e segue a palavra ou passagem em estudo.

(2) Observar cuidadosamente, no mesmo livro, a existência de material paralelo ao que se está interpretando. O intérprete deve estar atento ao propósito e desenvolvimento do pensamento no livro.

(3) Observar cuidadosamente qualquer material paralelo no outro livro pelo mesmo autor, ou em outros livros de autores diferentes. Deve ser considerado o propósito e desenvolvimento do pensamento nesses livros.

(4) Onde o contexto imediato é de pouco ou nenhum valor, deve o intérprete procurar paralelos genuínos do mesmo período ou do mesmo tempo.

(5) Deve-se ter em mente que, quanto menor a quantidade de material a ser interpretado, maior é o perigo de se ignorar o contexto. Nenhuma máxima é mais conhecida e mais desobedecida do que esta: “Um texto sem contexto é apenas um pretexto”.

Apostila: Interpretação Bíblica, de Wilson Endruveit, 1982. Então professor no Seminário Adventista Latino-americano de Teologia (SP). Disciplina: Interpretação de Romanos.

Leitura adicional sugerida:

A Bíblia – Sugestões para a sua leitura“, de Pedro Apolinário – clique aqui.

O hábito da leitura da Bíblia“, de Pedro Apolinário – clique aqui.

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Interpretação Bíblica – Wilson Endruveit (Parte 3.2) – Princípios Gerais de Interpretação – O Princípio Filológico

III. PRINCÍPIOS GERAIS DE INTERPRETAÇÃO

2. O PRINCÍPIO FILOLÓGICO (INTERPRETAÇÃO GRAMATICAL)

O método filológico consiste no estudo técnico e comparativo das palavras. É usado aqui como sinônimo de linguística. É também chamado, às vezes, de método gramático ou gramático-histórico, e inclui, além de linguística, história, cultura adjacente e criticismo literário. Não estamos usando-o neste sentido.

O intérprete pode proceder de duas maneiras. Ele pode iniciar com a frase (sentença), com a expressão do pensamento do autor como um todo, e então prosseguir para os pormenores, para a interpretação de palavras e conceitos separadamente. Ou, ele pode começar com o estudo de palavras em separado e prosseguir a considerar a frase, o pensamento como um todo.

Seguiremos a última ordem por motivos práticos.

A. Estudo de palavras:

A hermenêutica geralmente começa com o estudo de palavras porque a palavra é o menor elemento de comunicação. E ao estudar a palavra, estuda-se primeiro o seu significado literal. Este é um princípio fundamental de exegese: tomar a palavra sempre no sentido literal, a menos que haja indicações bastante claras para fazer o contrário.

As palavras podem ser estudadas de várias maneiras:

(1) Palavras podem ser estudadas “etimologicamente”.

Isto significa que o intérprete procurará compreender os componentes que formam a palavra. A palavra pode ter prefixos, sufixos e, outras vezes, ela é resultado de uma combinação de palavras. A palavra “bispo” é derivada de “episkopos”. É uma combinação de “epi” (“sobre”) e “skopeo” (“olhar”). Daí significar “supervisor”, “superintendente”.

A análise etimológica das palavras é de valor limitado, e não é aconselhável que o intérprete se dedique muito em investigações etimológicas.

(2) Palavras podem ser estudadas comparativamente.

Mais importante do que o significado etimológico é descobrir o sentido em que o autor bíblico usou a palavra. Embora seja difícil a tarefa, o intérprete pode consegui-la pelo método “indutivo”:

(a) averiguar, com o auxílio de concordâncias, onde é encontrada a palavra.

(b) determinar o significado da palavra em cada instância onde ela ocorre. Exemplos: as palavras “alma” e “espírito”.

Outro aspecto de estudo comparativo de palavras é o estudo de sinônimos e antônimos. Ao notar que palavra o escritor considera como um sinônimo ou antônimo para outra palavra, dá ao intérprete uma dica sobre que significado o escritor atribui à primeira palavra.

O estudo dos quatro Evangelhos, do ponto de vista de expressões sinônimas, é muito compensador. Dentre muitos exemplos, citaremos três: Mateus 20:21 e Marcos 10:37 – “em Seu reino” e “em Sua glória” são usadas como sinônimos. Igualmente, as expressões “reino de Deus” e “reino dos Céus”, em Mateus 19:23 e 24; e “entrares na vida” e “entrar no reino de Deus”, em Mateus 18:9 e Marcos 9:47, são expressões que significam a mesma coisa. (Ver “Ordem cronológica de Mateus, Marcos, Lucas e João” – clique aqui).

(3) Palavras podem ser estudadas historicamente (usus loquendi).

No estudo de palavras isoladas, o mais importante não é o seu significado etimológico, nem os vários significados que ela adquiriu gradualmente. O essencial é o seu significado na sequência em que elas ocorrem num determinado texto. O intérprete deverá determinar se as palavras são usadas no seu sentido geral ou especial, se no sentido literal ou figurado. O contexto no qual a palavra é usada deve determinar o sentido dela.

O estudo histórico de palavras sempre inclui pesquisa em línguas cognatas e em grandes versões antigas do Velho e do Novo Testamento. Temos um exemplo clássico deste tipo de pesquisa no famoso “Theological Dictionary of the New Testament”, de Kittel. Uma palavra é estudada no seu uso do grego clássico; depois no hebraico bíblico; depois na Septuaginta; depois no período interbíblico, com especial referência ao aramaico; depois, de maneira extensa, no grego do Novo Testamento; e, em alguns casos, na literatura patrística antiga.

Aqui vai uma palavra de alerta. O estudo de palavras idênticas em outras línguas exige uma cuidadosa discriminação, e nem sempre ajuda o intérprete a fixar o exato significado de uma palavra bíblica, pois palavras correspondentes, em línguas diferentes, nem sempre tem exatamente a mesma origem e significados. Além disso, não é seguro sempre concluir do significado de uma palavra no grego clássico o seu significado no Novo Testamento, pois, em muitos casos, o cristianismo tem dado às palavras um novo conteúdo. E isto também diz respeito ao Velho Testamento.

É preciso cuidado para não se ler, no conteúdo bíblico, o conteúdo de cultura e religiões não-bíblicas, pois isso resultará, inevitavelmente, em distorções e erros de interpretação. Isto pode ser evitado pela investigação minuciosa das semelhanças e diferenças que existem em palavras idênticas das línguas bíblicas e cognatas. E é o contexto bíblico que irá determinar qual o novo conteúdo do significado da palavra nos escritos bíblicos.

Seria irreal esperar de um pastor distrital fazer uma pesquisa extensa em palavras bíblicas nas línguas originais. Mas há coisas que ele pode fazer para compensar isto. Ele pode desenvolver um gosto por palavras bíblicas traduzidas ao português, ou inglês, e fazer uso de dicionários. Ele pode usar léxicos que classificam a maioria dos usos (significados) das palavras hebraicas e gregas.

B. O estudo de frases (sentenças):

O estudo de palavras é útil, mas limitado. Por isso, da interpretação de palavras isoladas, o intérprete prossegue ao de palavras em seu relacionamento mútuo, ou o pensamento. Sintaxe é um estudo do relacionamento das palavras, frases e cláusulas. A compreensão do relacionamento das palavras, frases e cláusulas afeta a compreensão do pensamento. De maneira que o intérprete precisa conhecer as categorias de sintaxe para penetrar mais fundo no pensamento do texto.

Não é possível e nem necessário discutir aqui a gramática das línguas bíblicas. Mas apenas destacar:

(1) O intérprete da Bíblia deve ter à sua disposição gramáticas anotadas para consulta.

(2) O intérprete deve ter um conhecimento dos elementos básicos de sintaxe: substantivos, verbos, cláusulas, e etc.

(3) O estudo de frases envolve atenção estrita ao contexto.

(a) O contexto de qualquer passagem bíblica é a Escritura toda.

(b) O segundo contexto de qualquer passagem é o Testamento onde ela se encontra.

(c) O terceiro contexto de qualquer passagem é o Livro onde ela se encontra.

(d) O quarto contexto de qualquer passagem é o material imediatamente antes dela e imediatamente depois dela.

(4) O estudo de frases leva em conta os paralelismos.

Este princípio é quase o mesmo que o estudo de palavras sinônimas. Apenas trata com porções maiores. Os paralelismos podem ser:

(a) Verbais: Neste caso, há uma concordância de expressões onde o conteúdo ou a ideia é a mesma em dois textos. Por exemplo, estudar todas as passagens que contêm a ideia do “Filho do Homem”, ou examinar todos os textos em que Paulo usa a ideia de “sarx” (carne).

(b) Conceituais (assuntos; temas): Os conceitos são idênticos nos textos e não necessariamente nas palavras. Romanos 3 e Hebreus 10, ambos discutem a expiação. Apocalipse 20 e 1Coríntios 15 tratam do mesmo assunto da ressurreição dos mortos.

(c) Complementares: Para ter a visão completa, quando dois ou mais Livros bíblicos descrevem os mesmos eventos, o intérprete precisa primeiro comparar estes relatórios paralelos. Exemplo: Jesus humano e divino.

(5) O estudo de frases considera as expressões idiomáticas e as figuras de linguagem.

(6) O estudo de séries de frases ou unidades literárias considera ainda, segundo muitos interpretes, os elementos históricos e culturais, e o criticismo da forma literária. Não é do nosso interesse discutir aqui a metodologia do “form geschichte”, hoje tão amplamente aplicada nos estudos do Novo e Velho Testamento pelos liberais.

Apostila: Interpretação Bíblica, de Wilson Endruveit, 1982. Então professor no Seminário Adventista Latino-americano de Teologia (SP). Disciplina: Interpretação de Romanos.

Leitura adicional sugerida:

Explicação de Textos Difíceis da Bília: Alma e Espírito“, de Pedro Apolinário – clique aqui.

Corpo, Alma e Espírito – Nós Somos Tricotomistas, Dicotomistas ou Holísticos?“, de Pedro Apolinário – clique aqui.

O que significa ‘Jesus, o Filho de Deus?“, de Ángel Manuel Rodriguez – clique aqui.

Explicação de Textos Difíceis da Bíblia: Jesus – Filho de Deus e Filho do Homem“, de Pedro Apolinário – clique aqui.

 

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Interpretação Bíblica – Wilson Endruveit (Parte 3.3) – Princípios Gerais de Interpretação – O Princípio Histórico

III. PRINCÍPIOS GERAIS DE INTERPRETAÇÃO

3. PRINCÍPIO HISTÓRICO (INTERPRETAÇÃO HISTÓRICA)

Embora a interpretação gramatical e a histórica estejam intimamente relacionadas e não possam ser completamente separadas, é desejável separá-las neste estudo.

Interpretação histórica, segundo é entendido aqui, não deve ser confundida com o método histórico-crítico de interpretação usado pelos liberais. O termo aqui é usado para significar o estudo das Escrituras à luz daquelas circunstâncias históricas que põem o seu selo nos diferentes livros da Bíblia. Para diferenciar da interpretação gramatical que se refere ao estudo das línguas originais da Bíblia, a interpretação histórica se ocupa com os elementos histórico-culturais do texto, tais como: referências a pessoas, acontecimentos, costumes sociais, assuntos de geografia (cidades, rios, montanhas, etc), flora e fauna. Inclui também a tentativa de recompor o contexto político-social do passado, a compreensão dos autores, seus livros e ouvintes da época.

A. O autor:

Na interpretação histórica de um livro, é natural que se pergunte antes de tudo sobre o autor do livro. Porém, o interesse desta indagação não consiste na descoberta do nome do autor, e, sim, na busca de uma familiaridade com o autor, isto é, um interesse de conhecer sua personalidade, seu pensamento, etc.

A melhor maneira de se compreender os escritores bíblicos é através do estudo diligente dos seus escritos. Aquele que deseja conhecer Moisés, deve estudar o Pentatêuco, especialmente os últimos quatro Livros. Para conhecer Paulo será necessário ler a sua história, conforme descrita por Lucas em Atos, e também estudar suas Epístolas.

A familiaridade com o autor do Livro irá facilitar a compreensão apropriada do Livro.

B. Circunstâncias históricas do autor:

Em seu esforço para compreender a mensagem do autor, o intérprete deve familiarizar-se com as circunstâncias históricas em que viveu o autor. Elas são de caráter geral, mas são essenciais para se obter o conhecimento do ambiente cultural da época, sem o qual a interpretação será prejudicada. As circunstâncias políticas, sociais e religiosas devem ser objeto de estudo do intérprete.

C. Circunstâncias peculiares aos Livros:

Além das circunstâncias gerais da vida do autor, há outras mais de caráter especial que influíram os seus escritos diretamente. Interpretação apropriada dos Livros, naturalmente, requer que se dê importância a eles.

(1) Os leitores e ouvintes originais.

Para uma interpretação apropriada de um livro é de importância saber para quem ele foi dirigido. A condição dos leitores não somente determina o caráter geral do livro, como também explica muitas de suas particularidades. A familiaridade com os leitores originais iluminará, muitas vezes, as páginas de um livro.

(2) O propósito do autor.

É importante também saber o motivo que levou o escritor bíblico a escrever o Livro. Quais os propósitos do autor em escrever o Livro? Por que foi ele escrito?

D. Outros elementos básicos:

(1) O intérprete deve estudar a geografia bíblica. O intérprete precisa conhecer as informações sobre montanhas, rios, planícies, colheita, flora, fauna, estações e clima. Não é preciso elaborar este ponto, mas, apenas salientar que cada evento na Escritura tem o seu local geográfico.

(2) O Intérprete precisa estudar a história bíblica.

Cada evento na Escritura não só tem uma referência geográfica como também uma referência histórica.

(3) O intérprete deve estudar a cultura bíblica.

A palavra “cultura” é aqui empregada no sentido estritamente antropológico. Os antropologistas dividem a cultura de um povo em “cultura material” e “cultura social”. A cultura material refere-se às coisas: ferramentas, objetos, armas, casas, vestes, etc. A cultura social refere-se aos costumes, práticas, ritos, etc.

Exemplos de cultura material: Atos 1:13 (subiram ao cenáculo – sala superior); João 13:23 e 24 (móveis para reclinar); Mateus 6:30 (o pão era feito sobre bandejas com ervas); Mateus 25:1 a 13 (as lâmpadas).

E. Resumo de “PRINCÍPIO HISTÓRICO”:

Os principais recursos para a interpretação histórica da Escritura são encontrados na Escritura mesma. Distinta de todas as outras fontes, a Escritura contém a verdade, e, por isso, a sua informação merece a preferência. Este lembrete não é supérfluo em vista do fato de que muitos hoje estão inclinados a dar mais crédito aos autores seculares do que a Palavra de Deus. O consciencioso e reverente intérprete verá em primeiro lugar o que a Bíblia tem a dizer.

Novamente deve-se concordar que é impossível para o pastor distrital pesquisar sobre todos estes assuntos apresentados até aqui. O melhor recurso para ele são os “Comentários”. Um bom comentário preocupa-se com todas as coisas que mencionamos aqui. Dar-lhe-á uma introdução ao Livro, discutirá as palavras de maior importância e detalhes vitais de gramática. Também lhe fornecerá um bom material histórico. Contudo, devem ser usados com discrição. O leitor, ao consultá-los, não pode supor que são infalíveis e corretos em tudo. Uma avaliação da qualidade dos comentários exige uma grande habilidade e muito conhecimento técnico. Muito cuidado deve ele ter ao consultar os comentários escritos nos moldes da metodologia liberal. Talvez, melhor seria não perder tempo no manuseio de tais comentários. Por que não buscar, antes de todos os outros, os comentários dos livros do Espírito de Profecia sobre as mensagens da Bíblia?

Apostila: Interpretação Bíblica, de Wilson Endruveit, 1982. Então professor no Seminário Adventista Latino-americano de Teologia (SP). Disciplina: Interpretação de Romanos.

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Interpretação Bíblica – Wilson Endruveit (Parte 3.4) – Princípios Gerais de Interpretação – O Princípio Doutrinário

III. PRINCÍPIOS GERAIS DE INTERPRETAÇÃO

4. O PRINCÍPIO DOUTRINÁRIO (INTERPRETAÇÃO TEOLÓGICA)

A interpretação doutrinária começa onde a interpretação gramatical termina. O princípio ou interpretação doutrinária é caracterizado por:

(1) Uma extensão do significado gramatical para descobrir o significado mais completo da Escritura.

(2) Um apanhado de todos os dados bíblicos sobre um determinado assunto.

A justificação para a interpretação doutrinária é o reclamo da Escritura de ser a revelação de Deus. Se houve uma revelação de proposições (Deus Se revelando a Si mesmo, coisas, ensinos), como cremos, então a interpretação doutrinária (ou interpretação teológica) é possível. A crença na revelação genuína de Deus na Escritura, então, leva-nos a crer na possibilidade da interpretação doutrinária da Escritura.

O Senhor Jesus Cristo destacou o ensino como um dos grandes itens da Sua comissão (Mateus 28:19 e 20). Ele mesmo foi, no Seu ministério, um pregador de doutrinas. O povo maravilhava-se de Sua doutrina (Mateus 7:28). Ele alegava ser a Sua doutrina de Deus (João 7:16 e 17).

Paulo fala de se obedecer de coração à doutrina (Romanos 6:17) e adverte contra as falsas doutrinas (Efésios 4:14). Ele aconselha Timóteo a cuidar da sã doutrina. E faz pelo menos doze referências à doutrina nas Cartas a Timóteo. Em 2Timóteo 3:16 e 17, o primeiro benefício da Escritura mencionado é ensino (doutrina).

Doutrina dá à fé cristã a forma e o conteúdo. Os princípios que governam os estudos doutrinários da Escritura são:

A. O intérprete ou teólogo deve ter experimentado o novo nascimento e permanecer no círculo da revelação divina:

Ele vai à Escritura não como um especulador religioso, mas, como um homem sério, reverente e interessado no mais profundo significado da revelação. Ele procura, através do estudo da Bíblia, um relacionamento pessoal com Deus. A interpretação doutrinária deve ser empreendida dentro deste círculo de fé e entrega, e não como uma investigação objetiva, abstrata e impessoal.

B. O intérprete considera a Bíblia como uma unidade e procura entendê-la como um todo:

O objetivo supremo da interpretação bíblica é não somente compreender as palavras, frases, o Livro, mas também compreender o propósito e a vontade de Deus na Bíblia como um todo. E a primeira pergunta que confronta o intérprete diz respeito ao relacionamento dos Testamentos.

(1) A relação entre o Velho e o Novo Testamento.

Pelo fato da tendência de enfatizar a descontinuidade entre os testamentos que leva a se conceber o Velho Testamento como inferior ao Novo Testamento, não é supérfluo chamar-se a atenção para o fato de que eles devem ser interpretados como uma unidade. Deus é o autor de ambos. Ambos contêm a mesma doutrina de salvação, pregam o mesmo Cristo e exigem do homem os mesmos deveres religiosos e éticos. Por isso, afirmamos que o Velho e Novo Testamento constituem uma unidade, e estão tão intimamente relacionados um ao outro que o Novo não pode ser compreendido sem o Velho, e nem o Velho pode ser completamente compreendido sem o Novo.

Apenas quando for conhecida e mantida esta relação recíproca entre os Testamentos, quando o Velho e o Novo forem vistos como um todo inseparável de igual importância, é que o intérprete poderá compreender a profundeza de significado contida na Escritura.

(2) O significado dos diferentes Livros da Bíblia no organismo da Escritura.

A pergunta que vem em seguida é: como cada Livro se relaciona com a Bíblia como um todo.

A Palavra de Deus é uma produção orgânica, e, consequentemente, os diversos Livros que formam a Bíblia estão organicamente relacionados um ao outro. O Espírito Santo dirigiu de tal maneira os autores ao escreverem os Livros da Bíblia que seus escritos são mutuamente complementares. É perfeitamente correto respeitar os diversos aspectos e ênfases apresentados pelos autores bíblicos porque Deus, em Sua providência, revelou a estes homens inspirados verdades e aspectos de verdade como achou por bem fazer.

Desta maneira, cada escritor contribuiu com a sua forma exclusiva e completa, tal como Deus o desejou, para que a Sua verdade fosse revelada na Bíblia. Embora cada um deles apresentar ênfases variadas, os seus pontos de vista teológicos são complementares. Negligenciar qualquer um deles representa perda para a perspectiva total do que se encontra revelado na Escritura.

Se o intérprete que estuda a Bíblia tem isto em mente, ele será ajudado a ver, por exemplo, que Paulo e Tiago não ensinavam doutrinas conflitantes, mas simplesmente consideram a mesma verdade de ângulos diferentes, e são, portanto, mutuamente complementares.

C. A preocupação do intérprete deve consistir na interpretação literal da Bíblia:

A interpretação que ignora este princípio controlador leva ao confuso labirinto da exegese patrística e medieval.

D. O intérprete deve ter em mente que exegese precede doutrina ou teologia:

Podemos conhecer a verdade de Deus somente por uma correta exegese da Escritura. Por isso, exegese precede doutrina ou teologia. Uma interpretação válida da mensagem bíblica precisa averiguar primeiro o que ela quer dizer. Os recursos usados para se chegar a isto não devem ser externos (lógica, filosofia, ciência), mas apenas na base duma metodologia intrínseca, isto é, a da autointerpretação da Bíblia, com sua ênfase sobre o significado literal do texto e do reconhecimento de que o contexto é toda a Bíblia. O uso de princípio externo de interpretação resultará numa distorção da mensagem bíblica.

E. O intérprete ou teólogo não deve desenvolver sua compreensão além da evidência bíblica:

Muitos dos problemas teológicos ou doutrinários são oriundos do fato de teólogos terem ido além da informação bíblica e terem feito perguntas para as quais a revelação não dá respostas.

“É a obra prima dos enganos de Satanás conservar o espírito humano a pesquisar e conjecturar com relação aquilo que Deus não tornou conhecido, e que não é desígnio Seu que compreendamos” (O Grande Conflito, pág. 523, capítulo 32 – “Os ardis de Satanás”).

Há muitos pontos teológicos sobre os quais não temos um pronunciamento decisivo porque a Escritura silencia sobre eles. Por exemplo: Qual o exato relacionamento entre as duas naturezas de Jesus na cruz, ao morrer? Até que ponto foi o Seu sofrimento na cruz?

Perguntas idênticas poderíamos fazer sobre a Encarnação e a Trindade. Tão necessitados de informação somos sobre estes pontos que muitas das nossas afirmações teológicas são feitas por negação. Isto é, não sabemos exatamente o que a verdade é, mas sabemos o que a verdade não é.

Muitas são as perguntas sobre o Céu. Comeremos no Céu? Usaremos roupas? Nos reconheceremos no Céu? Lembraremos dos queridos não-salvos? Viveremos em família? Veremos a Trindade ou apenas a Jesus? As crianças que morrem serão salvas? Quais? Que língua falaremos?

A melhor resposta não será aquela que for a mais inteligente, nem aquela que apele mais aos sentimentos, mas, será a que estiver “dentro dos limites da informação bíblica” sobre estes assuntos. Sobre o que a Escritura nada fala, seremos sábios sendo silentes. Deuteronômio 29:29 deve ser o nosso princípio nestes assuntos.

F. Na busca do significado implícito da Bíblia, o intérprete deve permitir que o escritor inspirado apenas funcione:

A Palavra de Deus contém uma profundeza e riqueza de pensamento que é insondável. Isto é evidente não apenas dos fatos, tipos, símbolos e profecias que a Bíblia registra, mas também do que a Bíblia contém implícito. Mesmo no caso de composições humanas nós distinguimos entre aquilo que é explícito e o que é implícito.

E como o homem conhece apenas em parte, nem sempre ele vê as implicações do que ele diz ou escreve.

Não assim no caso de Deus na Escritura. O conhecimento de Deus é “onisciente”, e sempre é um conhecimento consciente. Ao dar Sua Palavra aos homens pelos profetas, Deus estava perfeitamente cônscio, não apenas de tudo o que era dito, como também o que estava implícito. E o Revelador não apenas sabia o que os homens iam deduzir por inferência, mas também planejou que assim fizessem.

É preciso dar ênfase aos seguintes pontos com respeito ao significado implícito:

(1) O significado implícito nada tem a ver com o método alegórico de exegese.

(2) Não se pode presumir que todo o texto em si possui um significado implícito.

(3) O sentido implícito que Deus pretendia transmitir por intermédio de um escritor bíblico é desvendado por outro escritor inspirado. Isto quer dizer que a inspiração é o orientador seguro para se chegar ao significado implícito de qualquer parte da Escritura. Isto também quer dizer que não há lugar para qualquer subjetividade da parte do intérprete da Bíblia.

(4) O sentido implícito e o sentido explícito do texto bíblico segue, geralmente, a característica da homogeneidade. Como exemplo podemos citar a frase de Hebreus 1:5: “Tu és Meu Filho, Eu hoje Te gerei”. Estas palavras são tomadas emprestadas de Salmos 2:7, e, embora fossem usadas nas cerimônias de entronização dos reis de Israel (2Samuel 7:14), elas também se referem ao Rei Jesus Cristo, como pode ser mais claramente visto pela Carta aos Hebreus e Atos 13:33, o qual, pela ressurreição, assumiu o status de Rei (Romanos 1:14; Romanos 8:29; Atos 13:33). Também é de se notar a homogeneidade entre as palavras literais do salmista e o seu cumprimento em Jesus Cristo.

A expressão bíblica “primogênito” é um outro exemplo para este verso. Ela é usada na Bíblia no sentido cronológico, o primeiro nascido (Gênesis 25:25; Números 18:15), e também é usado no sentido de status, como alguém que tem os direitos e privilégios do primogênito, embora no tempo não seja ele o primeiro nascido. Assim é que o caçula na Bíblia é chamado de primogênito (Jeremias 31:9; Gênesis 41:50 a 52; Hebreus 11:17 – Isaque não foi nem o unigênito e nem o primogênito).

G. O intérprete não deve construir doutrina sobre textos obscuros.

F. O intérprete teológico deve conservar em mente a natureza prática da Bíblia:

A Escritura não é uma enciclopédia de todo o conhecimento. Nem reclama ser um Livro que contém todo o conhecimento. O propósito da Escritura é dar ao homem o conhecimento da salvação (2Timóteo 3:15) e aquilo que seja necessário para a sua vida cristã (2Timóteo 3:16 e 17).

Muito do que o apetite especulativo deseja não está na Escritura. A Bíblia não trata de todos os assuntos porque o Seu conteúdo é controlado pelo Seu propósito principal: o Plano da Salvação. A curiosidade humana pede mais do que isto. Quer saber, por exemplo, onde Caim obteve a sua mulher. Mas, nenhuma história é exaustiva. Toda história é seletiva e o princípio de seleção é estabelecido pelo historiador. Isto explica porque a existência de história da música, história da teologia, história da arte, etc. A história bíblica é então aquela seleção especial que de uma ou outra maneira, muito ou pouco, contribui para a história da salvação.

I. O intérprete teológico deve reconhecer sua responsabilidade para com a igreja:

Se por um lado é verdadeiro o princípio de que a Bíblia deve ser lida e interpretada pelo próprio crente para si mesmo, e que não existe ninguém como seu intérprete oficial da Bíblia, também não é menos verdadeiro o fato de que, além de se comparar pessoalmente a Escritura com a Escritura, deva-se também prestar grande deferência à Igreja.

Se a Escritura é um Livro inteligível e o Espírito Santo exerce a função de um Mestre de todos os filhos de Deus, então, consequentemente, deve haver uma interpretação harmoniosa entre todos os filhos de Deus nos assuntos essenciais da Bíblia. Disto se deduz, que, se um indivíduo diverge dos seus irmãos espirituais e idôneos, é provável que ele também diverge da Escritura.

Apostila: Interpretação Bíblica, de Wilson Endruveit, 1982. Então professor no Seminário Adventista Latino-americano de Teologia (SP). Disciplina: Interpretação de Romanos.

Leitura adicional sugerida:

Por que Tiago afirmou que uma pessoa é justificada por obras, e não somente pela fé?“, de Ángel Munauel Rodriguez – clique aqui.

Defende Paulo a justificação pelas obras?“, de Pedro Apolinário – clique aqui.

Como Cristo pode ser o Primogênito se Ele não foi criado?“, de Alberto Timm – clique aqui.

 

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