O Retrato de Deus – “O Incomparável Jesus Cristo”, de Amin Rodor

O Retrato de Deus – capítulo 1
Como é Deus? Para muitas pessoas, Deus é apenas uma ideia abstrata. Outros o confundem com um severo juiz, distribuindo sentenças às suas criaturas. Para outros, Deus é um caprichoso policial cósmico, buscando nossos erros. Há, ainda, aqueles que o veem como um tipo de Papai Noel complacente distribuindo presentes uma vez por ano.
Como é Deus, ou quem é Deus? Deus tem sido em muitas circunstâncias caricaturado pela religião e pelos religiosos. As respostas podem variar de pessoa para pessoa, mas provavelmente elas dirão mais a nosso respeito do que a respeito de Deus. Um dos ensinos mais evidentes do Novo Testamento é que Jesus Cristo veio para revelar a pessoa do Pai (João 14:9-13). Em várias ocasiões, o próprio Jesus fez a mais completa e absoluta identificação entre Ele e Deus: perdoou pecados, aceitou culto e adoração, fez promessas que apenas Deus poderia fazer (Lucas 5:21; 24:52; João 14:12-14 ).
Provavelmente, um dos quadros mais claros a respeito de Deus pintado por Jesus aparece em Lucas 15, o capítulo conhecido como “evangelho dentro do evangelho”. “Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir. E murmuravam os fariseus e escribas, dizendo: Este recebe pecadores e come com eles” (Lucas 15:1 e 2).
Em resposta à acusação que Lhe é feita pelos austeros representantes do estabelecimento religioso dos seus dias, Jesus conta três parábolas. Tais histórias não são primariamente uma exposição do evangelho, mas uma defesa dele. Elas representam o poderoso contra-ataque de Jesus diante daqueles para quem a graça de Deus parecia um desperdício. Aqueles que se sentiam indignados ante a afirmação de que Deus Se interessa pelos pecadores.
As palavras e ações de Jesus chocaram e ofenderam os líderes religiosos do judaísmo do primeiro século. E provavelmente elas ofendem ainda hoje muitos que se julgam conhecedores de Deus. Uma das surpresas do ministério de Cristo é que Ele atraiu pessoas das quais os religiosos nem se aproximavam: enfermos, pobres, samaritanos, mulheres e coletores de impostos. Todos eles marginalizados dentro do sistema religioso e social dos judeus. O desdém da elite religiosa por essas pessoas de quem Jesus Se aproximou e por quem Ele Se interessou e manifestou respeito, não é porque elas fossem mais pecadoras do que as outras, mas porque eram pessoas ordinárias, ignorantes das intrincadas cerimônias religiosas e, por isso, consideradas impuras.
O que ofendeu os representantes do judaísmo do primeiro século não foi tanto a resposta dessas pessoas a Jesus, mas a resposta de Jesus para elas. “Este recebe pecadores e come com eles” (Lucas 15:1-2) era a acusação dupla dos opositores de Cristo. Aqueles que diziam conhecer a Deus, se ofenderam com o tipo de pessoas com quem Jesus Se associou. No centro do confronto entre Jesus e os fariseus está a compreensão da doutrina de Deus. Afinal, pode Deus associar-Se com os pecadores? Os fariseus diziam que não. Jesus então contou três parábolas para demonstrar o contrário. Estas são histórias de Deus, na linguagem humana:
– A parábola da ovelha perdida (Lucas 15:3-7);
– A parábola da moeda perdida (Lucas 15:8-10);
– A parábola do filho perdido (Lucas 15:11-32).
Essas histórias têm uma estrutura comum: elas enfatizam a tragédia da perda, a diligência da busca e o regozijo da recuperação.
Não podemos dizer que conhecemos a Deus se não sabemos o que Lhe causa dor, ou o que Lhe traz alegria. Jesus deseja demonstrar que o coração do Pai se parte por aqueles que se perdem e exulta em abundante alegria por aqueles que são encontrados.
Como se sente você ao perder qualquer coisa considerada valiosa? Jesus utiliza um conceito que facilmente podemos compreender. É óbvio que os seres humanos se sentem frustrados, deprimidos e tristes quando perdem aquilo a que dão valor, e se alegram quando encontram o que foi perdido. A estupenda revelação que Jesus faz é que Deus também Se sente assim. O ponto principal dessas histórias não é falar da ovelha, da moeda ou do filho, isto é, daquilo que fora perdido. O propósito dessas parábolas é focalizar o caráter do pastor que perdeu a ovelha, da mulher que perdeu a moeda e do pai que perdeu o filho. Essas parábolas revelam como Deus é.
Em termos literais, eu nunca perdi uma ovelha, mas já participei da agonia de minha filha pequena, vagando pela vizinhança em busca do seu cãozinho perdido. Eu nunca perdi uma moeda valiosa, mas já perdi minha aliança de casamento, cartões de crédito ou a carteira de motorista. Recordo-me perfeitamente do pânico, do retorno aos lugares onde estivera, dos telefonemas dados na tentativa de recuperar esses bens.
Em semelhantes circunstâncias, muitos já experimentaram a agonia de ter um filho perdido por algum tempo. O desespero inexprimível quando não o encontramos em meio a uma multidão. Em nível diferente, mas não menos real, muitos pais conhecem o sofrimento por saberem que um filho ou uma filha, adultos, encontram-se perdidos moral ou espiritualmente. Nesse caso, pode-se saber onde eles estão e o que estão fazendo, mas não se sabe o que fazer para recuperá-los. Sabemos que eles estão longe, no “país distante”, desperdiçando seus recursos, seu potencial, sua vida. Provavelmente apenas um pai ou uma mãe que conheça tal dor pode realmente entrar no espírito da parábola contada por Jesus.
A lição clara é a de que, em cada caso, os bens perdidos não foram esquecidos e não perderam o seu valor, o que é indicado pela intensidade da busca. No caso da ovelha (uma em cem), o pastor deixa as noventa e nove e sai em busca da única extraviada. No ocaso da moeda perdida (uma em dez), a mulher acende uma luz, ajoelha-se no chão da casa e procura até encontrá-la. No caso do filho perdido (um em dois), a lição é evidente: o perdido passa a absorver toda a atenção do proprietário.
Há alguns anos, viajando de ônibus de Toronto para Nova York, parei na cidade de Buffalo. Chamou-me a atenção toda uma enorme parede, como um mural enorme, naquele terminal rodoviário. Ali estava uma grande quantidade de fotografias de pessoas desaparecidas. Dezenas de fotos. Homens, mulheres, rapazes, moças e, principalmente, crianças. Todos eles, filhos, filhas, esposos, esposas, netos de alguém. Acima das fotos, escrita em letras enormes, havia a seguinte frase: “Perdidos, mas não esquecidos!” Não pude deixar de fazer a associação entre aquele quadro e as histórias de Jesus sobre os perdidos!
Um outro aspecto pungente das parábolas de Lucas 15 é o caráter pessoal do envolvimento. Nos três casos, não é um servo que é mandado para buscar o bem perdido, mas o próprio dono é quem toma a iniciativa da busca. Assim é Deus. Ele próprio, em pessoa, entrou em cena para recuperar o que se havia perdido. Aqui, também o perdido não foi esquecido.
A parábola do filho perdido
Disse-lhe mais: Certo homem tinha dois filhos. O mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me toca. Repartiu-lhes, pois, os seus haveres. Poucos dias depois, o filho mais moço ajuntando tudo, partiu para um país distante, e ali desperdiçou os seus bens, vivendo dissolutamente. E, havendo ele dissipado tudo, houve naquela terra uma grande fome, e começou a passar necessidades.
Então foi encontrar-se a um dos cidadãos daquele país, o qual o mandou para os seus campos a apascentar porcos. E desejava encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam; e ninguém lhe dava nada. Caindo, porém, em si, disse: Quantos empregados de meu pai têm abundância de pão, e eu aqui pereço de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus empregados.
Levantou-se, pois, e foi para seu pai. Estando ele ainda longe, seu pai o viu, encheu-se de compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. Disse-lhe o filho: Pai, pequei conta o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho.
Mas o pai disse aos seus servos: Trazei depressa a melhor roupa, e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e alparcas nos pés; trazei também o bezerro cevado e matai-o; comamos, e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a regozijar-se. Ora, o seu filho mais velho estava no campo; e quando voltava, ao aproximar-se de casa, ouviu a música e as danças; e chegando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo. Respondeu-lhe este: Chegou teu irmão; e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo. Mas ele se indignou e não queria entrar. Saiu então o pai e instava com ele. Ele, porém, respondeu ao pai: Eis que há tantos anos te sirvo, e nunca transgredi um mandamento teu; contudo nunca me deste um cabrito para eu me regozijar com os meus amigos; vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado. Replicou-lhe o pai: Filho, tu sempre estás comigo, e tudo o que é meu é teu; era justo, porém, regozijarmo-nos e alegramo-nos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; tinha-se perdido, e foi achado” (Lucas 15:11-32).
A terceira história, a parábola do filho pródigo, é a mais longa, a mais conhecida, a mais amada, a mais citada das parábolas de Jesus e, provavelmente, uma das menos compreendidas. Ela representa a grande e final pincelada no quadro que Jesus pinta de Deus. “Certo homem tinha dois filhos”, inicia Ele a sua história. “O mais moço deles disse ao pai: Pai, dá-me a parte dos bens que me cabe” (Lucas 15:12).
O pedido desse filho é, no mínimo, desrespeitoso. Especialistas na cultura oriental sugerem que o pedido do filho equivale a um “desejo de morte”, porque só depois da morte do seu pai ele poderia receber sua herança. O pedido do filho parte o coração do pai, porque a única preocupação desse filho era com a propriedade. O pai poderia ter negado o pedido, poderia ter obrigado seu filho a ficar, mas de que isso adiantaria? Seu filho já estava emocionalmente distante. Aqui está o ponto vulnerável do amor: o amor pode ser rejeitado e desprezado! Mais tarde, em seu retorno, ele não seria açoitado apenas pelo fato de que ele “não fora bom”, mas também que ele “havia desprezado a bondade”.
A parábola revela que Deus não viola nossa vontade. Ele oferece espaço para nossas escolhas, mesmo sabendo que aquilo que queremos muitas vezes é precisamente o que nos destrói. “Liberdade” é a fantasia de milhões na busca do desconhecido. Eles querem “se encontrar”. Sem perceber que os seres humanos não têm nenhum “eu” para ser “encontrado”. Apenas temos um “eu” para ser desenvolvido.
O jovem da parábola havia decidido viver de maneira independente, seguir o seu próprio caminho em busca da felicidade e da emancipação. Antes das ideias de Freud e de Nietzsche sobre as grandes forças propulsoras na vida das pessoas, Blaise Pascal concluiu que o fator mais importante por trás das decisões humanas é a busca da felicidade. Sem dúvida, esta é a grande busca do coração humano. Mesmo no sexo (Freud) e no poder (Nietzsche), as pessoas buscam a felicidade. A tragédia é que frequentemente buscamos a felicidade nos lugares errados, onde ela não pode ser encontrada. Nas buscas erradas da vida (e isso é o que não vemos) já estamos permitindo que os fios dos ventos comecem a tecer a capa de nossas maiores agonias.
A audiência judaica teria esperado que o pai da história, irado, recusasse a exigência do seu filho. Mas este não era um pai típico. Generosamente ele oferece posse imediata ao seu filho mais jovem, sua parte da propriedade. Geralmente isso seria um terço, embora em circunstâncias especiais, pudesse ser menos. Apenas alguns dias depois, o filho já havia transformado em dinheiro sua partilha dos bens. E, “ajuntando tudo o que era seu, partiu para uma terra distante” (Lucas 15:13). Além de sua atitude de desrespeito e insulto ao seu pai, uma vez que, em uma sociedade agrária como a de Jesus, a terra era parte da identidade das pessoas e, portanto, nunca vendida, o jovem também deixa claro que não pretendia voltar. O que planejava ele? Tentar sua sorte no próspero mundo comercial dos gentios? Talvez. Mas isso ainda está no ventre do futuro.
A realidade, em geral, tem sua forma cruel de surpreender nossas fantasias e acordar-nos de nossos sonhos. Até onde a busca de emancipação e felicidade conduz o jovem filho da parábola? Segundo Jesus, ao “país distante”. Onde fica tal país? Geograficamente, o “país distante” provavelmente ficava entre os gentios, caracterizado pelos valores pagãos, marcado pela moralidade pagã. Espiritualmente, “o país distante” é a inconsciência e a distância de Deus. Viver como se Deus não existisse!
Distante, o jovem persegue a sua fantasia. “E lá dissipou todos os seus bens, vivendo dissolutamente” (Lucas 15:13). No país distante, o rapaz passou a viver sua liberdade ilusória. Como atestado em fontes da antiguidade a respeito de muitos jovens, a fortuna herdada foi consumida em vinho, mulheres e canções. No judaísmo, a conduta deste filho era duplamente reprovável. Não apenas pelo estilo de vida de dissipação, mas também pela perda dos meios de suporte ao pai em sua velhice. Dos filhos se esperava assistirem financeiramente os pais idosos em casos de necessidade.
Gradualmente, o jovem desceu ao seu próprio inferno. Os amigos duraram enquanto durou o dinheiro. Observe a sequência trágica: ele perdeu o dinheiro, começou a padecer necessidade, mas ninguém lhe dava nada (Lucas 15:14-16). O jovem filho fizera da vida um carnaval, dias alegres e noites deslumbrantes. Mas já tinha um encontro marcado com o desastre!
Sua aparência radiante de príncipe tornou-se imersa em depressão e tristeza. Suas roupas custosas converteram-se em trapos. As leis, os conselhos, a sabedoria que desprezamos, tornam-se anjos vingadores. “Há caminhos que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte”, diz o sábio (Provérbios 14:12). A história desse filho é a nossa história, a nossa biografia! Uma descrição exata da família humana. Todos nós nos desviamos como ovelhas desgarradas. Em nossa cegueira e rebelião, tentamos criar os nossos pequenos paraísos, nossa felicidade própria, baseada em prazeres, aquisições e realizações pessoais, apenas para descobrir o sabor amargo da decepção e do engano de nossas escolhas. E, assim, terminamos apenas com o gosto de cinza nos lábios.
Foi empregado por um gentio para apascentar porcos, uma atividade nem mesmo imaginável para um judeu. A guarda do sábado, a observância dos rituais de pureza (Levítico 11; 23:3; ver Lucas 15:15-16) ou aderência aos detalhes das leis judaicas, dificilmente observáveis agora. Seu estágio final no país distante, sugere completa apostasia de sua identidade, que aparece desfigurada e esquecida. Mas o seu desespero desconhece o orgulho! A fome desconhece escrúpulos! Suas ilusões passaram como um fogo de artifício. Ele, que havia sonhado com liberdade e felicidade distantes, termina poluído, em companhia imunda. “Mas ninguém lhe dava nada”, conclui o relato. Neste ponto, associamos a narrativa com um quadro comum, que pinta o jovem mal vestido assentado, cabeça pendida nos joelhos, cercado de porcos. Praticamente, muito pouco sobrara do rapaz que saíra da casa paterna.
Se Jesus tivesse parado neste ponto da história, seus críticos teriam batido palmas de entusiasmo, como sinal de aprovação. “O Senhor está correto”, eles teriam dito. “Isto é precisamente o que acontece com o pecador. Ele recebe o que merece. Na companhia dos porcos”. Mas não é aí que Jesus termina. O Salvador deseja ter o filho perdido de volta, na casa do Pai!
O ponto de retorno na parábola é extraordinário. Jesus diz que o moço “caiu em si” (v. 17). As palavras de Cristo são profundamente reveladoras. “Caindo em si”. Isso significa que quando ele abandonou o pai, o jovem estava fora de si. Todo abandono de Deus é um ato de insanidade. Está fora de si todo aquele que busca ser feliz longe de Deus, e cria substitutos precários. Tal busca é uma forma de demência, pois o “país distante” nunca pode ser o nosso lar. Ele será sempre terra estranha. Observe-se que Jesus não trata o pecado com leviandade. Ele pintou suas trágicas consequências com terrível fidelidade. Mas Ele não podia crer que a separação de Deus é um ato de genuína humanidade. “Caindo em si”. Esse é o extraordinário e invencível otimismo de Cristo!
Cair em si” é voltar-se para uma compreensão realista de Deus, de nós próprios e do pecado. O jovem começa a ver as coisas com clareza, pela primeira vez. Afinal, o lar não era um lugar tão ruim assim. E começa a compreender o que havia perdido: o status de filho. Uma resolução incontrolável explode em seu peito. “Levantar-me-ei e irei ter com meu pai”. O filho então, prepara o seu conficteor, o seu discurso de admissão de culpa. Sua demonstração de arrependimento. “Direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho […] trata-me como um dos teus trabalhadores” (Lucas 15:18-19). Os “trabalhadores” ou “jornaleiros”, eram diaristas, em condição inferior aos servos da casa, que gozavam de maior grau de intimidade. Ele saíra de casa dizendo “dá-me”; agora, em seu retorno ele pretende dizer, “trata-me”. À distancia, ele se lembra do seu pai; seu amor e bondade emergem em sua mente. Fragmentos de memórias vêm à sua lembrança. Esta é a base da sua iniciativa de retorno: as memórias do pai. As lágrima não podem ser evitadas.
O pai que não manda perseguir o filho nem vai atrás dele, está presente na lembrança do rapaz, quando este, sofrendo miséria e fome junto a sua vara de porcos. Sem escusas, ele assume responsabilidade por suas ações. Reconhece seus erros. Ele havia saído de casa pensando “eu tenho que ser eu mesmo”, mas descobre que nossa verdadeira identidade não é encontrada à distancia, em indulgência com as nossas fantasias. Ele havia partido para encontrar sua liberdade, e termina algemado à falta de esperança. E é à distancia, entre os porcos, que ele chega a compreender a glória da casa do pai. Ele perdera o status de filho, imagina ele, mas mesmo como um diarista, lar é lar! Ele não esperava ou mesmo nem desejava qualquer tratamento preferencial, apenas uma oportunidade de provar que mudara.
Levantar-me-ei e irei ter com o meu pai” (Lucas 15:18). Não há lugar mais difícil para se retornar do que aquele onde falhamos. Os lugares de nossos fracassos são lugares cruéis. As ações do moço haviam sido objeto das conversas na pequena vila. Ele sabia que voltar seria assinar sua admissão do engano, e ser forçado a enfrentar a crítica, sem ter nada para dizer em sua defesa. Ser forçado a deparar-se com sua vergonha. Voltar para casa, com o cheiro dos porcos, com os trapos do seu fracasso, esta era, provavelmente, a humilhação final.
Note, porém, que Jesus não diz que o jovem decide voltar para a vila, ou mesmo para o seu antigo lar. “E, levantando-se, foi para seu pai” (Lucas 15:20). Então, quando Jesus descreve o pai, percebemos o mais surpreendente dos fatos. Esse pai não é uma figura austera que tinha deserdado o filho, banido-o de suas afeições ou arrancado o rapaz da sua memória e do seu coração – embora isso fosse precisamente o que ele podia merecer. Não se trata aqui de nenhum pai neurótico, incapaz de sentir os arranhões e machucaduras do filho.
Vinha ele ainda longe, quando seu pai o avistou, e, compadecido dele, correndo, o abraçou, e beijou” (Lucas 15:20).
O pai o vê à distância. A implicação é extraordinária: aqui está um pai que não apenas deseja receber o filho, mas espera por ele. Dia após dia, ele nunca deixou de esperar pelo filho. Apenas o amor do pai poderia reconhecer o filho sob os andrajos que o cobrem, porque, “o amor tem bons olhos”. O pai discerne o seu filho enquanto ele caminha à distância. Devemos notar o momento: o filho ainda estava longe para expressar a seu arrependimento, como os judeus esperariam, mas a graça do pai já estava presente e atuante!
A doutrina do arrependimento na religião judaica provia a expiação, desde que ele fosse sincero e acompanhado pela determinação de separação do pecado. No judaísmo posterior, os rabis passaram a ensinar que Deus e o homem operam juntos no arrependimento. Para cada passo, que é tomado em sua direção, Deus toma um passo em direção ao homem. Aparentemente, o arrependimento do filho pródigo parece preceder o perdão do pai. Isso é porque o jovem procede de acordo com o conceito judaico de arrependimento. Entretanto, a conduta do pai revela um princípio diferente.
Para entender a história, devemos lembrar que no oriente um homem idoso, respeitado, não devia correr publicamente. Tal ato era considerado inapropriado e indigno. Mesmo nos nossos dias, a maioria das pessoas que se julga importante reprime suas emoções em público, considerando tal ato como um sinal de fraqueza. Mas o pai da parábola de Jesus, apoderado pela compaixão, desconsidera todos os protocolos e etiquetas de sua cultura, corre ao encontro do seu filho. Aqui nós encontramos o elemento redentivo da história.
Correndo, lançou-se ao pescoço do filho e o beijou. “Ternamente” ou “muitas vezes”, os dois significados são possíveis na leitura do original. O pai quer ter certeza de que ele é o primeiro na vila a encontrar-se com seu filho, para protegê-lo das críticas ou das atitudes hostis e julgadoras de outros, das faces que não expressam qualquer atitude de boas vindas. O pai não quer correr o risco de que seu filho seja desencorajado pela zombaria ou desdém, e acabe desistindo. O gesto do pai deixa os observadores atônitos; ele se lança ao pescoço desse estranho vestido em trapos e o cobre de beijos. Os moradores do vilarejo não poderiam ter antecipado a cena do dramático reencontro entre pai e filho.
O pai segura o rapaz e o aperta contra o seu peito, impedindo que ele caia de joelhos, posição de subserviência. Ele nem mesmo permite que seu filho complete o discurso que havia ensaiado. A confissão e pedido do filho que retorna são sufocados pela mesma bondade do pai que os despertara (Lucas 15:19, 21). Surpreendentemente, o pai não pronuncia nenhuma palavra ao filho. Mas suas ações dizem tudo. Depressa ele ordena aos servos que tragam a melhor veste, roupa festiva, usada em grandes ocasiões. O seu garoto é o hospede de honra. Coloca-lhe na mão um anel. Não um anel de ornamento, mas um anel-sinete, símbolo de autoridade. Coloca-lhe sandálias nos pés, porque apenas os servos andam descalços.
Ele ordena que preparem o “novilho cevado” e comecem a celebração, justificando sua atitude com palavras que explodem de gozo. “Comamos e regozijemo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado” (Lucas 15:23-24). Observe-se como nesse ponto, e justamente nele, a alegria é pintada com as cores mais fartas e abundantes. As alegrias ilusórias do país distante não poderiam se comparar com o gozo exuberante que irrompe na celebração do pai. Este é o tipo de Deus revelado por Jesus Cristo.
A proximidade de Deus é o mistério do nome “pai”, nos lábios de Jesus, uma noção ausente em todas as religiões. Não a encontramos mesmo entre os 99 nomes para Deus do Islamismo, no budismo ou no hinduísmo. “Abba” é o termo aramaico, frequentemente utilizado por Cristo para descrever Deus. O termo reflete extrema intimidade, equivalente ao nosso “paizinho” ou “painho” ou, ainda, ao carinhoso e íntimo termo “daddy”, do inglês. No Antigo Testamento e no judaísmo, Deus é chamado de pai, mas em um sentido totalmente diferente. Deus é pai, mas da nação, no contexto da eleição de Israel. A relação “pai-filho”, descrita por Jesus, tem sempre características pessoais. Nunca é utilizada em referencia ao povo. Tampouco a filiação constitui uma prerrogativa exclusiva dos piedosos. Deus é pai “para bons e maus, justos e injustos” (Mateus 5:45; 21:28-32).
A parábola de Jesus não coloca ênfase na indignidade do filho, mas no amor do Pai. Tudo perdoado. Tudo esquecido! Os dias de fome e de convívio com os porcos estão no passado. Com um toque de mestre, Jesus leva a história ao clímax final: uma festa é preparada para celebrar o retorno do seu filho. Nenhuma palavra de recriminação moralista. Nenhuma exigência de prestação de contas. Nenhuma condição imposta. Nenhum tempo de prova. Nenhum período de disciplina, para observação. Nenhuma “quarentena” ou penitência é exigida.
O clímax da história contada por Jesus é, no mínimo, ofensiva à Sua audiência judaica. Os fariseus teriam aplaudido a narrativa se o pai tivesse demandado arrependimento e prova positiva de mudança e emenda antes de receber de volta o filho dissoluto. Arrependimento era o coração da teologia farisaica. Ele precedia a aceitação e o perdão divinos, envolvendo um período de “prova” e “separação” para tornar evidente a sua autenticidade. Os “sinceramente religiosos” se sentiram chocados pelo ensino deste jovem Rabi, que parece subverter a ideia de Deus da doutrina farisaica.
A história do filho pródigo, a última do trio de parábolas que Jesus conta em Sua defesa por aceitar e comer com os pecadores antes mesmo do arrependimento deles. Ela subverte o retrato de Deus pintado pela tradição do judaísmo. Segundo Jesus, Deus não exige “reforma” e “santificação” antes de aceitar os que O buscam. Ele não espera “transformação moral” ou mesmo nosso arrependimento para nos receber. Tão importantes quanto sejam “reforma”, “transformação” e “arrependimento”, eles não são a base pela qual somos aceitos por Deus, mas o resultado. Em outras palavras, é a aceitação divina que causa o arrependimento, não o contrário. Deus opera sempre com base na graça. Fazemos apenas uma contribuição para nossa salvação. Nossa única contribuição para a salvação é o pecado, do qual devemos ser libertos. Nada mais!
Como Ellen White observa: “Os judeus ensinavam que o pecador devia arrepender-se antes de lhe ser oferecido o amor de Deus. A seu parecer, o arrependimento é obra pela qual os homens ganham o favor do Céu. Foi este pensamento que induziu os fariseus atônitos e irados a exclamarem: ‘Este homem recebe pecadores!’ (Lucas 15:2). Conforme sua suposição, não devia permitir que pessoa alguma a Ele se achegasse sem se ter arrependido […] Cristo ensina que a salvação não é alcançada por procurarmos a Deus, mas porque Deus nos procura […] Não nos arrependemos para que Deus nos ame, porém Ele nos revela seu amor para que nos arrependamos” (Parábolas de Jesus, cap. 15 – A esperança da vida).
Em comovente simplicidade, Jesus descreve como Deus é. Sua bondade, sua graça, sua infinita misericórdia. Este é o Deus a quem Jesus representou. O Deus que recebe os envergonhados, cegos, leprosos, surdos, imundos. Que não nega a culpa, mas a perdoa e cura. Querido leitor, encontra-se você hoje no país distante? Alienado de Deus e de si mesmo? Chegou você ao fim de suas ilusões? Sua jornada parece ter chegado ao final, numa viela sem saída? Está você desanimado, deprimido pelos descaminhos da vida que o levaram a viver longe do Pai, imaginando que não há esperança para o seu caso?
Aqui está o Deus que Jesus veio revelar. Aquele que “justifica o ímpio” (Romanos 4:5). Que purifica e restaura, que não apenas oferece roupas de puro linho, mas que “deu o Seu Filho unigênito, para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16). Aqui está o Deus do Evangelho, que celebra e Se regozija com a volta dos perdidos. Que corre ao encontro deles. Que estende os Seus braços para recebê-los e abraçá-los. O Deus que agora mesmo pode torná-lo uma nova criatura, um novo homem, uma nova mulher. Que pode dizer-lhe neste mesmo instante, com júbilo que invade o universo: “bem vindo ao lar!”
Para ponderar
O jornal USA Today, em 1997, publicou uma entrevista feita com os norte-americanos mais ricos: cerca de 1 milhão de famílias, com renda anual superior a US$ 250.000 e patrimônio líquido de pelo menos US$ 2.5 milhões. O que estes ricos disseram estar dispostos a comprar e por quanto:
Para ser presidente US$ 55.000
Por grande beleza US$ 83.000
Reencontro com um amor perdido US$ 206.000
Juventude eterna US$ 259.000
Talento US$ 285.000
Grande Intelecto US$ 407.000
Verdadeiro amor US$ 467.000
Um lugar no Céu US$ 640.000
Em primeiro lugar, seiscentos e quarenta mil dólares por um lugar no céu. O irônico é que as pessoas desejam pagar uma enorme soma de dinheiro por aquilo que, em primeiro lugar, não tem preço, e, em segundo, é oferecido de graça.
Não é estranho que a religião e os religiosos, como os judeus dos dias de Jesus, tenham confundido a oferta de salvação a tal ponto que ela dificilmente se torna compreensível para a maioria das pessoas? A salvação é baseada na graça, dom imerecido de Deus. Qualquer outro elemento, tal como arrependimento, reconciliação, regeneração, reforma, novo nascimento, ou santificação, não constituem a base da salvação. A base da salvação é a graça de Deus, estes outros elementos são, pela ação do Espírito Santo, resultados de nossa aceitação de Sua graça e amor. Devemos entender ainda que a justiça de Deus, não é primariamente uma exigência, mas um dom. Não é o que Ele pede, mas o que Ele oferece.
Com frequência utilizamos a expressão “justificação pela fé”, mas se isto não for entendido claramente, tornamos a fé um outro tipo de obra. Segundo Efésios 2:8, “pela graça sois salvos, mediante a fé”. A graça é a base da salvação, a fé é o seu instrumento, ou o meio. Quando eliminamos a graça de Deus de nossa compreensão da salvação, como o elemento primário, a porta está aberta para todo tipo de confusão. Sobre a fé devemos entender:
– A fé não é a base da salvação, mas o meio, o instrumento pelo qual nos apropriamos dela (Romanos 3:21-22, 25, 31; Efésios 2:8).
– A fé não é autogerada. A fé também é um dom. Segundo Romanos 10:17, “a fé vem pelo ouvir da Palavra de Deus”.
– A fé não é meritória (Efésios 2:8-10). Para Ellen White, “mediante a fé recebemos a graça de Deus; mas a fé não é o nosso Salvador. Ela não obtém nada (Tiago 2:24). É a mão que se apega a Cristo e se apodera de Seus méritos, o remédio contra o pecado” (O Desejado de Todas as Nações, cap. 17 – Nicodemos).
– A fé não depende do seu tamanho, mas do seu objeto (Lucas 17:6). Muitos, por exemplo, têm grande fé no dinheiro, em posições, na ciência, em prestígio, na aparência, no preparo acadêmico. Mas essa fé, grande como ela possa ser, nada vale para a salvação. A fé vale pelo seu fundamento, que deve ser única e exclusivamente a pessoa de Jesus Cristo, o seu autor e consumador (Hebreus 12:2).
– A fé bíblica não está em oposição às boas obras. As únicas obras contra as quais a fé se opõe, são aquelas entendidas ou praticadas como método de salvação (Romanos 3:20, 28). A fé não é contra a observância da lei, como alguns pensam. A fé se opõe à observância da lei como meio de salvação (Gálatas 3:1-5, 11). A lei deve ser observada como norma da conduta cristã, como a expressão da vontade de Deus, para aqueles que receberam Sua graça.
– A fé bíblica é basicamente “transferência de confiança” (Hebreus 4:14-16). Aquele que confiava em si, ou em qualquer recurso humano, passa a confiar sem reservas em Cristo.
(Retorno ao índice geral – clique aqui).

Anúncios

Sobre Ligado na Videira

Ligado na Videira
Esse post foi publicado em Amin Rodor, Ligado na Videira, O Incomparável Jesus Cristo e marcado , , , . Guardar link permanente.

Escreva um comentário. Compartilhe sua opinião.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s