O que significa “Jesus, o Filho de Deus”? – (novembro 2015)

O significado desse título de Cristo tem sido uma questão muito debatida entre os cristãos. A explicação mais básica é que o Senhor encarnado nasceu da virgem Maria para ser chamado de Filho de Deus (Lucas 1:32; 1João 5:18). Ao compartilhar minha compreensão do assunto, espero motivar você a continuar estudando.

1. Filho (s) de Deus: No Antigo Testamento a frase “filho (s) de Deus” designa três tipos de pessoas. Os seres celestiais que se reuniram com o Senhor no concílio divino são chamados “os anjos” (hebraico, “filhos de Deus”, 1:6; 2:1). A Bíblia diz que, no momento da criação, “todos os anjos” (hebraico, “filhos de Deus”) se regozijavam ( 38:7). O povo de Deus é chamado de “filhos do Senhor o seu Deus” (Deuteronômio 14:1; Oseias 2:1; Isaías 45:11). Eles se tornaram filhos de Deus por meio da criação e da redenção (Êxodo 4:22 e 23). Finalmente, o rei israelita era chamado de “filho de Deus” (2Samuel 7:14). Deus denominava o rei como “Meu primogênito” (Salmos 89:27; 2:7).

Nesses casos, a palavra “filho” é usada figurativamente. Os seres celestiais são filhos de Deus por meio da criação; as pessoas do povo de Deus são Seus filhos por meio da criação e da redenção; e o rei se torna filho de Deus por meio de sua nomeação como rei. Na Bíblia, Deus não tem filhos por meio de concepção natural e nascimento.

2. Filiação eterna de Cristo: Cristo é o Filho eterno de Deus. Paulo escreveu que “quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou Seu Filho, nascido de mulher” (Gálatas 4:4). Cristo era Filho de Deus antes de nascer de uma mulher. Por meio do Filho preexistente, Deus “fez o Universo” (Hebreus 1:2). No entanto, a filiação de Cristo é singular. Os cristãos nascem espiritualmente como filhos de Deus, mas o Filho nunca é descrito como sendo espiritualmente nascido de Deus; Ele é o Filho que veio diretamente do Pai (João 16:28). Ele tem vida em Si mesmo e é um com o Pai em vontade (João 14:31; 15:10), em caráter (João 14:8-11), propósito (João 15:16; 16:15; 17:4-8), e natureza (João 8:58). Porém, é uma pessoa diferente. Estamos lidando com o uso metafórico da palavra “filho”.

3. Significado metafórico: Em nossa humanidade, a imagem de uma criança infere algumas ideias óbvias. Primeiro, indica que a criança tem a mesma natureza de seus pais: são seres humanos. Quando Cristo é chamado de “Filho de Deus”, quer dizer que, como o Pai, Ele é um Ser divino (João 5:18). Segundo, a criança é diferente dos pais. A metáfora de filiação significa que, embora Cristo e o Pai possuam a mesma natureza, são pessoas diferentes, o que implica na pluralidade de pessoas dentro da Trindade. Terceiro, a relação entre pais e filhos é singular. Sua união é praticamente indissolúvel. A metáfora, entretanto, é um bom símbolo para a profunda unidade existente entre os membros da Trindade (João 17:5). Quarto, os pais recebem a criança humana por meio do nascimento natural. No entanto, no caso da Trindade, o Filho veio do Pai não como emanação divina e nem por meio do nascimento natural, mas para realizar a obra da criação e da redenção (João 8:42; 16:28). Não há base bíblica que apoie a ideia de que o Filho foi gerado pelo Pai na eternidade. O Filho veio do Pai, mas não foi gerado por Ele. Quinto, a imagem de pai e filho não pode ser aplicada literalmente à relação divina do Pai e Filho na Trindade. O Filho não é filho literal, natural do Pai. Uma criança natural tem começo, enquanto que na Trindade o Filho é eterno. Quando aplicado à Trindade, o termo “Filho” é usado metaforicamente. Ele transmite a ideia de pessoas distintas dentro da Trindade e a igualdade de natureza no contexto de uma eterna relação de amor.

Ellen White escreveu: “O Senhor Jesus Cristo, o divino Filho de Deus, existiu desde a eternidade, como pessoa distinta, mas um com o Pai” (Mensagens Escolhidas, vol. 1, pág. 247). Esta declaração resume o propósito principal da metáfora.

Angel Manuel Rodríguez, Revista “Adventist World” – Novembro 2015

Contribui a leitura de:
Explicação de Textos Difíceis da Bíblia: Jesus – Filho de Deus e Filho do Homem“, de Pedro Apolinário.
Como Cristo pode ser ‘o primogênito de toda a criação’ sem ter sido criado?“, de Alberto Timm.
Por que Jesus disse ‘o Pai é maior do que Eu’?“, de Alberto Timm.
E no quadro abaixo, dois artigos de Ozeas C. Moura.

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Uma resposta para O que significa “Jesus, o Filho de Deus”? – (novembro 2015)

  1. Jesus perdeu algum atributo divino ao Se encarnar? (Escrito por Ozeas C. Moura, editor da Casa Publicadora Brasileira).
    Pergunta: Tenho dúvida quanto à onisciência de Jesus. Já ouvi que, quando Ele disse: “Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos Céus, nem o Filho, senão o Pai” (Mateus 24:36), foi porque, estando Ele encarnado, não teria feito uso de Sua onisciência, em Seu próprio benefício. Mas, lendo Apocalipse 1:1, parece que, mesmo depois de Sua ressurreição e ascensão, Ele dependia da revelação do Pai para eventos futuros. Teria Jesus, por causa da Encarnação, perdido Sua onisciência?
    Resposta: Apocalipse 1:1 diz: “Revelação de Jesus Cristo, que Deus Lhe deu para mostrar aos Seus servos as coisas que em breve devem acontecer e que Ele, enviando por intermédio do Seu anjo, notificou ao Seu servo João”.
    Deve-se dizer, de início, que, pelo fato de Se encarnar, Jesus não perdeu qualquer atributo divino. Isso é o que nos diz Paulo, em Colossenses 2:9: “Porquanto, nEle, habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (destaque acrescentado). Se, mesmo após Sua ascensão, Paulo fala que “toda a plenitude da divindade” habita corporalmente em Jesus, isso significa que Ele, mesmo tendo passado pelo processo da Encarnação, continua com todos os poderes divinos, que sempre teve, incluindo a onisciência.
    Então, como entender que a “revelação” que João recebeu tinha sido dada a Jesus pelo Pai? Essa declaração deve ser vista no papel de cada membro da divindade com respeito ao plano da salvação. Ou seja, como Jesus, mediante a Encarnação, Se tornou o Mediador entre Deus e os homens (ver 1Timóteo 2:5), Deus Pai incumbe Jesus de transmitir certas informações que dizem respeito aos humanos, como é o caso de Apocalipse 1:1. Mas isso não significa que Jesus não pudesse sabê-las, pois se o texto de Colossenses 2:9 está certo, então Jesus sabe todas as coisas, pois é onisciente, e em plenitude.
    É interessante ver como os membros da Trindade são altruístas, ou seja, sempre dividem com os outros membros alguma tarefa (mesmo podendo fazê-las sozinhos, se assim o desejar). Um exemplo claro é o da Criação. Deus Pai poderia, sozinho, ter idealizado e criado o mundo, mas não o fez. Deixou que o Filho desse o comando, falasse para as coisas e seres aparecerem. É por isso que Ele é chamado de “Verbo” (João 1:1,10) e de “Verbo de Deus” (Apocalipse 19:13). O Filho, o Verbo de Deus, contou com a atuação do Espírito Santo para moldar a face do abismo (Gênesis 1:2). O “pairar sobre as águas” do Espírito, em Gênesis 1:2, indica Sua obra criadora, e não que Ele tenha ficado olhando passivamente as coisas e seres sendo criados.
    Alguém menos avisado poderia inferir do relato da Criação, em Gênesis capítulo 1, que o Pai não seria onipotente, pois foi o Filho quem comandou toda a obra de criação, ou que o Filho teria alguma limitação, pois é dito que quem moldou a face do abismo foi o Espírito Santo (e não só o abismo, mas o próprio homem. 33:4 e 6 menciona que o Espírito Santo moldou o homem do barro e soprou em suas narinas o fôlego de vida. Confira, ainda, Salmos 104:30, onde o Espírito Santo é mencionado como Criador).
    O que acontece na Criação é uma bela cena de altruísmo: uma pessoa divina aceita a participação de outra na tarefa de criar, mas isso não significa que haja limitação de algum atributo nas pessoas da Divindade. O mesmo se deu com a revelação de Jesus a João: O Pai poderia tê-la concedido diretamente a João, mas deixou o Filho fazer isso, pois Ele é o nosso Mediador, e, pela Encarnação, nosso irmão mais velho.
    [Comentário de Ligado na Videira: Tenho a impressão que a questão foi fundamentada em dois períodos, mas a resposta misturou tais períodos. Entendo assim:
    1) Jesus antes da encarnação (o Velho Testamento);
    2) Jesus encarnado, da barriga de Maria até a ascensão;
    3) Jesus encarnado, após a ascensão.
    Quanto ao item nº 1, muitos ignoram que é Jesus o Deus que Se relaciona com a humanidade. É Ele no dilúvio, no vau de Jaboque, no Sinai, no santuário do deserto, etc, etc.
    No nº 2 Ele Se limitou. Por ter Se tornado homem, teve que aprender aos pés de Sua mãe, não lia pensamento, não atravessava paredes, não lembrava do Céu, não tinha certezas sobre o pós tumba, não sabia o futuro. Viveu pela fé. Dependia do Pai. Por ser o Salvador, de modo especial recebia revelações do Santo Espírito de Deus.
    No nº 3, volta ao Céu. Não deixou a humanidade, mas a glorifica. É nisso que está a diferença. Mas, como as Escrituras estão falando de salvação e redenção, Jesus Cristo sempre vai Se posicionar como representante da humanidade diante do Pai, e, daí, essa submissão, essa súplica de aceitação, embora saiba absolutamente de tudo. (Devemos estudar e valorizar a eterna humanidade de Jesus)].

    Seria Jesus criatura do Pai? (Escrito por Ozeas C. Moura, editor da Casa Publicadora Brasileira).
    Pergunta: Colossenses 1:15 e Apocalipse 3:14 estão, realmente, afirmando que Deus Pai criou Jesus Cristo?
    Resposta: A Bíblia é clara em afirmar que Jesus é Deus. Eis alguns textos bíblicos sobre essa verdade: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (João 1:1); “Ninguém jamais viu a Deus; o Deus Unigênito, que está no seio do Pai, é quem O revelou” (João 1:18); “Respondeu-Lhe Tomé: Senhor meu e Deus meu” (João 20:28); “… mas acerca do Filho: o Teu trono, ó Deus, é para todo o sempre” (Hebreus 1:8); “… na justiça do nosso Deus e Salvador Jesus Cristo” (2Pedro 1:1); “Aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus” (Tito 2:13); “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e Ele será chamado pelo nome de Emanuel (que quer dizer: Deus conosco)” (Mateus 1:23). À luz do conteúdo desses versos, não há motivo para se pensar que Jesus tenha sido criado pelo Pai. Se isso tivesse acontecido, Jesus teria sido o primeiro a nascer, o que contradiria os textos anteriormente mencionados, que declaram ser Ele Deus e, portanto, eterno.
    Colossenses 1:15 diz que Jesus “é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a Criação”. A palavra “primogênito” vem do grego “protótokos” (protos = “o primeiro a nascer”, “o principal”, “o mais importante”, e tokos = “dado à luz”, “nascido”, “descendência”, “prole” – do verbo tikto = “nascer”, “dar à luz” (1)). A Septuaginta emprega protótokos para traduzir o vocábulo hebraico bekôr – “primogênito”. (2) Assim, protótokos significa tanto “primeiro/primogênito”, como também “mais importante/preeminente”.
    “Primogênito” é empregado na Bíblia com duas ideias: (1) em sentido literal: o primeiro a nascer (Lucas 2:7 – “E ela [Maria] deu à luz o seu filho primogênito”; Hebreus 11:28 – “… para que o exterminador não tocasse nos primogênitos dos israelitas”), e (2) em sentido figurado: o mais importante, o mais preeminente (Êxodo 4:22 – “Israel [2º filho de Isaque] é meu filho, meu primogênito”; Salmos 89:27 – “Fá-lo-ei [a Davi, filho mais novo de Jessé], por isso, meu primogênito, o mais elevado entre os reis da Terra”; Jeremias 31:9 – “Efraim [2º filho de José] é meu primogênito”).
    Então, sendo Jesus Deus, e como tal eterno, a palavra “primogênito” é empregada, em Colossenses 1:15, para mostrar que Ele é ”o mais importante” de toda a Criação, pois foi seu Criador, o Autor da própria Criação. Veja que Colossenses 1:16 explica o verso 15: “… pois nEle, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a Terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dEle e para Ele”.
    Em Colossenses 1:15, Paulo destaca a posição de Cristo em relação à Criação. Ele é apresentado como estando acima de todas as coisas criadas. A razão disso é que Ele é a causa primária da Criação, Seu Originador. Ele é o que tem todo o poder, “no Céu e na Terra” (Mateus 28:18), “porquanto, nEle, habita, corporalmente, toda a plenitude da divindade” (Colossenses 2:9), e “NEle, tudo subsiste” (Colossenses 1:17).
    Apocalipse 3:14 diz que Jesus é “o princípio da Criação de Deus”. A palavra “princípio”, na língua original grega, é archê, e significa “início”, “origem”, “princípio”, mas também “líder” e “primeira causa”.(3) A ideia de que Jesus foi o início da Criação de Deus, no sentido de ter sido a primeira coisa criada, novamente contraria os textos mencionados anteriormente, os quais afirmam que Jesus é Deus, e como tal eterno, e quem é eterno não pode ter sido criado. A palavra “princípio”, em Apocalipse 3:14, quer dizer que Jesus é o “originador”, a “causa primária”, o “líder” da Criação de Deus.
    Em conclusão, dizemos que os textos de Colossenses 1:15 e Apocalipse 3:14, longe de sugerirem que o Filho foi criado, afirmam Sua eternidade e Seu poder criador.
    Referências:
    1. DAVIDSON, B. The Analytical Greek Lexicon. Nova York: Harper & Brothers Publishers, s/d, p. 404.
    2. BARTELS, K. H , in: COENEN, L. & BROWN, Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, v. 2. São Paulo: Vida Nova, 2000, p 1851.
    3. GINGRICH, F. W. & DANKER, F. W. Léxico do Novo Testamento Grego/Português. São Paulo: Vida Nova, 1993, p. 35.

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