CRISTO E O DIA DO SENHOR – Capítulo 2 – Samuele Bacchiocchi – Do Sábado Para o Domingo – Ligado na Videira

A expressão “Dia do Senhor- κυριακή ήµέα – que primeiro aparece como uma incontestável designação cristã para o domingo próximo à parte final do segundo século denota um dia que pertence exclusivamente ao “Senhor- κυριού”. [1] Já que o domingo tem sido tradicionalmente considerado por muitos cristãos como o dia do qual Cristo é Senhor e que é consagrado a Ele, podemos muito bem começar nossa pesquisa histórica da origem da observância do domingo verificando se Cristo antecipou a instituição de um novo dia de culto dedicado exclusivamente a Ele.
As declarações de Cristo encontradas nos evangelhos não contêm a expressão “dia do senhor”. Os Sinóticos (Mateus 12:8; Marcos 2:28; Lucas 6 :5), entretanto, contêm uma locução semelhante, a saber, “Senhor do sábado – κυριού τού σαββάτου”, uma frase usada por Cristo no fim de uma discussão com os fariseus sobre a questão de legítimas atividades sabáticas. Vários autores têm procurado estabelecer uma relação causal entre Cristo proclamar a Si mesmo “Senhor do sábado” e a instituição do domingo como o “dia d o Senhor”. C. S. Mosna, por exemplo, declara enfaticamente que “Cristo proclamou-Se Senhor do sábado especificamente para liberar o homem das cargas cerimoniais referentes ao sábado, e que se tornaram desnecessárias”. [2] Ele vê neste pronunciamento a intenção de Cristo de instituir Seu novo dia de culto. Semelhantemente, Wilfrid Stott interpreta o dito de Cristo como uma implícita referência ao domingo: “Ele é o Senhor do sábado e nesta expressão, citada por três dos Sinóticos, há uma referência oculta ao dia do Senhor. Ele, como Senhor, escolhe Seu próprio dia”. [3]
Para verificar a validade destas conjeturas, devemos determinar a atitude básica de Cristo quanto ao sábado. Indo direto ao assunto, Cristo observou verdadeiramente o sábado ou quebrou-o propositadamente? Se a última hipótese é a verdadeira então precisamos descobrir se Cristo, por Suas próprias palavras e atos, planejou estabelecer os fundamentos para um novo dia de culto que eventualmente substituísse o sábado.
Apelar para os críticos tornaria fútil esta investigação, pois eles consideram o relato evangélico dos ensinos e atividades de Cristo quanto ao sábado, não como autênticos fatos históricos, mas como reflexões posteriores da Igreja primitiva. Afirmam que é impossível saber o que o próprio Jesus pensava a respeito. [4] Não vemos nenhuma justificativa para este ceticismo histórico, especialmente porque uma nova busca do Cristo histórico tem começado que lança sombras sobre a metodologia anterior e promete encontrar nos Evangelhos um número muito maior de autênticos feitos e palavras de Jesus. [5] Entretanto, mesmo se os materiais dos Evangelhos representassem reflexões posteriores da comunidade cristã (o que para nós é inadmissível), este fato não diminui o seu valor histórico. Ainda assim se constituem numa fonte valiosa para o estudo da atitude da Igreja primitiva quanto ao sábado [6]. Na verdade, o espaço considerável e a atenção dada pelos escritores dos Evangelhos a curas realizadas por Cristo no sábado (não menos que sete episódios estão registra dos) [7] e controvérsias, são indicativos de quão importante era a questão do sábado na época em que foram escritos.
A tipologia do sábado e seu cumprimento messiânico
Um bom lugar para iniciar nossa pesquisa sobre o conceito de Cristo a respeito do sábado é talvez o quarto capítulo do Evangelho de Lucas. Aí encontramos excertos do sermão de Cristo pregado na sinagoga de Nazaré em um dia de sábado na inauguração de Seu ministério público. Convém notar que no Evangelho de Lucas o ministério de Cristo não apenas começa no sábado – o dia que, de acordo com Lucas 4:16, Cristo observava habitualmente – mas também termina no “dia da preparação”, quando o sábado começava (23:54). O ministério sabático de Jesus que provocou repetidas rejeições (Lucas 4:29; 13:14, 31; 14:1-6) parece ser apresentado por Lucas como um prelúdio da própria rejeição e sacrifício final de Cristo.
Em Seu sermão de abertura Cristo refere-Se a Isaías 61:1-2 (cf. 58:6), que diz: “O Espírito do Senhor está sobre Mim, pelo que Me ungiu para evangelizar aos pobres; enviou-Me para proclamar libertação aos cativos e restauração dar vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor” (Lucas 4:18, 19).
Praticamente todos os comentaristas concordam que o “ano aceitável do Senhor” (4:19) que Cristo está oficialmente incumbido (“ungido”) de proclamar, refere-se ao ano sabático (isto é, o sétimo ano) [8] ou o ano do Jubileu (ou seja, o 50º ano após sete sábados de anos). Nessas instituições anuais, o sábado vem a ser o libertador dos oprimidos da sociedade hebraica. A terra devia ficar sem cultivo, para produzir livremente para os pobres, os desapossados e os animais. [9] Os escravos eram emancipados, se eles assim desejassem, e os débitos dos irmãos eram perdoados. [10] O ano do jubileu também requeria a restauração da propriedade ao proprietário original. [11] Que o texto de Isaías, lido por Cristo refere-se a estas instituições sabáticas está claro pelo contexto que fala da libertação dos “pobres, c ativos, cegos (ou prisioneiros), oprimidos”.
É significativo que Cristo em Seu discurso de abertura anuncia Sua missão messiânica na linguagem do ano sabático. Seu breve comentário sobre a passagem é muito apropriado: “Hoje se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir” (4:21). Como P. K. Jewett sabiamente destaca, “o grande sábado do jubileu tornou-se uma realidade para todos os que estavam perdidos por causa de seus pecados, pela vinda do Messias e nEle encontraram uma herança”. [12]
Podemos inquirir: Por que Cristo anunciou Sua missão como o cumprimento das promessas sabáticas de libertação? Planejava Ele explicar, possivelmente numa forma velada, que a instituição do sábado era um tipo que encontrava seu cumprimento nEle próprio, o Antítipo, e daí em diante cessava sua obrigação? (Neste caso, Cristo teria aberto caminho para a substituição do sábado por um novo dia de adoração). Ou Cristo identificava Sua missão com o sábado para tornar este dia um adequado memorial de Suas atividades redentoras?
Para solucionar este dilema precisamos, antes de tudo, recordar as implicações redentoras messiânicas do sábado. Inerente à instituição do sábado está a certeza das bênçãos divinas – Deus abençoou o sétimo dia (Gênesis 2:3; cf. Êxodo 20:11). A noção de “bênção” do velho Testamento é concreta e se expressa em vida plena e abundante. A bênção do sábado na história da Criação (Gênesis 2:3) segue a bênção dos seres vivos (Gênesis 1:22) e do homem (Gênesis 1:28). Logo, exprime a derradeira e total bênção de Deus sobre a completa e perfeita Criação (Gênesis 1:31). Ao abençoar o sábado Deus promete ser o benfeitor do homem durante todo o curso da história humana. [13]
As bênçãos do sábado na revelação da história da Redenção tornam-se mais especificamente associadas com os atos divinos da salvação. Por exemplo, na versão de Êxodo dos mandamentos Yahweh introduz-Se como o Misericordioso Redentor que tirou Israel da terra do Egito, da casa da servidão (Êxodo 20:2). Para garantir esta recém obtida liberdade a todos os membros da comunidade dos hebreus, o mandamento do sábado ordena que o descanso seja estendido a todos, incluindo até mesmo os animais (Êxodo 20:10). Na versão de Deuteronômio do decálogo o tema da Redenção aparece não apenas no prefácio (Deuteronômio 5:6) de todos os mandamentos (como em Êxodo 20:1), mas também é explicitamente incorporado ao próprio mandamento do sábado. Talvez para ressaltar a importância imediata do mandamento do sábado perante os israelitas e todas as gerações seguintes, a versão de Deuteronômio mostre o sábado fundamentado não no passado ato divino da Criação (como em Êxodo 20:1), que nem sempre trata das preocupações imediatas das pessoas, mas no divino ato da Redenção: “porque te lembrarás que foste servo na terra do Egito, e que o Senhor teu Deus te tirou dali com mão poderosa, e braço estendido: pelo que o Senhor teu Deus te ordenou que guardasses o dia de sábado” (Deuteronômio 5:15). [14]
Aqui a razão para observar o sábado é, como bem declarou Hans Walter Wolff [15], “a afirmação absolutamente fundamental para Israel, isto é, que Yahweh libertara Israel do Egito. Cada sábado Israel deveria lembrar que seu Deus é mui Libertador”. Este apelo para recordar o livramento do êxodo através do sábado era para os israelitas uma experiência concreta que envolvia estender o repouso sabático a todos aqueles que não eram livres para observá-lo. O descanso no sábado, entretanto, não se destinava meramente a ser uma ajuda mnemônica para auxiliar Israel a recordar seu livramento histórico, mas, como observa Brevard S. Childs [16], significava experimentar no presente a história da salvação do passado.
A. M. Dubarle [17] confirma esta interpretação ao escrever que mediante a observância do sábado “era realmente compreendido e atualizado durante todo o tempo o livramento realizado pela primeira vez no mês de Abib. Não era, pois, só uma questão de comemorar por uma simples lembrança, mas antes um regozijo resultante da constante renovação do benefício inicial”.
Podemos dizer que o sábado continha um escopo tridimensional: ele comemorava o livramento passado, presente e futuro. O alívio semanal das durezas da vida que os israelitas experimentavam no presente, também resumia o passado livramento na Páscoa, assim como a futura redenção messiânica. Por causa de sua íntima ligação, tanto a Páscoa como o sábado podiam simbolizar o futuro livramento messiânico. (Deve-se notar que assim como o sábado tornou-se para os israelitas a extensão semanal da Páscoa anual, posteriormente o domingo tornou-se para muitos cristãos a comemoração semanal do Domingo de Páscoa anual).
A função redentiva do sábado era aparentemente entendida como uma prefiguração da missão do Messias. O livramento da dureza do trabalho e desigualdades sociais que tanto o sábado semanal como o anual garantiam a todos os membros da comunidade dos hebreus era considerado uma prefiguração da completa redenção que o Messias um dia traria ao Seu povo. A era messiânica da reunião de todas as nações é descrita em Isaías como o tempo em que “de um sábado a outro virá toda a carne a adorar perante Mim” (Isaías 66:23). A missão do Messias é também descrita por Isaías (na mesma passagem que Cristo aplicou a Si em Seu primeiro sermão (Lucas 4:18-19) na linguagem do ano sabático (Isaías 61:1).
P. K. Jewett [18] comenta muito bem que Deus, no ato da redenção e restauração do ano sabático e do jubileu, “de novo surge como o Redentor que garante ao indivíduo sua liberdade pessoal e preserva para o pobre uma parte na herança de seu povo. Decerto esta não é uma concepção antiquada, cerimonial, pois Deus manifestou-Se como Redentor, supremamente em Cristo, o Mediador, o Filho que nos torna de fato livres (João 8:36).
Outra importante tipologia messiânica do sábado pode ser vista na experiência do repouso sabático – “menuhah”, que A. J. Herschel [19] define “como felicidade e calma, como paz e harmonia”. Theodore Friedman [20] num erudito artigo mostra persuasivamente que a paz e harmonia do sábado são com frequência identificadas, tanto nos escritos dos Profetas como na literatura Talmúdica, com a era messiânica, geralmente conhecida como o fim dos tempos ou o mundo por vir. Ele nota, por exemplo, que “Isaías emprega as palavras “deleitoso” (oneg) e “honra” (kaved) em sua descrição de ambos – o sábado e o fim dos dias (isto é, a era messiânica) (Isaías 58:13 – “mas se chamares ao sábado deleitoso … e o honrares”; Isaías 66:11 – “e vos deleiteis com a abundância da sua glória”). A implicação é clara. O deleite e alegria que marcarão o fim dos dias está disponível aqui e agora por meio do sábado”.
Friedman apresenta também uma amostra informativa de ditos rabínicos onde “o sábado é a antecipação, o antegozo, o paradigma da vida no mundo por vir (isto é, a era messiânica)”. [21] Outra semelhante interpretação do sábado é encontrada em texto apocalíptico judaico onde a duração do mundo é calculada pela “semana cósmica” de seis épocas de mil anos cada, seguidas pelo sábado do fim do tempo. Na grande maioria das passagens este sábado escatológico é considerado como os dias do Messias que precedem ou que são identificados com o paraíso restaurado. [22]
O tema do descanso sabático, que aparece em Hebreus 3 e 4, pode representar outra linha da tipologia messiânica extraída do Velho Testamento. G. von Rad [23] nota um desenvolvimento do tema do “repouso” no Velho Testamento desde o conceito da paz nacional e política (Deuteronômio 12:91; 25:19) até o descanso espiritual e o sossego que Deus dá (cf. Salmos 95:11). Este conceito, como veremos mais tarde, é novamente proposto em Hebreus, onde o povo de Deus é convidado a entrar no “repouso sabático” (Hebreus 4:9) quando crer (Hebreus 4:3), obedecer (Hebreus 4:6, 11) e aceitar pela “fé” as “boas-novas” de Deus (Hebreus 4:1-2). O autor rejeita a noção temporária do descanso sabático entendido como sendo a entrada na terra de Canaã (Deuteronômio 12:9; 25:19), argumentando que a terra que Josué deu aos israelitas (Hebreus 4:8), não é o “repouso” (Hebreus 4:9) que Deus coloca disponível para o Seu povo desde a criação (Hebreus 4:3, 4, 10). Este último pode ser experimentado quando se aceita “hoje” (Hebreus 4:7) as “boas-novas” (Hebreus 4:2, 6) da salvação. A alusão ao evento – Cristo é absolutamente claro. É nEle que o repouso sabático do Velho Testamento encontra seu cumprimento e é através dEle que tal repouso pode agora ser experimentado por todos os crentes. [24]
Esta breve pesquisa foi suficiente para estabelecer a existência, no Velho Testamento, de uma tipologia do sábado alusiva ao Messias. À luz deste fato, a alegação feita por Cristo, em Seu discurso inaugural, de ser o cumprimento da função salvadora do sábado, adquire significado adicional. Ao identificar-Se com o sábado, Cristo firma Sua missão de Messias. Isto explica por que Cristo, como será mostrado posteriormente, revelou Sua missão messiânica particularmente [25] através do Seu ministério aos sábados. Que isto estava bem entendido é evidente, por exemplo, pela acusação que os líderes judeus levantaram contra Cristo: “Não somente violava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-Se igual a Deus” (João 5:18). Parece que neste caso a verdadeira acusação contra Cristo não era a violação do sábado. Aparentemente, como  salienta  W.  Rordorf [26],  “Seus  oponentes obviamente  preferiram  se  concentrar  na  reivindicação messiânica que estava implícita mesmo  em seu quebrantamento do sábado”.
A atitude de Cristo para com o sábado
O fato de ter Cristo afirmado ser Ele o cumprimento das esperanças messiânicas inerentes ao sábado, levanta uma importante questão: como considera Cristo a atual observância do sábado? Confirmou Ele para Seus seguidores a validade de tal instituição como a inquestionável vontade de Deus? Ou considerou Cristo a obrigação de guardar o sábado como já estando cumprida, e anulou, pela Sua vinda, o verdadeiro sábado?
Alguns estudiosos consideram os debates e as curas que Cristo realizou no sábado como atos intencionais e provocatórios, destinados a mostrar que o mandamento do sábado não tinha mais a mesma força. J. Daniélou [27] defende, por exemplo, que nos episódios de cura, “Cristo aparece concretamente como inaugurando o verdadeiro sábado (ou seja, o domingo)”. W. Rordorf expressa a mesma convicção, e ainda mais enfaticamente, quando escreve que “o mandamento do sábado não estava meramente sendo posto de lado pela atividade curadora de Jesus: estava simplesmente sendo anulado”. [28]
As primeiras interpretações patrísticas
Infelizmente tais conclusões nem sempre são baseadas em uma análise do que Cristo realmente fez ou disse a respeito do sábado, mas em antigas interpretações patrísticas do que dizem os Evangelhos a respeito do sábado, e que se tornaram, e em grande parte ainda são, um legado tradicional e incontestável. Do segundo século em diante, de fato, escritores patrísticos produziram uma lista de “violações do sábado” mencionadas nos Evangelhos, frequentemente acrescentando novos casos para ser estabelecida uma forte prova contra o sábado. Dos Evangelhos eles tomaram os exemplos de alegada “violação do sábado” mencionados por Cristo em Seu debate com os fariseus, que são: Davi, no sábado, juntamente com seus companheiros, comeu os pães da proposição (Mateus 12:3; cf. 1Samuel 21:1-7), os sacerdotes neste mesmo dia circuncidaram (João 7:23) e ofereceram sacrifício (Mateus 12:5) [29] e o próprio Deus não interrompe Seu trabalho no sábado (João 5:17). [30] Este repertório foi enriquecido com outras “provas”, tais como o exemplo de Josué que quebrou o sábado quando “comandou os filhos de Israel ao redor dos muros de Jericó [31], dos macabeus que guerrearam no sábado [32], e dos patriarcas que viveram antes de Moisés, supostamente sem guardar o sábado. [33] Se aceitamos (sem consentir) que tais argumentos baseiam-se em sólidos critérios de hermenêutica bíblica, não somos levados a crer que tais exceções apenas confirmam a natureza obrigatória do mandamento do sábado? Além disso, a pessoa que aceita o uso e interpretação que os Pais primitivos fazem do material dos evangelhos a respeito do sábado para determinar a atitude de Cristo, e também a sua, quanto ao sábado, não deve também concordar, para ser consistente, com suas negativas e conflitantes explanações do significado não apenas do sábado, mas também de toda a economia judaica?
Seria interessante descobrir se algum estudioso da Bíblia concordaria, por exemplo, com a declaração de Barnabé de que “a prática literal do sábado nunca havia sido o objeto de um mandamento de Deus”, [34] ou que “os judeus perderam o convênio exatamente após Moisés recebê-lo” (4:7); ou com a hipótese de Justino de ter Deus imposto o sábado aos judeus como um sinal de infâmia para isolá-los para castigo aos olhos dos romanos; [35] ou com a noção de Siríaco Didascalia de que o sábado fora imposto aos judeus como um tempo de lamentação; [36] ou com o conceito de Afraates de que o sábado foi introduzido como um resultado da queda. [37]
Se tais interpretações do significado e natureza do sábado devem ser rejeitadas como não comprovadas pelas evidências escriturísticas do Velho Testamento, então não existe nenhuma justificativa para usar como “prova” seus argumentos contra o sábado, já que em grande parte eles se baseiam nesse tipo de pressupostos equivocados. Mais tarde em nosso estudo veremos que uma combinação de condições que aumentaram a tensão entre Roma e os judeus e entre a Igreja e a Sinagoga na primeira parte do segundo século, contribuiu para o desenvolvimento de um “anti-judaísmo de diferenciação”. Esta situação expressou-se em uma reinterpretação negativa tanto da história como das observâncias judaicas, como da guarda do sábado. Não podemos, portanto, avaliar as referências ao sábado nos Evangelhos, à luz de sua antiga interpretação patrística, mas devemos avaliar a atitude de Cristo quanto ao sábado examinando os documentos exclusivamente por seus próprios méritos.
As primeiras curas no sábado
Os evangelhos de Marcos e Lucas sugerem que Cristo primeiramente limitou Suas atividades de cura no sábado a casos especiais, sem dúvida porque estava ciente da explosiva reação que resultaria de Sua proclamação do significado e uso do sábado. Em Lucas, o anúncio inicial de sua função de Messias como um cumprimento do ano sabático (Lucas 4:16-21) é seguido por dois episódios de cura. O primeiro ocorreu na sinagoga de Cafarnaum, uma cidade da Galileia, durante os serviços de sábado e resultou na cura espiritual de um homem possesso (Lucas 4:31-37). O segundo foi realizado imediatamente após a reunião na casa de Simão e resultou na restauração física da sogra de Simão (Lucas 4:38-39) . Em ambos os casos, Cristo agiu por necessidade e amor. No primeiro caso, foi a necessidade de libertar uma pessoa do poder de Satanás e assim restaurar a ordem nos serviços que levou Cristo a agir. A função salvadora do sábado, que já está incluída neste ato de Cristo, será mais explicitamente proclamada em curas posteriores. No segundo caso Cristo atuou em consideração a um de Seus amados discípulos e sua sogra. Neste caso a cura física tornou o sábado um dia de regozijo para toda a família. Também é digno de nota que a cura resultou em serviço imediato – “e logo se levantou, passando a servi-los” (Lucas 4:39). O significado do sábado como redenção, regozijo e serviço já presente em uma fase embrionária nestas primeiras curas de Cristo, é revelado mais explicitamente no subsequente ministério de Cristo aos sábados. Neste primeiro estágio, entretanto, a maior parte das atividades de cura de Cristo é deixada para depois do sábado, aparentemente para evitar uma prematura confrontação e rejeição: “Ao pôr-do-sol, todas os que tinham enfermos de diferentes moléstias lhos traziam; e Ele os curava, impondo as mãos sobre cada um” (Lucas 4:40; cf. Marcos 1:32).
O homem com a mão ressequida
O próximo episódio de cura, o do homem com a mão ressequida, narrado por todos os três sinóticos (Mateus 12:9-21; Marcos 6:6-11), é o ponto de prova pelo qual Cristo começa Suas reformas sabáticas. Jesus encontra-Se na sinagoga diante de um homem com uma mão paralisada, levado ali, muito provavelmente, por uma delegação de Escribas e Fariseus. [38] Estes tinham vindo à sinagoga não para adorar, mas para inspecionar Cristo e “ver se o curaria em dia de sábado, a fim de O acusarem” (Marcos 3:2). De acordo com Mateus, eles dirigiram a Cristo a probante pergunta: “É lícito curar no sábado?” (Mateus 12:10). Sua dúvida não era motivada por uma genuína preocupação pelo homem enfermo, nem por um desejo de explorar como o sábado está relacionado com o ministério da cura. Em vez disso, estavam ali como a autoridade que sabe todas as isenções previstas pela casuística rabínica, e que quer julgar a Cristo com base nas minúcias de seus regulamentos. Lendo seus pensamentos, Cristo Se entristece com a dureza de seus corações (Marcos 3:5). No entanto, aceita o desafio. Primeiro, convida o homem para se aproximar, dizendo: “Vem para o meio” (Marcos 3:3) Este passo possivelmente destinou-se a despertar simpatia para com o homem enfermo e ao mesmo tempo para cientificar a todos do que Ele estava para fazer. Então perguntou aos especialistas da lei: “É lícito nos sábados fazer o bem ou fazer o mal? Salvar a vida ou tirá-la?” (Marcos 3:4) Para tornar a pergunta mais direta, de acordo com Mateus, Cristo acrescentou uma segunda, na forma de uma parábola (que aparece duas vezes mais, um pouco modificada em Lucas 14:5; 13:15), “Qual dentre vós será o homem que, tendo uma ovelha, e, num sábado esta cair numa cova, não fará todo o esforço, tirando-a dali? Ora, quanto mais vale um homem que uma ovelha?” (Mateus 12 :11, 12). [39]
Tais declarações levantam um importante debate. Pela pergunta inicial, que Cristo ilustrou com uma segunda pergunta contendo um exemplo prático, pretendeu Ele ab-rogar radicalmente o mandamento do sábado ou quis restaurar seus divinos valores e funções originais? Muitos estudiosos aceitam a opção anterior. L. Goppelt declara enfaticamente que “a dupla pergunta de Jesus assinala o fim do mandamento de sábado: não é mais uma ordenança estatucional e não tem mais validade absoluta, se esta ampla e justaposta alternativa é válida, a saber, salvar a vida”. [40] Esta interpretação repousa sobre a suposição de que “salvar a vida” é contrário ao espírito e função do sábado. Pode isto ser verdade? Talvez possa refletir o mal-entendido reinante e o uso errôneo do sábado, mas não o propósito original do mandamento do sábado. Aceitar tal suposição seria culpar a Deus de falhar em salvaguardar o valor da vida ao instituir o sábado. W. Rordorf defende a mesma conclusão da suposta “maneira errônea de dedução” da pergunta de Cristo sobre princípio e exemplo. Ele explica que da pergunta se é legal salvar ou matar e do exemplo de resgatar um animal em urgente necessidade, “ninguém, pode legitimamente tirar inferências que sejam válidas também para um ser humano com problemas de saúde que absolutamente não necessita de assistência imediata num sábado”. [41]
O Mishnah é explícito a este respeito: “Em qualquer caso que exista uma possibilidade de a vida estar em perigo, a lei do sábado deve ser posta de lado”. [42] Entretanto, no caso do homem com a mão ressequida, como em todos os outros exemplos de cura no sábado, não se dava a necessidade de socorrer algum doente numa emergência, mas sempre eram pessoas com doenças crônicas. Portanto, Rordorf conclui que o princípio de salvar a vida não descreve o valor da observância do sábado, mas é uma referência à natureza da missão do Messias, que devia estender a salvação imediatamente a todos os que estavam em necessidade. Em face a esta “consciência messiânica”, o mandamento do sábado tornou-se então irrelevante … foi simplesmente anulado”. [43]
Esta espécie de análise não faz justiça a vários pontos da narrativa. Primeiro, a pergunta dirigida a Cristo era especificamente relacionada com o assunto da correta observância do sábado: “É lícito curar no sábado?” (Mateus 12:10). Em segundo lugar, a resposta de Cristo, na forma de duas perguntas (uma implicando um princípio e a outra ilustrando-o) também trata explicitamente da questão do que é legal realizar no sábado. Em terceiro lugar, a aparente errônea analogia entre a pergunta de Cristo sobre a legitimidade de “salvar a vida ou tirá-la” (Marcos 3:4) no sábado e o enfermo crônico cuja vida não seria salva nem perdida pelo adiamento da cura para depois do sábado, pode ser satisfatoriamente explicada pela nova avaliação que Cristo colocava sobre o sábado. Isto é explicitamente expresso na positiva declaração relatada por Mateus: “Logo, é lícito fazer bem aos sábados” (Mateus 12:12). Se é correto fazer o bem e salvar no sábado, então qualquer recusa de fazê-lo significa fazer o mal ou matar. Mais tarde veremos que este princípio é exemplificado na história por dois tipos opostos de guardadores do sábado.
Infelizmente, quando Rordorf não pode ajustar em se u esquema a positiva interpretação de Mateus a respeito do sábado, ele tenta resolver o problema acusando-o de “começar a moralística divergência da atitude de Jesus quanto ao sábado”. Tal divergência supostamente consiste em aceitar “que a obrigação de amar o próximo substitui em certas circunstâncias a ordem de guardar um dia de repouso”. [44] É estranho que Mateus tenha realmente entendido mal ou realmente compreendido a pretensão de Cristo e a mensagem do sábado, quando escreveu “É lícito fazer bem aos sábados” (Mateus 12:12). É verdade que no judaísmo do pós-exílio, uma elaborada cerca foi construída ao redor do sábado para assegurar sua fiel observância. O exagero de minúcias e regras casuísticas (conforme o Rabino Johanan, havia 1521 leis derivadas) [45] referentes à guarda do sábado tornou sua observância um ritual legalístico, em vez de um serviço de amor. Todavia, não é certo considerar o sábado exclusivamente à luz desse desenvolvimento legalístico posterior.
“A obrigação de amar o próximo” era a essência da primitiva história do sábado e suas instituições afins. Nas várias versões do mandamento do sábado, por exemplo, há uma constante lista de pessoas a quem a liberdade de repousar no sábado deve ser garantida. Os citados particularmente são em geral os criados, os filhos dos escravos, o gado, o hóspede e/ou estrangeiro. Isto indica que o sábado fora ordenado especialmente para mostrar compaixão pelas criaturas indefesas e necessitadas. “Seis dias farás a tua obra, mas ao sétimo dia descansarás: para que descanse o teu boi e o teu jumento; e para que tome alento o filho da tua serva e o forasteiro” (Êxodo 23:12). [46] Niels-Erik Andreasen comenta acertadamente que “o dono da terra devia preocupar-se com o valor humano de seus súditos, assim como Yahweh, quando assegurou liberdade ao Seu povo”. [47] É sem dúvida comovente que o sábado estava destinado a mostrar interesse até mesmo pelos animais. Mas, como bem destacou Hans Walter Wolff, “é mais tocante que, de todos os trabalhadores dependentes, o filho da escrava e o estrangeiro são especialmente destacados. Pois, quando tais pessoas eram obrigadas a trabalhar, não tinham nenhum recurso ou proteção”. [48]
A dimensão original do sábado como dia para honrar a Deus através da preocupação e compaixão para com os seres inferiores havia sido amplamente esquecida no tempo de Jesus. O sábado tinha se tornado no dia quando a realização correta de um ritual era mais importante que uma resposta espontânea ao clamor das necessidades humanas. Nosso episódio provê um bom exemplo desta perversão, contrastando dois tipos de guardadores de sábado. De um lado ficou Cristo, “condoído com a dureza dos corações” de Seus acusadores e dando passos para salvar a vida de um homem defeituoso (Marcos 3:4-5). Do outro lado ficaram os especialistas da lei que, embora estando no lugar de adoração, gastaram seu tempo de sábado “observando a Jesus … a fim de O acusarem … conspiravam em como lhe tirariam a vida” (Marcos. 3:2, 6). Este contraste de atitudes pode bem ter gerado a explanação da pergunta de Cristo sobre a legitimidade de salvar ou matar no sábado (Marcos 3:4), ou seja, que uma pessoa que não está preocupada com a salvação física e espiritual de outros no sábado, está automaticamente envolvida em atitudes e esforços destrutivos. [49]
O programa de reformas do sábado proposto por Cristo deve ser considerado no contexto de Sua atitude geral perante a lei. [50] No Sermão do Monte, Cristo explica que Sua missão é restaurar as várias prescrições da lei às suas intenções originais (Mateus 5:17, 21). Esta obra de esclarecer o propósito atrás dos mandamentos era uma triste necessidade, pois com o acúmulo de tradições, em muitos casos sua função original estava obscurecida. Como Cristo colocou, “jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição” (Marcos 7:9). O quinto mandamento, por exemplo, que ordena honrar o pai e a mãe, conforme Cristo, havia sido substituído pela tradição do “Corbã” (Macabeus 7:12-13). Aparentemente isto consistia em transferir um serviço ou uma obrigação a ser dedicada aos pais, em uma oferta a ser dada no Templo.
O mandamento do sábado não era exceção, e a menos que fosse libertado das muitas restrições casuísticas sem sentido, teria permaneci do mais como um sistema para justiça própria do que como um tempo para amar o Criador-Redentor e os semelhantes.
A mulher enferma
Para compreendermos melhor o propósito das reformas de Cristo quanto ao sábado, vamos considerar rapidamente outros episódios de cura. A cura da mulher enferma, relatada apenas por Lucas 13:10-17, é aparentemente o último ato realizado por Cristo na sinagoga. A crescente oposição das autoridades deve ter impossibilitado que Cristo prosseguisse em Seu ministério sabático na sinagoga. Este episódio, comparado com a cura anterior, do homem com a mão ressequida (Lucas 6:6-11), mostra uma substancial evolução. Isto pode ser visto tanto na atitude mais decidida de Cristo que automaticamente entrou em ação declarando a mulher “livre” de sua enfermidade (Lucas 13:12) sem ser solicitado, como em Sua pública repreensão ao chefe da sinagoga (Lucas 13:15). As autoridades também protestaram – neste caso o chefe da sinagoga – e desta vez não foi do lado de fora, mas de dentro da sinagoga, condenando publicamente toda a congregação por buscar a cura no sábado (Lucas 13:14). Finalmente, a função redentiva do sábado é expressa mais explicitamente. O verbo “libertar” é agora usado para esclarecer o significado do sábado. É difícil acreditar que o verbo estava sendo usado por Cristo acidentalmente, pois nesta breve narrativa ele ocorre três vezes, embora na tradução inglesa RSV cada vez é usado um sinônimo diferente: “livrar, desprender, soltar” (Lucas 13:12, 15, 16).
O verbo é usado por Cristo primeiramente ao dirigir-se à mulher: “Estás livre da tua enfermidade” (v. 12). A mulher que por dezoito anos “andava encurvada” (v. 11) diante das palavras de Cristo “imediatamente se endireitou e dava glória a Deus” (v. 13). A reação do chefe da sinagoga destacou o contraste entre a predominante perversão do sábado, de um lado, e o esforço de Cristo para restaurar ao sábado o seu verdadeiro significado, de outro. “Seis dias há em que se deve trabalhar”, disse o chefe da sinagoga, “vinde, pois, nesses dias para serdes curados” (v. 14). Para o administrador, que considerava o sábado como regras a obedecer em vez de pessoas a amar, a cura era uma obra imprópria para o sábado. Para Cristo, que Se preocupava em restaurar todo o ser, não havia melhor dia que o sábado para realizar esse ministério redentor.
Para esclarecer esta função libertadora do sábado, Cristo novamente usou por duas vezes o verbo “libertar”. Primeiro, ao referir-Se a uma concessão rabínica: “Hipócritas, cada um de vós não desprende da manjedoura no sábado o seu boi ou o sue jumento, para levá-lo a beber?’” (Lucas 13:15). Deve-se notar que dar água a um animal no sábado não está incluído na mesma categoria de emergência como resgatar uma ovelha de uma cova (Mateus 12:11). Qualquer animal pode sobreviver um dia sem água, embora isto possa resultar em perda de peso e, consequentemente, em perda de valor comercial. Pode-se estranhar o fato de Cristo referir-Se a este pervertido senso de valores, ou seja, que a perda financeira derivada de negligenciar um animal no sábado era mais importante para alguns que suprir as necessidades de seres humanos, o que não trazia nenhum retorno financeiro. Isto está bem claro nas palavras de Cristo. Mas o que Jesus quis esclarecer é que um serviço básico é realizado no sábado, mesmo aos animais.
Baseado no conceito de desatar um animal, Cristo novamente usa o mesmo verbo na forma de uma pergunta retórica para salientar Sua conclusão: “Por que motivo não se devia livrar deste cativeiro em dia de sábado esta filha de Abraão, a quem Satanás trazia presa há dezoito anos?” (Lucas 13:16) Raciocinando de um caso menor para um maior, Cristo mostra como o sábado havia sido paradoxalmente distorcido. Um boi ou jumento podia ser libertado da manjedoura no sábado, mas uma mulher sofredora não podia neste dia ser liberta de sua enfermidade física e espiritual. Que perversão do sábado! Por esta razão Cristo agiu contra a tradição normativa para restaurar o sábado ao objetivo pretendido por Deus. Seja notado que neste e em todos os exemplos Cristo não está questionando a obrigatoriedade da norma do sábado, e sim destacando seus reais valores, que tinham sido bastante esquecidos.
O quadro de Cristo, num sábado, libertando uma vítima do cativeiro de Satanás (Lucas 13:16), lembra o que Cristo disse sobre Sua missão de “proclamar liberdade aos cativos” (Lucas 4:18; cf. Isaías 61:1-3). A libertação de ama filha de Abraão dos laços de Satanás, no sábado, representa assim o cumprimento da tipologia messiânica deste dia. Paul K. Jewett comenta sobre isto: “Temos nas curas de Jesus aos sábados não apenas atos de amor, compaixão e graça, mas verdadeiros “atos sabáticos”, atos que mostram que o sábado messiânico, o cumprimento do repouso sabático do velho Testamento, tem chegado ao nosso mundo. Portanto, o sábado, entre todos os dias, e o mais apropriado para cura”. [51]
Este cumprimento, por Cristo, da simbologia do sábado no Velho Testamento (como no caso de sua instituição correlata, a Páscoa) não implica, como é sugerido pelo mesmo autor, que os “cristãos estão livres do sábado para se reunirem no primeiro dia”, [52] mas sim que Cristo, ao cumprir a tipologia redentora do sábado tornou o dia um permanente e adequado memorial desta realidade, ou seja, de sua missão redentora. [53] Podemos perguntar como a mulher e as pessoas que testemunharam as intervenções salvadoras de Cristo passaram a considerar o sábado. Lucas relata que enquanto os adversários de Cristo “se envergonharam” (Lucas 13:17) com a justificação do Senhor pela Sua atividade salvadora no sábado, “o povo se alegrava” (Lucas 13:17) e a mulher “dava glória a Deus” (Lucas 13:13). Indubitavelmente, para a mulher e todas as pessoas abençoadas pelo ministério de Cristo aos sábados, este dia tornou-se o memorial da cura de seus corpos e almas, da saída dos grilhões de Satanás para a liberdade do Salvador.
O paralítico e o cego
Esta relação entre o sábado e a obra de salvação está bem evidente nos dois milagres aos sábados relatados no Evangelho de João (João 5:1-18; 9:1-41). Devido à sua substancial semelhança, vamos considerá-los juntos. A semelhança é notada em vários aspectos. Os dois homens curados haviam sido doentes crônicos: um, inválido por 38 anos (João 5:5) e o outro, cego de nascença (João 9:2). Nos dois exemplos, Cristo disse aos homens para agirem. Ao inválido Ele disse: “Levanta, toma a tua cama e anda” (João 5:8); e ao cego: “Vai, lava-te no tanque de Siloé” (João 9:7). Em ambos os casos os fariseus acusaram a Cristo formalmente de quebrar o sábado e consideraram isto como uma evidência de que Ele não era o Messias: “Esse homem não é de Deus, porque não guarda o sábado” (João 9:16; cf. 5:18). Nas duas situações, a acusação contra Cristo não envolve primariamente a ação da cura em si, mas a violação das leis rabínicas do sábado, quando ordenou que o paralítico levasse a sua cama (João 5:8, 10, 12) e quando preparou o barro (João 9:6, 14). [54] Nos dois exemplos Cristo repudiou a acusação de violar o sábado, argumentando que Suas obras de salvação não eram impedidas e sim previstas pelo mandamento do sábado (João 5:17; 7:23; 9:4).
Antes de examinar a justificativa de Cristo por Suas atividades salvadoras no sábado, deve-se dar atenção ao verbo “respondeu- άπεκρίνατο usado por João ao apresentar a defesa de Cristo. Mario Veloso, em sua incisiva análise desta passagem, nota que esta forma verbal ocorre apenas duas vezes em João. [55] A primeira vez, quando Cristo replicou a acusação dos judeus (João 5:17) e a segunda, quando esclareceu a resposta dada (João 5:19). A forma comum usada por João cerca de 50 vezes é  que também é traduzida como “respondeu”. O uso especial da voz central do verbo άπεκρίνατο implica, por um lado, como explica Veloso [56], numa defesa pública e formal,  e por outro lado, conforme disse J. H. Moulton, que “o agente está extremamente relacionado com a ação”. [57]
Isto significa que Cristo não apenas fez uma defesa formal, mas que também identificou-Se com o conteúdo de Sua resposta. As poucas palavras da defesa de Cristo merecem, portanto, cuidadosa atenção.
O que Cristo pretendeu quando Se defendeu formalmente contra a acusação de violar o sábado, dizendo “Meu Pai trabalha até agora, e Eu trabalho também” (João 5:17)? Esta declaração tem sido alvo de considerável e minucioso exame e de algumas conclusões extremadas. J. Daniélou afirma que “as palavras de Cristo condenam formalmente a aplicação do repouso de Deus no sábado como significando inatividade. […] A obra de Cristo deve ser considerada como a realidade que vem para substituir a figurada inatividade do sábado”. [58] W. Rordorf argumenta que João 5:17 “pretende interpretar Gênesis 2:2 no sentido de que Deus nunca descansou desde o início da criação, e que Ele ainda não descansa, mas que descansará afinal”. [59] À luz da passagem paralela de João 9:4, ele conjetura que “o prometido repouso sabático de Deus… encontra seu cumprimento no repouso de Jesus na sepultura”. [60] Assim, conclui que “Jesus deriva para Si mesmo a ab-rogação do mandamento de descansar no sábado semanal, da interpretação escatológica de Gênesis 2:2”. [61] Paul K. Jewett repropõe a explanação de Oscar Cullmann, interpretando a expressão “Meu Pai trabalha até agora” como implicando um movimento na história redentora “da promessa ao cumprimento”, isto é, da promessa do repouso sabático do Velho Testamento ao cumprimento encontrado no dia da Ressurreição. [62] O argumento baseia-se em considerar que “o repouso de Deus não foi conseguido ao fim da primeira criação” e sim, como coloca Cullmann, “é primeiramente cumprido na ressurreição de Cristo”. [63] O domingo, então, como o dia da ressurreição, representa o cumprimento do divino repouso prometido pelo sábado do Velho Testamento.
Para avaliar a validade destas interpretações necessitamos primeiro averiguar o significado da expressão “Meu Pai trabalha até agora – έως άρτι” e, subsequentemente estabelecer sua relação com a questão sábado-domingo. Há um amplo consenso de opinião em considerar o “trabalha até agora” do Pai como uma referência ao trabalho da Criação mencionado em Gênesis 2:2. [64] O raciocínio por detrás desta interpretação é que, já que Deus está “trabalhando até agora” em atividades criativas, Ele ainda não experimentou o repouso sabático da Criação, mas virá um tempo na restauração escatológica de todas as coisas, quando isto se tornará uma realidade. O domingo, portanto, sendo em virtude da Ressurreição, como diz Jewett, “a realidade e antecipação deste sábado final”,  [65] já é celebrado pelos cristãos em lugar do sábado.
A espécie de interpretação usada para chegar a esta conclusão é emprestada do filósofo judeu helenístico Filo, que defendeu a ideia da criação contínua para evitar um aspecto muito antropomórfico do repouso de Deus. “Deus nunca cessou de agir”, escreve Filo, “mas assim como a propriedade do fogo é aquecer, a de Deus é criar”. [65] Aparentemente, porém, Filo faz distinção entre a criação de coisas mortais que foi completada com o divino repouso e a criação de coisas divinas que ainda continua. [67] Posteriormente (cerca de 100-130 AD) os rabinos Gamaliel II, Josué ben Chananiah, Eliezer ben Azariah e Aqiba declararam explicitamente em Roma que Deus continua Sua atividade criativa. [68] Esta noção de uma contínua criação divina presente   no judaísmo helenístico é, todavia, estranha aos ensinos do Evangelho de João. Em harmonia com o ponto de vista de todos os livros da Bíblia, João ensina que as obras da criação de Deus foram realizadas em um tempo passado conhecido como “princípio” (João 1:1) Neste princípio, a través do Verbo que estava com Deus (1:1) “todas as coisas foram feitas…  e sem Ele nada do que foi feito se fez” (João 1:3). Ambas as frases “No princípio – άρκή” e a forma aorista do verbo “ έγένετο – fazer (ou trazer) à existência” indicam com suficiente clareza que as obras da Criação são consideradas como concluídas em um indefinido passado distante. Além disso, o fato de que em João 5:17 as obras do Pai são identificadas com aquelas desempenhadas por Cristo na Terra, indica que não é possível que sejam as obras da criação, porque Cristo naquele momento não estava ocupado em obras de criação. [69] Fazer distinção entre as obras do Pai e as do Filho seria destruir a absoluta unidade entre os dois, que é enfaticamente declarada no Evangelho de João.
A que se refere então este “trabalha até agora” do Pai? Há indicações conclusivas de que a expressão refere-se não à atividade criativa, mas redentiva de Deus. O Velho Testamento apresenta um antecedente explicativo. Ali, como G. Bertram mostra, “a atividade de Deus é vista essencialmente no curso da história de Israel e das nações”. [70] Mário Veloso bem destaca que “não é questão de uma história considerada como uma mera sucessão de atos humanos, mas uma história moldada pelas obras salvadoras de Deus, pelo que se torna a história da salvação”. [71] No Evangelho de João estas obras de Deus são repetidamente identificadas como o ministério redentor de Cristo. Jesus diz, por exemplo, “as obras que o Pai Me confiou para que Eu as realizasse, essas que Eu faço testemunham a Meu respeito, de que o Pai Me enviou” (João 5:36). O propósito da manifestação das obras do Pai através do ministério de Cristo é também explicitamente declarado: “A obra de Deus é esta, que creiais nAquele que por Ele foi enviado” (João 6:29). E também: “Se não faço as obras de Meu Pai, não Me acrediteis, mas se faço e não Me credes, crede nas obras; para que possais saber e compreender que o Pai está em Mim, e Eu estou no Pai” (João 10:37-38; cf. 14:11; 15:24). [72]
Esta amostra de referências esclarece a natureza redentiva e o propósito do trabalho que Deus está fazendo até agora, mencionado em João 5:17. Uma breve comparação com a passagem paralela de João 9:4 deve remover quaisquer dúvidas. Jesus diz: “É necessário que façamos as obras daquele que Me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode trabalhar” (João 9:4). A surpreendente semelhança entre os dois textos deve ser notada não apenas em seu conteúdo, mas também em seu contexto. Nos dois exemplos Cristo defende Suas “obras” aos sábados de serem violação do sábado, como acusam Seus inimigos. Entretanto, em João 9:3-4 a natureza redentiva das obras de Deus está absolutamente clara. Não apenas o Pai é descrito como Aquele “que envia” o Filho para fazer Suas obras, implicando assim o caráter missionário da atividade de Cristo, mas a própria cura do cego é descrita como manifestação das “obras de Deus” (João 9:3). Estas evidências forçam a conclusão de que o “trabalhar até agora” do Pai, de João 5:17, não se refere a uma ininterrupta atividade criativa de Deus que possa anular qualquer observância sabática, mas sim às obras de salvação realizadas pelo Pai através do Filho. “Melhor dizendo”, para usar as bem escolhidas palavras de Donatien Mollat, “existe uma obra de Deus: que é a missão do Filho no mundo”. [73] Se nossa identificação do “trabalha até agora” do Pai (João 5:17) como a missão salvadora de Cristo está correta, conclusão esta que nos parece inevitável, então aquelas interpretações mencionadas anteriormente que explicam as obras de Cristo como uma referência ao repouso sabático da Criação, que supostamente Deus não guardou ainda, são portanto incorretas, já que a noção de criação não está absolutamente presente em João 5:17.
No entanto, uma dúvida ainda permanece, ou seja, o fato de Cristo defender Suas curas aos sábados no campo das ininterruptas atividades salvadoras de Seu Pai, manifestadas através dEle, não implica em que, como declarou Jewett, “por Sua obra redentiva, Jesus coloca o sábado de lado”? [74] Defender que através de Seus feitos no sábado Cristo estava anunciando (embora de uma maneira velada) o fim da observância do sábado, é sustentar a mesma posição dos judeus que acusaram a Cristo de quebrar o sábado (João 5:16, 18; 9:16). E esta era a acusação que Cristo firmemente recusava admitir. Nos episódios de cura que consideramos anteriormente vimos que Cristo defendeu Suas atividades salvadoras aos sábados com base nas considerações humanitárias previstas, pelo menos em parte, até mesmo na legislação rabínica. Vimos também em João que Cristo refutou formalmente a acusação de quebrar o sábado com um argumento teológico admitido por Seus oponentes. Antes de considerar o argumento de Cristo, deve-se enfatizar que neste e em todos os outros exemplos Ele não admite ter transgredido o sábado, antes defende a legalidade de Sua ação.
Como bem declarou Mário Veloso, “uma defesa nunca é destinada a admitir a acusação, mas, ao contrário, a refutá-la. Jesus não aceita a acusação de transgredir o sábado lançada sobre Ele pelos judeus. Ele está realizando a obra de salvação que é lícito praticar no sábado”. [75]
Para compreender a força da defesa de Cristo em João, precisamos lembrar o que já discutimos em parte, ou seja, que o sábado tanto está associado ao cosmos através da Criação (Gênesis 2:2-3; Êxodo 20:8-11) como à Redenção através do êxodo (Deuteronômio 5:15). Enquanto pela interrupção de todas as atividades seculares os israelitas estavam lembrando o Deus-Criador, pelos atos de misericórdia aos semelhantes estavam imitando o Deus-Redentor. Isto era verdade não apenas na vida das pessoas que, conforme observamos, deviam aos sábados ser compassivas para com as classes inferiores da sociedade, mas particularmente nos serviços do Templo. Ali, no sábado, os sacerdotes realizavam muitos trabalhos comuns que os israelitas eram proibidos de fazer. Por exemplo, enquanto nada devia ser cozido nos lares aos sábados (Êxodo 16:23), no templo o pão era cozido nesse dia (1Samuel 21:3-6) p ara substituir o pão da presença que era renovado cada semana (Levítico 24:8; 1Crônicas 9:32). O mesmo é verdade quanto a todos os serviços relacionados com a manutenção do sistema sacrifical do templo. Muitas atividades que por si eram comuns, tornavam-se santas no sábado, já que contribuíam para a salvação das pessoas.
Estas atividades salvadoras podiam ser realizadas no sábado, pois o próprio Deus, como diz o salmista, “desde a antiguidade… opera feitos salvadores no meio da Terra” (Salmos 74:12). Com base nesta teologia do sábado admitida pelos judeus, Cristo defende a legalidade de Seus atos salvadores aos sábados dizendo: “Meu Pai trabalha até agora, e Eu trabalho também” (João 5:17). Isto equivale a dizer: “Aos sábados Eu estou empenhado na mesma atividade salvadora que o Pai, e isto é perfeitamente legal”. Para evitar mal-entendidos Cristo explica a natureza das obras do Pai que o Filho também faz (João 5:19). Elas consistem em ressuscitar e vivificar mortos (João 15:21) e realizar um julgamento que salva (João 5:22-23). Para os judeus que estavam sem vontade de aceitar a reivindicação messiânica de Cristo, esta justificação de realizar no sábado as obras de salvação do Pai, tornaram-nO culpado por dois motivos: “não somente violava o sábado, mas também dizia que Deus era Seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus” (João 5:18).
Esta hostil reação levou Cristo a esclarecer posteriormente a legalidade de Sua ação. Em João 7:21-23 (a passagem que a maioria dos comentaristas reconhece como relacionada ao capítulo 5), encontramos o eco da controvérsia. Aqui Cristo elabora Sua anterior justificação teológica para seus atos aos sábados, usando sabiamente o exemplo da circuncisão: “No sábado circuncidais um homem. E se o homem pode ser circuncidado em dia de sábado, para que a lei de Moisés não seja violada, por que vos indignais contra mim, pelo fato de eu ter curado, num sábado, ao todo, um homem? Não julgueis segundo a aparência, e, sim, pela justiça” (João 7:22-24).
Por que era legítimo circuncidar uma criança no sábado quando o oitavo dia (Levítico 12:3) após seu nascimento caía nesse dia? Nenhuma explicação é dada, já que isto era bem compreendido. A circuncisão era considerada como um ato redentivo que mediava a salvação do convênio. [77] Era legal, portanto, mutilar num sábado, uma das 248 partes do corpo humano (que os judeus reconheciam) [78] para salvar toda a pessoa. Com base nessa premissa, Cristo argumenta que não há razão para se preocupar com Ele por restaurar neste dia “ao todo, um homem” (João 7:23). [79]
Este exemplo esclarece e substancia a prévia declaração de Cristo a respeito do “trabalhar até agora” referente a Seu Pai, já que sugere que as obras de salvação são realizadas no sábado não apenas por Seu Pai no Céu mas também por Seus servos, tais como os sacerdotes, na Terra. O sábado é, então, para Cristo, o dia de trabalhar para a redenção de todo o homem. Nas duas curas, realmente, Cristo encontrou mais tarde, no mesmo dia, os homens curados, e ministrou quanto a suas necessidades espirituais (João 5:14; 9:35-38). Seus oponentes não podem perceber a natureza redentiva do ministério de Cristo aos sábados porque eles “julgam segundo a aparência” (João 7:24). Consideram o fato do paralítico carregar a cama no sábado mais importante do que a restauração física e a reunificação social que isto simbolizou (João 5:10-11). Acham que misturar o lodo no sábado é mais significativo do que a restauração da vista ao cego (João 9:14, 15, 26). [80]
As provocadoras infrações dos regulamentos rabínicos por parte de Cristo (tais como carregar uma cama ou misturar lodo no sábado) destinavam-se não a invalidar o mandamento do sábado, mas a restaurar o dia à sua função positiva . M. J. Lagrange muito apropriadamente, nota que “Cristo foi cuidadoso em distinguir o que era contrário e o que estava em harmonia com o espírito da lei. […] Jesus estava trabalhando como o Pai e se as ações do Pai de nenhum modo contradiziam o repouso prescrito pelas Escrituras, então as atividades realizadas no sábado pelo Filho não eram contrárias ao espírito dessa instituição”. [81]
Podemos concluir que as obras do Pai a que Cristo Se refere quando diz “Meu Pai trabalha até agora, e Eu trabalho também” (João 5:17) não são as obras da Criação que João considera como completadas, mas as obras da Redenção. Deus descansou ao completar a Criação, mas por causa do pecado, Ele ainda está trabalhando para realizar sua restauração. Estas obras de salvação, às quais o Pai está constantemente dedicado, são previstas e permitidas pelo mandamento do sábado. Cristo, portanto, nega ter agido contra o sábado quando restaurou pessoas enfermas, pois estava realizando exatamente a mesma missão salvadora do Pai. Além disso, em João 9:4, Jesus aparentemente estendeu a Seus seguidores o mesmo convite para fazer a obra de Deus “enquanto é dia; a noite vem quando ninguém pode trabalhar” (João 9:4). Alguns interpretam esta “noite” como uma referência à morte de Cristo [82] que inaugurou o verdadeiro repouso de Deus em virtude da Ressurreição comemora da pela observância do domingo. Embora seja verdade que para Cristo a “noite” da cruz estava muito próxima, é difícil que o termo se aplique exclusivamente à morte de Cristo, já que tal “noite” é descrita como um tempo “quando ninguém pode trabalhar” (João 9:4). A morte de Cristo dificilmente pode ser considerada como a interrupção de toda a atividade redentora divina e/ou humana. Não poderia este termo referir-se ao fim da história da Redenção quando o convite de Deus para aceitar a salvação não será mais atendido? Por outro lado, as expressões “Meu Pai trabalha até agora” (João 5:17) e “é necessário que façamos as obras… enquanto é dia” (João 9:4), ditas por Cristo para defender o Seu ministério de salvação no dia de sábado, bem resumem a compreensão do Salvador a respeito do sábado, isto é, que se trata de um tempo de experimentar a contínua salvação de Deus partilhando-a com outros. [83]
A colheita das espigas
Esta função redentora do sábado é mais tarde esclarecida no episódio da colheita das espigas pelos discípulos num dia de sábado (Marcos 2:23-28; Mateus 12:1-8; Lucas 6:1-5) – uma discussão entre Cristo e os fariseus, que tornou Jesus responsável pela ação dos discípulos. Alguns estudiosos interpretam a expressão de Marcos “aconteceu atravessar Jesus em dia de sábado, as searas, e os discípulos ao passar colhiam espigas” (Marcos 2:23) como sendo abrir caminho para Jesus no meio de um campo de trigo (ou cevada). Então a ira dos fariseus teria sido causada pela grande quantidade de grão colhido. Embora possa ser admitido que esta expressão tomada literalmente conduza a tal conclusão, à luz do contexto dificilmente parece ser este o caso. [84] Se a intenção dos discípulos era abrir um caminho, através do campo para seu Mestre, eles teriam derrubado ou cortado as espigas com uma foice, e não meramente colhido espigas com a mão. Além disso, se os discípulos tinham realmente pretendido abrir um caminho através de um trigal, eles teriam sido acusados não somente de quebrar o sábado, mas também de invadir, destruir e roubar a propriedade privada. A colheita de espigas de trigo ou cevada ocorreu, portanto, não para abrir caminho para o Mestre, mas como é traduzido pela RSV, “porque eles faziam seu caminho” (Marcos 2:23) ao longo de uma estrada que atravessava os campos. [85]
Na opinião dos rabinos, entretanto, por esta ação os discípulos eram acusados de várias culpas. Por apanharem as espigas eram culpados de colher, pelo ato de as esfregarem em suas mãos eram culpados de joeirar; e por todo o procedimento eram culpados de preparar uma refeição em dia de sábado. [86] Portanto, conforme sua ação como um notório desrespeito ao sábado, os fariseus censuraram a Cristo, dizendo: “Vê! Por que fazem o que não é lícito aos sábados?” (Marcos 2:24).
É estranho, antes de mais nada, que os discípulos estivessem matando a fome comendo espigas cruas colhidas ao longo da margem de um campo. Além disso, aonde estavam indo em um sábado? O fato de os fariseus não fazerem nenhuma objeção à distância que estavam percorrendo sugere que não era superior a uma jornada de sábado – pouco mais de um quilômetro. [87] Os textos nada dizem sobre o seu destino, mas a presença dos fariseus entre eles em um dia de sábado sugere a possibilidade de Cristo e os discípulos terem assistido ao serviço na sinagoga e, não tendo recebido nenhum convite para comer, estarem passando pelos campos para procurar um lugar de descanso. Se era este o caso, então a resposta de Cristo aos fariseus, particularmente a citação “Misericórdia quero e não sacrifício” (Mateus 12:7), bem podia conter uma velada reprovação à sua negligência em praticar a hospitalidade do sábado. Um importante aspecto da preparação do alimento para o sábado residia no fato de esperar eventuais visitantes. Então, Cristo, aparentemente, como bem declarou R. G. Hirsch, “responde sua acusação com outra acusação. Para a ação dos discípulos havia alguma desculpa; para a negligência dos fariseus em prover alimentos para o sábado, não havia nenhuma”. [88]
A motivação para o procedimento dos discípulos (que em Marcos implicou na defesa de Cristo) é explicitamente declarada por Mateus quando disse: “estando os Seus discípulos com fome” (Mateus 12:1). W. Rordorf argumenta que a menção de Mateus sobre a fome dos discípulos não  fornece  nenhuma  justificação  para  sua  violação do  sábado,  porque  1°)  implica  em negligência de sua parte por “não terem preparado seus alimentos na véspera, como todos os demais; 2º) “eles podiam ter jejuado todo o dia” se por causa de suas atividades missionárias não tiveram condições de preparar a tempo seu alimento; e 3°) os discípulos não estavam em perigo de vida pela exaustão”. [89] Nosso autor raciocina como um hábil rabino, mas falha em reconhecer que a justificação de Mateus para o procedimento dos discípulos não está baseada na visão rabínica do sábado, mas na de Cristo. As palavras e exemplos de Cristo registrados por Mateus apresentam o sábado não como uma instituição mais importante que as necessidades humanas, mas como um tempo de “misericórdia” (Mateus 12:1) e de fazer o bem (Mateus 12:12). Nesta perspectiva a fome dos discípulos podia legitimamente ser satisfeita no sábado. [90]
Uma observação mais detida dos vários argumentos apresentados por Cristo para enfrentar a crítica de Seus oponentes proverá luz adicional ao conceito de Cristo a respeito do sábado. Antes de tudo, Cristo lembrou aos fariseus que Davi e seus homens uma vez saciaram a fome comendo os pães da proposição, o que só era permitido aos sacerdotes (1Samuel  21:1-7). A implicação é clara. Se era direito para Davi aliviar a fome comendo o pão consagrado ao uso santo, então também era direito para os discípulos satisfazer suas necessidades colhendo espigas durante o tempo sagrado do sábado. [91] Em ambos os exemplos, o pão sagrado e o tempo sagrado foram usados excepcionalmente para satisfazer as necessidades humanas. Seu uso foi justificado porque a intenção por trás de todas as leis divinas não é privar, mas assegurar a vida. Assim, a exceção não anula, mas corrobora a validade do mandamento. [92]
O contraste entre o caso de Davi e o de Cristo acrescenta força ao argumento. Os companheiros de Davi eram soldados (1Samuel 22:2) enquanto que os de Cristo eram homens pacíficos. Davi, para saciar a fome, comeu os pães proibidos, e além de tudo, era proibido tocá-los, conforme a lei, o que não acontecia com as espigas. O apetite de Davi, de fato, colocou de lado uma específica regra divina (Levítico 24:5; Josefo, Antiguidades, 3, 10, 7) enquanto que o apetite dos discípulos colocou de lado meras noções dos rabinos. Apelando a uma exceção aprovada por gerações sem fim [93] “nunca lestes?” (Marcos 2:25) Cristo raciocinou “a majori ad minus” para demonstrar que Seus discípulos eram inocentes (Mateus 12:7), pois, como Davi, tinham obedecido à superior lei da necessidade. [94] O ponto a observar, portanto, é que Cristo não minimiza a infração do preceito ao introduzir uma casuística mais liberal. (Ele vê que todas as formas de casuística escravizam o homem.). [95] Ao contrário, Cristo declara explicitamente que a ação de Davi “não era lícita” (Marcos 2:26). Os discípulos também, Ele inclui, por sua ação violaram a lei sabática de completo repouso. Todavia, nos dois exemplos eles foram perdoados porque a obrigação maior sobrepôs-se à menor, isto é, a misericórdia foi mais importante do que o sacrifício.
Este conceito é posteriormente elaborado em Mateus pelo que Cristo disse quanto aos sacerdotes que “violam o sábado” (Mateus 12:5) ao desempenhar no templo muitas atividades ilegais para as pessoas comuns, e “ficam sem culpa” (Mateus 12:5). No sábado, de fato, o trabalho no Templo era aumentado pela quantidade dobrada de ofertas (Números 28:8-10). [96] Por que os sacerdotes ficavam sem culpa (Mateus 12:5) embora trabalhassem mais intensamente no sábado? A resposta está, como vimos anteriormente, na natureza redentiva de seu trabalho aos sábados, destinada a prover perdão e salvação aos necessitados pecadores. Os sacerdotes desempenhavam, no sábado, atividades que em si eram condenadas pelo mandamento, e mesmo assim ficavam sem culpa porque estavam cumprindo o propósito do sábado, que é suprir as necessidades espirituais do povo. Mas, como podia Cristo defender suas ações, assim como as de Seus discípulos com o exemplo do serviço realizado pelos sacerdotes no sábado, quando naquele dia nem Ele nem os Seus discípulos estavam cumprindo a lei divina dos sacrifícios? A resposta encontra-se na subsequente declaração feita por Cristo: “Aqui está quem é maior que o Templo” (Mateus 12:6). [97] A função simbólica do Templo e seus serviços tinham agora encontrado seu cumprimento e sido substituídas pelo serviço do verdadeiro Sumo Sacerdote. Portanto, no sábado, e até mesmo de preferência no sábado, Cristo também podia intensificar Sua “oferta sacrifical”, isto é, Seu ministério de salvação em benefício dos necessitados pecadores; e o que Ele faz, Seus seguidores, que são o novo sacerdócio, devem também fazer.
Vemos que em João 7:22-23 Cristo expressa o mesmo conceito. Como o sacerdote, no sábado, devia trabalhar pela ação de todo ser humano. Cristo encontra no Templo e seus serviços uma válida estrutura de referência para explicar Sua teologia sabática, pois sua função redentiva é melhor exemplificada tanto por Sua missão messiânica como pelo divino propósito do sábado. De fato, ao identificar com o sábado Sua missão de salvar, Cristo revela o supremo propósito divino do mandamento, ou seja, relacionar o homem com Deus. O sábado torna-se através de Cristo uma ocasião não apenas para comemorar a passada Criação de Deus, mas também para experimentar as bênçãos da salvação ao satisfazer as necessidades dos outros.
A dimensão humanitária do sábado infelizmente estava amplamente esquecida nos dias de Cristo. As pretensões dos rituais haviam tomado o lugar dos objetivos de atender às necessidades humanas. Na declaração mencionada por Mateus, Cristo ataca abertamente esta perversão do sábado dizendo: “Se vós soubésseis o que significa: misericórdia quero, e não holocaustos, não teríeis condenado a inocentes” (Mateus 12:7). Para Cristo, os discípulos eram “inocentes”, embora tivessem desacatado a lei de completo repouso no sábado, porque o verdadeiro significado do mandamento é “misericórdia e não holocausto”. O que significam “misericórdia” e “holocausto”? O profeta Oseias, de cujo livro são tiradas estas palavras, reprova seu povo por buscar o Senhor com seus rebanhos e seu gado (Oseias 5:6), como se Deus pudesse ser aplacado por muitos sacrifícios custosos (cf. 1Samuel 15:22). O profeta recorda-lhes que o que Deus deseja é misericórdia e não sacrifício (Oseias 6:6). Esta misericórdia desejada por Deus é caracterizada tanto no Velho como no Novo Testamento, como notou R. Bultmann, não por um a vaga disposição, mas por uma atitude concreta que encontra expressão em “atos ‘úteis”. [98] No Evangelho de Mateus, especialmente, “misericórdia” denota os atos de ajuda e alívio que os membros da comunidade do concerto deviam uns aos outros (Mateus 5:7; 9:13; 12:7; 23:23). Como bem expressou I. R. Achtemeier, “os membros de uma comunidade, não importa o que sejam – escribas, fariseus, coletores de impostos, pecadores – devem amar, ajudar e confortar uns aos outros”. [99] Era esta piedade e simpatia por alguém em aflição que faltava aos fariseus. Assim, a fome que incomodava Cristo e Seus discípulos não despertou em seus corações nenhum sentimento de bondade ou disposição de ajudar. Em vez disso, condenaram os discípulos.
Demonstrar amor por atos de bondade representa para Cristo a verdadeira observância do sábado, pois isto explica a real atividade redentora de Deus que o dia comemora. De fato, como memorial da divina redenção tanto da escravidão do Egito (Deuteronômio 5:15) como dos laços do pecado (Lucas 5:18-19; 13:16; João 5:17), o sábado é a ocasião em que os crentes experimentam a misericordiosa salvação de Deus expressando bondade e misericórdia aos outros. Assim, a ordem do verdadeiro serviço sabático que Cristo estabelece requer primeiro serviço de amor do coração, a seguir, o cumprimento das prescrições de culto. É muito significativo que nos Evangelhos é dito menos sobre o ministério de pregação de Cristo aos sábados na sinagoga e mais sobre o Seu ministério de compaixão e misericórdia em favor dos necessitados pecadores.
Este valor fundamental do sábado é enfatizado por Cristo em outra declaração pronunciada em conjunção com o mesmo episódio, mas relatada apenas por Marcos: “O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado (Marcos 2:27). [100] Alguns autores interpretam este pronunciamento de Cristo como significando que “o bem-estar do homem é superior ao repouso sabático” [101] e já que o sábado “não mais significa bênçãos, mas sofrimento, ele tem falhado em seu divino propósito, portanto a rebelião contra ele, ou não guardá-lo, não era pecado”. [102] O mínimo que se pode dizer desta interpretação é que atribui a Deus a falta de visão humana, pois do seu ponto de vista, Ele teria dado uma lei que não podia cumprir seu planejado objetivo e, consequentemente, foi mais tarde forçado a aboli-la. Por este raciocínio, a validade de toda lei dada por Deus é determinada, não pelo propósito a que se destina, mas pela maneira como os seres humanos a usam ou abusam. Tal conclusão torna o homem, e não Deus, o juiz que determina a validade de qualquer mandamento.
O que Cristo realmente quis dizer afirmando que “o sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado”? (Marcos 2:27). Interpretar estas palavras como significando que “o bem-estar do homem é superior ao repouso sabático” implica em que o repouso sabático tem sido imposto arbitrariamente sobre o homem para restringir sua felicidade. Mas esta interpretação vai de encontro às palavras de Cristo – “O sábado”, Ele diz, “foi feito em consideração ao homem, e não o homem em consideração ao sábado”. Isto significa que o sábado veio  à  existência  após  a  criação  do homem, não para torná-lo um escravo de regras e regulamentos mas para assegurar seu bem-estar físico e espiritual. A felicidade do homem, portanto, não é restringida, mas garantida por sua adequada observância. Como acertadamente declarou Charles R. Erdman, “nisto está o erro dos fariseus. Eles interpretavam o dia de sábado de tal maneira e de tal modo o sobrecarregavam com requisitos e restrições minuciosos, absurdos e vergonhosos, que sua observância não mais era um prazer, porém um fardo. A lei, em vez de ser um servo, tinha sido transformada em cruel senhor, e sob sua tirania o homem estava esmagado”. [103]
Com Sua memorável afirmação, “o sábado foi estabelecido por causa do homem”, Cristo não ab-rogou o mandamento original do sábado, prevendo a instituição de um novo dia, mas removeu as algemas impostas pela teologia rabínica do judaísmo do pós-exílio que havia exaltado o sábado acima das necessidades humanas. Requerer que os discípulos negassem suas necessidades a fim de guardar o sábado seria perverter sua pretendida função, ou seja, ser um dia de bênção, e não de sacrifício.
Alguns têm defendido que quando Cristo diz que o sábado foi feito para o homem, ele pretende condenar a exclusivista noção reinante entre os judeus que o sábado não era para os gentios, mas apenas para Israel, proclamando assim seu escopo universal. [104] Sem dúvida Cristo toma este aspecto mais amplo do sábado, mas este significado é estranho ao contexto da passagem, onde a questão discutida não é o escopo universal do repouso sabático, mas sua função fundamental. [105]
Para sancionar com Sua autoridade messiânica esta Sua interpretação do sábado, Cristo acrescenta um memorável pronunciamento relatado por todos os Sinóticos: “De sorte que o Filho do homem é senhor também do sábado” (Marcos 2:28). Alguns têm dito que tal conclusão está, em Marcos, isolada logicamente da declaração anterior (Marcos 2:27) onde o sábado está relacionado com o homem em geral, e não com Cristo. Como eram os discípulos e não o Filho do homem que estavam sendo acusados, é claro que a proclamação de Cristo ser o Senhor do sábado não justificava o fato de Seus discípulos o haverem violado. Parece, portanto, que a fórmula “Filho do homem” pode ser uma má tradução do aramaico “barnasha” que pode significar “homem” e também “filho do homem”. Neste caso Cristo teria dito originalmente “O sábado foi estabelecido por causa do homem, não o homem por causa do sábado. De sorte que o “homem” (e não o “Filho do homem”) é senhor também do sábado’” (Marcos 2:27-28). [106] A mudança de expressões, de “homem” para “Filho do homem”, foi realizada, alegam, pela Igreja primitiva em vista de estar temerosa de assumir responsabilidade pessoal pela violação do sábado e, assim timidamente viu apenas em Cristo a liberdade de sua obrigação. [107]
A ideia de que a fórmula “Filho do homem” é uma tradução errônea de uma frase aramaica é gratuita. “Se o aramaico é mal traduzido no verso 28” como tão bem destaca D. E. Nineham, “por que não no verso 7?” [108]. Podemos notar que a frase ocorre anteriormente no capítulo (Marcos 2:10) quando Cristo em uma disputa semelhante com os fariseus designou-Se o Filho do homem para afirmar Sua autoridade de perdoar pecados. Esta era na verdade a designação favorita de Cristo para Si mesmo (aparece nos Evangelhos umas 80 vezes) porque aparentemente ela denota sua condição de Messias. Assim sendo, interpretar que “ Filho do homem” é equivalente a “homem”, como declarou Josef Schmid, vai de encontro não apenas ao uso literário de Marcos, onde as palavras “Filho do homem” são encontradas apenas como um título pelo qual Jesus designava a Si mesmo, mas também ao fato de que o próprio Jesus reconheceu o sábado como algo instituído por Deus”. [109] De fato, seria difícil conciliar a afirmação de Cristo de que o sábado foi estabelecido por Deus para o homem (Marcos 2:27) com a conclusão de que o homem em geral é senhor do sábado, o que equivale a dizer, livre de sua obrigação. [110] Neste caso o verso 28 não torna o verso 27 mais inteligível mas, ao contrário, representa uma negação de seu princípio.
Ademais, mesmo confirmando que, como perspicazmente destacou Richard S. McConnell em sua dissertação, “o sentido original das palavras de Jesus era que o homem é o senhor do sábado, mas é duvidoso que deixasse implícito que a lei do sábado não estava mais totalmente em vigor, como afirma Rordorf. O sentido pode ser que Jesus deu aos discípulos o direito de decidir como deviam honrar e adorar no sábado. Os discípulos não eram escravos da Lei, mas lhes foi dada autoridade para determinar, pelo exemplo de seu Mestre, como cumprir a intenção por detrás da lei do sábado”. [111]
Interpretar as palavras de Cristo como o esforço da Igreja primitiva para justificar a substituição do sábado por um novo dia de culto é ler na passagem algo que não está ali. A controvérsia não é o sábado versus o domingo, mas a conduta dos discípulos que, conforme a acusação dos fariseus, estavam “fazendo o que não era lícito aos sábados” (Marcos 2:24). Notamos que Cristo refutou esta crítica apresentando alguns argumentos para demonstrar que a ação de satisfazer a fome apanhando algumas espigas de trigo ou cevada harmonizava-se com a proposta função do sábado. Após enunciar o propósito fundamental do sábado, isto é, um dia estabelecido para assegurar o bem-estar do homem, Cristo conclui afirmando ser o Senhor deste dia.
Tem sido dito que as duas frases, “o sábado foi estabelecido por causa do homem” e “de sorte que o Filho do homem é senhor também do sábado” não se ajustam, pois a última representa “um enfraquecimento e uma limitação” da anterior. [112] Esta conclusão baseia-se na isolada comparação de “homem” com “Filho do homem” sem levar em conta o que é dito sobre cada um deles. A sequência da ideia, no entanto, torna-se clara quando focalizamos o que é dito sobre os dois. Do homem é dito que o sábado foi estabelecido por causa dele e do Filho do homem, que é o Senhor do sábado. A inferência “de sorte que” depende do fato de que o Filho do homem é Senhor do sábado (Marcos 2:28) porque Ele fez este dia para benefício do homem (Marcos 2:27). A ênfase na construção em grego está, de fato, não sobre o Filho do homem, mas no predicado “Senhor” que é corretamente colocado primeiro. A tradução literal seria assim: “De sorte que  Senhor é o Filho do homem também do sábado”. [113] A propriedade de Cristo sobre o sábado baseia-se, então, na afirmação prévia, que o sábado foi feito para benefício do homem.
Alguns podem perguntar, como pode a instituição do sábado para benefício do homem constituir a base da propriedade de Cristo sobre o dia? A resposta encontra-se no fato de que o Filho de Deus pode perfeitamente reivindicar ter criado o homem e também ter instituído o sábado para assegurar seu bem-estar. Finalmente, portanto, o domínio de Cristo sobre o sábado representa Sua autoridade sobre o próprio homem.
Vistas nestas perspectivas, as duas frases combinam logicamente, a última representando não um enfraquecimento, mas um fortalecimento da declaração anterior. Alguns exegetas compreendem esta dependência lógica das duas frases. Henry Barclay Swete, por exemplo, escreveu: “Em Marcos a sequência do pensamento é clara. O sábado, sendo criado para benefício do homem, está sujeito ao controle do Homem ideal e representativo a quem ele pertence”. [114] Igualmente Joseph Huby explica o nexo entre as duas frases dizendo. “O sábado, tendo sido feito para a felicidade do homem, está sob o domínio do Filho do homem a quem Deus estabeleceu como árbitro do que é agradável para o bem estar espiritual e para a salvação do homem”. [115] Assim, ao proclamar-Se Senhor do sábado Cristo não está oferecendo aos Seus discípulos fundamental liberdade com relação ao sábado, [116] mas está afirmando que, como declarou Richard S. McConnell, “Ele é a autoridade para determinar de que maneira o sábado deve ser guardado para que Deus seja honrado e o homem beneficiado”.
Temos notado que a defesa feita por Cristo da colheita das espigas por Seus discípulos no sábado é um sermão um pouco mais longo, apresentado em estágios, à medida que os argumentos vão sendo acrescentados. Cinco ideias básicas são mencionadas pelos Sinóticos para demonstrar não apenas a inocência dos discípulos, mas especialmente o verdadeiro significado do quarto mandamento (Êxodo 20:8-11): 1º) Cristo refere-Se ao caso de Davi para esclarecer o princípio geral de que a necessidade não conhece nenhuma lei. O pão sagrado ou o Templo sagrado podem ser usados excepcionalmente para sustentar a vida. 2º) Cristo partiu de um princípio geral para um exemplo específico do uso excepcional do sábado pelos sacerdotes para provar que o mandamento não impede, mas prevê o cuidado das necessidades espirituais das pessoas. Sendo Ele próprio o superior Antítipo do Templo e seu sacerdócio, Cristo, assim como Seus seguidores, como os sacerdotes, também devem intensificar no sábado seu ministério de salvação aos pecadores necessitados. 3º) Ao citar a declaração de Oseias “misericórdia quero, e não holocausto” Jesus explica que a ordem de prioridades na observância do sábado é primeiro um amoroso serviço de bondade aos necessitados, e então o cumprimento de prescrições rituais. 4º) Cristo reafirma o princípio fundamental de que o sábado foi instituído para assegurar o bem-estar do homem, e que, portanto, qualquer negligência das necessidades humanas em razão do mandamento do sábado seria uma perversão de seu propósito original. Em última instância, Cristo apresenta a final e decisiva sanção da conduta de Seus discípulos e de Sua interpretação do mandamento do sábado, proclamando Sua propriedade messiânica sobre o sábado. Dessa maneira, inocentes estão os discípulos que aceitaram o domínio de Cristo e que realizam fazendo o que Ele lhes permitiu, mas condenados estão os que pensam honrar o sábado ao mesmo tempo em que aderem às geralmente tolas tradições rabínicas enquanto desonram seu propósito e seu Senhor.
À luz dessa proclamação messiânica de propriedade sobre o sábado, seria de proveito considerar o sentido da mensagem de Cristo registrada em Mateus como um prefácio aos subsequentes conflitos aos sábados. O Salvador diz: “Vinde a Mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e Eu vos aliviarei (darei repouso). Tomai sobre vós o Meu jugo, e aprendei de Mim, porque Sou manso e humilde de coração, e achareis descanso para as vossas almas. Porque o Meu jugo é suave e o Meu fardo é leve” (Mateus 11:28-30).
Duas vezes neste convite Cristo promete repouso àqueles que veem a Ele e dEle aprendem. Este pronunciamento, como vários comentaristas têm notado, aparentemente foi feito num sábado e deve ser relacionado com o subsequente material a respeito do sábado, já que o verso seguinte começa com “por aquele tempo” (12:1). [117] Portanto, existe a possibilidade de que o descanso que Jesus promete seja, como afirma J. Daniélou, “o anapausis (repouso) do verdadeiro sábado”. [118] Neste caso, o repouso sabático de Cristo é considerado como um “jugo suave” e um “fardo leve” possivelmente em contraste com o pesado jugo dos regulamentos rabínicos que oprimiam o povo. [119] Esta figura era familiar aos ouvintes de Cristo, pois os rabinos referiam-se à lei como um “jugo”, e aos discípulos, bem como aos demais que colocavam seu pescoço sob tal jugo. [120]
O que é este novo “repouso sabático” que Cristo promete àqueles que lutam em vão para conseguir repouso por meio do cumprimento das impostas obrigações legais? Em nossa análise anterior do material sobre o sábado nos Evangelhos, fizemos notar que Cristo tornou o sábado um símbolo de Sua missão redentora. Jesus não só anunciou Sua missão como o cumprimento do tempo de redenção sabático (Lucas 4:18-19), mas também intensificou no sábado Suas obras de salvação (João 5:17; 9:4) em favor dos necessitados pecadores, para que as almas que Satanás trazia presas (Lucas 13:16) experimentassem e lembrassem do sábado como o dia de sua libertação. Além disso, foi numa tarde de sexta-feira que Cristo completou Sua missão redentora nesta Terra e, tendo dito “Está consumado” (João 19 :30), Ele santificou o sábado ao descansar na sepultura (Lucas 23:53-54; Mateus 27:57-60; Marcos 15:42, 46). Assim como o repouso sabático ao final da criação (Gênesis 2:2-3) expressou a satisfação e prazer da Divindade após uma completa e perfeita Criação, agora o repouso sabático ao final da missão terrena de Cristo expressa o regozijo da Divindade a respeito da completa e perfeita redenção restaurada ao homem. À luz dos ensinos e ministério de Cristo, o descanso sabático simboliza as bênçãos da salvação que o Redentor oferece às almas sobrecarregadas.
O sábado na Epístola aos Hebreus
O eco deste significado redentivo do sábado encontra-se em Hebreus, como mencionamos anteriormente, onde ao povo de Deus é reassegurada a permanência das bênçãos do repouso sabático (Hebreus 4:9), e onde este povo é exortado a aceitá-las (Hebreus 4:11). [121] O autor de Hebreus está trabalhando com uma comunidade de cristãos judeus que aparentemente crê que as bênçãos da guarda do sábado estão associadas ao concerto dos judeus como nação. De fato, a observância do sábado estava ligada à prosperidade material que apenas os membros da comunidade do concerto podiam desfrutar em um estado de paz política. [122] Para separar estes cristãos judeus desse aspecto exclusivista e material do sábado, e para estabelecer sua natureza universal, redentiva e espiritual, o autor associa dois textos do Velho Testamento – Gênesis 2:2 e Salmos 95:11. Pelo primeiro, ele traça a origem do repouso sabático desde o tempo da Criação quando “descansou Deus, no sétimo dia, de todas as obras que fizera” (Hebreus 4:4; cf. Gênesis 2:2-3; Êxodo 20:11; 31:17). O fato de ter o sábado sua origem com Deus dá-lhe validade universal e eterna. “Este sábado de Deus”, como bem declarou Adolph Saphir, “é o substrato e base de toda paz e repouso – o penhor de um supremo e satisfatório propósito na Criação”. [123] Pelo último (Salmos 95:11) ele explica o escopo deste “repouso sabático” que inclui as bênçãos da salvação, que podem ser encontradas pelos que se entregam pessoalmente ao “descanso de Deus” (Hebreus 4:5, 10, 3, 5).
Para demonstrar este escopo universal redentivo das “boas-novas” (Hebreus 4:2) do repouso sabático que “a nós foram anunciadas… como se deu com eles (os israelitas)” (Hebreus 4:2) e que pode ser conseguido pessoalmente pela “fé” (Hebreus 4:2), o autor da epístola aos Hebreus apresenta várias notáveis conclusões de Salmos 95. Em primeiro lugar, ele argumenta que o juramento de Deus (Salmos 95:11) de que os israelitas não entrariam no Seu descanso indica que Deus tem prometido um repouso sabático, apesar de que a geração do deserto não entrou (na prometida terra de descanso) por causa da “desobediência” (Hebreus 4:6; cf. 3:16-19). [124] “Portanto”, diz ele, “resta entrarem alguns nele” (Hebreus 4:6). Em segundo lugar, ele procura mostrar que o repouso sabático de Deus não estava esgotado, mesmo na geração seguinte, quando os israelitas, comandados por Josué, entraram na terra de descanso, “falando por Davi, muito tempo depois…: Hoje, se ouvirdes a Sua voz, não endureçais os vossos corações” (Hebreus 4:7; cf. Salmos 95:7). O fato de Deus “outra vez” renovar Sua promessa, muito tempo depois da proclamação original das boas novas do repouso sabático, já no tempo de Davi, dizendo “hoje”, indica que a promessa de entrar no repouso sabático de Deus ainda “resta… para o povo de Deus” (Hebreus 4:9). [125]
Por último, o escritor mostra que, segundo muito bem dito por G. von Rad, “o ‘hoje’ no qual o salmo renova o divino oferecimento de descanso refere-se à volta de Cristo” (Hebreus 4:7). [126] Por essa linha de raciocínio ele é capaz de demonstrar que o sábado possui um significado tridimensional. Primeiro, comemora, a conclusão da Criação. Posteriormente vem a simbolizar a promessa de entrar numa terra de repouso e seu cumprimento temporal. Por fim, “estes dois significados”, que como observou J. Daniélou, “foram a prefiguração e a profecia de outros ‘sabatismos’, de um sétimo dia, que ainda não tinham acontecido”, estão sendo cumpridos e tornam-se uma realidade para o povo de Deus através de Jesus Cristo. [127] Pela justaposição dos dois textos (Gênesis 2:2 e Salmos 95:11) o escritor de Hebreus demonstra a inabalável certeza de o que o povo de Deus através de Cristo compartilha inteiramente do propósito da Criação e Redenção simbolizado pelo descanso sabático.
Pode-se argumentar que, sendo que o autor da Epístola não está discutindo a observância do sábado em si, mas a permanência e cumprimento de suas bênçãos, nenhuma inferência pode ser deduzida quanto à sua literal observância. Tal observação é justificável, pois a Epístola é endereçada a uma comunidade judaica cristã que mantinha estritamente as observâncias judaicas, como a guarda do sábado. [128] O fato de o autor não estar engajado numa polêmica defesa da validade da observância do sábado, e sim em uma exortação para experimentar suas bênçãos que “restam para o povo de Deus” (Hebreus 4:9), torna seu testemunho mais valioso que os demais, pois já considera como certa a sua observância. O que os destinatários da Epístola precisavam saber não era a obrigação do mandamento do sábado, mas sim o seu verdadeiro significado à luz da vinda de Cristo.
A maioria dos comentaristas ao interpretarem o “repouso sabático (ou a guarda de um sábado) que resta para o povo de Deus” (Hebreus 4:9) como uma exclusiva realização futura, têm falhado ao reduzir a implicação desta exortação à sua presente observância. Samuel T. Lowrie sugere uma plausível explicação do predominante mal-entendido do ensino desta epístola a respeito da guarda do sábado. A epístola somente obteve reconhecimento canônico (no Ocidente aproximadamente no quarto século) após a existência de “igrejas compostas de hebreus convertidos”. O resultado foi que os intérpretes gentios desconhecendo as circunstâncias dos leitores originais da epístola omitiram os pontos que deviam ser apreendidos pelos primitivos conversos judeus. [129]
Deve-se notar que embora a reafirmação de um descanso que resta para o povo de Deus (Hebreus 4:9) e a exortação para entrar neste descanso (Hebreus 4:11) possa sugerir um futuro cumprimento dessas bênçãos, a passagem inteira também contém várias importantes indicações de uma presente experiência em guardar o sábado. No verso 3, por exemplo, o escritor declara enfaticamente: “Nós, porém, que cremos, entramos no descanso”. Aqui o tempo presente, como notou R. C. H. Lenski, não expressa uma abstrata universalidade, pois então deveria ser “eles entram”. [130] A forma pessoal “nós entramos” refere-se ao escritor e aos leitores “que creram” (Hebreus 4:3) e que, no presente, entram no descanso, descrito no verso seguinte como sendo o divino descanso sabático disponível desde a criação do mundo (Hebreus 4:3-4). Da mesma forma, o verbo “resta” (Hebreus 4:6, 9) que literalmente significa “deixar atrás” é um presente passivo e, portanto, não implica necessariamente um panorama futuro. O verso 9 pode ser traduzido literalmente: “Portanto um repouso sabático é deixado atrás para o povo de Deus” já que a geração de Josué não esgotou suas promessas (verso 8). O tempo presente enfatiza sua presente permanência em vez de sua futura possibilidade.
A força de dois “hoje” no verso 7 também é significativa. O “hoje” de Salmos 95 em que Deus renova as “boas novas” (Hebreus 4:6) de Seu descanso, indica ao escritor que, desde que o evangelho do descanso sabático era novamente oferecido nos dias de Davi, ele estende-se à época do cristianismo. [131] A condição para aceitar é a mesma: não endurecer o coração quando ouvir a Sua voz (Hebreus 4:7). Não se trata de uma futura resposta às boas novas, mas de uma aceitação presente – hoje. Tal resposta bem representa o significado da observância do sábado. No verso 10 este conceito é mais bem esclarecido por meio da analogia entre o descanso de Deus e o do homem: “aquele que entrou no descanso de Deus, também ele mesmo descansou de suas obras, como Deus das Suas”. Os dois verbos “entrou” e “descansou” não estão no futuro, mas no tempo aoristo, indicando assim, não uma experiência futura, mas uma que embora tenha ocorrido no passado continua no presente. Na versão em inglês RSV os dois verbos estão no presente (“entra” e “descansa”) porque o contexto aparentemente destaca a qualidade presente e infinita do descanso de Deus (Hebreus 4:1, 3, 6, 9, 11). Deixar de entender este ponto tem levado alguns expositores a interpretar este repouso como o repouso da morte ou a futura herança dos crentes no céu. [132]
Dificilmente seria esta a única intenção do autor, já que ele está lutando para demonstrar que um descanso sabático ainda resta no presente para o povo de Deus (Hebreus 4:9).
O auge da analogia no verso 10 não são as obras em si, pois as obras de Deus são boas, enquanto que as dos homens são más (cf. Hebreus 6:1 – obras mortas); então a analogia é feita em termos da imitação humana do divino descanso do trabalho. Esta é uma simples declaração da natureza do sábado, pois a cessação do trabalho é seu elemento essencial, já que está escrito que “descansou Deus, no sétimo dia, de todas as obras que fizera” (Hebreus 4:4). O autor então explica a natureza do repouso sabático que resta para o povo de Deus (Hebreus 4:9) referindo-se à sua característica básica, ou seja, a cessação do trabalho (Hebreus 4:10). Todavia, o que isto significa? Estaria o autor de Hebreus meramente dando a seus leitores encorajamento para interromperem suas atividades seculares no sábado? Sendo judeus cristãos, dificilmente eles precisariam se lembrar disto. Além do mais, isto produziria uma ideia negativa de descanso, e as bênçãos do repouso sabático dificilmente podiam ser apenas uma simples negação.
Obviamente o autor atribui um significado mais profundo ao descanso no sábado. Isto pode ser visto na antítese entre aqueles que falharam ao entrar em seu repouso por causa da descrença (Hebreus 4:6, 11) – isto é, falta de fé que resulta na desobediência – e aqueles que nele entraram “pela fé” (Hebreus 4:2, 3), isto é, fé que resulta em obediência. O ato de descansar no sábado representa então alguém parar com o que está fazendo a fim de poder experimentar ser salvo pela fé (Hebreus 4:2, 3, 11). Os crentes, como expressa Calvino, devem “parar o seu trabalho para permitir que Deus trabalhe neles”. [133] Descansando no sábado, à semelhança de Deus (Hebreus 4:10), o crente, como expõe K. Banir, “participa conscientemente na salvação oferecida por Ele (Deus)”. [134]
O repouso sabático que resta ao povo de Deus (Hebreus 4:9) é para o autor da epístola não um mero dia de inatividade, mas uma oportunidade, renovada cada semana, de entrar no repouso de Deus, o que equivale a dizer, de livrar-se dos cuidados do trabalho e aceitar livremente pela fé as totais bênçãos da Criação-Redenção de Deus. Deve-se notar, porém, que esta experiência sabática das bênçãos da Redenção não está esgotada no presente, pois a passagem prossegue dizendo que devemos nos “esforçar por entrar naquele descanso” (Hebreus 4:11). Esta orientação para o futuro corresponde também, ou mesmo pode ter sido causada, pela antecipação da redenção final que o sábado resume. Tanto no Velho Testamento como na literatura rabínica, o sábado também é considerado como um tipo de mundo por vir. [135] Assim, a seu próprio modo, a epístola aos Hebreus expressa a essência da guarda do sábado (que também é o âmago da vida cristã), ou seja, a tensão entre experimentar no presente a benção da salvação, e a escatológica consumação na Canaã celeste. [136]
Esta ampliada interpretação da guarda do sábado aparentemente destinava-se a afastar os cristãos judeus de uma concepção externa e material de sua observância. Não sabemos quanto nosso autor estava relacionado com o material a respeito do sábado dos Evangelhos, mas não nos enganamos ao perceber em sua interpretação um reflexo da visão redentiva do sábado defendida por Cristo como discutimos anteriormente. O significado da permanência do divino repouso sabático de Hebreus 4 (cf. versos 3, 4, 5, 10) está, por exemplo, bem subentendido nas palavras do Senhor mencionadas em João 5:17 – “Meu Pai trabalha até agora, e Eu trabalho também”. [137] O descanso de Deus é sem dúvida Sua contínua atividade salvadora destinada a restaurar para Si o homem caído. Cristo, como o Enviado do Pai para redimir e restaurar o homem, é a suprema manifestação do repouso de Deus. Por esta razão a grande promessa de Cristo de dar descanso a todos os que vão a Ele (Mateus 11:28) é a essência do repouso sabático disponível ao povo de Deus (Hebreus 4:1, 3, 6, 9, 11). Estas bênçãos da salvação que gozamos pela fé já agora, no sábado, serão plenamente experimentadas ao final de nossa peregrinação nesta Terra. O fato de encontrarmos em Hebreus 4 um reflexo de como Cristo considera o sábado – uma ocasião de experimentar as bênçãos da salvação, prova que os cristãos primitivos (pelo menos alguns) interpretavam os ensinos de Cristo não como uma literal ab-rogação, mas como uma valorização espiritual do mandamento.
Uma admoestação de Cristo quanto ao sábado
Concluiremos esta pesquisa do material encontrado nos Evangelhos a respeito do sábado considerando rapidamente a única advertência dada por Cristo a Seus discípulos, quando predisse a destruição de Jerusalém: “Orai para que a vossa fuga não se dê no inverno nem no sábado” (Mateus 24:20).
Várias explicações se tem desenvolvido para determinar a razão que levou Cristo a dar esta singular advertência. A fuga em um sábado poderia ser embaraçada, por exemplo, pelos portões da cidade fechados, por um estado psicológico contrário à fuga, pela recusa por parte dos estritos observadores em ajudar aos que estivessem em necessidade, pelo temor de quebrar os regulamentos rabínicos que permitiam no sábado apenas uma curta jornada de um quilômetro, ou pela ira dos “judeus fanáticos que ficariam furiosos ante uma suposta violação do sábado”. [138] Alguns argumentam, entretanto, que, desde que as palavras “nem no sábado” foram omitidas em Marcos 13:18, elas constituem uma posterior interpolação cristã-judaica. [139] Mesmo considerando esta possibilidade, permanece o fato de ter o interpolador guardado o sábado como se costumava na época de sua escrita. Levando em conta, porém, o respeito de Mateus pelas instituições judaicas, e a composição cristã-judaica de seus leitores, [140] não há nenhuma razão para questionar a autenticidade da frase. A omissão de Marcos (13:18) pode ser explicada pelo fato de estar ele escrevendo a um grupo diferente, não atingido pelas restrições judaicas; por isso ele não precisava conservar a referência de Cristo a viajar no sábado.
Outros acreditam que esta passagem reflete a “incerteza com respeito ao preceito do sábado” da comunidade cristã-judaica que estava tentando resolver o problema do sábado, mas que ainda não tinha abandonado sua observância. [141] O texto na verdade não oferece nenhuma reflexão sobre a observância do sábado, pois trata exclusivamente da fuga futura, e o inverno e o sábado são introduzidos incidentalmente apenas como possíveis obstáculos. A incerteza não é quanto à guarda do sábado, mas diz respeito à chegada da grande “tribulação” (Mateus 24:15, 21).
O fato de o sábado ter sido mencionado não polemicamente, mas incidentalmente como um elemento desfavorável em uma fuga, implica que Cristo não predisse sua substituição por outro dia de culto, mas que Ele considerava garantida sua permanência após Sua partida.
Pode-se argumentar que esta declaração em si dificilmente reflete o que Cristo pensa do sábado, pois seria inconsistente com a atitude do Salvador ao defender o uso do sábado para manter a vida. Mas está Cristo, neste caso, realmente proibindo fugir no sábado? Sua advertência é para orar por condições favoráveis a uma fuga. O inverno e o sábado são introduzidos meramente como circunstâncias externas que podiam interferir com uma fuga rápida. Cristo de modo algum falou que fugir no inverno ou no sábado era ilícito. Ele apenas expressou simpática preocupação com Seus seguidores, que podiam ser embaraçados em sua fuga por estes adversos elementos. As considerações pela condição das mulheres grávidas e das que amamentam (Mateus 24:19) assim como pelas dificuldades de viagem causadas pelo inverno e pelo sábado (verso 20) não são valores de julgamento, mas apenas indicações da terna preocupação de Cristo com a fragilidade humana.
Com relação aos Seus discípulos, Cristo vê o sábado como uma ocasião imprópria para fugir, pois sendo um dia de descanso, os cristãos não estariam preparados para fugir, e os judeus fanáticos possivelmente impediriam a sua fuga. [142] Portanto, Cristo nesta admoestação não está definindo um comportamento para o sábado, mas simplesmente exortando Seus discípulos a orar por circunstâncias favoráveis. O fato, porém, de ser considerada a guarda do sábado pressupõe, por um lado, que Cristo previu a permanência de tal observância e, por outro, que, como declarou A. W. Argyle, “o sábado ainda era observado pelos cristãos judeus quando Mateus escreveu”. [143]
Conclusões
Várias conclusões emergem desta análise do material dos Evangelhos a respeito do sábado. O amplo relatório dos escritores evangélicos dos conflitos entre Cristo e os fariseus quanto à observância do sábado indica, antes de tudo, grande consideração devotada ao sábado tanto nos círculos judaicos como no cristianismo primitivo. Os extensos relatos de pronunciamentos e curas de Cristo aos sábados pressupõe, de fato, que os cristãos primitivos estavam envolvidos em debates a respeito da observância do sábado. Descobrimos, no entanto, que eles entenderam a atitude de Jesus quanto ao sábado, não como uma velada previsão de um novo dia de culto, mas como uma nova perspectiva da guarda do sábado. Isto consistiu em uma nova compreensão e uma nova maneira de observar o sábado.
Quanto à última, o sábado era considerado não como um tempo de passiva inatividade, mas de ativo e terno serviço aos necessitados (Marcos 3:4 ; Mateus 12:7, 12; João 9:4). Esta nova compreensão é comprovada em antigos documentos, como a Epístola de Diogneto (datada dos anos 130 a 200 AD). Nela, os judeus são acusados de “falar falsamente de Deus” quando afirmam que “Ele (Deus) proibiu-nos de fazer o que é bom nos dias de sábado – como não é isto pecaminoso?” [144]
Vimos que esta positiva e fundamental consideração pela guarda do sábado foi firmemente estabelecida por Cristo através de Seu programa de reformas sabáticas. O Senhor, como observamos, agiu, nos sábados, de modo deliberadamente contrário às restrições predominantes, a fim de libertar o dia da multidão de limitações rabínicas e assim restaurá-lo à sua original intenção divina, isto é, ser um dia de bem-estar físico e espiritual para a humanidade. Notamos, assim, que Cristo apresentou a demonstração de amor por atos de bondade aos sábados não meramente para ser o cumprimento das obrigações humanitárias do mandamento, mas, antes de tudo, para ser a expressão de que o crente aceita e experimenta a divina bênção da salvação (João 9:4; Mateus 11:28).
Esta relação entre o sábado e a Redenção é apresentada nos Evangelhos por várias maneiras. O repouso sabático de Deus, por exemplo, é apresentado por Cristo, não como um tempo de inatividade, pois Ele “trabalha até agora” (João 5:17) pela salvação do homem. Da mesma forma, o legítimo uso do sábado pelos sacerdotes para ministrar aos necessitados pecadores (Mateus 12:5; João 7:23) é apresentado por Cristo como uma indicação da função redentora do sábado. Contudo, encontramos a suprema revelação de seu significado redentivo na reivindicação messiânica e no ministério sabático de Cristo. O Salvador não apenas inaugurou (Lucas 4:6) e fechou (Lucas 23:33-34) Seu ministério em um sábado, mas também anunciou explicitamente Sua missão messiânica como sendo o cumprimento das promessas de redenção e livramento contidas no sábado (Lucas 4:18-21). Além disso, Cristo intensificou aos sábados o Seu ministério de salvar (João 5:17; 9:4; Marcos 3:4) para que os pecadores escravizados por Satanás (Lucas 13:16) pudessem experimentar e recordar do sábado como o dia de sua salvação.
O sábado, então, nos ensinos e no ministério de Cristo não foi posto de lado ou simplesmente anulado para dar lugar a um novo dia de culto; antes, foi considerado pelo Salvador como o apropriado memorial do repouso de sua salvação disponível a todos que vão a Ele com fé (Mateus 11:28). [145]
O significado redentivo do sábado encontramos exemplificado no quarto capítulo da epístola aos Hebreus. Aí, o “descanso sabático” que “resta para o povo de Deus” (Hebreus 4:9) é explicado, não como uma experiência material reservada exclusivamente para a nação judaica (Hebreus 4:2, 8), mas como uma bênção espiritual e permanente disponível a todos os que entram pela fé no descanso de Deus (Hebreus 4:2, 3, 11). Por meio da cessação do trabalho, à semelhança de Deus (Hebreus 4:10), o crente dispõe-se a receber pela graça, e não pelas obras, o antegozo das bênçãos da redenção final que, através de Cristo, já é uma certeza (Hebreus 4:7). Esta positiva interpretação do sábado indica que a Igreja primitiva considerava os pronunciamentos messiânicos de Jesus (Marcos 2:28; Mateus 12:6; João 5:17) e Suas atividades de cura, não como a substituição do sábado por um novo dia de culto, mas como a verdadeira revelação do significado de sua observância: um tempo para experimentar a salvação de Deus realizada através de Jesus Cristo.

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