Pecado Para Morte e Pecado Não Para a Morte – 1João 5:16

Tem sido grande a diversidade de opiniões com respeito à significação desta passagem, e as ideias de alguns expositores do Novo Testamento não podem ser aceitas.

Entre as explicações apresentadas, as seguintes se destacam:

1ª) Há aqui referência ao pecado contra o Espírito Santo.

2ª) João faz alusão a um grande pecado, como homicídio, idolatria, adultério.

3ª) Alguns comentaristas creem que haja aqui referência ao pecado punido com a morte pelas leis do Velho Testamento.

4ª) Pecados castigados com a expulsão da sinagoga ou da igreja.

5ª) Pecado que acarretaria doença fatal sobre o ofensor.

6ª) Crimes contra as leis, pelos quais o ofensor era sentenciado à morte.

7ª) Pecados cometidos antes e depois do batismo; os primeiros seriam perdoados, mas os segundos, jamais.

8ª) A Igreja Católica explica que eram pecados que poderiam ou não ser perdoados após a morte. Baseando-se neste verso, a Igreja de Roma estabeleceu a doutrina do purgatório. Ainda com base nesta passagem, teólogos e comentaristas católicos classificam os pecados em dois grupos: pecados veniais e pecados mortais. Pecado venial é aquele digno de vênia, de desculpa, perdoável; enquanto o pecado mortal é aquele para o qual não há perdão; a pessoa deve pagá-lo com a morte.

Um dos primeiros pontos na exegese desta passagem é saber o que significa pecado para a morte (hamartia prós thánaton). Seria o pecado que terminaria em morte, teria como penalidade a morte, ou o pecado que, se prosseguisse em seu curso, traria doença que acarretaria a morte?

A palavra morte é usada no Novo Testamento com três significados:

1º) A morte física. (Do corpo).

2º) A morte espiritual. (Mortos em delitos e pecados – Efésios 2:1).

3º) A segunda morte.

Cingir-nos-emos a dois comentários por serem suficientes para nos elucidarem sobre o texto joanino.

I. Comentário Bíblico Adventista,  vol. 7, págs. 749 a 751:

Se alguém. João usa um caso hipotético para apresentar uma importante lição. Aqui a referência é obviamente a um cristão que possui sã consciência de pecado.

Seu irmão. Isto limita a lição de João à comunidade cristã: ele está falando da preocupação com um irmão na fé.

Cometer pecado. Literalmente, “pecando um pecado”, isto é, verdadeiramente no ato do pecado.

Não para morte. Parece inegável que João esteja fazendo uma distinção entre formas de pecado, uma vez que, pouco depois, neste mesmo verso, ele fala de “pecado para morte”. Mas deve-se ter em mente o contexto. Em 1João 5:14 e 15, ele deu a certeza de que as orações do crente serão atendidas; aqui está aplicando a promessa a um tipo específico de oração – a oração em favor de outro – e está explicando sob que circunstâncias esta pode ser eficaz. Ao fazê-lo, discute duas classes de pecado – aqueles nos quais há esperança para o pecador e aqueles nos quais não há esperança. Na primeira classe, a oração pode ser um eficaz auxílio para a redenção; na segunda, como João mais tarde explica, não há garantia de que a oração será eficaz. Sustenta-se geralmente que o pecado para morte é o pecado imperdoável (ver Comentário Bíblico Adventista, vol. 5, págs. 413 a 415, referente a Mateus 12:31 e 32). Daí que um pecado não para morte é qualquer outra forma de pecado em que incorre um irmão que caiu em erro.

Pedirá. Pedirá a Cristo, isto é, orará pelo irmão que caiu em erro. A frase pode ser tomada ou como uma injunção para orar ou como uma descrição da relação natural de um crente fervoroso quando confrontado com a delinquência de outro. Quão mais feliz seria a igreja se, em vez de discutir a fraqueza de um irmão, orasse por ele, e, se possível, com ele. Tal atividade intercessória habilitar-nos-á para a delicada tarefa de falar ao pecador e apontar-lhe o Salvador. Tal conversação servirá para edificar a igreja, enquanto que o mexerico e crítica derrubá-la-ão.

Lhe dará vida. É difícil determinar a quem os prenomes desta frase se referem. A sequência de ideias sugere que o apóstolo ainda está falando do cristão que ora por um irmão errante e é portanto um instrumento para conferir vida ao pecador. Mas é também possível que João tenha mudado abruptamente de assunto e esteja dizendo: Cristo dará, ao cristão que ora, vida para transmitir aos pecadores que não endureceram definitivamente o coração. A diferença é apenas de interpretação, pois a operação é a mesma em qualquer dos dois casos. O cristão não tem qualquer poder à parte do Salvador; assim, no final, é Cristo quem dá a vida, embora a oração intercessória possa ter sido o instrumento através do qual tenha sido concedida essa vida. Tal “vida”, contudo, é concedida apenas se há sincero arrependimento por parte do pecador.

Aos que. O escritor passou do caso particular ao geral, e fala de todos os que cometem “pecado não para morte”.

Há pecado para morte. Uma vez que João não define um pecado particular que resulte inevitavelmente na morte, é provável que esteja aqui se referindo a um tipo de pecado que certamente produzirá a morte. Se ele soubesse de um pecado específico que deixaria um homem sem esperança de salvação, poderíamos esperar que ele o identificasse, para que todos se acautelassem de cair na condenação irrevogável. Conquanto seja verdade que todo pecado, se nele se persistir, levará à morte (Ezequiel 18:4 e 24; Tiago 1:15), há uma diferença no grau ao qual qualquer ato específico de pecado trará um homem próximo da morte. Os pecados cometidos por aqueles que estão genuinamente ansiosos de servir a Deus, mas que sofrem de uma vontade fraca e fortes hábitos, são muito diferentes daqueles pecados que são deliberadamente cometidos em desafio impudente e deliberado a Deus. É mais a atitude e o motivo que determinam a diferença do que o ato do pecado em si. Neste sentido há distinções de pecados. Os erros menores, dos quais logo houve arrependimento e perdão, são pecados não para morte. Os pecados graves, nos quais se caiu repentinamente pela falha em manter o poder espiritual, ainda não é também um pecado para morte se seguido de genuíno arrependimento, mas a recusa em arrepender-se torna certa a morte final.

A distinção é claramente ilustrada nas experiências de Saul e Davi. O primeiro pecou, e não se arrependeu; o segundo pecou gravemente, mas se arrependeu sinceramente. Saul morreu sem esperança de desfrutar a vida eterna. Davi foi perdoado e lhe foi assegurado um lugar no reino de Deus.

Não digo. João não nos ordena orar, nem diz que não vamos fazê-lo, mas hesita em garantir respostas a oração por aqueles que deliberadamente se desviaram de Deus. Há uma diferença entre oração por nós mesmos e oração em favor de outros. Quando nossa própria vontade está ao lado de Deus, podemos pedir de acordo com Sua vontade e saber que receberemos resposta às nossas orações, mas, quando há uma terceira pessoa envolvida, precisamos lembrar que ela, também, tem vontade. Se recusar arrepender-se, todas as nossas orações e toda a obra que Deus poderia fazer e levar-nos a fazer não forçará a vontade. Ao recusar-Se a forçar o homem a permanecer bom, Deus também renunciou ao poder de forçar um pecador a arrepender-se.

Isto não significa que não devemos continuar a orar por aqueles que se desviaram do caminho da justiça, ou que nunca se entregaram ao Salvador. Não significa que não haverá muitas conversões surpreendentes como resultado de orações fervorosas e contínuas de corações fiéis. Mas João está mostrando que é inútil orar pelo perdão de um pecador enquanto ele se recusa a arrepender-se de seu pecado. Contudo, enquanto há qualquer base para esperança, devemos continuar a orar, pois não podemos dizer com certeza quando um homem já foi longe demais”.

II. Adam Clarke, A Commentary and Critical Notes, vol. 6, págs. 925 e 926:

Pecado não para morte. Esta é uma passagem extremamente difícil, e tem sido interpretada de várias maneiras. O que é o pecado não para morte, pelo qual devemos pedir, e será dada vida àquele que o cometer? E o que é o pecado para morte, pelo qual não devemos rogar?

Mencionarei três das principais opiniões sobre este assunto:

1. Presume-se que haja aqui alusão a uma distinção na lei judaica, onde havia chattaah lemithah, “pecado para morte”, e chattaah lo lemithah, “pecado não para morte,” isto é, um pecado, ou transgressão, para o qual a lei determinara a punição de morte, tal como idolatria, incesto, blasfêmia, quebra do sábado, e outros semelhantes. E um pecado não para morte, isto é, transgressões por ignorância, inadvertência, etc., e as que, por sua própria natureza, parecem ser comparativamente leves e triviais. Que tais distinções de fato existiam na sinagoga judaica, tanto Schoeltgen como Carpzovius provaram.

2. Por pecado não para morte, pelo qual se podia fazer intercessão, e para morte, pelo qual não se podia rogar, devemos entender transgressões da lei civil de determinado lugar, das quais algumas devem ser punidas com a morte, segundo os estatutos, sendo que o crime não admite perdão; outras poderiam ser punidas com a morte, mas o magistrado tem o poder de comutar a pena, isto é, de mudar a morte para banimento, etc., por razões que pudessem parecer-lhe satisfatórias, ou pela intercessão de amigos poderosos. Interceder no primeiro caso seria inútil, porque a lei não cederia; portanto, não necessitam suplicar por isto. Mas a intercessão no último caso poderia surtir efeito; portanto, podiam suplicar. Caso não o fizessem, a pessoa poderia sofrer a punição de morte.

Esta opinião, que foi promovida por Rosenmüller, insinua que os homens devem sentir as aflições um dos outros, e usar sua influência em favor dos infelizes, sem nunca abandonar os desafortunados, a não ser que o caso fosse absolutamente sem esperança.

3. O pecado não para morte significa um caso de transgressão, particularmente de grave apostasia da vida e poder da piedade, que Deus determina punir com morte temporal, estendendo ao mesmo tempo misericórdia à alma penitente. O profeta desobediente, em 1Reis 13:1 a 32, é, segundo esta interpretação, um exemplo: muitos outros ocorrem na história da igreja e de todas as comunidades religiosas. O pecado não para morte é qualquer pecado que Deus não escolha punir desta forma. Esta opinião sobre o assunto foi tomada por John Wesley, num sermão entitulado “Um Chamado aos Apostatados” (Works, vol. 2, pág. 239).

Não creio que a passagem tenha qualquer coisa a ver com o que é chamado o pecado contra o Espírito Santo; muito menos com a doutrina papista do purgatório; nem com pecados cometidos antes e depois do batismo – os primeiros perdoáveis, os últimos imperdoáveis, segundo alguns dos pais da igreja. Qualquer uma das duas últimas opiniões fazem sentido; e a primeira não é improvável; o apóstolo pode aludir a alguma máxima ou costume na igreja judaica que não é distintamente conhecida agora. Contudo, isto sabemos, que qualquer penitente pode encontrar misericórdia através de Jesus Cristo, pois através dEle todo tipo de pecado pode ser perdoado ao homem, exceto o pecado contra o Espírito Santo, que provei que nenhum homem pode cometer agora. Ver o comentário sobre Mateus 12:31 e 32“.

Pensamentos:

“Só existe uma coisa pior que o pecado: a perda do senso do pecado” (Papa João Paulo II).

“A única coisa com a qual contribuo para a minha salvação é o pecado do qual preciso ser redimido” (Vincent).

Livro: Leia e Compreenda Melhor a Bíblia, de Pedro Apolinário.

Anúncios

Sobre Ligado na Videira

Ligado na Videira
Esse post foi publicado em Leia e Compreenda Melhor a Bíblia, Pedro Apolinário e marcado , , , . Guardar link permanente.

11 respostas para Pecado Para Morte e Pecado Não Para a Morte – 1João 5:16

  1. Pingback: Prefácio de Leia e Compreenda Melhor a Bíblia, de Pedro Apolinário | Ligado na Videira

  2. Maria Sena da Silva disse:

    Penso que o pecado para a morte é aquele em que falamos de Jesus e a pessoa não quer aceitar Jesus, e ainda desfaz com gracejos dizendo que não existe essa de salvação, isso é pecado para morte, porém se essa pessoa vir a se arrepender enquanto tenha vida Deus perdoa, mas se morrer nesse pecado não terá a salvação. Isso é pecado para morte.

    • Raimundo Nonato Costa dos Santos disse:

      Como João fala, se orar mos pelo pecador que um dia conheceu à Jesús e esse não ora mais nem por ele, de vai adiantar sua oração.
      Mas Deus testifica que não leva em consideração o tempo de ingnorancia da pessoa ou seja, por estes temos que orar e pregar o evangelho à toda criatura. Resultado, pecado para morte pra quem conheceu Jesus e não quer mais orar e pecado para a gloria pra quem continua orando.

  3. Daniel disse:

    Esse texto é muito difícil. Se eu disser que são pecados involuntários e voluntários vai haver uma certa injustiça de Deus para com os humanos, pois uns têm tendências fortes para os voluntários e outros têm tendências fortes para os involuntários. O primeiro vai levar desvantagem em se salvar em relação ao segundo. Creio que os teólogos e nós precisamos estudar mais sobre a exegese de I João 5:16 e 17.

  4. IRMA VOLPATO disse:

    Senhor revela-nos pelo teu santo espirito o que são pecados para a morte e pecados que não são para a morte, porque estamos conjecturando, mas o que queremos e temos sede é o que o Senhor quiz e quer nos dizer com isso. A Tua Palavra diz que o Senhor dá sabedoria a quem pede. Estamos suplicando pela tua sabedoria, pois na nossa ignorância nada sabemos. Obrigado Amado e bom Deus. Oramos em nome do seu amado filho Jesus o Cristo.

  5. marcos irineu toporosky disse:

    Eu já entendo o seguinte :Vejamos que João se refere a um(IRMÃO). Sendo irmão a Morte é ESPIRITUAL.Porque o salvo não morre , mas passa da morte para vida. Existe no novo testamento DOIS atos em que nos leva a Morte espiritual (pecado para morte ).Que são pecados Imperdoáveis.1-pecado contra o Espirito Santo. 2-Dureza de coração (ausência de perdão). Nesse caso, vejamos que João,(o discípulo do amor) faz várias colocações ,sore o amar nossos irmãos,e ele faz uma afirmativa na Cp.3:15,em que quem ODEIA a seu irmão é homicida ,e homicida não tem a vida eterna.E, fazendo um paralelo com a oração do (pai nosso,)a maioria encerra no AMÉM,do vc.13 do Cp. 6 de Mateus .Mas vejamos os Vcs.14 e 15,que Jesus afirma que aquele que não perdoa a seu irmão Deus também NÃO o perdoará.Resumindo,existe pessoas em que odeia seu próximo e não é capais de o perdoar (eu conheço alguém assim) .E João da início o Cp. 5:1,2,3 falando desse amor e quem ama não odeia,correto? e quem não ama não perdoa ,e quem não perdoa não é perdoado por Deus ,e quem não é perdoado por Deus esta MORTO para com Deus.( A falta do perdão bloqueia as orações e sendo assim até o enfermo pode morrer fisicamente também).Quando vamos orar por alguém enfermo perguntamos:Tu teria alguma queixa contra alguém? se ele(a) disser tenho mas não o perdoo, então nem ore.

  6. José Augusto Queiroz disse:

    Os pecados que não têm perdão são, contra o Espírito Santo em Mateus 12. 31-32…acrescentar à Palavra pensamentos humanos, Apoc 22. 18….e também. Tirar da Palavra sua direção espiritual. ..Apoc 22.19….Os demais pecados tem perdão se houver arrependimento. ..

    • Olá, José Augusto!
      Agradecemos por navegar e comentar em nosso blog. Deus o recompense.
      Meu entendimento me leva a expressar assim: o único pecado não perdoado é aquele para o qual não pedimos perdão.
      Irmão, aproveitamos para pedir que você indique o nosso blog para os seus amigos.

      Carlos Bitencourt
      Cascavel-Paraná

  7. willian disse:

    Todo pecado é para morte e todo pecado não é para morte.
    e a oração de um justo pode ajudar ao irmão sair do pecado.
    Com exceção a o unico que não tem perdão é a blasfêmia contra o espirito santo e este não devemos horar porque já está condenado.

Escreva um comentário. Compartilhe sua opinião.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s