Explicação de Textos Difíceis da Bíblia: A Ira de Deus e a Ira do Homem

A ira de Deus e a ira do homem

Este é um dos assuntos mais difíceis de ser explicado dentro das Escrituras, porque estas condenam a “ira” e, de outro lado, apresentam tantas referências “a ira de Deus”. Este estudo tenciona esclarecer os estudantes da Bíblia sobre a necessidade de fazer nítida distinção entre “ira humana” (que também pode sofrer dupla distinção) e o real significado da expressão “ira de Deus”.

Sobre a importância do tema basta mencionar estes aspectos:

1º) O Theological Dictionary of the New Testament, de Gerhard Kittel, dedica 62 páginas ao estudo da palavra “ira”.

2º) De modo geral no mundo, e mesmo entre nós, há uma compreensão totalmente errada com respeito à expressão “ira de Deus”.

Faz pouco tempo, obtive, da Biblioteca Evangélica de São Paulo, uma brochura, que é um sermão intitulado “Pecadores nas Mãos de um Deus Irado“, de autoria de Jonathan Edwards, um destacado teólogo e erudito dos Estados Unidos no século 18.

Suas ponderações sobre a ira divina são verdadeiramente absurdas. Para termos uma ideia precisa do que ele pregou, basta este trecho:

“Ó pecador, considera o temível perigo em que te achas! E sobre uma grande fornalha de ira, um abismo hiante e sem fundo, cheio do fogo da ira, que és seguro na mão daquele Deus, cuja ira é provocada e despertada contra ti, tanto quanto contra muitos dos condenados do inferno”.

O sermão é todo neste mesmo diapasão, mostrando uma distorção total do caráter de Deus.

Comentários Gerais

Definição de “ira”

“Mágoa ou paixão que a injúria desperta na pessoa injuriada; raiva, cólera; desejo de vingança” – Laudelino Freire.

No consenso comum, esta palavra significa fúria, raiva, cólera, com um desordenado desejo de vingança. Esta seria a ira humana, motivo de ser condenada na Bíblia.

Ira do Homem

De acordo com o Dicionário Enciclopédico da Bíblia (Editora Vozes Limitada, Petrópolis), a ira do homem geralmente é reprovada na Escritura; quanto ao Velho Testamento, sobretudo nos escritos de Salomão. O motivo parece ser mais utilitário, desde que a ira nos causa prejuízo.

Provérbios 15:18 – “O homem iracundo suscita contendas, mas o longânimo apazigua a luta“.

Provérbios 18:19 – “Homem de grande ira tem de sofrer o dano“.

O Novo Testamento também condena a ira:

Mateus 5:22 – “Quem se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento“.

Efésios 4:31 – “Longe de vós toda a amargura, e cólera e ira”.

Pode-se ler ainda: Gálatas 5:20; Eclesiastes 7:9; 5:2; Salmos 37:8; Provérbios 14:17.

A ira está classificada pela Igreja Católica entre os sete pecados capitais; sendo os outros seis: orgulho, avareza, luxúria, gula, inveja, preguiça. Destes sete, há dois que merecem, no uso corrente da linguagem, uma exceção muito honrosa: o orgulho e a ira. Falamos habitualmente em “santo orgulho” (a justa soberba) e em “santa ira” (o ódio bem fundado). Quando nos orgulhamos de atos que merecem o nosso respeito, e representam verdadeiros paradigmas de nossa conduta, o orgulho deixa de ser pecado para se transformar em virtude. É o santo orgulho! Quando odiamos a injustiça, o erro, o pecado, e discernimos, com isso, o “bem” do “mal”, o certo do errado, a virtude do relaxamento, esse ódio se transfigura e se redime. É a santa ira! Desta “santa ira”, o próprio Jesus nos deu o exemplo, como se vê na Sua maneira de falar sobre os fariseus e no seu comportamento no templo. Estas atitudes estão relatadas em Marcos 3:5 e Mateus 21:12.

Em Marcos 3:5, no grego, encontramos: “Olhando-os ao redor, sem ira…” – “orguê”.

Não seria a esta ira que se refere a Palavra Divina, em Efésios 4:26, quando preceitua: “Irai-vos e não pequeis“?

[O Comentário Bíblico Adventista, vol. 5, pág. 643, referente Marcos 3:5, diz assim: “Frequentemente se diz que a única ira que não implica pecado é a ira contra o pecado. Deus odeia o pecado, porém ama o pecador. Os falíveis mortais, com demasiada frequência cometem o erro de odiar o pecador e amar o pecado. A ira contra o mal por ser mal, sem maus desejos ou maus propósitos contra os outros, certamente se pode considerar um traço louvável de caráter].

A Palavra Ira no Original

No Velho Testamento, a palavra “ira” é a tradução de várias palavras do original hebraico, enquanto no Novo Testamento “ira” é a tradução de três palavras gregas: “orghv” (orguê);  “qimovv” (thimós);  e “parorgismovv” (parorguismós).

1ª) Orghv (orguê), a mais usada no Novo Testamento, aparece 385 vezes. É ira com desejo de vingança. É a ira pensada, fria, mais calma, mais firmada na vontade e na razão. Orguê é usada para a ira do homem: Efésios 4:31; Colossenses 3:8; 1Timóteo 2:8; Tiago 1:19 e 20. Para a ira de Cristo contra os fariseus, relatada em Marcos 3:5. Mas também para o julgamento final de Deus: Mateus 3:7; Lucas 3:7; Romanos 1:18; Romanos 2:5 e 8; Romanos 3:5; Romanos 9:22; Romanos 12:10; Efésios 2:3; Efésios 5:6; Colossenses 3:6; 1Tessalonicenses 1:10; e 1Tessalonicenses 5:9.

2ª) Qimovv (thimós), empregada apenas 18 vezes, sendo que 10 só no Apocalipse. É a paixão irascível, ira a ferver, ira como algo em ebulição.

Em “Vine’s Expository Dictionary of New Testament Words”, pág. 55, é dito que “thimós” expressa mais o sentimento interno, enquanto “orguê”, a emoção ativa.

Marvin R. Vincent, em “Word Studies in the New Testament”, vol. 2, pág. 110, afirma: “Tanto orguê como thimós são unidos no Novo Testamento para ira ou cólera, e sem qualquer distinção comumente observada. Orguê denota um mais profundo e mais permanente sentimento, um hábito mental estabelecido, enquanto que thimós é uma agitação mais turbulenta, embora temporária. Ambas as palavras são usadas na frase ira de Deus, que comumente denota uma manifestação distinta do juízo divino”.

De acordo com “The Interpreter’s Dictionary of the Bible”, vol. 1, pág. 135, a distinção a ser feita é esta: “Se há qualquer distinção entre estas duas palavras no Novo Testamento em relação a emoção humana, parece que thimós denota melhor a paixão irrefletida da ira (Lucas 4:28); orguê, a indignação moral mais relativamente considerada (Tiago 1:19)”.

Nota: Há autores que afirmam que nenhuma distinção pode ser feita entre estas duas palavras.

3ª) Parorgismovv (parorguismós). Nesta palavra se encontra uma reforçada forma de orguê. Ela aparece apenas uma vez no Novo Testamento, em Efésios 4:26, com o sentido de ira provocada.

O verbo cognato “parorgxw” (parorguidzo), irritar, excitar à ira, é usado duas vezes: Romanos 10:19 e Efésios 6:4.

William Vine, ao explicar “parorguismós” de Efésios 4:26, afirma: “O verbo precedente, orguidzo, neste verso, faz supor uma ocasião justa para o sentimento. Isto é confirmado pelo fato de que é uma citação de Salmos 4:4 (Septuaginta), onde a palavra hebraica significa tremer com forte emoção” (Expository Dictionary of the New Testament Words, pág. 56).

Ira de Deus

Uma pesquisa na Bíblia nos leva à conclusão de que a “ira humana” e a “ira de Deus” são totalmente distintas.

Frequentemente o princípio da ira de Deus é apresentado em termos “antropomórficos”. (Os judeus apresentavam a divindade com reações humanas antropomórficas. A palavra “antropomorfismo” significa, em grego, antropos (homens) e morfê (forma). Seria atribuir a Deus formas e qualidades humanas. A Bíblia fala da boca, lábios, mãos e olhos de Deus. Atribui ainda à Divindade as paixões e sentimentos experimentados pelos homens, por isso fala em cólera, alegria e vingança de Deus).

Russel Norman Champlin, em seu “Comentário Sobre Romanos” (1:18) pondera: “A ira de Deus não indica alguma forma de emoção humana, que perturbe o equilíbrio emocional das pessoas e as torne desejosas de ferir às outras, em forma de ações maldosamente planejadas, conforme a ira humana geralmente obriga as suas vitimas a fazerem. A ira de Deus é ordinariamente aludida em termos escatológicos, referindo-se ao julgamento que haverá no futuro Dia do Senhor”.

“É a justa indignação de Deus quando do julgamento contra o pecado” (Idem, referindo-se a Romanos 5:9).

F. F. Bruce, no livro “Romanos – Introdução e Comentário”, pág. 69, ao analisar Romanos 1:18, nos esclarece: “Se se pensa que a palavra ira não é muito apropriada para usar-se com relação a Deus, é provavelmente porque a ira, como a conhecemos na vida humana, constantemente envolve paixão egocêntrica, pecaminosa. Com Deus não é assim. Sua ira é a reação da santidade divina face à impiedade e rebelião. Paulo decerto concordaria com Isaías ao descrever esta ira de Deus, como ‘Sua obra estranha’ (Isaías 28:21) à qual Ele a aplica lentamente e com relutância. …

“A ideia de que Deus é irado não é mais antropopática do que o pensamento de que Deus é amor. A razão pela qual a ideia da ira divina está sempre sujeita a mal-entendidos é que a ira entre os homens é eticamente errada. E contudo, mesmo entre os homens não falamos da ira justa?”

Há dois extremos que devem ser evitados ao tratar-se da “ira de Deus”. O primeiro pertence àqueles que O apresentam cheio de amor e longanimidade, e como um Pai amoroso, não irá destruir os Seus filhos – portanto, não acreditam na severidade ou na ira de Deus. No extremo oposto se encontram os que apresentam a Deus como um ser vingativo e irado que fará os homens queimarem para sempre. Muitos sacrifícios têm sido feitos para aplacar esta ira.

Não há nenhuma discrepância nos versos que apresentam a Deus cheio de bondade e amor com aqueles que revelam sua ira contra o pecado e os pecadores, que acintosamente O rejeitam. O amor requer julgamento. A severidade divina é sempre manifestação do amor.

Como bem se expressou Arthur John Gossip: “Mas no Novo Testamento os homens não ouvem qualquer choque entre a ira divina e a longanimidade divina: pelo contrário, ficam certos tanto da bondade como da severidade de Deus; certos de que a Sua severidade faz parte da Sua bondade, e que, se essa severidade estivesse ausente, Ele não seria bom, porquanto os alicerces morais do mundo se desequilibrariam e entrariam em colapso”.

Do cotejo de várias passagens bíblicas, os estudiosos têm chegado à conclusão de que há uma dupla necessidade da “ira de Deus”, que neste caso seria sinônimo de “Sua justiça”:

1ª) Para que haja manutenção das leis divinas que pedem justiça.

2ª) Para extermínio do pecado e dos pecadores impenitentes que se opuseram à misericórdia divina.

A Bíblia nos apresenta a ira de Deus desviada após confissão do pecado e arrependimento: Salmos 106:43 a 45; Jeremias 3:12 e 13; Jeremias 31:18 a 20; Lucas 15:18 a 20.

A ira de Deus é justa: Salmos 58:10 e 11; Romanos 6:2 e 8; Apocalipse 16:6 e 7.

De acordo com Romanos 2:4 e 5, a ira de Deus significa “o juízo de Deus”.

Ela é usada contra:

a) Os ímpios – Isaías 13:9; Romanos 1:18; Efésios 5:6.

b) A apostasia – Hebreus 10:26 e 27.

c) A idolatria – Deuteronômio 29:27 e 28; Josué 26:16; Jeremias 44:3.

d) Aqueles que se opõem ao evangelho – Salmos 2:2, 3 e 5; 1Tessalonicenses 2:16.

No caso dos santos, ela é temperada com misericórdia – Salmos 30:5; Isaías 26:20; Jeremias 30:11.

Ela deve conduzir-nos ao arrependimento – Isaías 42:24 e 25; Jeremias 4:8.

O livro “Essays in Honor of Edward Heppenstall – The Stature of Christ” apresenta, como capítulo final, “An Interpretation of the Wrath of God”, de Morris D. Lewis, trabalho honesto, bem fundamentado, e que expressa de maneira feliz a crença adventista sobre este empolgante tema. Para que se tenha melhor compreensão do problema, aqui se encontram traduzidos das primeiras 8 páginas, das 22 de sua pesquisa, alguns trechos mais significativos: “As centenas de textos bíblicos que descrevem a ira como uma característica de Deus criam um problema. O amor na personalidade da Divindade parece estar em conflito com as muitas referências às demonstrações de cólera, furor e ira de Deus. Uma referência típica é aquela de Jeremias retratando a exasperação divina por causa da pecaminosidade dos habitantes de Jerusalém.

Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: . . . Eu planejarei contra vós com mão estendida, e com braço forte, e com ira, e com indignação e com grande furor. E ferirei os habitantes desta cidade, assim os homens como os animais: de grande pestilência morrerão” (Jeremias 21:4 a 6).

“A maioria dos teólogos modernos hoje creem que em adição à característica divina de amor, a personalidade da Divindade, às vezes, se inflama ante a rebelião do homem e exibe cólera e ira para testificar contra a odiosidade do pecado. Alguns escritores tendem ao raciocínio de que a ira de Deus é justificável porque é expressa somente após incessante agravamento dos pecadores. Outros enfatizam que a ira de Deus apenas confirma Sua santa aversão ao pecado”.

“Seja qual for o arrazoamento para justificar a característica de cólera e ira na natureza da Divindade, a argumentação é destituída de fundamento escriturístico. Os Escritos da Inspiração, como registrados por Isaías, testificam da declaração do próprio Deus: ‘Não há indignação em Mim’ (Isaías 27:4). O mesmo escritor também confirmou a atitude divina no capítulo 54, verso 9 – ‘Assim jurei que não Me irarei mais contra ti, nem te repreenderei’. A palavra hebraica mais frequentemente usada para provocação é a mesma palavra usada muitas vezes para ira. Ficar zangado e ser provocado e mostrar ira são expressões muito semelhantes e intimamente relacionadas. Mas de Cristo, a escritora de O Desejado de Todas as Nações disse: ‘Sua calma resposta proveio de um coração imaculado, paciente e brando, que não se irritava’ [1]. Cristo nunca foi agitado por pecadores a ponto de revidar com uma atitude excitada. “O qual, quando O injuriavam, não injuriava, e quando padecia não ameaçava” (1Pedro 2:23). Cristo nunca foi provocado à cólera ou ira, e Ele expressava o caráter de Deus o Pai”.

“Que Deus é soberano é indisputável. Como o termo ira de Deus está relacionado com a soberania da Divindade, liga-se primeiramente com a operação da lei. Quer em função da natureza, quer em função do relacionamento moral do homem, a mesma posição predominante de Deus permanece”.

Disse o salmista, falando de Deus: “Tu firmaste a Terra, e firme permanece. Conforme o que ordenaste, tudo se mantém até hoje; porque todas as coisas Te obedecem” (Salmos 119:90 e 91). Em outra referência, o escritor, depois de exaltar o poder criador de Deus em estabelecer o sol, a lua, as estrelas e as águas, concluiu: “Louvem o nome do Senhor, pois mandou, e logo foram criados. E os confirmou para sempre, e lhes deu uma lei que não ultrapassarão” (Salmos 148:5 e 6).

São estas apenas umas poucas das muitas referências em que Deus é retratado como constantemente controlando a natureza pela lei natural. Neste contexto, a operação da natureza é declarada Sua serva.

Os processos da natureza que dão vida, alimento, beleza e prazer são os servos de Deus. Eles executam Seu mando. Esses mesmos processos podem tornar a ser uma tempestade ou uma praga para destruir o homem e a natureza. As funções destrutivas da natureza podem muito bem ser chamadas “a ira” ou “a cólera de Deus”.

O Senhor é um Deus zeloso e que toma vingança, o Senhor toma vingança e é cheio de furor: o Senhor toma vingança contra os Seus adversários, e guarda a ira contra os Seus inimigos. O Senhor é tardio em irar-Se, mas grande em força, e ao culpado não tem por inocente; o Senhor tem o Seu caminho na tormenta, e na tempestade, e as nuvens são o pó dos Seus pés” (Naum 1:2 e 3).

O Senhor tem o Seu caminho nas tempestades; elas, também, são Suas servas. Tempestades de tal violência podem destruir os ímpios (Jeremias 23:19 e 20). Quer as operações da natureza sejam tranquilas e serenas, quer sejam violentas e destruidoras, ambas as funções são mencionadas como sendo a mão de Deus.

A Palavra Inspirada fornece uma compreensão mais profunda e atribui as funções naturais de destruição aos poderes do mal. Disse Isaías: “Eis que o Senhor mandará um homem valente e poderoso; como uma queda de saraiva, uma tormenta de destruição, e como uma tempestade de impetuosas águas que transbordam, violentamente e derribará por terra” (Isaías 28:2).

O valente e poderoso é a força satânica. Em outra referência, o profeta Isaías observou o poder de Deus como a força que cria o destruidor: “Também criei o assolador para destruir” (Isaías 54:16). O artigo com a palavra “assolador” indica uma pessoa específica. A mesma palavra aqui empregada ocorre em Êxodo 12:23, e nesta referência é traduzida por “destruidor” e tem também consigo o artigo. Satanás é o poderoso, como uma tempestade destruidora fazendo devastação em a natureza.

Ellen White faz as mesmas observações: “Assim foi que Lúcifer, ‘o portador de luz’, aquele que participava da glória de Deus, que servia junto ao Seu trono, tornou-se, pela transgressão, Satanás, o ‘adversário’ de Deus e dos seres santos, e destruidor daqueles a quem o Céu confiou a sua guia e guarda” [2].

“Satanás também opera por meio dos elementos a fim de recolher sua colheita de almas desprevenidas. Estudou os segredos dos laboratórios da Natureza, e emprega todo o seu poder para dirigir os elementos tanto quanto o permite Deus. . . . nos violentos furacões e terríveis saraivadas, nas tempestades, inundações, ciclones, ressacas e terremotos, em toda parte e sob milhares de formas, Satanás está exercendo o seu poder” [3].

Para o observador casual, a fúria da tempestade parece ser a demonstração direta do poder divino. Isto não é totalmente verdade. O princípio bíblico de soberania atribui ao que comanda todos os atos feitos sob sua autoridade. Isto se verifica claramente no trato de Davi com o amalequita que pretendia ter matado Saul. Em uma referência (2Samuel 1:15), é dito que Davi chamou um de seus jovens para lançar-se sobre o amalequita e matá-lo, e, em outro relato (2Samuel 4:10), Davi disse que lançou mão do homem e o matou. Aqui não há nenhuma contradição. O que foi feito por aqueles que estavam sob o comando de Davi é dito ter sido feito pelo próprio Davi.

Este mesmo princípio é verdade na descrição do profeta a respeito da soberania de Deus sobre todas as forças da natureza. A fúria da tempestade é declarada ser a ira de Deus, quando em realidade a ira é de Satanás usando os elementos da tempestade quando Deus permite.

Como pode ser dito que Deus trouxe a tempestade e ao mesmo tempo declarar que Ele não estava nas funções destrutivas da natureza? Quando as impetuosas exibições da natureza ocorreram no vento, terremoto e fogo, foi dito ao profeta Elias que Deus não estava nelas (1Reis 19:11 e 12). A declaração acima, de O Grande Conflito [3], torna claro que tempestades e calamidades da natureza são a obra do diabo, não de Deus. Satanás usa as leis de Deus para destruir. As leis são de Deus. O propósito de destruir é o intento de Satanás. A destruição é a obra do poder maligno, até onde Deus o permite.

“Enfermidade, sofrimento e morte são obra de um poder antagônico. Satanás é o destruidor, Deus é o Restaurador” [4]. Onde quer que a Bíblia fale de Deus como estando a causar destruição através dos elementos da natureza, a destruição ocorre apenas por Sua soberana permissão e através da operação de Suas leis.

“Nada ocorre na Terra ou no Céu sem o conhecimento do Criador. Nada pode acontecer sem Sua permissão” [5].

A obra de destruição no mundo natural é a obra de Satanás; é dito ser de Deus apenas no sentido de Sua soberania.

Para entender a ira, é muito importante ver a relação íntima entre a lei natural e a lei moral.

“Os homens podiam aprender do desconhecido pelo conhecido; coisas celestiais foram reveladas pelas terrenas; … As coisas naturais eram o veículo para as espirituais; cenas da Natureza e da experiência diária de Seus ouvintes eram relacionadas com as verdades das Escrituras Sagradas” [6].

Todo o esquema do ensino bíblico está baseado na íntima relação das leis natural e moral. Paulo concluiu: “Não erreis; Deus não Se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará. Porque o que semeia na sua carne, na carne ceifará a corrupção; mas o que semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna” (Gálatas 6:7 e 8).

Cristo repetiu o mesmo princípio básico de ensino quando Se referiu à Sua morte como um grão de trigo caído no solo (João 12:24 e 25).

É mais evidente perceber a lei física na operação de cada simples função do corpo humano. É menos aparente, mas certamente como concreto, concluir que a operação da evolução e inteligência humanas está em conexão com a lei moral.

Como supremo Soberano do Universo, Deus ordenou leis para o governo não só de todos os seres vivos, mas de todas as operações da Natureza. Todas as coisas, quer grandes quer pequenas, animadas ou inanimadas, acham-se sujeitas a leis fixas, que não podem ser desrespeitadas. Não há exceções a esta regra; pois coisa alguma feita pela mão divina foi esquecida pela mente divina. Mas, se bem que tudo em a Natureza seja governada pela lei natural, o homem, tão-só, como ser inteligente, capaz de compreender seus reclamos, é responsável à lei moral [7].

Cada função, seja física ou mental, está operando por lei. É bastante íntima a influência de uma sobre a outra, e o princípio funcional é também íntimo. A escritora Ellen White, tendo citado Salmos 19:1 a 6, disse: “O salmista relaciona a lei de Deus no mundo natural com as leis dadas às Suas inteligentes criaturas” [8]. Assim, a mesma função operacional de vida e destruição na lei natural seria encontrada também na lei moral.

Os dez mandamentos são a regra básica para a vida e a morte; amor e ódio. O segundo mandamento estabelece este duplo conceito: “Porque Eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a maldade dos pais nos filhos até à terceira geração daqueles que Me aborrecem. E faço misericórdia em milhares aos que Me amam e guardam os Meus mandamentos” (Êxodo 20:5 e 6).

A lei diz que Deus visitará suas iniquidades sobre aqueles que odeiam e a Sua misericórdia sobre aqueles que amam. Um princípio muito importante e distinto é formulado aqui, que envolve a natureza da ira e a fonte de sua origem. Deus é a fonte de misericórdia sobre aqueles que amam, mas iniquidade e ira vem sobre o homem, tendo o próprio homem como fonte.

A palavra para “visitar” no texto acima é a mesma  palavra usada para mandamento no texto seguinte: “As obras das Suas mãos são verdade e juízo; fiéis todos os seus mandamentos” (Salmos 111:7). O princípio da visitação é uma lei. Quando o Senhor visitar os pecadores, Ele visitará os seus pecados sobre eles (Êxodo 32:34). Esta função da lei moral é precisamente a mesma que a lei da natureza; o que é semeado, o mesmo é ceifado. Se alguém semeia na carne, colherá na carne. O profeta Jeremias, falando dos falsos profetas, disse que o Senhor visitaria sobre eles a maldade de suas ações (Jeremias 23:2). No mesmo capítulo, o profeta explicou o processo mais detalhadamente.

Portanto, o caminho deles será como lugares escorregadios na escuridão; serão empurrados e cairão nele; porque trarei sobre eles calamidade, o ano mesmo em que os castigarei, diz o SENHOR” (Jeremias 23:12).

O Senhor visitaria os caminhos escorregadios sobre eles, e eles cairiam em trevas. Assim, o dia da visitação é um dia de recompensa (Oseias 9:7). O dia da visitação é o dia em que os pecados que o pecador semeou tornar-se-ão uma ceifa. A visitação dos pecados sobre os pecadores funciona à parte da intervenção direta de Deus. Visitar a iniquidade dos pais sobre os filhos é retribuir o mal dos pecadores sobre si mesmos. Este processo é chamado de “a ira de Deus”.

“E aos que são fiéis em Seu serviço, promete-se a misericórdia, não meramente à terceira e quarta geração, como é ameaçada a ira contra os que O aborrecem, mas a milhares de gerações” [9].

Na citação acima, a autora cita o comentário do segundo mandamento e iguala o termo “visita a maldade dos pais sobre os filhos” com “ira”. Deste modo, o processo de visitação, como uma operação de lei, traz ira sobre aqueles que odeiam. Paulo faz a mesma declaração em Romanos 4:15 – “A lei opera a ira“.

A lei moral, como a lei natural, opera em um sentido duplo, para a vida e para a morte. Paulo salientou distintamente a operação da lei do pecado como outra lei e a denominou a lei do pecado e da morte.

Mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros“. “Causou-me a morte” (Romanos 7:23 e 13).

Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte” (Romanos 8:2).

A palavra “outra” está enfatizando outra em qualidade de preferência à outra em número. (A palavra “outra”, de Romanos 7:23, em grego é “héteros”, e não “álos”, por ser “álos” “outro da mesma qualidade”, enquanto “héteros”, “outro de natureza diferente”).

Deus fala de ambos os grupos, aqueles que são governados por Sua lei de amor. Falando de Israel, o Senhor disse que eles eram Seus servos (Levíticos 25:55). Também, a maioria dos ímpios são chamados Seus servos. Assim o Senhor falou de Nabucodonosor quando ele primeiro veio contra Judá. Sua soberania é inquestionável no domínio do pecado e da justiça. A operação da vontade é do homem; a operação da lei é Sua. Como declarou Davi que a ação de seu oficial subordinado era sua própria, assim Deus fala do caminho dos pecadores como Sua própria realização.

Eu sou o SENHOR, que faço todas as coisas, que sozinho estendi os céus e sozinho espraiei a terra; que desfaço os sinais dos profetizadores de mentiras e enlouqueço os adivinhos; que faço tornar atrás os sábios, cujo saber converto em loucuras” (Isaías 44:24 e 25).

O Senhor conduz os tortuosos e aqueles que obram a maldade (Salmos 125:5). O Senhor conduz os mentirosos, os adivinhadores, os sábios, e os tortuosos pela função de Sua lei do pecado em suas vidas. Os poderosos da Terra são a vara da indignação de Sua ira.

Ai da Assíria, cetro da minha ira! A vara em sua mão é o instrumento do Meu furor” (Isaías 10:5).

“O orgulho assírio, conquanto usado por Deus por algum tempo como a vara de Sua ira, para punir as nações, não deveria sempre prevalecer” [10].

A ira não era uma expressão pessoal da Divindade. Os assírios, como servos de Deus da lei do pecado, estavam sob Seu soberano controle. A palavra hebraica para ira neste contexto é a mesma usada em muitos lugares.

Deus usou Sisaque como Sua ira. “Humilharam-se, não os destruirei; antes, em breve lhes darei socorro, para que o Meu furor não se derrame sobre Jerusalém, por intermédio de Sisaque” (2Crônicas 12:7).

Não havia nenhuma expressão de ira da parte de Deus neste exemplo. O Egito, como os outros poderosos da Terra, era o servo de Deus. “Eu dei ordens aos Meus consagrados, sim, chamei os Meus valentes para executarem a Minha ira, os que com exultação se orgulham” (Isaías 13:3). Deus usa a ira dos homens para controlar os homens. Assim disse o profeta: “Tão certo como Eu vivo, diz o SENHOR Deus, com mão poderosa, com braço estendido e derramado furor, hei de reinar sobre vós” (Ezequiel 20:33).

A operação da lei do pecado (ira de Deus) é a relação de homens maus contra os homens maus. Desta forma, Deus governa em sociedade com a ira dos homens maus para com homens maus.

“Quando pais ou governadores negligenciam o dever de punir a iniquidade, Deus mesmo tomará o caso em Suas mãos. Seu poder restringidor será em certa medida removido dos agentes do mal, de tal forma que uma sucessão de circunstâncias se levantarão, as quais punirão o pecado com pecado” [11].

Assim, vemos na Bíblia e no Espírito de Profecia que Deus não é um Deus de ira. Ele é um Deus que tem soberano controle de tudo, mesmo dos ímpios. As expressões nas Escrituras que parecem indicar Deus com raiva e ira são, na realidade, a verificação de Seu soberano controle.

A lei moral do Deus de amor funciona pelo desejo e intenção da divindade; a lei do pecado e da morte, que é a ira de Deus, funciona pela permissão de Deus. É um idiomatismo da semântica bíblica para atribuir a Deus aquilo que em Sua providência Ele permite que ocorra. “Deus domina sobre tudo” (Salmos 103:19). Isto inclui também os ímpios (2Crônicas 20:6). O trato de Deus para com os ímpios é o da permissão. Do contrário, a Bíblia parece contradizer-se.

Pois, ainda que entristeça a alguém, usará de compaixão segundo a grandeza das Suas misericórdias; porque não aflige nem entristece de bom grado os filhos dos homens” (Lamentações 3:32 e 33).

No primeiro versículo acima, é declarado que Deus causa aflição e no seguinte é dito que Ele não aflige ou entristece. Jeremias disse que o Senhor afligiu Jerusalém (Lamentações 1:12) e Jó disse que o Todo-Poderoso não aflige ( 37:23). A verdade é encontrada da avaliação das citações de Lamentações. O Senhor não aflige de Seu coração; isto quer dizer, não é Sua intenção segundo Sua santidade. O Senhor permite que a aflição ocorra.

“Nós lemos que Deus tentou a Abraão, que Ele tentou aos filhos de Israel. Isto significa que Ele permitiu que ocorressem circunstâncias para testar sua fé, e conduzi-los a olhar para Ele para obter auxilio” [12].

Desta forma, o Espírito de Profecia e a Bíblia concordam na semântica da permissão divina. O que é dito do que Deus faz no reino do pecado é feito somente pela Sua permissão. Um bom exemplo disto é encontrado em Isaías: “Eu formo a luz, e crio as trevas; faço a paz e crio o mal; Eu, o Senhor, faço todas estas coisas” (Isaías 45:7).

Sob esta luz, Jeremias disse: “Acaso não procede do Altíssimo assim o mal como o bem?” (Lamentações 3:38). O mal não procede do coração de Deus. A divindade somente permite que o mal ocorra.

Tais contradições aparentes são numerosas na Bíblia. As declarações da ira de Deus são somente uma delas. Há um princípio muito definido e padronizado revelado em uma longa consequência de causa e efeito do pecado. O eminente sábio hebreu Mainmonides (1135-1204) mostrou todos os eventos humanos como uma fila de dominós, tendo efeito contingente sobre os eventos bem sucedidos. Sejam eles bons ou maus, Deus foi a primeira grande causa. Então, citou ele o idiomatismo dos profetas hebreus que cancela os eventos intermediários e conecta o primeiro ao último como se não houvesse entre eles registro intermitente. Ao invés de um caso sem envolvimento com o mal ou a ira, parecia como se Deus fosse o real causador.

“Satanás procura esconder dos homens a ação divina no mundo físico – a fim de conservar fora das vistas a incansável operação da primeira grande causa” [13].

“Os homens têm geralmente atribuído a Deus tais características de raiva, ira, tentação, maldade, enviando fogo e oprimindo o coração dos homens, quando na realidade tais termos são usados para estabelecer Deus como a primeira causa e, por conseguinte, o soberano da terra. É tempo de as dissimulações de Satanás serem expostas. Assim fazendo, Satanás é removido de seu alto e cobiçado lugar e sujeito a uma linha de ação permitida por Deus. Satanás pode exercer sua autoridade usurpada somente como Deus permite”[14].

“Seus sofrimentos são muitas vezes representados como sendo castigo a eles infligido por decreto direto da parte de Deus. É assim que o grande enganador procura esconder sua própria obra. Pela obstinada rejeição do amor e misericórdia divina, os judeus fizeram com que a proteção de Deus fosse deles retirada, e permitiu-se a Satanás dirigi-los segundo a sua vontade” [15].

Quantas vezes a ira que veio a Israel foi interpretada como vinda de Deus. Assim, Satanás oculta sua obra, atribuindo-a a Deus. Ele tem alistado muitos teólogos ao seu lado para ajudá-lo nesta fraude.

“Satanás exerce domínio sobre todos os que Deus não guarda especialmente. Ajudará e fará prosperar alguns, a fim de favorecer os seus próprios intuitos; trará calamidade sobre outros, e levará os homens a crer que é Deus que os aflige” [16].

Após outros exemplos, confirmações e elucidações para ilustrar as maneiras distintas de agir de Deus e Satanás, Morris D. Lewis conclui suas ponderações declarando: “Embora a ira do homem opere pela lei de Deus, pela mesma lei o amor de Deus opera a ira do homem. Deus não é um Deus de ira, mas um Deus de amor”.

Conclusão

Quando a Bíblia fala da ira de Deus, ela nos deseja ensinar que Ele é justo e tem aversão ao pecado.

Ira de Deus é uma expressão bíblica que significa o castigo dos ímpios no Juízo Final.

Ira de Deus é outra expressão para a justiça divina.

Referências

01. O Desejado de Todas as Nações, 22ª edição, pág. 700 (75. Perante Anás e Caifás).
02. Patriarcas e Profetas, 16ª edição, pág. 40 (1. Por Que Foi Permitido o Pecado?)
03. O Grande Conflito, 41ª edição, pág. 589 (36. O Maior Perigo Para o Lar e a Vida).
04. A Ciência do Bom Viver, 10ª edição, pág. 113 (7. A Cooperação do Divino com o Humano).
05. Minha Consagração Hoje, pág. 291 – Meditação Matinal 14-10-1953 e 1989.
06. Parábolas de Jesus, 14ª edição, pág. 17 (1. O Ensino Mais Eficaz).
07. Mensagens Escolhidas, vol. 1 , 3ª edição, pág. 216 (27. O Caráter da Lei de Deus).
08. Seventh-day Adventist Bible Commentary, vol. 3, pág. 1.114.
09. Patriarcas e Profetas, 16ª edição, pág. 306 (27. Israel Recebe a Lei).
10. Profetas e Reis, 9ª edição, pág. 349 (30. Libertos da Assíria).
11. Patriarcas e Profetas, 16ª edição, pág. 728 (72. A Rebelião de Absalão).
12. Nos Lugares Celestiais, pág. 251 – Meditação Matinal 01-09-1968.
13. Patriarcas e Profetas, 16ª edição, pág. 509 (47. Aliança com os Gibeonitas).
14. O Desejado de Todas as Nações, 22ª edição, pág. 130 (13. A Vitória).
15. O Grande Conflito, 41ª edição, pág. 35 (1. Predito o Destino do Mundo).
16. O Grande Conflito, 41ª edição, pág. 589 (36. O Maior Perigo Para o Lar e a Vida).

Livro: Explicação de Textos Difíceis da Bíblia, de Pedro Apolinário

Clique e veja: A Ira de Deus – o que significa isso?“, de Ángel Manuel Rodriguez.

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