Comentário da Lição da Escola Sabatina – Ligado na Videira – Como Ser Salvo, Lição 5 – 3º trimestre – 2014 – 26 de julho a 2 de agosto

Comentário da Lição da Escola Sabatina Ligado na VideiraLição 5. Acabamos de ver o grande interesse do Pai, do Filho e do Espírito Santo em nos criar e, com a nossa queda, nos salvar. A Eles pertencem todas as etapas da salvação: início, meio e fim. É um conjunto completo. Assim, queridos irmãos, apreciemos essa obra. Inclusive, se porventura tivermos dificuldades em “explicar” a pessoa de nosso Deus, olhemos e apreciemos Sua obra – com certeza, através dela “compreenderemos” quem é o nosso Deus.
A salvação tem origem em Seu amor. A Bíblia usa lindas expressões para falar a respeito de tão grande amor: “Sião diz: ‘O SENHOR me desamparou, o Senhor Se esqueceu de mim’. Acaso, pode uma mulher esquecer-se do filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas ainda que esta viesse a se esquecer dele, Eu, todavia, não Me esquecerei de ti. Eis que nas palmas das Minhas mãos te gravei” (Isaías 49:14-16) – “‘Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito’, diz o SENHOR; ‘pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais. Então, Me invocareis, passareis a orar a Mim, e Eu vos ouvirei. Buscar-Me-eis e Me achareis quando Me buscardes de todo o vosso coração. Serei achado de vós’, diz o SENHOR” (Jeremias 29:11-14) – “As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as Suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a Tua fidelidade” (Lamentações 3:22-23) – “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito, para que todo o que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porquanto Deus enviou o Seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por Ele” (João 3:16-17).
Sinceridade, me passou uma vontade de fazer um trocadilho com o tema dessa semana (Como Ser Salvo), falando em “Como NÃO Ser Salvo”. Diante de tanto amor, é um absurdo dispensar tão grande salvação. É um descuido enorme não falar desse amor às pessoas que são amadas pelo Senhor, mas não sabem (os anjos têm vontade de proclamar o evangelho!!!). É uma negligência não ser salvo. O apóstolo Paulo, impressionado com esse tema, inspirado pelo Senhor, disse: “Como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação?” (Hebreus 2:3).
Por outro lado, temos a infeliz mania de criar fórmulas para a salvação (dos outros) e de colocar “peso” na cruz (dos outros). Geralmente focamos o secundário: “faça isso, faça isso e faça isso”. O certo seria: “entregue-se a Cristo, entregue-se a Cristo e entregue-se a Cristo”. E, então, viria a compreensão: “Sem Mim, nada podeis fazer”… e “Tudo posso nAquele que me fortalece”.
Irmãos, tenhamos uma ótima semana, crescendo na graça de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A Ele toda honra, glória e louvor. [[Para ler a Meditação Matinal de hoje, clique aqui]].
Comentário da Lição da Escola Sabatina Ligado na VideiraDomingo. Reconheça Sua Necessidade (27 de julho). A Lição usa esta passagem bíblica: “Passadas estas coisas, saindo, viu um publicano, chamado Levi, assentado na coletoria, e disse-lhe: ‘Segue-Me!’ Ele se levantou e, deixando tudo, O seguiu. Então, Lhe ofereceu Levi um grande banquete em sua casa; e numerosos publicanos e outros estavam com eles à mesa. Os fariseus e seus escribas murmuravam contra os discípulos de Jesus, perguntando: ‘Por que comeis e bebeis com os publicanos e pecadores?’ Respondeu-lhes Jesus: ‘Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. Não vim chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento’” (Lucas 5:27-32).
Interessante. Um judeu devoto jamais falaria com Levi Mateus, pois o considerava um traidor da nação, por tornar-se cobrador de impostos para os romanos. Sequer passava na calçada em frente da casa dele. Com isso, ele também se voltava exclusivamente para seu ofício, gostando cada vez mais do barulho das moedas caindo em sua mesa, e, quem sabe, em seu bolso. Mas Jesus o viu. Olhou para ele. Prestou atenção nele. E o convidou para uma nova vida. Irmãos, o olhar de Jesus mostrou para Mateus quem ele realmente era. Ele se viu através do olhar de Jesus.
Diz a Palavra que é o Espírito Santo quem nos convence do pecado, da justiça e do juízo. Então, Mateus se levantou, deixou tudo, e O seguiu. A salvação bateu em sua porta. Foi-lhe mostrada a sua necessidade. Foi apontada a solução. Veio o chamado. E ele correspondeu favoravelmente. (Recomendamos “Vidas que Falam”, pág. 284 – clique aqui).
Mas a passagem bíblica lida anteriormente também destaca que os fariseus murmuraram. Na verdade, isso me fez lembrar de outro publicano, com outro fariseu. Disse Jesus: “Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar: um, fariseu, e o outro, publicano. O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: ‘Ó Deus, graças Te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho’. O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: ‘Ó Deus, Sê propício a mim, pecador!’” – e o próprio Jesus sentenciou: “Digo-vos que este desceu justificado para sua casa” (Lucas 18:10-14).
Na minha classe eu não vou me preocupar com o fariseu. Não vou gastar tempo com ele. Vou, isso sim, apelar para meus irmãos: “Queridos irmãos, não justifiquemos nossas ações erradas (e nem as certas, se porventura as temos). Não nos desculpemos pelas circunstâncias em que vivemos ou fomos criados. Como ser salvo? Simplesmente reconheçamos que somos pecadores e que existe um Salvador. E assim como estamos, entreguemos nossa vida a Ele, para que Ele complete a Sua obra que em nós iniciou”. [[Para ler a Meditação Matinal de hoje, clique aqui]].
Comentário da Lição da Escola Sabatina Ligado na VideiraSegunda. Arrependimento (28 de julho). Irmãos, “remorso” é uma coisa; “arrependimento”, outra bem diferente. Remorso reconhece o erro e até tem medo das consequências. Arrependimento, além de reconhecimento, e independentemente das consequências, provoca tristeza pela ação; e vontade de mudar de ação; e busca não mais repetir tal ação. Bem, essa é a definição dos dicionários, mas, como isso pode ocorrer no coração de um pecador? Como? Se Cristo disse que “sem Mim nada podeis fazer”, como pode ocorrer arrependimento no coração de um pecador? Como ser salvo?
“Exatamente aqui está o ponto em que muitos erram, sendo por isso privados de receber o auxílio que Cristo lhes desejava conceder. Pensam que não podem chegar a Cristo sem primeiro arrepender-se e que é o arrependimento que os prepara para o perdão de seus pecados” (Caminho a Cristo, capítulo “Mudança de Rumo”).
“É errado pensar que você deve se arrepender antes que possa ir a Jesus. Vá a Cristo justamente como você está e contemple Seu amor até que seu coração duro seja quebrado. ‘Um coração quebrantado e contrito, ó Deus, não desprezarás’. Podemos dizer que, a menos que o pecador se arrependa de seus pecados, ele não pode ser perdoado; mas embora isso seja verdadeiro, que ele não adie sua entrega a Cristo até que se tenha operado nele algum forte sentimento de emoção, até pensar que seu arrependimento é suficientemente profundo para merecer perdão. Que o pecador vá a Cristo assim como está e contemple o amor que tem sido derramado sobre ele, indigno como é. então, compreenderá que o amor de Cristo derruba qualquer barreira, e não volta a trás em seu arrependimento. O pecador dever ir a Cristo para que possa ser habilitado a se arrepender. É a virtude que flui de Jesus que fortalece os propósitos do coração no sentido de abandonar o pecado e se abrir para a verdade. É a virtude de Cristo que torna sincero e genuíno o arrependimento. Aquele a quem Cristo perdoa, primeiramente, Ele o faz penitente. Pedro se referiu à fonte do arrependimento, ao dizer: ‘Jesus, a quem os senhores mataram… Deus O exaltou, colocando-O à Sua direita como Príncipe e Salvador, para dar a Israel arrependimento e perdão de pecados’.
Quando o pecador vê Jesus erguido sobre a cruz, morrendo para que ele não pereça, mas tenha a vida eterna, ele compreende algo da enormidade do pecado. Então, anseia perdão para todas as suas transgressões, bem como o favor de Deus… A pessoa que encontra o Senhor renunciará a toda obra má, cessará de fazer o mal e aprenderá a fazer o bem, porque Cristo nele é formado, a esperança da glória” (Review and Herald, 03/09/1901).
“O arrependimento, assim como o perdão, é dom de Deus por meio de Cristo. É pela influência do Espírito Santo que somos convencidos do pecado e sentimos nossa necessidade de perdão” (Fé e Obras, 347).
“Não nos arrependemos para que Deus nos ame, porém Ele nos revela Seu amor para que nos arrependamos” (Parábolas de Jesus, 189). [[Para ler a Meditação Matinal de hoje, clique aqui]].
Comentário da Lição da Escola Sabatina Ligado na VideiraTerça. Crer em Jesus (29 de julho). Na casa de Simão, o fariseu e ex-leproso, uma mulher molhou os cabelos e os pés de Jesus com lágrimas e unguento. Mais adiante, o Senhor disse assim para ela: “Perdoados são os teus pecados… A tua fé te salvou”.
Como ser salvo? A minha fé me salva? Estava Cristo atribuindo poder de salvação para a fé da pessoa? Eu tenho fé? O que é fé?
A história de Maria, na casa de Simão, nos faz aprender um pouco sobre isso. Como a salvação é assunto de Deus (no início, no meio e no fim), Ele concede dons que operam para este Seu propósito. Podemos não saber colocar os passos na ordem certa, mas há passos, e todos eles estão amarrados entre si. O amor de Cristo constrangeu essa mulher a reconhecer sua real situação, e enxergar nEle sua única solução, e isso lhe provocou tristeza pelo pecado e respectivo arrependimento. Mas notem: o prolongamento e o desenvolvimento de todas essas ações se originaram em Cristo, e não nela. Nesse caso, melhor seria não dizer “ações”, mas “reações”. Reagimos ao amor de Deus. Nós O amamos porque Ele nos amou primeiro.
Como o Espírito Santo estava revelando para Maria que Cristo era o Messias (o Ungido), ela creu em Jesus – ocorre que a Bíblia também chama isso de “fé”. Crer, ou confiar, ou ter fé que Jesus resolveu o meu problema com o pecado é um dom dado por Ele. Não posso ter isso por mim mesmo.
Não sou tradutor da Bíblia (longe de mim tal pretensão), mas estou entendendo assim a frase de Jesus para Maria: “Eu estou perdoando os teus pecados. Portanto. Você está salva. E ainda bem que você, pela obra demonstrada, está revelando que acredita nisso, confia nisso, tem fé que é assim”.
Ora, em nosso caso, trazendo a Lição para nossa realidade, como ser salvo sem crer que estou perdido? Como ser salvo por Cristo sem crer que Ele é o Salvador? Leia “É possível que alguém que nunca ouviu falar de Jesus seja salvo?” (clique aqui).
A Bíblia fala que o filho pródigo, “caindo em si, disse: eu vou voltar para casa; eu tenho um pai”. Pergunto: Quem o fez “cair em si”? Quem o fez desejar voltar para casa? Foi a fome ou foi o amor do pai? Ele estava agindo ou reagindo?
Leia “Tudo vem de Deus”, em “Nos Lugares Celestiais”, pág. 221 (clique aqui). Esse texto explica muito. [[Para ler a Meditação Matinal de hoje, clique aqui]].
Comentário da Lição da Escola Sabatina Ligado na VideiraQuarta. Veste Nupcial (30 de julho). Jesus, como sempre, parte do algo comum para a revelação do extraordinário. Do menor para o maior. Do terreno para o celestial. Do convite para uma festa nupcial judaica para a presença diante do Rei do Universo.
Para hoje, o foco da passagem bíblica é esse: “Entrando, porém, o rei para ver os que estavam à mesa, notou ali um homem que não trazia veste nupcial e perguntou-lhe: ‘Amigo, como entraste aqui sem veste nupcial?’”
O homem sem a veste nupcial representa os professos cristãos que não sentem necessidade de uma transformação no caráter. Esse convidado estava aparentemente interessado apenas no privilégio de comer à mesa do rei. De fato, ele não apreciava o privilégio do convite. A honra do rei e a importância da ocasião nada significavam para ele. Esqueceu-se de que a festa estava sendo dada em honra ao filho rei e, consequentemente, ao próprio rei. Não importava quão bem vestido ele poderia estar, pois havia declinado da única coisa que lhe permitia sentar à mesa real e desfrutar as festividades e as fartas provisões que acompanhavam a celebração das bodas.
Ao ser chamado de amigo, notou o tato daquele que alegremente o convidara, como lhe dizendo que o perdoaria pela desonra, se, ao mesmo tempo, explicasse seus motivos para tal. Havia sido negligência dos servos que o convidaram? Foi displicência sua?
Continua o texto: “E ele emudeceu. Então, ordenou o rei aos serventes: ‘… lançai-o para fora’”. Se fosse inocente, teria falado. Sua mudez, no entanto, indica ter errado intencionalmente. Rejeitou o traje. Não quis usar a veste preparada para todos os convidados. Ele mesmo se desqualificou para as bodas. Excluiu-se como resultado de sua má escolha.
Irmãos, gosto muito de falar sobre a saída de Adão do Jardim do Éden. Às vezes é falado da expulsão como se Deus tivesse pesando Sua mão contra Seu errante filho. Longe disso, irmãos, longe disso. Adão não saiu pelado. O errante não foi expulso trajando roupas de folhas da figueira. Não. Ele saiu usando as vestes preparadas por Cristo. Um cordeiro foi imolado, simbolizando que o Criador Se tornaria Redentor, vindo ao mundo como Homem, mas não para destruir, e sim para salvar. Morreria pela humanidade. E, para que Adão se lembrasse disso constantemente, deveria olhar para a sua roupa, olhar para a pele do cordeiro. Errante sim, mas abençoado e protegido pela justiça de Cristo, o Cordeiro morto desde a fundação do mundo.
Apresentaremos-nos para as bodas do Cordeiro. Que isso seja verdadeiro para cada um de nós. Só que despojados de nossas ideias, opiniões, conceitos, desejos, vontades. Tudo isso está contaminado pelo orgulho, inveja, egoísmo. Que humildemente aceitemos as vestes preparadas por Jesus, lavadas em Seu sangue, oferecidas para todos que ouvirão de Seus lábios: “Vinde, benditos de Meu Pai”. [[Para ler a Meditação Matinal de hoje, clique aqui]].
Comentário da Lição da Escola Sabatina Ligado na VideiraQuinta. Siga Jesus (31 de julho). A Lição 13 do 1º trimestre já nos falou sobre o custo do discipulado. Devo deixar de gostar das coisas que gosto, caso estejam interferindo em minha salvação, e passar a gostar das coisas que Cristo gosta. Mas, tendo alimentado a natureza pecaminosa por tanto tempo, nem sempre é fácil renunciar todas as preferências particulares. É uma luta.
Porém, em nome da salvação, creia que o Senhor está apresentando apenas o que colabora para a vida eterna. É uma disciplina (reeducação) para a vida que se mede pela vida de Deus.
Sendo assim, diante de tudo o que nos é apresentado, sigamos a Jesus. Ele passou por tudo que passamos, e nos deixou vitorioso exemplo. Sigamos a Jesus.
“Como NÃO ser salvo?” – seguindo o mundo. “Como ser salvo?” – seguindo Jesus.
A Lição fala do texto de Lucas 14:26“Se alguém vem a Mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser Meu discípulo”. Sugerimos a leitura de “A Bíblia manda odiar o pai e a mãe em nome de Jesus?” (clique aqui). [[Para ler a Meditação Matinal de hoje, clique aqui]].
Comentário da Lição da Escola Sabatina Ligado na VideiraSexta. Conclusão (1º de agosto). “É certo que o arrependimento precede o perdão dos pecados, pois unicamente o coração quebrantado e contrito é que sente a necessidade de um Salvador. Mas terá o pecador de esperar até que se tenha arrependido, antes de poder chegar-se a Jesus? Deve fazer-se do arrependimento um obstáculo entre o pecador e o Salvador?
A Bíblia não ensina que o pecador tenha de arrepender-se antes de poder aceitar o convite de Cristo: ‘Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei’ (Mateus 11:28). É a virtude que emana de Cristo, que conduz ao genuíno arrependimento. Pedro elucidou este ponto em sua declaração aos israelitas, dizendo: ‘Deus, com a Sua destra, O elevou a Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e remissão dos pecados’ (Atos 5:31). Assim como não podemos alcançar perdão sem Cristo, também não podemos arrepender-nos sem que o Espírito de Cristo nos desperte a consciência.
Cristo é a fonte de todo bom impulso. Ele, unicamente, é capaz de implantar no coração a inimizade contra o pecado. Todo desejo de verdade e pureza, toda convicção de nossa própria pecaminosidade, é uma evidência de que Seu Espírito está operando em nosso coração.
Jesus disse: ‘Eu, quando for levantado da Terra, todos atrairei a Mim’ (João 12:32). Cristo tem de revelar-Se ao pecador como o Salvador morto pelos pecados do mundo; e, ao contemplarmos o Cordeiro de Deus sobre a cruz do Calvário, começa a desdobrar-se ao nosso espírito o mistério da redenção, e a bondade de Deus nos leva ao arrependimento (Romanos 2:4)” (Caminho a Cristo, capítulo “Mudança de Rumo”). [[Para ler a Meditação Matinal de hoje, clique aqui]].

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Comentário da Lição da Escola Sabatina – Ligado na Videira – Salvação, 19 a 26 de julho de 2014 (Lição 4 – 3º trimestre)

Comentário da Lição da Escola Sabatina Ligado na VideiraLição 4. Fico imaginando o nosso Senhor Jesus explicando as Sagradas Escrituras para Seus ouvintes. Uma pregação na montanha; ou, quem sabe, na sinagoga; ou na beira da praia. Talvez numa conversa com um grupo menor; ou mesmo com uma só pessoa – como foi o caso de Nicodemos. Para este homem, Jesus falou o que hoje conhecemos como o verso mais famoso da Bíblia: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito, para que todo o que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. E arrematou: “Porquanto Deus enviou o Seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por Ele” (João 3:16-17).
Convenhamos, essa conversa foi esplêndida. Rica em significado. É o âmago do Plano da Salvação. O mundo está a perecer, mas o Pai, porque ama, dá Seu Filho para redimir o homem caído. Que privilégio de Nicodemos. Ouviu dos lábios do Salvador.
Noutra ocasião, Jesus explicou este mesmo Plano para duas pessoas. Foi na estrada, de Jerusalém para Emaús. “E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a Seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lucas 24:27). Que privilégio, também, desses dois homens. Ouviram as explicações sobre o desenvolvimento do Plano da Redenção, até que chegasse o momento da “consumação”, ocorrida três dias antes.
Irmãos, esta semana nós é quem desfrutaremos dessas bênçãos. Conversaremos um pouco sobre a nossa salvação. Não estaremos com Cristo de forma física, é verdade, mas teremos o consolo através da doce presença do Senhor Espírito Santo, e de Seus anjos ministradores. A Bíblia será aberta, e isso, com certeza, é um privilégio. [[Para ler a Meditação Matinal de hoje, clique aqui]].
Comentário da Lição da Escola Sabatina Ligado na VideiraDomingo. A Salvação é Dom de Deus (20 de julho). Veja esse texto magnífico do Espírito de Profecia, e note que a salvação realmente é um dom/uma dádiva/um presente de Deus: “O Céu encheu-se de tristeza quando se compreendeu que o homem estava perdido, e que o mundo que Deus criara deveria encher-se de mortais condenados à miséria, enfermidade e morte, e não haveria um meio de livramento para o transgressor. A família inteira de Adão deveria morrer. Vi o adorável Jesus, e contemplei uma expressão de simpatia e tristeza em Seu rosto. Logo eu O vi aproximar-Se da luz extraordinariamente brilhante que cercava o Pai. Disse meu anjo assistente: Ele está em conversa íntima com o Pai. A ansiedade dos anjos parecia ser intensa enquanto Jesus Se comunicava com Seu Pai. Três vezes foi encerrado pela luz gloriosa que havia em redor do Pai; e na terceira vez Ele veio de Seu Pai, e podia-se ver a Sua pessoa. Seu semblante estava calmo, livre de toda a perplexidade e inquietação, e resplandecia de benevolência e amabilidade, tais como não podem exprimir as palavras.
Fez então saber à hoste angélica que um meio de livramento fora estabelecido para o homem perdido. Dissera-lhes que estivera a pleitear com Seu Pai, e oferecera-Se para dar Sua vida como resgate, e tomar sobre Si a sentença de morte, a fim de que por meio dEle o homem pudesse encontrar perdão; que pelos méritos de Seu sangue, e obediência à lei divina, ele poderia ter o favor de Deus, e ser trazido para o belo jardim e comer do fruto da árvore da vida.
A princípio os anjos não puderam regozijar-se, pois seu Comandante nada escondeu deles, mas desvendou-lhes o Plano da Salvação. Jesus lhes disse que ficaria entre a ira de Seu Pai e o homem culpado, que Ele arrostaria a iniquidade e o escárnio, e que poucos apenas O receberiam como o Filho de Deus. Quase todos O odiariam e rejeitariam. Ele deixaria toda a Sua glória no Céu, apareceria na Terra como um homem, humilhar-Se-ia como um homem, familiarizar-Se-ia pela Sua própria experiência com as várias tentações com que o homem seria assediado, a fim de que pudesse saber como socorrer os que fossem tentados; e que, finalmente, depois que Sua missão como ensinador se cumprisse, seria entregue nas mãos dos homens, e suportaria quantas crueldades e sofrimentos Satanás e seus anjos pudessem inspirar ímpios homens a infligir; que Ele morreria a mais cruel das mortes, suspenso entre o Céu e a Terra, como um pecador criminoso; que sofreria terríveis horas de agonia, com que o sofrimento físico de nenhuma maneira se poderia comparar. O peso dos pecados do mundo inteiro estaria sobre Ele. Disse-lhes que morreria, e ressuscitaria no terceiro dia, e ascenderia a Seu Pai para interceder pelo homem transviado e culposo” (História da Redenção, capítulo 5 – O Plano da Salvação). (Sugerimos a leitura de “Cristo, o segundo Adão” – clique aqui) [[Para ler a Meditação Matinal de hoje, clique aqui]].
Comentário da Lição da Escola Sabatina Ligado na VideiraSegunda. Salvação: Iniciativa de Deus (21 de julho). No texto a seguir, vejamos a surpresa de Adão ao tomar conhecimento sobre a iniciativa de Deus, que, por ser Amor, não nos abandonaria nas mãos do inimigo. “Todo o Céu pranteou como resultado da desobediência e queda de Adão e Eva, a qual trouxe a ira de Deus sobre a raça humana. Foram cortados da comunicação com Deus e precipitados em desesperadora miséria. A lei de Deus não podia ser mudada para atender as necessidades humanas, pois no planejamento divino ela jamais iria perder a sua força nem dispensar a mínima parte de seus reclamos.
Os anjos de Deus foram comissionados a visitar o decaído par e informá-los de que embora não pudessem mais reter a posse de seu estado santo, seu lar edênico, por causa da transgressão da lei de Deus, seu caso não era, contudo, sem esperança. Foram então informados de que o Filho de Deus, que conversara com eles no Éden, fora tocado de piedade ao contemplar sua desesperada condição, e voluntariamente tomara sobre Si a punição devida a eles, e morreria para que o homem pudesse viver, mediante a fé na expiação que Cristo propôs fazer por ele. Mediante Cristo a porta da esperança estava aberta, para que o homem, não obstante seu grande pecado, não ficasse sob o absoluto controle de Satanás. A fé nos méritos do Filho de Deus elevaria o homem de tal maneira que ele poderia resistir aos enganos de Satanás. Um período de graça ser-lhe-ia concedido pelo qual, mediante uma vida de arrependimento e fé na expiação do Filho de Deus, ele pudesse ser redimido de sua transgressão da lei do Pai, e assim ser elevado a uma posição em que seus esforços para guardar Sua lei fossem aceitos.
Os anjos relataram-lhes a tristeza que sentiram no Céu, quando foi anunciado que eles tinham transgredido a lei de Deus, o que tornou necessário que Cristo fizesse o grande sacrifício de Sua própria preciosa vida.
Quando Adão e Eva compreenderam quão exaltada e sagrada era a lei de Deus, cuja transgressão fez necessário um dispendioso sacrifício para salvá-los e a sua posteridade da ruína total, pleitearam sua própria morte, ou que eles e sua posteridade fossem deixados a sofrer a punição de sua transgressão, de preferência a que o amado Filho de Deus fizesse este grande sacrifício. A angústia de Adão aumentou. Viu que seus pecados eram de tão grande magnitude que envolviam terríveis consequências. Seria possível que o honrado Comandante celestial, que tinha andado com ele e com ele conversado quando de sua santa inocência, a quem os anjos honravam e adoravam, seria possível que Ele tivesse de Se rebaixar de Sua exaltada posição para morrer por causa da transgressão dele?
Adão foi informado de que a vida de um anjo não podia pagar o seu débito. A lei de Jeová, o fundamento de Seu governo no Céu e na Terra, era tão sagrada como Ele próprio; e por esta razão a vida de um anjo não podia ser aceita por Deus como sacrifício por sua transgressão. Sua lei é mais importante a Seus olhos, do que os santos anjos ao redor de Seu trono. O Pai não podia abolir nem mudar um preceito de Sua lei para socorrer o homem em sua condição perdida. Mas, o Filho de Deus, que em associação com o Pai criara o homem, podia fazer pelo homem uma expiação aceitável a Deus, dando Sua vida em sacrifício e arrostando a ira de Seu Pai. Os anjos informaram a Adão que, como sua transgressão tinha produzido morte e infelicidade, vida e imortalidade seriam produzidas mediante o sacrifício de Jesus Cristo” (História da Redenção, capítulo 5 – O Plano da Salvação). [[Para ler a Meditação Matinal de hoje, clique aqui]].
Comentário da Lição da Escola Sabatina Ligado na VideiraTerça. Morte Exigida (22 de julho). Bem, como estamos vendo, a salvação é originada no amor de Deus, sendo uma dádiva Sua aos seres humanos, total e completamente por Sua iniciativa. Nada tínhamos a pleitear. Nada, nada, nada.
Porém, é preciso que seja destacada a “perfeita justiça de Deus”. Sim, Ele pôs em execução o Plano da Salvação, mas isso não poderia ser feito alterando ou esquecendo Sua sagrada e imutável Lei. E, nesse sentido, a Lei era bastante clara: a pessoa que pecasse, essa certamente morreria, porque o salário do pecado é a morte.
Fico assombrado com o Plano Divino para nossa salvação. Aliás, todo o Universo ficou assombrado. Todos os seres criados se assombraram. O homem morreria, mas em Cristo Jesus – ou seja, o Criador Se tornaria um ser humano, e, como homem, viveria entre nós, chegando à cruz, e lá cumprindo a exigência da Lei: a humanidade morrendo.
Interessante, não é verdade?! Salvar e, contudo e ao mesmo tempo, honrar a santidade e imutabilidade da Lei. Salvar sem mudar um til, um jota ou um i da Lei. O amor satisfazendo a justiça. Que extraordinário!
Lembre-se: nossa vida é derivada de Deus. Não temos vida própria. Ele nos concedeu vida. No caso de Jesus, note bem, Ele é a vida. A vida é Ele. Sendo assim, Ele Se deu por mim e por você. Ele Se deu para que “a ira de Deus” não recaísse sobre nós, mas sobre Ele mesmo.
“… deu o Seu Filho unigênito” – “Dou a minha vida para tornar a tomá-la” – “Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito (pneuma/vida)”. Seu sangue. Sua vida.
Por outro lado, algo para refletir: pelo valor do presente, que valor tem aquele que o recebe? O quanto você vale para o Salvador? O quanto você vale para o Pai celestial? [[Para ler a Meditação Matinal de hoje, clique aqui]].
Comentário da Lição da Escola Sabatina Ligado na VideiraQuarta. Livres do Pecado (23 de julho). Se você for usar o púlpito, não pese sua mão contra o pecador. Se for dar um estudo bíblico, não seja severo. Se for coordenar a Lição em classe, não liste os pecados da igreja. O uso desses argumentos serve de instrumento do inimigo.
Não se tira a culpa do pecador falando de seu pecado. Isso só pode ser feito quando Cristo Jesus é apresentado. A diferença para nossa vida está em olhar para a cruz. É na cruz que está a solução.
Disse Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo: ‘todo o que comete pecado é escravo do pecado… Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres’” (João 8:34 e 36).
Irmãos, que nunca fique qualquer dúvida quanto a isso. Só Jesus para nos libertar. Nada. Nenhum argumento. Absolutamente nada pode nos libertar. Só Jesus. Apenas Jesus. E, assim, apresentemos Jesus para toda e qualquer pessoa, seja qual for o pecado. [[Para ler a Meditação Matinal de hoje, clique aqui]].
Comentário da Lição da Escola Sabatina Ligado na VideiraQuinta. Cristo Oferece Vida Eterna (24 de julho). Quando Pedro se debatia na água, fez o pedido que Jesus mais Se agrada de ouvir: “Senhor, salva-me”. O Salvador, por Sua vez, não gastou Seu tempo censurando o impetuoso discípulo; não lhe apresentou sua longa lista de pecados; e sequer lhe pregou todo o grande conflito entre Satanás e Ele, ou o desenrolar de Seu Plano para a redenção da humanidade caída. Não. Simplesmente estendeu a mão em direção ao frágil amigo, e o segurou, e o tirou daquela terrível situação.
Creio que há milhares de lições a serem tiradas dessa história. Uma mais linda que a outra. Mas, por hoje, eu vou tirar apenas uma: Jesus estava ali para salvar, e salvou. É verdade que o mar continuou agitado enquanto se dirigiam até o barco; é provável que continuasse assim até que desembarcaram em terra firme. Mas Jesus estava ali.
Depois desse episódio, a Bíblia relata outras quedas de Pedro. Não há necessidade de citar nenhuma delas aqui. Tudo isso é secundário. O importante é: todas as vezes que Pedro disse “Senhor, salva-me”, o Senhor prontamente lhe estendeu a mão, e o salvou.
Irmãos, um dia o nosso Senhor virá segunda vez. Nesse dia cessarão todas as revoltas ondas da experiência humana. No entanto, a Lição deseja que você entenda o seguinte: a vida eterna não começa lá, no glorioso Dia, mas agora – porque agora você já desfruta da presença de Jesus, o Eterno, Aquele que disse ser a Vida.
Será proveitoso passar os próximos dias de nossa vida sabendo que, por termos sido alcançados pela “salvação”, já estamos desfrutando os primeiros dias da vida em abundância, a vida eterna.
“Quem tem o Filho tem a vida”. [[Para ler a Meditação Matinal de hoje, clique aqui]].
Comentário da Lição da Escola Sabatina Ligado na VideiraSexta. Conclusão (25 de julho). “A parábola da ovelha perdida deve ser entesourada em cada coração. O divino Pastor deixa as noventa e nove ovelhas e sai pelo deserto, em busca da que está perdida. Há matagal, espinhos, despenhadeiros e perigosos vales entre as rochas, mas o pastor sabe que, se ovelha estiver em algum desses lugares, sua mão ajudadora será estendida a ela. Ao ouvir, de longe, o frágil balido, ele supera qualquer dificuldade a fim de salvar a ovelha perdida. Ao encontrá-la, não a recolhe com reprovações. Apenas sente grande alegria, por havê-la encontrado com vida. Com firmes, porém carinhosas mãos, ele afasta o matagal e ternamente a ergue em Seus ombros, levando-a de volta ao redil. O puro, imaculado Redentor carrega o pecador impuro.
O Pastor carrega a suja ovelha, mas tão preciosa é Sua carga que Ele Se regozija, dizendo: ‘Encontrei Minha ovelha perdida!’ Que cada um de nós considere que, individualmente, tem sido carregado nos ombros de Cristo. Que nenhum de nós alimente espírito perfeccionista, crítico ou de autojustificação, pois nenhuma ovelha entraria no redil se o Pastor não tivesse empreendido dolorosa busca pelo deserto. O fato de que uma ovelha esteja perdida é suficiente para despertar a simpatia do Pastor, e levá-Lo a agir.
Este mundo manchado foi cenário da encarnação e do sofrimento do Filho de Deus. Cristo não teve que salvar mundos não caídos, mas veio a este mundo marcado pela maldição. A perspectiva não era favorável, mas muito desencorajadora. Entretanto, Aquele que não fracassa nem Se permite desencorajar veio à Terra. Devemos ter em mente a grande alegria manifestada pelo Pastor ao resgatar a ovelha: ‘Alegrem-se comigo, pois encontrei Minha ovelha perdida!’, diz Ele, com exultação. E todo o Céu ecoa essa nota de alegria. Que santo êxtase é revelado nesta parábola! É nosso privilégio partilhar dessa alegria!” (Review and Herald, 19/01/1911).
“É dever de toda pessoa inteligente examinar as Escrituras. Cada um deve conhecer por si mesmo as condições sobre as quais é proporcionada a salvação” (Signs of the Times, 20/08/1894). [[Para ler a Meditação Matinal de hoje, clique aqui]].

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A IRA DE DEUS: ESTUDO BÍBLICO TEOLÓGICO E PROPOSTA HOMILÉTICA Emilson dos Reis – Tese de Doutorado em Teologia Pastoral – Ligado na Videira

SUMÁRIO (conforme paginação original)
INTRODUÇÃO 1
Definição do Problema 2
Propósito do Estudo 4
Escopo e Delimitações do Estudo 4
Revisão de Literatura 5
Metodologia 30
Organização do Estudo 30
I. O SIGNIFICADO DA IRA DE DEUS 32
Discussão Linguística 32
O Uso de Antropomorfismo e Antropopatia 32
Os Termos Hebraicos para Ira 33
’Ânaph, ’aph 34
Chêmâh 37
Chârâh, chârôn 39
Kâ‘as, ka‘as 41
Qâtsaph, qêtseph 43
Bâ‘ar, ‘ebhrah    45
Râgaz, rôgez 47
Zâ‘am, za‘am 49
Zâ‘aph, za‘aph, za‘eph e zal‘âphâh 51
Rûach 52
Os Termos Gregos para Ira 53
Thumos 53
Orgē 55
A Ira de Deus em Relação a Seus Outros Atributos Morais 58
A Ira de Deus em Relação a Sua Santidade 58
A Ira de Deus em Relação a Sua Justiça 63
A Ira de Deus em Relação ao Seu Amor 69
A bondade de Deus 76
A misericórdia de Deus 80
A graça de Deus 83
A longanimidade de Deus 88
A Ira de Deus comparada à Ira do Homem e à Ira dos Deuses 91
A Ira do Homem 92
Aspectos negativos e positivos 92
Comparação com a ira de Deus 93
A Ira dos Deuses 95
No Oriente Médio 95
No Mundo Grego 99
No Mundo Romano 101
Resumo e Conclusões    103
II. A REALIDADE DA IRA DE DEUS 107
A Ira de Deus no Antigo Testamento    107
As Causas da Ira de Deus 108
A quebra da aliança 108
A desumanidade 112
Os Efeitos da Ira de Deus 116
O Tempo da Ira de Deus 118
A Ira de Deus no Novo Testamento 119
A Causa da Ira de Deus 120
Os Efeitos da Ira de Deus 122
A natureza de filhos da ira 123
A atitude divina de entregar 123
A punição 127
O Tempo da Ira de Deus 129
Tempo histórico 130
Tempo escatológico 133
A Ira de Deus nos Escritos de Ellen White 140
Os Propósitos da Ira de Deus 143
Tipos da Ira de Deus 144
Falsas Ideias sobre a Ira de Deus 145
Instrumentos da Ira de Deus 146
Os anjos 147
Os anjos da luz 147
Os anjos das trevas 149
Os homens 151
Um indivíduo como executor da ira de Deus    152
Grupos de indivíduos como executores da ira de Deus 152
Israel como executor da ira de Deus 153
Nações pagãs como executoras da ira de Deus 155
A natureza 156
Elementos da natureza 156
Animais 158
Doenças e pestilências 159
Acidentes 163
Resumo e Conclusões    163
III. CRISTO E A IRA DE DEUS 167
Perspectiva Bíblica e Teológica 167
Cristo – O Detentor da Ira de Deus 167
Cristo – O Alvo da Ira de Deus 169
Cristo – O Libertador da Ira de Deus    171
A obra expiatória de Cristo 172
A necessidade de expiação 172
O significado da expiação 177
A origem da expiação    179
Objeções à realidade da expiação 179
Teorias da expiação 182
O alcance da expiação    187
A relevância da expiação 188
A obra propiciatória de Cristo    189
Teorias da propiciação 190
A justiça de Deus revelada através da propiciação 197
A obra sacerdotal de Cristo 200
Cristo – O Executor da Ira de Deus 204
A ira do Cordeiro 204
A ira do Rei Guerreiro 206
A ira do Senhor 214
Perspectiva de Ellen White 215
Cristo – O Fiador Diante da Ira de Deus 215
Cristo – O Alvo da Ira de Deus 217
Cristo – O Libertador da Ira de Deus    218
A obra de Cristo na cruz: o sacrifício    218
A obra de Cristo no santuário celestial: a intercessão 223
A obra de Cristo no homem: a aceitação 225
Cristo – O Executor da Ira de Deus 226
O derramamento das sete pragas e o segundo advento 227
O milênio 228
O julgamento diante do grande trono branco    228
O castigo final     229
Resumo e Conclusões    231
IV. A PREGAÇÃO DA IRA DE DEUS 236
Esboço 1 – Atributos Divinos que são uma Reação ao Pecado 238
Esboço 2 – A Ira de Deus em Relação a Seus Outros Atributos Morais 246
Esboço 3 – A Ira de Deus Comparada com a Ira dos Homens e a Ira dos Deuses 257
Esboço 4 – Causas da Ira de Deus 263
Esboço 5 – O Abandono do Homem é uma Forma da Ira de Deus 270
Esboço 6 – Instrumentos da Ira de Deus 274
Esboço 7 – O Tempo da Ira de Deus 282
Esboço 8 – Cristo, o Fiador e Alvo da Ira de Deus 287
Esboço 9 – O Livramento da Ira de Deus: A Obra Expiatória de Cristo 292
Esboço 10 – O Livramento da Ira de Deus: A Obra Propiciatória de Cristo 302
Esboço 11 – Cristo, o Executor da Ira de Deus 308
RESUMO, CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES 317
Resumo 317
Conclusões 318
Recomendações 326
ANEXOS 327
Anexo A: Resultados da Rejeição da Graça 328
Anexo B: Hilastērion    330
BIBLIOGRAFIA 334

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A Ira de Deus – Emilson dos Reis – CAPÍTULO 1 – O SIGNIFICADO DA IRA DE DEUS – Ligado na Videira

O SIGNIFICADO DA IRA DE DEUS
O tema da ira divina deve ser compreendido a partir do estudo das palavras empregadas pelos escritores bíblicos e do uso que fizeram da antropopatia e de expressões antropomórficas. Também é necessário um exame de outros atributos morais de Deus que estão diretamente relacionados, a fim de se perceber como eles se harmonizam na personalidade divina. Além disso, porque a expressão “ira de Deus” quase sempre nos leva a pensar nos aspectos negativos da ira humana e da ira dos deuses, conforme aparece na mitologia pagã, também é imprescindível que se efetue tal comparação com a necessária profundidade.
Discussão Linguística
Para que a revelação aconteça, Deus precisa usar palavras humanas em acomodação às exigências do pensamento humano, e ele faz isso empregando antropomorfismo e antropopatia.
O Uso de Antropomorfismo e Antropopatia
O antropomorfismo é um modo de expressão do pensamento em que as características de Deus são afirmadas em termos de elementos humanos, e frequentemente se referem ao corpo humano e as suas várias propriedades. (1) O uso destes antropomorfismos não significa que Deus tenha os membros mencionados, mas que ele é capaz de fazer aquelas coisas que o corpo humano faz (Salmos 94:9). (2)
A antropopatia, por sua vez, consiste na atribuição de sentimentos humanos à divindade. (3) Deste modo, a atribuição da ira a Deus constitui uma antropopatia e representa uma parte essencial da concepção bíblica de Deus enquanto ser dotado de forte personalidade. Deve ser entendida no contexto de suas motivações e dos outros traços pessoais a ele atribuídos (4) e não significa, necessariamente, com precisão, o mesmo que quando aplicada ao homem. A natureza do sentimento precisa ser julgada pelo caráter da pessoa.
Os Termos Hebraicos para Ira
No AT são empregadas basicamente dez palavras hebraicas para indicar a presença da ira de Deus – sendo que em sua maior parte, os verbos são cognatos com os respectivos substantivos. Elas advêm de diversas formações e possuem uma grande variedade de nuances. Apesar disso nem uma delas foi utilizada para enunciar um significado teológico especial. O uso múltiplo destas palavras dentro de um mesmo verso ou perícope demonstra que elas possuem significado paralelo. (5) Estas dez palavras aparecem 714 vezes no AT para referir-se explicitamente à ira, sendo que cerca de 70% (518 vezes) se referem à ira de Deus e o restante (196 vezes), à ira humana. (6) Na sequência, elas são apresentadas de acordo com sua frequência, seguindo uma ordem decrescente.
’Ânaph, ’Aph
O verbo ’ânaph tem o significado de “irritar-se, indignar-se, encolerizar-se, enfurecer-se; estar irado”. (7) Claramente se percebe que possui uma associação com “resfolegar”, “bufar”. (8) O substantivo ’aph (II) significa “nariz, olfato, ira”, (9) e também rosto e narinas. (10) “Do sentido físico passa a designar ira, cólera, aborrecimento, coragem, raiva, fúria, irritação, indignação, despeito, sanha”. (11)
’Ânaph é a palavra mais frequente no AT para expressar a ideia de ira. O verbo ocorre 14 vezes, sempre tendo a Deus como sujeito (exceto em Salmos 2:12, onde o sujeito é o rei como filho de Deus). (12) Primeiro designa o nariz (Provérbios 11:22), logo seu tremor e seu ressoar (Gênesis 30:2; Êxodo 4:14), e, a partir daí, a causa deles, a ira (Jó 4:9). (13) Seu principal uso diz respeito ao aspecto emocional da ira porque, devido às alterações na respiração que esta provoca em quem a possui, o nariz fica dilatado. (14)
O substantivo ’aph é derivado do verbo e é a mais comum designação para ira encontrada no AT. Das 277 ocorrências, 224 se referem à ira e as 53 restantes, ao nariz, narinas e rosto. (15) O substantivo pode ser encontrado no singular, ’aph, ou na forma dual ’apphayim, sendo que ambos podem transmitir a ideia de ira, tanto a humana (40 vezes) quanto a divina (170 vezes). (16) Em duas passagens (Jó 4:9 e Salmos 18:15) as duas formas são sobrepostas e em ambos os contextos é evidente que a respiração das narinas do Senhor é uma expressão de sua ira. (17)
No AT existe uma clara relação entre a ira e o fôlego (Êxodo 15:8; Salmos 18:16: Jó 4:9), (18) e o nariz é mencionado mais como órgão da ira do que do cheiro. (19) Por isso, o nariz é considerado como o assento da ira (Ezequiel 38;18; Salmos 18:8). (20) Algumas passagens trazem a ideia da respiração agitada pela ira, (21) de um intenso estado emocional, em que as paixões se elevam e o rosto fica corado. Quando a forma substantivada é empregada para os homens, pode indicar uma ira irracional e descontrolada (Números 22:27; 1Samuel 20:30), todavia, geralmente refere-se à ira de Deus, que, é tanto racional como controlada. (22)
Este grupo de palavras é usado particularmente para expressar a atitude de ira que Deus tem para com o povo do concerto quando eles pecam (Deuteronômio 1:37; 9:8, 20), (23) e significa que seu amor, que foi ferido ou ofendido, tem como resposta emocional a ira (Deuteronômio 13:12-17), (24) que se expressa em punições (Salmos 6:1; Isaías 12:1) e castigos (2Samuel 6:7; Jeremias 4:6).
De fato, ’aph pode ser empregado num contexto forense referindo-se ao dia da sentença condenatória (Isaías 13:13; Sofonias 2:2; Lamentações 2:22), à revogação da condenação (Deuteronômio 13:17-18; Números 25:4), ao instrumento de execução (Isaías 10:5), à correção, não condenação (Jeremias 10:24), ou à justiça vindicativa (Miqueias 5:15). (25) Há ocasiões em que é possível desviar a ira de Deus (2Crônicas 29:10) e outras em que ela não pode ser posta de lado (Jeremias 23:20).
No episódio do bezerro de ouro (Êxodo 32), por exemplo, aparece cinco vezes o substantivo ’aph para retratar o quanto Deus estava furioso com seu povo, a tal ponto de intentar aniquilá-los. Entretanto, Moisés pleiteou para que Deus tornasse de sua fúria e manifestasse compaixão. Outro aspecto da ira de Deus é revelado nos livros poéticos: ela dura apenas um momento (Salmos 30:5 ou 6) e é frequentemente restringida (Salmos 78:38), porque o Senhor é compassivo, gracioso, tardio para se irar e abundante em seu amor e fidelidade (Salmos 86:15; 103:8; 145:8). (26)
Chêmâh
O substantivo chêmâh tem os significados de “ira, cólera, arrebatamento, fúria, furor, iracúndia, irritação, indignação, raiva, sanha, vesânia, coragem; veneno, peçonha, tóxico”, (27) calor e desprazer intenso. (28) Chêmâh é a segunda palavra mais usada para “ira” no AT. (29) Ocorre 125 vezes, (30) sendo que 90 vezes se referem à ira de Deus. (31)
Por ser derivada de yâcham, (32) “estar quente”, tem uma conotação incendiária (33) e pode transmitir a ideia tanto de um calor físico como a febre, quanto de um ardor emocional em diversos níveis, sendo empregada para a raiva e a ira, tanto do homem como de Deus (Gênesis 27:44; Provérbios 21:14). (34) Quando usada no sentido de ira, ressalta sua “manifestação de calor, ardor, afogueamento”. (35) Seguidamente se refere à ira de Deus como “fogo” (Salmos 89:46; Jeremias 4:4; 21:12; Lamentações 2:4; Naum 1:6), ou como “sendo acesa” (2Reis 22:13, 17), mas também pode ser usada com o significado de derramar-se como água (Oseias 5:10) e com ambas estas imagens (Isaías 42: 25; Jeremias 7:20; 44:6). (36)
Além de ser empregada como um referência ao “excitamento” do espírito (Ezequiel 3:14), (37) pode ser usada também em relação à “quentura” do vinho (Habacuque 2:15; Jó 36:16-18; Oseias 7:5), ao “veneno” de serpentes (Deuteronômio 32:24; Jó 6:4; Salmos 58:4; 140:3) e às flechas envenenadas (Jó 6:4) – pois se presume que o “calor” corporal seja produzido pela ira, pelo veneno ou pelo vinho. (38) Ainda é empregada como sinônimo de “repreensão” (Isaías 51:20 e 66:15) e aparece em expressões que se referem a algum “castigo” (Ezequiel 5:15 e Salmos 6:1 e 38:1). (39)
Seu uso primário no AT é para referir-se à ira de Deus, indicando seu ardor ou furor (Números 25:11; Deuteronômio 9:19; Ezequiel 36:6; Naum 1:2, 6) que, pelo menos em certas circunstâncias, se extinguiria somente depois que fosse derramado por meio de um juízo (2Reis 22:13-17; Jeremias 42:18). (40) Pode ter o aspecto judicial de condenação (Deuteronômio 9:9; 2Reis 22:13; Isaías 63:3; Jeremias 32:37). (41)
No período pré-exílico é voltada principalmente contra o povo de Deus (2Reis 22:13; Salmos 89:46; Jeremias 4:4). (42) Sua maior frequência aparece em Ezequiel (33 vezes) e Jeremias (17 vezes), que atuaram na época em que findavam os dias de Judá como nação e iniciavam os anos do cativeiro babilônico, justamente quando a paciência de Deus com seu povo chegou ao limite. Um exame dos escritos desses homens demonstra que chêmâh tem a conotação de uma emoção mais forte do que aquela expressa por ’ap (quando ’ap é usada sem modificadores), uma emoção tão intensa que resulta em julgamento (Jeremias 4:4; 21:12; 23:19; 30:23; Ezequiel 5:5-13). (43) Nos períodos exílico e pós-exílico a ira divina é direcionada especialmente contra as nações estrangeiras (Isaías 34:2; Ezequiel 25:11, 17; Miqueias 5:15), mas também contra pecadores individuais de Israel. (44)
Chârâh, chârôn
A raiz verbal chrh transmite a ideia de queimar, arder, estar inflamado ou aceso (de ira); estar irado com. (45) É a segunda raiz mais comum empregada para denotar ira: 139 vezes. (46) O verbo chârâh – que aparece 93 vezes no AT (47) – provindo da experiência fisiológica do calor facial, que é um sintoma da ira, é empregado sempre para significar ira, (48) sendo que na maioria das ocorrências a referência é à ira de Deus. (49)
Chârâh transmite a ideia de “irar-se, encolerizar-se, indignar-se, enojar-se, enraivecer-se, enfadar-se, incomodar-se (Gênesis 4:5; Números 16:15; Números 3:33). (50) O sentido da raiz difere de outros termos que designam “ira” porque enfatiza o “acender” a ira, como se acende um fogo, ou o “insuflar” a ira quando ela já se encontra presente (Gênesis 31:36; 39:19; Números 11:1). (51)
O substantivo chârôn significa incêndio, (52) e é empregado 41 vezes, sempre com relação à ira de Deus. (53) Quando é usado com ’aph, e isto ocorre 35 vezes, a referência é ao ímpeto ou ardor da ira divina. Outro substantivo, chôrî, que tem o mesmo sentido de chârôn, é usado apenas seis vezes, sendo duas para Deus. (54)
Quando empregados em relação a Deus, tanto o verbo como o substantivo sempre expressam a noção de uma ira legítima, como a de um suserano contra um vassalo desobediente. Em quase todos os casos, o objeto dessa ira é Israel e ela é acesa por causa de sua infidelidade ao constante amor de Deus: a desobediência às estipulações da aliança (ver Josué 7:1; 23:16; Juízes 2:20), ou a procura por outros deuses (Deuteronômio 6:14-15; 11:16-17; 31:16-17), ou a transgressão dos mandamentos (Isaías 5:24-25; Oseias 8:5). (55)
Também é digno de nota que nos livros proféticos a ira de Deus parece maior do que nos dias de Moisés, o que pode ser visto, por exemplo, em Jeremias 4. Isso ocorre porque essa ira aumenta à medida que Israel persevera em sua apostasia. Em razão disso, o substantivo chârôn é mais empregado nos últimos livros do AT. (56)
Kâ‘as, ka‘as
O verbo kâ‘as tem o sentido de “irritar-se, enfadar-se, enfurecer-se, desgostar-se”; provocar; enfadar, desgostar, indignar, enfastiar, importunar; incitar, impacientar, encolerizar, fazer perder a calma. (57) Denota uma ação interna, que, geralmente, não tem um objeto. Transmite a ideia de irritar ou provocar alguém de maneira que ele não se contenha e reaja. (58)
O AT o emprega 54 vezes, sendo 43 vezes para Deus e 11 vezes para os homens. (59) As outras palavras para ira raramente se conectam com ka‘as. Algumas vezes aparece como uma ideia paralela de “ter ciúmes, ter zelos” (Deuteronômio 32:16, 21; Salmos 78:58-59). (60)
O substantivo ka‘as significa “raiva, despeito, irritabilidade, ira, cólera; desgosto, irritação, sofrimento, aflição; provocação”. (61) É empregado 23 vezes, (62) sendo que oito delas para referir-se à divina “irritação” (1Reis 15:30; 21:22; Jó 10:17). (63) É o mais introspectivo dos termos para ira. (64) Na maioria dos casos designa o sentimento que vem como resultado de um tratamento injusto e, assim, deve ser traduzida preferencialmente por “desgosto” ou “mágoa” antes que por “ira” (Jó 17:7; Salmos 6:7; 31:9-10; Eclesiastes 7:3). (65) Em alguns casos excepcionais, quando usado no sentido de “irar-se”, é dirigida contra os homens (Jó 10:17; 2Crônicas 16:10; Salmos 85:5). (66)
Deus é, frequentemente, o objeto do verbo, o que transmite a ideia de que alguém enfureceu a divindade. A razão primária para essa indignação é a adoração de outros ídolos por parte de Israel (1Reis 14:9, 15; 2Reis 22:17), o que evidencia que a exclusiva reivindicação de Deus sobre Israel foi ignorada. (67)
Quando o povo da aliança, a quem ele escolheu para comunhão e serviço, é infiel, Deus, por causa de seu amor e santidade, fica profundamente magoado e irritado. E quando essa provocação persiste, pode chegar ao ponto de que sua ira contra eles só se aplaque após o envio de seus juízos (2Reis 21:1-26; 23:26), que são a expressão do amor divino que se defende e remove aquilo que lhe irrita e entristece. (68) Portanto, quando usado em relação a Deus, esses termos demonstram que o homem, por meio do pecado e da rebeldia, pode irritá-lo, magoá-lo e entristecê-lo (Deuteronômio 4:25; 9:1-8), (69) todavia a irritação não é um atributo permanente de Deus (Ezequiel 16:42). (70)
Qâtsaph, qêtseph
O verbo qâtsaph significa “irar-se, encolerizar-se, irritar-se, indignar-se, enfurecer-se, enfadar-se, zangar-se”; (71) “sentir ira, cólera, etc.; estar irado, irritado”; (72) “irritar, provocar, aborrecer”. (73) É possível que tenha o sentido básico de “brotar”, “irromper”, do qual evoluiu para ter o sentido de “encolerizar-se”, “estar furioso”. (74) Com o significado de estar irado, ocorre 34 vezes, tendo 29 vezes o Senhor como sujeito. (75) Qâtsaph é empregado para dar expressão ao relacionamento interpessoal quando uma das partes sente ira, por causa do que a outra disse ou fez. (76)
O substantivo qetseph denota “ira, enfado, zanga, irritação, indignação, fúria, raiva, cólera, sanha, furor”, (77) aborrecimento, desprazer. (78) Ocorre 28 vezes e, com exceção de Eclesiastes 5:17 e Ester 1:18, é usado nas outras 26 vezes para referir-se à ira de Deus (Deuteronômio 29:27; Jeremias 10:10). (79)
Com frequência se trata de um sentimento repentino, violento e que rapidamente se desfaz. Isso pode ser visto nos episódios em que Faraó se encolerizou pela infidelidade de seus servos (Gênesis 40:2; 41:10); Moisés, pela desobediência do povo (Êxodo 16:20) e porque os filhos de Arão não observaram corretamente o ritual do santuário (Levítico 10:16); Naamã, contra Eliseu (2Reis 5:11). Qetseph é utilizado também para Deus (Levítico 10:6; Número 16:22; Eclesiastes 5:5; Lamentações 5:22) (80) e aparece intercambiavelmente com outras palavras para ira. (81)
Qetseph pode ser descrito como uma dramática manifestação do desagrado de Deus, que, apesar disso, não pretende destruir (Sl 38:1-4). (82) Aparece em textos que salientam que a ira divina é transitória (Isaías 57:16) e que será superada pela graça e a misericórdia (Isaías 54:8). (83)
Todavia, algumas passagens expressam mais claramente o tratamento de destruição inerente a qêtseph (ver Números 31:14-18; Deuteronômio 1:34). A raiz qtsp pode ter consequências que afetam outras pessoas além daquelas que provocaram a ira de Deus (Levítico 10:6; Salmos 106:32) e assume uma particular intensidade quando associada com nações estrangeiras (Jeremias 10:10; Zacarias 1:12-17). (84) A qetseph atua para proteger a santidade e o amor de Deus (aos quais está indissoluvelmente ligada) e aqueles que são objetos desse amor. Ela se manifesta quando seu amor é profanado, distorcido ou rejeitado (85) e, podendo operar de diversas maneiras, seu propósito é “restringir o mal, corrigir o pecador e castigar o rebelde endurecido e obstinado”. (86) A frase qêtseph gâdol ocorre seis vezes (Deuteronômio 29:27; 2Reis 3:27; Jeremias 21:5; 32:37; Zacarias 1:15; 7:12) e indica grande ira, sendo uma advertência quanto às consequências da apostasia e do abandono da aliança do Senhor. (87)
Bâ‘ar, ‘ebhrah
O verbo ‘br ocorre oito vezes e tem uma etimologia incerta. (88) De fato, as palavras com as consoantes br apresentam um quadro muito confuso com relação à etimologia e significado. Há pelo menos três diferentes raízes contendo estas consoantes: a primeira significa “queimar”; a segunda, “exterminar”, “alimentar ou apascentar”; e a terceira, “ser estúpido”, que deriva de ba‘îr, “besta, gado”. (89)
Com o significado de “queimar”, “arder”, bâ‘ar aparece, primeiramente, em descrições de teofanias (Êxodo 3:2ss.; Deuteronômio 4:11; 5:23; 9:15; 2Samuel 22:13; Salmos 18:8) e, em segundo lugar, frequentemente é encontrada revelando o poder abrasador da ira de Deus (Isaías 30:27 e 33), que pode ser de tal intensidade, em situações extremas, que ninguém possa apagá-lo antes que ele cumpra seu propósito (Jeremias 4:4; 7:20; 21:12; Malaquias 4:1). Em terceiro lugar, é usada como “fogo”, o qual é retratado como instrumento de Deus para punir os ímpios (Números 11:1; Isaías 1:31; 10:17; Salmos 106:18). (90)
Com o significado de “exterminar”, bâ‘ar aparece em diversas passagens que apresentam o destino de pessoas que cometeram atrocidades (2Samuel 4:11; 1Reis 14:10 e 21:21). Há também um grupo de leis em Deuteronômio, que apresenta a punição caracterizada pelas palavras “eliminarás o mal do meio de ti” (Deuteronômio 21:18-21; ver também 19:11-13; 22:22; 24:7), significando que deve ocorrer a purificação da tribo ou da nação, de modo que o mal seja rejeitado. (91)
O substantivo ‘Ebhrah significa “cólera, fúria, furor, indignação, paixão, arrogância”. (92) Derivado da raiz verbal ‘br, que tem a conotação de “passar”, “transpor” e “transbordar”, ‘ebhrah traz a ideia de “transpor os limites permitidos”, de algo insuperável ou excessivo e pode significar uma vasta gama de sentimentos, desde orgulho e arrogância até o de ira destruidora. (93) Ocorre 34 vezes no AT, sendo que em 30 delas a ideia é a de ira (seis vezes se referem à ira do homem – Gênesis 49:7; Salmos 7:6 – e 24 vezes se referem à fúria divina – Ezequiel 22:21, 31; 38;19; Oseias 13:11; Habacuque 3:8). (94)
A expressão “‘ebhrah de Deus” é sempre compreendida como a reação divina ao comportamento humano inapropriado e salienta a impetuosidade de sua ira (ver Deuteronômio 3:26; Salmos 78:21, 49; Isaías 9:19; Ezequiel 22:1), que transborda, queima e consome aquilo que a causou. (95) É usada nas expressões “fogo do meu furor”, que ocorre quatro vezes (Ezequiel 21:31; 22:21, 31; 38:19) e “dia da ira”, mencionada cinco vezes (Ezequiel 7:19; Sofonias 1:15, 18; Jó 21:30; Provérbios 11:4). (96)
Conforme a descrição de Sofonias 1:15-18, este dia surge como uma consequência do pecado humano (Sofonias 1:17) e a palavra ‘ebhrah (Sofonias 1:18), neste caso, aponta para a natureza esmagadora da ira de Deus contra o pecado, da qual as pessoas não podem ser libertas. (97)
Râgaz, Rôgez
Nas línguas semíticas, as raízes com as consoantes rgz expressam a ideia de “movimento”, de “tremer” e tem o principal significado de “estar irado”. (98) O verbo râgaz significa “tremer, vibrar; estremecer-se, agitar-se; irritar-se, brigar; temer”; “agitar, sacudir, cirandar; estremecer, inquietar, desassossegar”; “revolver-se”; (99) perturbar, agitar, mover, excitar; fazer estremecer, ativar. (100) Ocorre 41 vezes ao longo do AT e, fundamentalmente, expressa a ideia de movimento físico. Assim, tremem, a terra (1Samuel 14:15; Joel 2:10), os fundamentos dos céus (2Samuel 22:8), os montes (Isaías 5:25), as ondas (Salmos 77:17). (101)
Todavia, seu significado tem se expandido além de seu limite original e é capaz de expressar ideias de rebelião, medo, perturbação, raiva e excitação (Êxodo 15:14; 2Samuel 19:1). (102)
Quando râgaz é usado com um sujeito animado, denota primariamente um fenômeno somático, uma agitação crescente, derivada de uma profunda emoção, que em Ezequiel 12:18 aparece como “tremor” (103) e que só pode ser identificada pelo contexto. (104) Desse modo, pode-se tremer de alegria (Jeremias 33:9) ou de medo (Êxodo 15:14) e só esporadicamente se aplica à ira (Jó 12:6; 37:2; 2Reis 19:27-28; Habacuque 3:2). (105) Na verdade, râgaz é uma das palavras mais raramente usadas para denotar a ira no AT, onde ocorre apenas sete vezes. (106)
O substantivo rôgez traz a ideia de tremor, trepidação; agitação, inquietação, sobressalto, susto, (107) excitação, perturbação. (108) É empregado nove vezes: oito na forma masculina, a qual pode aparecer para expressar o tipo de ira furiosa que com frequência é acompanhada por estremecimento (Habacuque 3:2; Daniel 3:13); e uma vez na forma feminina, usada no sentido de medo ou ansiedade (Ezequiel 12:18). (109)
Nos oito textos em que Deus é associado com râgaz, sempre há uma revelação de seu poder (Jó 9:5-6; Isaías 28:21; Habacuque 3:2; etc.). (110) Esse verbo é empregado para referir-se àquelas situações em que Deus treme de indignação ou ira, porque é provocado. (111) Desse modo, Isaías 28:21 mostra Deus levantando-se ou agitando-se para a batalha. (112)
O substantivo rôgez é empregado para referir-se a agitações externas, como o estremecimento da terra, que é um tema comum no AT. Nesse caso, a ira de Deus é tipicamente descrita como a razão para tal estremecimento (1Samuel 14:15; 2Samuel 22:8; Salmos 18:7; Amós 8:8). Juntamente com a terra – montanhas, céus, nações, reinos e seus habitantes – também estremecem diante da ira de Deus (1Samuel 13:13; Isaías 5:25; 23:11; 64:2). Estremecimento semelhante pode ocorrer em uma teofania (Jeremias 33:9) e acontecerá no grande e terrível dia do Senhor (Joel 2:1, 10). (113) Todavia, rôgez é empregado apenas uma vez para expressar a ira de Deus (Habacuque 3:2). (114)
Zâ‘am, Za‘am
O verbo zâ‘am traz a ideia de “estar irritado; descarregar a cólera”, (115) expressar indignação, denunciar, (116) repreender, reprovar (117) e tem a conotação primária de amaldiçoar (Números 23:7; Provérbios 24:24). (118) É empregado para indicar tanto a condição de estar indignado como a atividade que dá expressão a esse estado, (119) mas sua ideia básica é a de expressar indignação especialmente na forma de denúncia. (120)
Zâ‘am pode ser usado para retratar uma atitude de ruptura, de inimizade (Zacarias 1:12; Malaquias 1:4); para manifestar indignação contra alguém (Provérbios 24:24), seja através de um pronunciamento de maldição (Números 23:7), seja descarregando sua cólera (Daniel 11:30); para referir-se à indignação do juiz (Salmos 7:11). (121) Aparece apenas 12 vezes (122) sendo que em sete delas a referência é à ira divina e a um claro aspecto de juízo. (123) Parece ter sido parte de uma fórmula de maldição que posteriormente veio a significar a condição emocional por detrás da maldição (Isaías 30:27). (124)
O substantivo za‘am é traduzido por “cólera, indignação, irritação, ira, furor, fúria, raiva”. (125) Significa a paixão, mas especialmente a sua manifestação ativa (Jeremias 15:17; Naum 1:6; Salmos 38:3; 102:10; Daniel 8:19; 11:36), (126) e denota raiva expressa em palavras de repreensão (ver Isaías 30:27). (127) Na maioria das 22 vezes em que ocorre, a referência é à ira de Deus (ex.: Salmos 102:10; Isaías 10:5; 66:14-15; Jeremias 10:10; Ezequiel 22:31). (128) Nos textos apocalípticos tem o significado especial de “tempo da ira” (Isaías 26:20; Daniel 8:19; 11:76). (129)
A za‘am de Deus é expressa em dor e sofrimento (Salmos 38:1-3; Jeremias 15:17), cativeiro e exílio (Lamentações 2:6; Zacarias 1:12), seca (Ezequiel 21:31-32; 22:24, 31), trovão, fogo e fumaça (Isaías 30:27-30), terremoto (Naum 1:5; Habacuque 3:12), pragas no Egito (Salmos 78:49) a opressão de Israel por nações estrangeiras (Isaías 10:5, 25; Jeremias 50:25); (130) e em várias teofanias proféticas de juízo. Ela é parte de um tríplice esquema: (1) o relato de uma teofania, envolvendo catástrofe na natureza e terminologia de ira, frequentemente associado com fogo abrasador (Isaías 30:27-28; Naum 1:2-6; Habacuque 3:3-12; Sofonias 3:8); (2) julgamento das nações (Isaías 30:28-33; Naum 1:8-11; Habacuque 3:12-13; Sofonias 3:8); e (3) palavras de salvação para o próprio povo do profeta, a quem é prometido livramento da za‘am (Isaías 30:19-26, 29; Naum 1:7, 12; Habacuque 3:13; Sofonias 3:9-20). (131)
Zâ‘aph, Za‘aph, Zâ‘êph e Zal‘âphâh
O verbo zâ‘aph tem a conotação fundamental de estar agitado, (132) mas também significa estar turbado, abatido, (133) triste, irado, (134) indignar-se, irritar-se. (135) Os substantivos derivados são za‘aph (sete vezes), za‘eph (duas vezes) e zal‘âphâh (3 vezes). (136) O substantivo za‘aph significa “cólera, fúria”, (137) ataque, indignação, (138) furor. (139)
Ao que tudo indica za‘aph evoluiu da ideia inicial de “agitação”, para “ira”. (140) É empregado em relação com os fenômenos naturais (Jonas 1:15 – o furor do mar; Salmos 11:6 – o torvelinho); a agitação do espírito humano (o que ocorre seis vezes, com a ideia de “aflição” ou “abatimento” – ver Gênesis 40:6; Daniel 1:10 (141) – e forte indignação – 1Reis 20:43; 21:4; 2Crônicas 16:10; 26:19); (142) e a ira Deus (duas vezes – Isaías 30:30; Miqueias 7:9). (143) Portanto, za‘aph é uma palavra raramente empregada, e quando aparece, é utilizada mais em paralelo com termos como “desgosto” ou “descontentamento” (Gênesis 40:6; 1Reis 20:43; 21:4) do que “ira” (2Crônicas 16:10). (144)
Com base em Miqueias 7:9 pode-se dizer que a ira de Deus é sua reação ao pecado de seu povo e, todavia, ela não perdurará para sempre, antes será substituída pela restauradora graça de Deus. (145)
Rûach
O significado mais básico do rûach é “ar em movimento”, (146) “vento, vendaval, lufada, brisa, aragem; ar; direção”; “alento, hálito; alento vital, alma, espírito; respiração, fôlego, ofego; sopro, assopro”, (147) mas também é variadamente definido como transitoriedade, volição, disposição, temperamento, espírito, Espírito. (148) Pode designar a ira como uma paixão pertinente à esfera do espírito. (149) Este substantivo ocorre 387 vezes no AT, (150) mas em apenas seis passagens é traduzido por ira (Juízes 8:3; Provérbios 16:32; 29:11; Isaías 25:4; 30:28; Zacarias 6:8), sendo que em duas delas retrata a ira de Deus. (151) Uma possibilidade é que seu uso para a ira derive da observação feita de que a ira é acompanhada de uma excitação que causa uma respiração ofegante, um movimento forte e rápido de ar, uma bufada através das narinas. (152) Quando aplicado a Deus, rûach, no sentido de ira, o retrata como um Ser dotado de forte emoção. (153)
Os Termos Gregos para Ira
Enquanto que o AT possui uma grande variedade de expressões para retratar o conceito de ira, o NT emprega apenas duas palavras, orgē e thumos. (154) Em etimologia e significado, orgē e thumos são originalmente distintos. Na língua grega o processo psíquico, a que chamamos de ira, estava originalmente diferenciado.
Thumos
Thumos significa originalmente “o que se encontra em movimento, em ebulição” e, a partir daí, também aquilo que causa estes efeitos. Pode tratar-se tanto de um movimento externo como de uma emoção interna (do sentimento, do coração). No grego profano, nos estágios mais antigos da língua, thumos significa “força vital, anelo, ânimo e ira” e, mais tarde apenas “ânimo, cólera e ira”. (155) No grego secular envolve uma graduação de significados: desejo, impulso, paixão, coragem, disposição, reflexão. Posteriormente foi usado por escritores como Platão, Tucídides e outros, significando, coragem, raiva e ira. (156)
Thumos tem sido usado no sentido de paixão, desejo, impulso, inclinação, espírito, raiva, ira, fúria, sensibilidade, disposição, mente, pensamento, consideração. Tanto a literatura judaica como os escritos do NT fizeram um uso semelhante. (157) Aparece umas 200 vezes na LXX (158) e 18 no NT, onde significa mau humor, cólera, sendo cinco vezes em Paulo (Romanos 2:8; 2Coríntios 12:20; Gálatas 5:20; Efésios 4:31; Colossenses 3:8); uma vez em Hebreus (Hebreus 11: 27); duas vezes em Lucas (Lucas 4:28; Atos 19:28) e dez vezes no Apocalipse (Apocalipse 14:8, 10, 19; 12:12; 15:1, 7; 16:1, 19; 18:3; 19:15). Em algumas passagens (Lucas 4:28; Atos 19:28) se percebe claramente a ideia original de algo que ferve, como um fluído borbulhante que enche o homem, vai subindo de pressão e acaba por explodir. (159) É ira a que se inflama subitamente e logo se apaga, ainda que isto não aconteça em cada caso. Indica uma condição mais agitada do sentimento, uma explosão de ira devido à indignação interna, e pede que chegue à vingança, ainda que não a inclua necessariamente. (160)
Outras expressões derivadas de thumos, como é o caso do verbo enthumeomai (Mateus 1:20), têm o significado básico de “ter em mente”, reflexionar, meditar, pensar; e o substantivo enthumēsis (Mateus 9:4; 12:25; Atos 17:29; Hebreus 4:12), “o que se encontra na mente, pensamento”, meditação, reflexão, mas sempre no sentido negativo de um pensamento mau ou néscio. (161)
Quando thumos é aplicado para Deus, e isso ocorre oito vezes (Romanos 2:8; Apocalipse 14:10, 19;15:1, 7; 16:1, 19;19:15), tem sempre um sentido escatológico, uma referência à cólera divina que incidirá, ao final da história humana, sobre o pecador contumaz, aquele que rejeitou muitos chamados para se arrepender e resistiu de maneira definitiva ao amor de Deus, (162) e destaca o ardor dessa ira (163) que resultará em tribulação e angústia. (164)
Orgē
Diferentemente de thumos, orgē assinala a manifestação externa ativa e ao mesmo tempo o movimento anímico que acompanha esta manifestação: a ira que irrompe. (165)
Sugere uma condição mais fixa ou permanente da mente, frequentemente com a intenção de vingar-se. Orgē é menos súbita que thumos em seu aparecimento, todavia mais duradoura. (166) Traz a ideia de uma indignação que se levanta gradualmente até tornar-se mais estabelecida (167) e inclui sempre um elemento de reflexão orientada para algo, por exemplo, para a vergonha ou para o castigo. (168) Na literatura de tragédia, orgē é sempre vista como protegendo algo que é correto e, na vida política, aparece como uma atitude característica e legítima de um governante que deve vingar a justiça. (169)
Embora originalmente thumos possuísse a conotação de emoção interna, e orgē fosse empregada para sua manifestação externa, na LXX quase que se perdeu totalmente esta distinção, de modo que ambas traduzem em conjunto e indiscriminadamente os mesmos equivalentes hebreus, sendo empregadas de modo intercambiável. (170)
O NT parece ter seguido o uso da LXX, (171) embora prefira empregar orgē para tratar da ira de Deus, provavelmente porque ele tem poucas conotações de emoção e excesso. (172)
O significado de orgē pode ser fixado mais precisamente quando se consideram os termos que são colocados em paralelo ou em contraste com ele no NT. Na maioria das passagens, orgē é uma realidade da obra de Deus e seu julgamento e apresenta uma ideia maior do que uma mera emoção: a de uma verdadeira atitude de Deus (Lucas 21:22; Romanos 2:8-11; 12:19). (173)
Isso é corroborado por muitos textos pertinentes (Romanos 1:18; 9:22; Apocalipse 6:16; etc.) e é percebido mais claramente na citação do AT em Hebreus 3:11; 4:3. (174)
Orgē aparece 36 vezes no NT, sendo 12 delas em Romanos. No Apocalipse ela ocorre seis vezes, (175) e tem sido vertida por raiva, indignação, ira. (176) Pode ser empregada tanto em referência ao homem (177) (Colossenses 3:8; 1Timóteo 2:8; Tiago 1:19) como a Deus. Todavia, quando aplicada a Deus deve ser despojada de tudo que se assemelhe à paixão do homem, especialmente da paixão da vingança. (178) Orgē é a atitude de Deus frente ao pecado, não cólera, mas a ira da razão e da lei (179) e, por isso, Paulo, ao tratar da ira, prefere usar o termo orgē. Na verdade, ele usa thumos uma vez, em Romanos 2:8, onde as duas expressões são combinadas numa citação do AT. (180)
Como outras palavras do NT, orgē tem uma característica presente e outra escatológica. Quando possui um sentido escatológico aparece como antônimo de zoe aiōnios [vida eterna] (Romanos 2:7; conforme verso 5) e peripoiēsis sōtērias [alcançar a salvação] (1Tessalonicenses 5:9) e é retratada pelas imagens do fogo (Mateus 3:10-12), do cálice (Apocalipse 14:10) e do lagar do vinho (Apocalipse 19:15). (181) O Apocalipse, por sua vez, prefere usar thumos, (182) quase sempre se referindo à ira divina, embora haja duas passagens em que elas apareçam juntas na mesma frase: “furor [thumos] da sua ira [orgē]” (Apocalipse 16:19) e “do furor [thumós] da ira [orgē] do Deus Todo-Poderoso” (Apocalipse 19:15).
A Ira de Deus em Relação a Seus Outros Atributos Morais
Para a correta compreensão do tema da ira divina é absolutamente necessário relacioná-la a outros atributos morais de Deus, notadamente a santidade, a justiça e o amor. Este último atributo deve ser estudado também em suas várias formas de manifestação, como bondade, misericórdia, graça e longanimidade.
A Ira de Deus em Relação a Sua Santidade
Uma das palavras mais importantes de todo o AT é qâdôsh, que significa cortar, separar. Sua ideia primária é a de separação. Desse modo, santo é aquilo que é separado, retirado do uso comum, como é o caso de lugares e objetos (em que não há qualquer conotação moral) frequentemente mencionados no AT. No texto do NT, o mesmo conceito aparece na palavra hagios. Quando tais palavras são empregadas para Deus referem-se à relação que há entre ele e alguém ou alguma coisa, (183) e podem indicar dois aspectos: a santidade majestosa e a santidade moral.
Em primeiro lugar Deus é santo porque é totalmente separado da criação no sentido de que somente ele é Deus, Criador, Eterno e Infinito, enquanto tudo o mais teve começo, é criação, é finito e não possui natureza divina. Em outras palavras, ele é singular, distinto de tudo e de todos, exaltado sobre tudo em sua natureza de infinita majestade (Êxodo 15:11; 1Samuel 2:2; Isaías 57:15). Nesse aspecto, somente Ele pode ser santo. (184) Mas há um sentido secundário e ético, o de santidade moral, que indica ser ele absolutamente puro ou bondoso, isento de qualquer deficiência moral ou vestígio do mal, completamente separado do pecado (Jó 34:10; Habacuque 1:13). (185) Isso significa também que Deus é a “perfeição moral e espiritual”, (186) “a fonte e o padrão do direito”, (187) e, como tal, ama o que é bom e odeia o que é mau (Êxodo 3:5; Levítico19:2; Jó 15:15; Salmos 22:3; 47:8; 111:9; Isaías 6:3; 1João 1:5; Apocalipse 4:8; 6:10; 15:4), (188) opõe-se à impureza e mantém sua excelência moral. (189)
Porque os atributos divinos estão todos inter-relacionados, quando Deus age, ele não o faz apenas com um atributo, mas com a totalidade de sua excelência moral, (190) de modo que cada qualidade esteja unificada e harmonizada com as demais. (191) Todavia, de todas elas, há uma que, em virtude tanto da frequência como da ênfase com o qual é usada, ocupa uma posição única de importância: a santidade. Tem sido usada como uma definição da natureza de Deus (192) e é o atributo divino que qualifica todos os demais, (193) mas também condiciona e limita seu exercício. Por essa razão, na punição dos ímpios, a exigência da santidade reprime a defesa do amor aos sofredores. (194)
Mais do que qualquer outro atributo, a santidade constitui a plenitude gloriosa do ser moral de Deus. (195) Por isso, quando vai fazer qualquer juramento, não tendo ninguém mais alto por quem jurar, jura por sua própria santidade (ver Salmos 89:34-36; Amós 4:2). (196) A santidade diz respeito à natureza e ao caráter de Deus. Assim, ao tratar de todas as questões sobre o pecado e sua origem, e o fim dos pecadores, Deus sempre escolhe os métodos e fins que estão em absoluta conformidade com sua santidade. Sua vontade e todas as suas decisões e atividades necessariamente devem estar em harmonia com ela. São santas porque a sua personalidade é santa. (197)
A santidade moral de Deus pode ser vista em suas obras, em suas leis e na redenção dos pecadores. Deste modo, nada que vem dele é imperfeito, os seres racionais foram criados como santos e também santas são suas leis (Romanos 7:12), que proíbem o pecado em todas as suas formas. (198) Ela é “a base moral do universo [...] o sol de todo o Seu sistema”, (199) o padrão e o alvo da obrigação moral das criaturas racionais: “Sede santos porque eu sou santo” (1Pedro 1:16). (200) Dessa forma, “Deus demanda de todos os seres morais uma pureza que corresponda à mesma pureza de Sua natureza”. (201)
Possivelmente Isaías 6 seja a passagem bíblica que melhor ilustre a santidade de Deus. Este capítulo mostra como a revelação da santidade majestosa levou o profeta ao reconhecimento da santidade moral de Deus e de seu próprio pecado diante dela. Mostra como o pequeno enxergava o grande e como o pecador se via diante da santidade moral de Deus, porque o senso de depravação num homem é determinado pelo senso da santidade de Deus que ele possui. (202)
As Escrituras nos dizem que “Deus é amor” (1João 4:8), mas se for perguntado: amor a que? A resposta é: acima de tudo, amor à santidade. (203) Seu amor para com os seres humanos também pode ser expresso como o desejo que ele tem de dar-nos aquilo que ele é – santidade; e de possuir-nos em íntima comunhão com aquilo que ele é: santidade. Desse modo, “tanto o amor insiste na santidade, como a própria santidade de Deus exige santidade no homem. Não pode, pois, haver conflito entre estes dois atributos”. (204)
De fato, Deus não é somente amor, mas luz moral – e, por isso, “um fogo consumidor” (Hebreus 12:29) para toda a iniquidade. Embora o amor possa castigar (Jeremias 10:24; Hebreus 12:6), é a santidade que pune (Ezequiel 28:22). (205) Quando posta em operação, atuando judicialmente (206) e exigindo pureza das criaturas, (207) é chamada de justiça (208) e é administrada aos que não se conformam com a santidade de Deus, aos que resistem, aos que se identificam com o pecado, na forma de penas e sofrimentos. (209) A conexão da ira de Deus com sua santidade pode ser vista no fato de que a ira divina é constantemente apresentada em expressões e metáforas relacionadas à teofanias (Êxodo 19; Salmos 18; Isaías 30; Habacuque 3). Indica a natureza viva e pessoal de Deus (210) e é apresentada como uma expressão justa, própria e natural da natureza divina, a qual é absolutamente santa – e que deve ser mantida em todas as circunstâncias e a todo custo – e que ataca todas as forças que a ela se opõe. (211)
A ira de Deus não é uma vingança maligna e pecaminosa como a nossa, mas uma das perfeições divinas. É o desagrado e a indignação da santidade de Deus em reação contra o pecado. (212) Se Deus deixasse de mostrar sua ira, seria injusto primeiramente consigo mesmo, pois estaria negando sua própria santidade, e também com os homens, uma vez que não daria a eles o que merecem. Além disso, mostraria falta de caráter por ser indiferente para com o pecado. (213)
A Ira de Deus em Relação à Sua Justiça
Os termos hebraicos que aparecem no AT para “justo” e “justiça” são tsaddiq, tsedheq, tsedhâqâh, e os termos gregos correspondentes no NT são dikaios e dikaiosunē, todos tendo a ideia fundamental de conformidade a um padrão, de estrito apego à lei. Esta qualidade é repetidamente atribuída a Deus (Esdras 9:15; Neemias 9:8; Salmos 119:137; 145:17; Jeremias 12;1; Lamentações 1:18; Daniel 9:14; João 17:25; 2Timóteo 4:8; 1João 2:29; 3:7; Apocalipse 16:5), pois embora não haja qualquer lei acima dele, certamente há uma lei em sua própria natureza divina, da qual derivam todas as leis que são reputadas por justas. (214)
Pode-se considerar a justiça de Deus de duas maneiras: (1) justiça absoluta (ou essencial) – aquela inerente a Deus e que se refere à perfeição moral e à excelência de Seu caráter, à retidão pela qual ele se sustenta a si mesmo contra as violações de sua santidade (Deuteronômio 32:4; Salmos 97:1-2; 89:14); e (2) justiça relativa – aquela que ele manifesta em relação a suas criaturas, governando-as com retidão inflexível, dando a cada um conforme o seu merecimento e agindo de modo que todos assim o vejam e o reconheçam. (215) Tal manifestação de justiça é uma necessidade de sua natureza santa que sempre o inclina a agir desse modo. (216)
A justiça relativa pode ser classificada como: (1) justiça rectoral (governativa ou legislativa) – a que estabelece que Deus é reto ao atuar como governador moral do universo, legislando e impondo suas justas leis com promessas de recompensas e advertências de castigo (Deuteronômio 4:8; Salmos 99:4; Isaías 33:22; Romanos 1:32; Tiago 4:12). (2) Justiça distributiva (ou administrativa) – aquela que mostra a retidão de Deus na execução de suas leis, sem mostrar favoritismo ou parcialidade (Romanos 2:11), e diz respeito à distribuição das recompensas e castigos (Isaías 3:10-11; Romanos 2:5-10; 1Pedro 1:17). Pode ser vista na Providência de Deus no decorrer da história, inclusive enquanto opera nossa salvação, e é mais completamente revelada na morte e ressurreição de Cristo. (217)
Ela pode ser apresentada como remunerativa e retributiva: (a) A justiça remunerativa é a recompensa distribuída aos seres racionais em razão daquilo que fazem de bom, e suas bênçãos são expressão da bondade de Deus (1Crônicas 29:14, 16) e sempre condicionais à observância da aliança, i.e., à obediência às leis (Deuteronômio 7:12-24; Mateus 25:21); mas não são meritórias, porque uma vez que somos servos, devemos obedecer ao nosso senhor, o que não implica em recompensa, porque é uma obrigação (Lucas 17:10). (218) Deus se torna devedor ao homem não por causa de algum mérito deste, mas em razão das promessas de bênçãos que Deus lhe fez. Na epístola aos Romanos (6:23) pode ser visto que a recompensa da obediência é caracterizada como um dom, enquanto que a da desobediência é chamada de salário. (219)
Já a (b) justiça retributiva (punitiva, vindicativa ou judicial) é a justiça responsável pela aplicação das punições e nessa ação Deus é visto como vingador, manifestando sua ira contra os transgressores (Salmos 7:11; 9:4-5; 62:12; Mateus 16:27; Romanos 2:1-11; 2Coríntios 5:10; 2Tessalonicenses 1:6-9). Portanto, ira é o aspecto da justiça que trata da retribuição dos ímpios. (220) Numerosos textos bíblicos apresentam a ira de Deus em termos de uma terrível demonstração de poder (Isaías 30:30; Jeremias 10:10; Habacuque 3:12), que servia para informar que Deus atua para manter a justiça. Por um lado, vinha contra os que se opunham a Deus, por outro, servia para encorajar os crentes a fim de que cressem nele como seu libertador (Isaías 59:16-18; 63:1-6). (221)
A justiça retributiva é a própria e principal esfera de operação da ira de Deus, agindo em conformidade com a santidade divina. Toda punição do pecado é considerada como a intervenção da ira de Deus. Essa conexão entre ira e retribuição, ou julgamento, foi constantemente apresentada à consciência nacional de Israel (222) e também explica os desastres que tem vindo sobre a humanidade. (223) Paulo declara que “a ira de Deus se revela do céu” (Romanos 1:18), isto é, sob a direção de Deus, ou por um divino poder e providência, punindo os pecados e fraquezas dos homens e manifestando a justiça de Deus. Tal revelação não foi inferior àquela que ele tem feito de sua bondade, paciência, longanimidade ou de quaisquer outros de seus atributos. (224) Deus tem cuidado para que sua ira contra o pecado, ou sua justiça, apareça mediante numerosos exemplos de punição infligidos sobre os homens por seus pecados, em seu providencial governo do mundo.
Desse modo, o mesmo Deus que dá a todos o sol, a chuva e sua bondade (Mateus 5:45; Atos 14:17) também oferece claros sinais e testemunhos de sua ira, severidade, e indignação ou justiça punitiva, (225) aos que não se conformam com a santidade. (226) A justiça de Deus também é revelada na constituição de nossa natureza, pois a despeito dos sofismas do entendimento e da degradação moral, todos os homens têm uma consciência de justiça e sabem que é justo o juízo de Deus segundo o qual os que pecam são dignos de morte (Romanos 1:18-20, 32; 2:12-16). (227) Como obra de sua justiça, a ira de Deus é revelada aos que estão fora de Cristo e sem Cristo (Efésios 2:3, 12), (228) mas nunca é injusta nem excessiva e enquanto houver tempo de graça, Deus não a deixa alcançar sua plenitude (Oseias 11:9). (229)
É verdade que às vezes o governo divino não parece ser justo, pois quem vive em pecado nem sempre é punido e os justos com frequência parecem não ser recompensados. Já no AT, o conceito de retribuição não era dominante, pois nem sempre as coisas iam bem para os justos ou iam mal para os ímpios. (230) De fato, tanto o Pentateuco, como os Salmos, os profetas e o livro de Jó atestam o contrário. (231) Também no NT pode ser visto que o clamor dos mártires por vingança não é de pronto atendido (Apocalipse 6:10-11). Há uma demora, para mostrar que “a vingança, purificada de toda a ânsia humana em prol dela, é deixada para Deus”. (232) A compreensão da ira de Deus tem como pano de fundo o conceito da justiça de Deus, mas não uma justiça ministrada por um princípio impessoal, de efeito automático, antes aquela que advém de um Deus que tem fortes emoções e que está pessoalmente interessado. Em razão disso, a justiça divina não deve ser avaliada no curto espaço de uma vida, pois aqui ela é frequentemente incompleta ou imperfeita. Antes, como nossa vida aqui não é tudo, essa justiça precisa ser vista também como escatológica e no escopo da eternidade quando então será completa (Isaías 9:7; 11:4; 42:1; 56:1; Jeremias 23:5; Oseias 2:19). (233)
Deus é o legislador e o justo juiz e é somente no juízo final, quando apresentar um veredicto judicial sobre cada homem, que todos, mesmo aqueles que serão amaldiçoados, terão e saberão que sua maldição é justa, de modo que nenhuma criatura encontrará mesmo a menor falha em sua perfeição. E é nesta vindicação do caráter de Deus que residirá a segurança e a liberdade do universo inteiro, por toda a eternidade. (234) (Clique aqui para a continuação deste capítulo 1 – A Ira de Deus em Relação ao Seu Amor).

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A Ira de Deus em Relação ao Seu Amor (continuação de) A Ira de Deus – Emilson dos Reis – CAPÍTULO 1 – O SIGNIFICADO DA IRA DE DEUS – Ligado na Videira

A Ira de Deus em Relação ao Seu Amor
Ao abordar o tema do amor, o hebraico usa o termo ’âhabh e seus derivados, que significam amar, gostar, apaixonar-se, ser amável. Seu sentido básico é amplo, podendo variar desde o grandioso amor de Deus por seu povo até os apetites carnais e pecaminosos. É utilizado no mandamento que nos manda amar o nosso próximo (Levítico 19:18), em várias passagens que descrevem o amor entre os seres humanos (exemplo: Gênesis 22:2; 37:3; Deuteronômio 10:19; Rute 4:15; etc.) e para referir-se ao amor de Deus para com seu povo (Deuteronômio 4:37; Isaías 43:4; Jeremias 31:3; Oseias 11:4; Malaquias 1:2). (235)
O NT emprega dois termos para denotar a ação de amar. Um é fileō, que se refere a uma afeição emocional (João 11:36). O outro é agapaō e significa um amor racional e voluntário que se baseia numa escolha deliberada, onde o componente emocional se encontra subordinado à verdade e santidade (Mateus 5:44; 19:19), e é esta palavra que, na maioria das vezes, é empregada no NT para indicar o amor de Deus (João 3:16). (236)
O amor é um atributo no qual se combinam dois impulsos ou desejos aparentemente paradoxais: o de dar-se ao objeto amado, de fazer-lhe o máximo bem e o de possuí-lo em íntima comunhão. Um impulso dá e o outro toma. O primeiro, que é autodoação é chamado āgapē, o segundo, eros. Enquanto que o amor āgapē anela completar o outro ainda que com um custo para si mesmo, o amor éros busca completar a si mesmo pelo outro. O ideal é que eles coexistam de forma equilibrada.
Em Deus o amor é assim. Deus ama toda a criatura no sentido de lhes ser amplamente favorável, mas também deseja sua resposta de amor ao seu amor. (237) Mesmo na eternidade, antes de qualquer criação, ele encontrava sua satisfação nas relações de amor que existiam na própria trindade (João 17:24). (238) O fato de que Deus é amor (1João 4:8, 16), mostra que o amor é essencial e necessário à divindade, de sorte que a sua natureza consiste nele. Portanto, há evidência de que o amor precede a criação e é a sua base. (239)
A santidade e o amor de Deus estão intrinsecamente ligados. Se por um lado a santidade de Deus sujeita, ordena e condiciona seu amor, por outro, este impregna, habilita, sujeita e complementa aquela. Deus não seria tão santo se não fosse incomparavelmente amoroso. Nem seria tão amoroso como é sem ser incomparavelmente santo. O amor de Deus sem a santidade de Deus não seria justo por ignorar as ofensas do pecado. A santidade de Deus sem o seu amor seria insuportável e incapaz de efetuar a reconciliação.
Nenhum deles sozinho poderia prover a salvação dos pecadores. (240) São como dois polos morais do ser de Deus. Como santo, ele se opõe ao pecado e exige sua punição; mas como amor, anela fortemente perdoar e salvar e torna o pagamento da penalidade possível. Deste modo, em si mesmo é encontrada concordância, pois um lado de sua natureza proporciona o que o outro lado de sua natureza exige. (241) Como já foi dito, “a santidade é o trilho onde a locomotiva do amor deve correr”. (242)
Também o amor não pode ser completamente compreendido a menos que se inclua a justiça (Êxodo 34:7). Sem ela o amor não passa de mero sentimentalismo. O amor e a justiça operam justos no trato de Deus com os homens. Enquanto a justiça requer que haja pagamento da penalidade do pecado, o amor deseja que o homem seja restaurado à amizade com Deus, mas não há nenhuma tensão entre eles. A tensão só existe quando se pensa que o amor requer que Deus perdoe sem qualquer pagamento. (243) “Deus não é parcialmente amor e parcialmente justiça, mas perfeito amor e perfeita justiça e tudo de Deus é amor e tudo de Deus é justiça”. (244) Sendo assim, sua ira é a mais verdadeira expressão de sua santidade e justiça punitiva contra o pecado, e está em perfeita harmonia com seu amor, que por ser santo, rejeita o mal com o mesmo empenho com o qual aprova o bem. (245) Essa ira, embora não seja um atributo permanente, é um potencial divino sempre presente, por causa da permanente presença, em Deus, dessas qualidades. (246)
O fato de Deus ser amor não significa que ele aprove tudo o que o objeto de seu amor faça. A aprovação não é necessária ao amor. Por isso, Deus nos amou quando ainda éramos seus inimigos (Romanos 5:8; Efésios 2:3-5). Por isso, uma mãe ama seu filho rebelde, embora não aprove seus atos. Há um amor que inclui aprovação, é o amor que se compraz, cujo objeto amado é amável e traz alegria. Este é o amor que Deus tinha para com Jesus que em tudo lhe era obediente (Mateus 3:17; 12:18; 17:5; João 5:20; 15:9-10). Este é o amor de Deus para com aqueles que o amam e obedecem (ver Daniel 9:23; 10:11, 19; Efésios 4:25-5:1). Mas há um amor que não se regozija no objeto amado, é o amor que se compadece. Este é o amor de Deus para com os ingratos e maus. Não que haja dois amores, mas, sim, dois objetos amados diferentes. Desta maneira é o amor de Deus para com o crente e o descrente. (247)
O tema do amor é o pano de fundo para o tema da ira. (248) A ira de Deus é a reação do seu amor rejeitado (Amós 3:2). (249) É a forma que o amor toma frente ao pecado, ao mal e àqueles que a ele se opõem. (250) “É o não de Deus ao pecado. Uma vez que o pecado é a rejeição do amor de Deus, a ira de Deus é o seu próprio amor voltado contra sua própria rejeição; é a reação de Deus ao pecado. Mostra que Deus permanece o mesmo quando seu amor é rejeitado”. (251) Quando o amor de Deus – em suas várias manifestações de bondade, misericórdia e longanimidade – encontra-se com a perversa vontade do homem ao invés da fé, da gratidão, da boa vontade e do amor, torna-se ira (Mateus 18:34; Marcos 3:5; Romanos 2:5). (252)
Esta pode causar sofrimento, castigar e prolongar-se, contudo permanece temperada por sua misericórdia enquanto durar o tempo de graça, produzindo um salutar temor do Senhor e tendo como propósito final o bem de suas criaturas. (253) Revela que Deus tem amor ou positivas intenções para com os seres humanos, o que pode ser visto de três modos: (1) antes de sua ira se manifestar, ele adverte que ela está para vir. Se a justiça fosse a única motivação, a advertência não seria dada. (2) Enquanto ela está se manifestando, é entendido que ela pode terminar. Numerosos textos demonstram que Deus continua acessível mesmo em meio à operação de sua ira e falam de esperança para o futuro, quando a ira tiver completado sua obra, e de como as futuras gerações podem evitar os erros do passado (Salmos 27; Isaías 12:1; 54:8; Zacarias 8:14-15). (3) Quando a ira tinha cumprido seu papel e se extinguido, os relatos do que ocorrera (no livro de Lamentações, por exemplo) davam à comunidade a oportunidade de evitar os erros do passado e, assim evitar nova manifestação de ira no futuro. (254)
Além disso, ela também é motivada pelo amor de Deus para com os seus buscando protegê-los, (255) porque o amor inclui um elemento de zelo (ciúme) para com o amado, com a correspondente reação contra aqueles que se voltam contra este objeto do amor. (256) Quando se ama alguém e se vê essa pessoa sendo atingida pelo mal, qual será a reação? Permanece-se indiferente? Não! Ocorre uma indignação e uma ação para proteger. O amor humano será deficiente se o elemento de ira estiver completamente ausente.
O mesmo ocorre em relação a Deus. (257) Em certas circunstâncias, a falta de ira significa falha em cuidar de quem amamos e por quem somos responsáveis, falha em demonstrar amor. (258) Semelhantemente, se Deus não tivesse ira, equivaleria a não ter compromisso com o universo que criou e interesse em suas criaturas, o que também evidenciaria falta de amor. (259)
Em sua Carta aos Efésios, Paulo, depois de expor a dura realidade de toda a humanidade, escravizada à Satanás, ao curso deste mundo e à natureza pecaminosa, acrescenta “e éramos, por natureza, filhos da ira, como os demais. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo [...]” (Efésios 2:3-5). Tal declaração, de que embora filhos da ira, Deus nos amou com grande amor, evidencia que a ira de Deus não é incompatível com seu amor e que tais atributos podem coexistir na personalidade de Deus. (260)
Outras passagens bíblicas são do mesmo teor: Deus expressa seu amor por aqueles que são objetos de sua ira. Assim, ele diz que ama Israel com amor eterno (Jeremias 31:3, 20) e ao mesmo tempo, em sua ira, envia contra eles os babilônios para executarem seu juízo (Jeremias 21:5-7); ele declara seu amor para com mundo e age em seu favor (João 3:16; Romanos 5:8; Efésios 2:3), mas também revela dos céus sua ira, de múltiplas formas, sobre os mesmos homens (Romanos 1:18-32). (261)
É bastante difundida a ideia de que Deus ama o pecador, mas aborrece o pecado. (262)
Todavia, esta não é toda a verdade sobre o assunto. Embora, a ira de Deus contra o pecado não implique em qualquer diminuição do seu amor para com as moralmente perdidas criaturas, (263) a verdade é que Deus experimenta para com o pecador tanto a ira quanto o amor ao mesmo tempo, sem que haja qualquer ação contrária de um para com o outro. (264)
Em outras palavras, “Deus ama as mesmas pessoas que ele detesta [...] ele tanto ama como detesta o pecador”. (265) Deus detesta o pecador quando este se opõe voluntariamente contra a verdade e a santidade, mas o ama quando o vê arruinado pela transgressão. (266)
O amor inerente em Deus é um sentimento, mas também um princípio ativo. Como sentimento positivo, almeja o bem estar dos objetos que ele ama, e como princípio ativo, age para que seja assim. (267) Este amor tem suas manifestações na forma de misericórdia, graça, bondade e longanimidade para com as criaturas, que podem ser denominadas de amor transitivo e não se referem a algo que Deus deve a elas, nem a algo ao qual tenham direito, pois são expressões da vontade divina, o que significa que Ele as manifesta se assim o desejar. (268)
A bondade de Deus
O verbo chsd traz a ideia de mostrar-se bondoso. Sua única ocorrência está em 2Samuel 22:26, que é repetida no Salmos 18:25. (269) O substantivo chesed denota lealdade, fidelidade, bondade, (270) misericórdia e, às vezes, constante amor, lealdade, amor infalível. (271) Chesed possui um aspecto fortemente relacional. Ocorre 246 vezes no AT, sendo a metade nos Salmos. Embora seja empregada para descrever atitudes e comportamentos dos homens em seus relacionamentos, mais frequentemente descreve a disposição e as ações beneficentes de Deus para com aqueles que lhe são fiéis: tanto para de Israel, como da humanidade em geral. (272)
Por séculos chesed foi traduzido como bondade, misericórdia, amor e outras semelhantes. A LXX usa eleos, misericórdia. (273) Todavia, em 1927, Nelson Glueck publicou uma tese doutoral sobre o uso desta palavra na Bíblia, apontando para outra direção. Segundo ele, as relações de Deus com Israel eram baseadas na aliança e, portanto, chesed não significa misericórdia, mas lealdade em face das obrigações da aliança. Outros discordam veementemente e mantêm as versões tradicionais, alegando que o amor de Deus está por detrás da aliança, que era apenas sua expressão e sinal. Assim, chesed é uma das palavras usadas para descrever a bondade de Deus (Êxodo 34:6-7; Números 14:18-19; Neemias 9:17; Salmos 86:15; Jonas 4:2; etc.). (274)
Em resumo, pode-se dizer que a chesed de Deus, em todas as passagens bíblicas em que aparece, é sempre livre e não ocorre meramente por causa de uma obrigação à alguma aliança que ele fez e nem deveria ser traduzida como fidelidade. Antes, as alianças são sinais e expressões da chesed de Deus, que é o pano de fundo delas, e esta expressão é um modo de o AT dizer que “Deus é amor”. (275)
As características da divina chesed são: (1) Ela salva as pessoas de desastres ou de opressão (Gênesis 19:19; Salmos 31:7, 21; 32:10; 57:3; 59:10; 94:18; 143:12). (2) Ela é duradoura, persistente e eterna. Isso pode ser percebido: (a) pelo contraste com coisas que duram muito, mas não para sempre (Isaías 54:10); (b) por declarações do próprio Deus (Jeremias 31:3); (c) pelas repetidas declarações que aparecem no Saltério (Salmos 89:2, 28, 33; 103:17; 117:2; 138:8; 100:5; 106:1; 107:1; 136). Certo número de textos aponta para a hipotética possibilidade da perda da chesed de Deus ou de ela ter se afastado para longe (Gênesis 24:27; Salmos 98:3; 106:45; Jeremias 16:5; 2Samuel 7:15; 1Crônicas 17:13). Também há orações que suplicam pela continuação da chesed de Deus (Salmos 36:10; 2Crônicas 6:42; Salmos 138:8). A mutualidade pressuposta pela divina chesed é bastante nítida (1Reis 3:6) de modo que ela é direcionada para aqueles que seguem e amam seus preceitos (Salmos 119:149, 159). (3) Ela é considerada a base ou motivo para petição ou aproximação de Deus (Números 14:17-19; Neemias 13:22; Salmos 6:4; 44:26; 109:21). (4) Ela ocupa um lugar preeminente na vida interna e comunitária do povo de Deus. De um lado, ela os guia para Deus (Êxodo 15:13) e caracteriza seus ensinos (Salmos 119:124; 143:8) e, de outro, é o foco de suas esperanças, quando estão em dificuldade (Salmos 13:5; 17:7; 26:1-3; etc.). (5) Ela é abundante. Isso é atestado de dois modos: (a) pelas declarações cosmológicas feitas nos salmos: chesed enche a terra (Salmos 33:5; 119:64), estende-se ao céu, às nuvens ou além (Salmos 36:5; 57:10; 103:11; 108:4), e é percebida até aos confins da terra (Salmos 98:3); (b) por simples declarações: chesed é grande (Salmos 86:13), abundante (Salmos 106:7, 45; Lamentações 3:22; Neemias 13:22) e poderosa (Salmos 117:2). (6) Ela caracteriza o governo de Deus e estabelece seu rei (Salmos 89:14; 2Samuel 7:15-16; 22:51; 1Reis 3:6; 2Crônicas 1:8). (7) Ela neutraliza a ira de Deus. Algumas vezes os textos bíblicos parecem sugerir que as respostas de Deus ao pecado humano, seguem em direções opostas: uma de ira, outra de bondade. Em tais momentos a chesed de Deus exerce um papel limitador sobre a ira (Isaías 54:8; Miqueias 7:18; Lamentações 3:31-32). Desse modo, embora a ira seja uma palavra verdadeira, correta e inevitável, parece não ser a última palavra. Essa honra é reservada para chesed – o infalível amor de Deus. Diversos textos bíblicos apresentam essa dupla ideia: de chesed e da ira de Deus (Êxodo 20:5-6; 34:6-7; Deuteronômio 5:9-10; 7:9-10; Neemias 9:17; Salmos 145:8). Tanto uma como a outra brotam da mesma fonte, mas a chesed se destaca em virtude de sua superior quantidade e permanência. (276)
O hebraico também emprega tûbh, derivado da raiz tôbh, que por sua vez se refere ao “bem” ou à “bondade” com uma ampla variedade de sentidos. Um uso importante refere-se à bondade moral (2Crônicas 31:20; Salmos 34:14), inclusive a de Deus, à qual se pode recorrer em busca de perdão (Salmos 25:7) e que deve ser objeto de louvor (Salmos 145:7). (277)
A bondade de Deus é uma modalidade de seu amor. Para referir-se a ela, o NT emprega por dez vezes o termo chrēstotes, todas de autoria paulina (Romanos 11:22; Efésios 2:7; Tito 3:4). (278) É sua disposição favorável para toda a criação e independe de qualquer motivação nas suas criaturas. Quando voltada para as criaturas irracionais dá-lhes o que precisam (Jó 38:41; Salmos 145:15-16; 147:7-9); quando se manifesta aos filhos de Deus é para comunicar-lhes vida e bênção (Salmos 31:19; Efésios 2:5-7), sendo a base do galardão e levando-o a cumprir suas promessas; e quando dirigida aos homens que vivem longe de Deus, busca trazê-los ao arrependimento a fim de que não recebam a ira de Deus no dia de seu justo juízo (Romanos 2:4-5). (279)
Desse modo, somos todos convidados a considerar “a bondade e a severidade de Deus” (Romanos 11:22). Enquanto sua bondade contempla aqueles que têm fé e nela permanecem, seus juízos são direcionados àqueles que se mantém na incredulidade. Todavia, mesmo estes, se não continuarem na incredulidade, antes se voltarem para o Senhor, voltarão a ser alvos da bondade que ele manifesta para com seus filhos. (280)
A misericórdia de Deus
O AT emprega a raiz râcham, que significa amar profundamente, ter misericórdia, ser compassivo. É um profundo sentimento íntimo manifestado para com quem se tem um vínculo natural e está em posição inferior, como é o caso do amor de um pai (Salmos 103:13) ou de uma mãe (Isaías 49:15) e daquele manifestado para com as criancinhas (Isaías 13:18). Quando empregada em relação a Deus, o que ocorre na maioria das vezes, pode indicar o vínculo de Deus para com seus filhos (Salmos 103:13; Miqueias 7:18), ou o conceito da livre escolha de Deus (Êxodo 33:19) e engloba sua eleição, misericórdia e perdão (Êxodo 33:19; Deuteronômio 13:17). O reverso desta misericórdia amorosa é a ira de Deus (Salmos 77:9; Zacarias 1:12). (281)
A raiz hâmal também se refere àquele sentimento que induz alguém a livrar ou poupar aquele que é objeto de sua afeição (Malaquias 3:17), mas ainda pode exprimir a emoção de piedade (2Samuel 12:6; Lamentações 2:2; 3:43; Joel 2:18) e a consideração ou compaixão que Deus tem para com seu nome e que o leva à reagir quando ele é profanado (Ezequiel 36:21). (282)
É importante notar que o AT demonstra que a ira divina pode não apenas ser evitada, mas, às vezes, suspensa. E isso pode ocorrer não por causa do arrependimento, mas da misericórdia de Deus (Habacuque 3:2). Desse modo, a ira percorre certo caminho, a fim de servir à justiça (Neemias 13:18; Jeremias 30:24; 32:27; Ezequiel 5:13-17), mas, então um remanescente emerge, totalmente pela graça (Isaías 10:20-25). Agindo assim, Deus revelou que Israel não deveria esperar que pudesse pecar livremente e escapar da ira pelo arrependimento, mas também que, a justiça de Deus é temperada por sua misericórdia. (283)
O NT, por sua vez, emprega três palavras gregas, com seus respectivos derivados, para significar misericórdia ou compaixão. São elas: eleeō (Romanos 9:15, 16, 18), oikteirō (Romanos 9:15; 12:1; 2Coríntios 1:3) e splagxnon (2Coríntios 6:12; Efésios 4:32; 1Pedro 3:8). Originalmente elas tinham um enfoque predominantemente psicológico, de modo que eleeō referia-se ao sentimento de compaixão, oikteirō, à exclamação de dó que alguém emite ao ver o infortúnio de outro, e splagxnon, à sede das emoções, que hoje é chamado de coração. (284)
Misericórdia está diretamente vinculada à miséria. A misericórdia de Deus é uma forma de seu amor a qual é manifestada para com quem é miserável e se encontra em ruína, desgraça e necessidade (Deuteronômio 5:10; Salmos 86:5-7; 103:3-8; Marcos 1:40-41; 6:34; Mateus 14:14). Por causa dela, Deus vê o homem suportando as terríveis consequências do pecado e desesperadamente carente do socorro que unicamente ele pode oferecer e, comovido em seu coração, age, mesmo a custo do sacrifício próprio, em busca do bem temporal e da salvação eterna de quem se opôs à sua vontade. (285)
A misericórdia é tanto optativa como limitada. Deus não tem obrigação de prover redenção para os pecadores (ver Romanos 9:14-18; 2Pedro 2:4). Do mesmo modo que a onipotência, a misericórdia pode existir em Deus mesmo sem ser exercida. (286) Embora Deus seja soberano e livre para decidir e agir, ele sempre o faz em harmonia com seu próprio caráter o que inclui sua santidade, que regula e condiciona seus outros atributos. Portanto, o exercício da misericórdia tem suas condições e pode haver interesses mais elevados que requeiram que ele seja recusado. Por essa razão, ao Deus exercer misericórdia não há violação ou desistência das exigências legais, isto é, não há abolição de sua lei moral, nem redução da pena, mas, sim, a substituição de quem recebe a punição, de modo que a justiça é estritamente satisfeita através de uma pessoa vicária. Assim, a magnitude da misericórdia pode ser vista em três ações divinas: (1) ao permitir que outra pessoa assuma o lugar do pecador e receba o castigo em seu lugar; (2) em providenciar tal pessoa; e (3) em oferecer-se para ser essa pessoa. (287) Portanto, a misericórdia é um aspecto do amor de Deus e está vinculada à sua justiça. Como foi dito, “o oceano da sua misericórdia limita-se às praias da sua justiça”. (288) A misericórdia que não respeita tais limites pode ser chamada de “misericórdia pecaminosa” (289) e não faz parte do caráter de Deus. É somente quando seus justos juízos são considerados, que sua misericórdia torna-se uma vívida realidade. (290) Além disso, as Escrituras declaram que enquanto o tempo de graça continua, a ira de Deus é mesclada com elementos que expressam misericórdia. Desse modo, Deus, por ser misericordioso, não se ira facilmente (Êxodo 34:6-7; Salmos 103:8-9) e, quando irado, não retém sua ira para sempre (Miqueias 7:18-20) e na ira lembra-se da misericórdia (Habacuque 3:2). E quando sua ira cessa, ele consola (Isaías 12:1).
A graça de Deus
O verbo chânan possui a ideia de favorecer, ser benévolo para, generoso para com, ter compaixão de; ser favorecido, suplicar por graça (291) (Salmos 31:9; 51:1). Aparece 78 vezes no AT (292) e quando a conotação é de mostrar favor, geralmente tem a Deus como sujeito (41 vezes). (293) É empregado para descrever a ação de um superior para com um inferior que não tem direito a um tratamento clemente e a reação sincera de alguém que tem algo a dar a outro que está em necessidade. (294)
O substantivo chen possui o significado de graça, favor, encanto (295) e é utilizado 69 vezes, tendo na grande maioria das ocorrências, um significado secular e não teológico. Ele aparece 43 vezes em frases que têm a ideia de “encontrar favor aos olhos de” (Gênesis 6:8; 39:21; Êxodo 3:21; 33:12) (296) sendo que destas, 24 vezes é usado para Deus (Gênesis 30:27). Como acontece na atualidade, os antigos olhavam nos olhos de outrem para perceber sua disposição favorável ou não. Embora a face de Deus não possa ser vista, a expressão foi mantida para falar também da disposição de Deus. (297)
A graça divina não é apenas uma questão espiritual, mas diz respeito a todos os aspectos da vida, como fica evidente nas fórmulas usadas para abençoar (Números 6:25; Salmos 67:1). Desse modo, Deus, em sua graça, provê alimento para o faminto (Salmos 111:4-5), boa colheita para os homens (Salmos 67:1), salvação para quem sofre uma grande aflição (Salmos 126:1-6), vindicação para os que são oprimidos (Salmos 103:6-8), perdão para o pecador (Salmos 103:8-10), regozijo para o triste (Salmos 30:10-11) e muitas outras obras de bondade e compaixão (Salmos 145:8-9). (298)
O favor de Deus pode ser assegurado através de uma resposta humana positiva (lealdade, Provérbios 3:3-4; justiça, Gênesis 6:8-9; arrependimento, Isaías 30:19), mas Deus pode reter tal favor em razão de uma resposta humana pecaminosa (Jeremias 16:13) ou por causa dos propósitos divinos mais amplos (Josué 11:20). Deus também pode escolher estendê-lo em paciência para com aqueles que ainda não se arrependeram (Neemias 9:17, 31), ou para com aqueles cuja resposta é questionável (Gênesis 33:5, 11), ou unicamente por causa de suas promessas (2Reis 13:23), ou em vista de seus propósitos para com Israel (Esdras 9:8).
Assim, a graça de Deus está estabelecida, não no que as pessoas fazem, mas na disposição divina de ser gracioso, além de qualquer esquema humano (Êxodo 33:19; 34:6). Os apelos à graça divina são apresentados não com base em nossa justiça, mas em razão da grande misericórdia de Deus (Daniel 9:18). (299)
O adjetivo channun – gracioso – ocorre 13 vezes, sempre se referindo a Deus (exceto em Salmos 112:4) e geralmente vem emparelhado com râhum, misericordioso (Êxodo 34:6). (300) Este adjetivo descreve os atos graciosos de Deus e a maioria dos textos que o empregam, falam também de seu julgamento sobre o mal, de modo que sua graça é revelada junto com sua justiça (Êxodo 34:6-7; Números 14:18; Salmos 86:15; 103:8; 145:8; Joel 2:13; Jonas 4:2). (301)
A palavra “graça” (charis) foi amplamente usada em uma variedade de significados associados na literatura grega clássica, na LXX e no NT. Originalmente referia-se a algo muito agradável ou atrativo em uma pessoa, algo que trazia prazer aos outros, transmitindo as ideias de beleza, graciosidade, amabilidade e outras que deleitam o agraciado, o que pode ser visto em Salmos 45:2; Provérbios 1:8-9; Lucas 4:22; e Colossenses 4:6. A partir daí passou a ter a ideia de favor, boa vontade ou bondade feitos para outro ou um presente que traz prazer ao outro (ver Lucas 2:40; Atos 2:47; 7:10; 46). Do ponto de vista de quem recebe, foi usada para referir-se à gratidão sentida por um presente ou favor (ver Lucas 17:9; 1Coríntios 15:57; 2Coríntios 8:16). (302)
Embora, com exceção de Lucas, a palavra “charis” ou seus cognatos não apareça nos sinóticos, está implícita nos ensinos e nas obras de Jesus (303) e ocorre cerca de 150 vezes no NT onde frequentemente parece ter um significado especial não encontrado completamente em nenhum outro lugar: o amor salvador de Deus para os pecadores como revelado em Cristo, o que é destacado especialmente nos escritos de Paulo, como pode ser visto em Romanos 5-6; Efésios 1:5-8; 2:7-9; Tito 2:11; 3:7. (304)
De fato, a graça de Deus é um aspecto essencial de seu amor. É o amor de Deus visto na relação com o pecado e manifestado apenas para aqueles que são pecadores e indignos e que age para com eles com bondade e generosidade, suprindo-lhes com favores, não na base de seus méritos ou valor, mas de acordo com suas necessidades. É, mais especificamente, o amor em ação, todo inclusivo, expandindo-se mais e mais para prover a redenção dos pecadores. Todavia, não é apenas um sentimento de compaixão e boa vontade em perdoar, mas um poder ativo, energizante, capaz de transformar e salvar o maior pecador mantendo-o numa correta relação com Deus (Romanos 5:21; 1Coríntios 15:10; 2Coríntios 12:9). Como disse o apóstolo, “é o poder de Deus para a salvação” (Romanos 1:16). (305)
Os anjos de Deus, que nada conhecem de pecado, gozam do amor de Deus e da bondade que ele manifesta para com suas criaturas, mas nunca receberam sua graça, porque dela nunca necessitaram. (306) Mas e os anjos que pecaram? As Escrituras afirmam que “Deus não poupou anjos quando pecaram, antes, precipitando-os no inferno, os entregou a abismos de trevas, reservando-os para juízo” (2Pedro 2:4). Deus não manifestou graça para com eles. Não elaborou um plano para dar-lhes nova oportunidade, para salvá-los de sua condição e restaurá-los (ver Hebreus 2:16) (307). Poderia ter feito o mesmo com a raça humana. Não tinha necessidade de nos salvar. Por ser Criador e Soberano, ele é livre para decidir e atuar como lhe agrada (ver Romanos 9:15, 20-21). Portanto, graça não é dívida, não pode ser cobrada. Foi por sua livre vontade que ele decidiu salvar a humanidade, manifestando-lhe sua graça. (308)
Na verdade, há alguns atributos divinos que, embora façam parte de seu caráter, estavam ocultos em seu ser e jamais teriam sido conhecidos por suas criaturas não fosse o surgimento do pecado. Sua manifestação não seria necessária nem pertinente em um universo santo e perfeito. São eles: a ira, a graça, a misericórdia e a longanimidade. Todos expressam a reação de Deus face ao pecado (309) e são endereçados a toda humanidade. Por um lado, todos os homens estão debaixo da ira de Deus (Romanos 1:18; Efésios 5:6; Romanos 3:10-12; Efésios 2:3; 1João 1:8, 10) e, por outro, todos igualmente são alcançados pela graça, pela misericórdia e pela longanimidade de Deus (Romanos 2:4; 3:25; 5:18, 20; Tito 2:11; 2Pedro 3:9, 15). Como será demonstrado posteriormente, a ira de Deus possui um aspecto histórico e outro escatológico. (310)
Embora a ira final resulte na destruição de todos que rejeitarem a graça, (311) a ira presente tem seus aspectos positivos (312) que cooperam com a graça visando a salvação do homem. Portanto, é do interesse de cada ser humano submeter-se à graça de Deus a fim de escapar da ira futura que virá no dia do juízo. (313)
A longanimidade de Deus
A longanimidade de Deus é expressa no hebraico pela expressão erekh ’appayim (Êxodo 34:6; Números 14:18; Salmos 86:15; 103:8; Isaías 48:9; Naum 1:3) literalmente, “longo de rosto”, e a partir daí transmite a ideia de lentidão para a ira e para punir o erro. No grego a expressão é makrothumía (Romanos 2:4; 9:22; 2Pedro 3:15), literalmente, “grandeza de ânimo” – para amar e esperar, perdoar e esquecer. É o aspecto da bondade de Deus que tolera o pecador, apesar de sua demora no mau caminho. Fica entre os extremos da ira e da graça e se manifesta quando Deus adia, temporariamente, o merecido julgamento e continua a oferecer salvação e graça por longos períodos de tempo, dando espaço para arrependimento e conversão (1Timóteo 1:16; Apocalipse 2:21). Este procedimento pode ser visto em seu trato com Israel (Números 14:18; Salmos 103:8-9) e com os antediluvianos (1Pedro 3:20) e, na atualidade, com o mundo em relação ao retorno de seu Filho (2Pedro 3:9). (314)
O NT também traz a palavra anochē, empregada apenas em Romanos 2:4 e 3:25, em ambos os casos traduzida geralmente como tolerância e referindo-se à longanimidade de Deus, sem qualquer distinção nítida de makrothumía. (315) Significa conter, fazendo referência ao juízo. É empregada na literatura grega, às vezes, para referir-se a uma trégua, a qual implica na cessação das hostilidades das partes em conflito. Semelhantemente, a longanimidade de Deus com a humanidade é uma espécie de trégua divina temporária que Ele tem proclamado em Sua graça. (316)
Todavia, há o perigo de o homem abusar da longanimidade de Deus, o que ocorre quando ao invés de gratidão e correto aproveitamento da oportunidade para arrependimento e reforma de vida, há manifesto desprezo para essa longanimidade. Aqueles que assim procedem imaginam que por ser Deus longânimo e por frequentemente reter a condenação e a punição merecidas, não cumprirá as ameaças que fez, ou que, por alguma razão, estão excluídos da punição judicial de Deus (como foi o caso dos judeus que confiavam que sairiam ilesos por serem o povo da aliança e por seu parentesco com Abraão (ver Mateus 3:7-9; Lucas 13:28-29; Romanos 9:6-8; Gálatas 3:7). (317)
Embora Deus seja longânimo para com a humanidade pecadora, esta longanimidade tem um limite temporal, além do qual sua ira permanece. (318) Se for desprezada ou abusada (1Pedro 3:20), servirá para exasperar a ira de Deus e para confirmar a destruição anunciada, resultando em grande severidade no juízo, como o que ocorreu com Faraó. (319)
Ao tratar desse tema, o NT também emprega o substantivo paresis, “tolerância”, (320) que aparece unicamente em Romanos 3:25 e significa “deixar passar”, “passar por alto” ou “deixar ir sem castigo”. (321) Paresis era uma palavra usada na Lei Romana, onde, geralmente referia-se a alguma pessoa que fez um testamento e que deixou de fora alguém importante que, portanto, não entrou em consideração, foi passado por alto, esquecido intencionalmente. (322)
Ao usar esta expressão Paulo não se refere à remissão, ao perdão para os pecados passados, mas à suspensão provisória da pena desses pecados. (323) Desse modo, embora os pecados ainda continuem a ser castigados (ver Romanos 1:18-32), ainda que não completamente, Deus, ao invés de intervir a cada instante, prefere aguardar e suportar até que chegue o tempo de tratá-los de modo definitivo. (324) O Senhor não se esqueceu dos pecados passados, todavia não se ocupou deles de imediato. (325) Houve um adiamento do julgamento. (326)
A Ira de Deus Comparada à Ira do Homem e à Ira dos Deuses
A expressão “ira de Deus” costuma alarmar as pessoas. Isso ocorre porque a tendência do pensamento humano, que frequentemente aprende por comparação, é identificá-la com os aspectos negativos tão comuns nas demonstrações da ira humana e nos relatos mitológicos das divindades pagãs. Todavia, embora haja alguma semelhança, há grandes diferenças.
A Ira do Homem
De modo geral a ira é a expressão de um sentimento experimentado diante de uma situação injusta ou contrária à nossa vontade.
Aspectos negativos e positivos
Este sentimento frequentemente está associado à exasperação desaforada, ao ódio vingativo e à paixão descontrolada e irracional, podendo nos fazer perder o equilíbrio e até o juízo e nos levar a cometer atropelos e injustiças. (327) Embora seja definida como “uma loucura temporária”, isso só é verdade quando ela é egoísta ou pecaminosa, o que nem sempre acontece. Há uma ira justa que nem é loucura, nem é breve. (328) Embora pecador, e por isso imperfeito, o homem pode ter ira sem maldade, como a que ocorre em face de uma grave injustiça feita à outra pessoa, sendo neste caso uma ira boa e necessária. (329)
No AT, a ira humana é às vezes encarada de modo negativo, como um pecado (Gênesis 49:5-7; 1Samuel 20:30; Jó 36:13 e 18; Salmos 37:8-9; Provérbios 12:16; 27:3-4; 29:8; 30:33) e outras, de modo positivo, como algo justificável (Êxodo 16:20; 32:19; 1Samuel 11:1-6; 2Samuel 12:5; Neemias 5:4-6; Jeremias 6:11-15). (330) Isso também é válido quanto ao NT. Assim, quando uma autoridade secular, representando o Estado, pune um criminoso, não o faz em espírito de vingança, mas por vindicação da lei, que representa a estabilidade social (ver João 19:11; Tito 3:1; 1Pedro 2:13-17), sendo vista como ministro de Deus para castigar (literalmente “executar ira”) sobre o que pratica o mal (Romanos 13:4). Todavia, em outras situações somos instados a dar lugar à operação da ira de Deus em lugar da nossa (Romanos 12:19; Hebreus 10:30). (331)
Comparação com a ira de Deus
O termo “ira de Deus” sugere, algumas vezes de modo inconsciente, aquelas qualidades negativas que podem ser associadas com a ira humana e, desse modo, as pessoas confundem a ira divina com os seus próprios sentimentos pecaminosos e a expressão “ira de Deus” contribui para perverter a concepção de Deus, criando por um lado uma forte objeção e, por outro, uma atitude de desculpar a Deus por ele mostrar sua ira, como se isso fosse uma falha de seu caráter. Todavia, a ira humana é frequentemente uma ira que está corrompida. Deus é santo legislador e tem toda razão de mostrar o seu desprazer para com o pecado. Sua ira tem um caráter judicial (ver Romanos 13:4-5). (332)
Ao se comparar a ira de Deus com a ira humana pecaminosa percebe-se que: (1) No homem é uma paixão maligna que perturba o equilíbrio emocional e o faz arder com o desejo de ferir a outros. Mas não há nenhuma malignidade no coração de Deus. Antes, sua ira provém de seu amor e se levanta contra o mal que quer arruinar suas criaturas. (333) (2) No homem é uma paixão dolorosa que frequentemente prejudica mais quem a abriga do que aquele a quem é endereçada. Todavia, nada pode perturbar a paz de Deus. (334) (3) No homem é uma paixão egoísta, pois desponta em quem se sente de algum modo prejudicado. Mas isso não acorre com Deus, o qual nunca pode ser prejudicado por alguém. (335) (4) A ira humana se volta contra a ofensa, ou o ofensor, ou ambos, e pode resultar em recolhimento e antagonismo. Há algo assim na ira de Deus. O mal moral lhe é repugnante e extremamente desagradável em razão de sua natureza santa, e sua indignação pode resultar em seu abandono do pecador contumaz ou no envio de seus juízos contra ele. (336) (5) No homem há uma tendência natural para a vingança pessoal, o que não ocorre com a ira de Deus. Isso pode ser percebido no fato de que dificilmente um homem irado consentiria em transferir sua ira, canalizando-a para uma pessoa perfeitamente inocente; contudo, foi isso o que Deus fez, quando transferiu para Cristo a responsabilidade por nossos pecados. (337)
Portanto, a ira de Deus não é como a do homem, não é paixão maligna, não é fundada no egoísmo, nem tem conotação de vingança pessoal. Ao contrário, é sempre uma reação contra uma única ação: o mal. Assim, é inteiramente previsível, coerente, constante e imutável, sempre em harmonia com sua justiça e até o dia final do julgamento temperada com misericórdia. (338)
A Ira dos Deuses
A ira dos deuses é o fundamento de todas as religiões pagãs, em todas as épocas e lugares. (339) Ela tem sido tão vividamente apresentada à consciência de todos os povos, ao ponto que cada culto pagão pode ser entendido como um esforço para antecipar-se a ou suavizar a ira dos deuses. O próprio nome de alguns deles, como é o caso de “Fúrias”, mostra que ira é sua natureza. (340) Cícero chegou a afirmar que todas as escolas filosóficas têm em comum o conceito de que a divindade tem liberdade para se enraivecer. (341)
Segundo a compreensão pagã, a ira dos deuses era direcionada de modo a atingir a outros deuses ou aos homens e, em ambos os casos, era uma forma de autoafirmação e protesto. (342) Algumas obras da antiguidade contêm muitas informações a respeito das divindades. Entre elas destacamos “Timeu”, de Platão, “De natura Deorum”, de Cícero e “Teogonia”, de Hesíodo, que explana a origem e a descendência dos deuses. Um erudito romano, Marcus Terentius Varro Reatinus, catalogou cerca de 30 mil deuses pagãos. Todavia, a realidade aponta para um número incalculável. (343)
No Oriente Médio
Há numerosos textos do Oriente Médio que tratam da ira dos deuses. Parte dessa literatura pagã seguia uma orientação mitológica, e parte, uma orientação histórica. (344) Os documentos que seguem uma abordagem mitológica evidenciam que havia vários deuses, de várias categorias e graus de poder, de temperamento inconstante, cheios de caprichos, que se rivalizavam, ofendiam e irritavam por qualquer motivo contra os homens, dificultando-lhes a existência; estes, por sua vez precisavam, periodicamente, negociar com eles e aplacar-lhes a ira, o que era feito mediante dádivas custosas, em especial o sacrifício humano. (345)
A grande maioria desses textos tem seu foco no mundo dos deuses e no relacionamento que há entre eles. As descrições antropomórficas e da antropopatia tendem a ser especialmente intensificadas: há deuses que se embriagam até ficarem bêbados, que são estimulados sexualmente, que ficam amedrontados, surpresos, cheios de alegria ou mal-humorados e vingativos. Desse modo, as divindades das várias culturas ao redor de Israel são retratadas como instáveis, arbitrárias, atuando sem propósito e frequentemente ficando iradas sem nenhuma boa razão. Aparentam ser dotadas de uma paixão maliciosa e incontrolável que costuma caracterizar uma personalidade implacável.
Examinemos uns poucos exemplos: no mito de Atrahasis, os deuses permitem que Enlil, o deus da tormenta, destrua a humanidade por meio de um dilúvio, em razão desta haver se multiplicado tanto que o barulho que fazia não deixava os deuses, especialmente Enlil, dormir à noite.
Do mesmo modo, no Épico de Gilgamesh, foi Enlil quem ficou muito furioso quando viu o bote que Utnapishtin fizera para se salvar e percebeu que seus planos haviam sido frustrados. É bastante comum que nesses textos um deus irado precise ser acalmado por outros deuses que receiam que essa ira saia do controle. Ainda no Épico de Gilgamesh, Ishtar – a deusa do amor e da guerra – é apresentada como uma amimada adolescente que, ao ser contrariada por Gilgamesh, muito irada e chorosa, suplica a seu pai Anu que destrua Gilgamesh, porque ele lançara sobre ela muitos insultos chamando a atenção para o seu mau comportamento. (346)
Em acádio há dois vocábulos para ira: agâgu designa uma irritação momentânea e ezēzu, uma qualidade permanente. Nos hinos sumérios a ira dos deuses aparece algumas vezes como um entre outros atributos que causavam terror, sendo que esses deuses podiam estar encolerizados entre si ou enraivecidos contra os homens, por causa dos pecados destes. Também havia orações próprias para aplacar as divindades. (347)
Na religião dos hititas, os deuses eram obrigados a castigar os homens quando estes não cumpriam seus deveres ou quando se rebelavam contra o domínio daqueles. Tal castigo podia não ocorrer de imediato, podia até mesmo não vir sobre o culpado, mas sim sobre toda sua descendência. (348) Se a desgraça que se abatesse sobre um homem tivesse sua origem em um deus irado, era necessário primeiro identificar tal divindade e, depois, descobrir o que lhe oferecer para conseguir seu favor e assim ter a alegria de viver. (349)
Os deuses egípcios também tinham suas invectivas apaixonadas. A deusa Neith, por exemplo, promete irar-se e fazer com que o clima entre em colapso se Horus, seu favorito, não for escolhido para substituir Osíris. Em outro mito, a sanguinária divindade Sekhmet, investe contra a humanidade para aniquilá-la, todavia esta é salva pela intervenção de outros deuses. Também o deus Seth é tão vividamente retratado que veio a ser conhecido como “o furioso”. Sua ira irracional contra a ordem ideal parece representar todos os aspectos caóticos do mundo. (350)
No panteão cananeu havia, por exemplo, Moloque, o deus dos amonitas, também conhecido como Milcom (1Reis 11:5, 33) e Malcom (Juízes 49:1, 3), o qual exigia o sacrifício de crianças, queimadas em sua honra. Em Israel seu culto era proibido sob pena de morte (Levítico 18:21; 20:1-5); todavia, em certos períodos, tanto o povo como seus reis praticaram essa terrível idolatria (2Reis 17:17; 2Crônicas 28:3; 33:6) tão veementemente condenada pelos profetas (Jeremias 7:29-34; Ezequiel 16:20-22). Escavações feitas na Palestina descobriram restos de esqueletos calcinados de criancinhas, ao redor dos santuários dessa divindade. (351)
Também Quemós, a divindade nacional dos moabitas (Números 21:29), era honrada com ritos cruéis semelhantes aos oferecidos a Moloque. A fúria dessa divindade está registrada na Pedra Moabita como a razão para o domínio de Israel sobre aquele povo (Juízes 11:24). (352)
Entretanto, há textos pagãos, orientados historicamente (e não mitologicamente), que retratam a ira dos deuses como um tipo de pathos (paixão, tristeza (353)), legitimamente ocasionada por ofensas humanas contra a justa vontade daqueles deuses. Nesses textos as transgressões humanas que tendem a provocar uma ira legítima dos deuses são: o desdém para com o templo do deus e a violação de um juramento solene, (354) mas também a transgressão de alguma das exigências fundamentais da vida, da moralidade, ou da lei. Assim, não era uma ira cega, pois visava a colocar limites e a restaurar a ordem. (355)
Nesses textos orientados historicamente, a ira dos deuses pagãos era mais semelhante à ira de Deus entre os israelitas, uma ira legítima. Um exemplo é aquele da Pedra Moabita. (356) Tanto na literatura pagã quanto na Bíblia, o desprezo manifestado para com a divindade e a busca de uma vida independente dela são apresentados como razão para a ira divina. (357) Contudo, enquanto que a ira dos deuses do antigo Oriente Médio precisava ser, com frequência, restringida pela intervenção de outros deuses, o Deus da Bíblia é frequentemente retratado como temperando sua ira contra Israel com clemência e amor (Êxodo 32:12-14; Isaías 54:7-8; Oseias 11:8-9; Miqueias 7:18), e até como tendo o desejo de restringir sua própria ira. (358)
No mundo grego
Um dos vários elementos unificadores das cidades gregas foi a religião, pois ao menos algumas crenças e ritos eram comuns a todas elas. (359) O chefe do Olimpo era Zeus. Ele e seus irmãos tiraram sortes entre si para dividirem o comando da terra. Desse modo, “Zeus” ficou com o domínio do céu, “Posseidon” com os oceanos e “Hades”, com as entranhas da terra. Além desses, havia outros deuses principais, que habitavam o Olimpo – todos provavelmente introduzidos na Grécia através das invasões dos aqueanos e dóricos – os quais sobrepujaram as divindades locais.
Esses deuses olímpicos não eram onipotentes nem oniscientes, antes se imitavam e mesmo se opunham uns aos outros, sendo que qualquer um deles poderia ser enganado, inclusive Zeus. Este tinha suas amantes: a primeira foi Dione, a quem depois abandonou; outra, Metis, foi engolida por ele; e também Temis, Eurinome, Leto e até suas irmãs Demeter e Hera, esta última muito briguenta. (360) Posseidon – que comandava os oceanos, os rios e as fontes de águas – era muito temido e a ele os navegantes gregos erguiam preces e erigiam templos nos promontórios perigosos com a intenção de aplacar sua ira. Até as nações desprovidas de mares o adoravam. (361)
Além dos deuses do Olimpo, comandados por Zeus, havia as divindades locais que não seguiam a orientação dele e cujos cultos eram mais intensos. (362) Os mais terríveis deuses habitavam as entranhas da terra. Hecate, por exemplo, um espírito mau, terrível e assombroso, saía da terra e espalhava a desgraça por toda parte onde incidia seu olhar. (363)
Na Grécia antiga, todos os objetos e forças que havia na terra e no céu, todas as bênçãos e todos os terrores, bem como todas as qualidades do homem, eram personificados nos deuses, em geral de forma humana, de modo que nenhuma outra religião foi tão antropomórfica quanto a grega. Além disso, todo ofício, profissão ou arte possuía um deus como patrono. E ainda havia demônios, harpias, fúrias, fadas, monstros, sereias e ninfas – tão numerosos quanto os homens. (364)
Às vezes, em ocasião de grande necessidade, havia sacrifícios humanos. Assim, Agamenon imolou sua filha Ifigênia em troca de um vento favorável que lhe movesse as naus; Aquiles queimou 12 rapazes troianos em uma pira fúnebre; vítimas humanas foram ofertadas a Dionísio e outras lançadas do alto dos penhascos de Chipre e Leucas para saciar Apolo; e os espartanos celebraram os festejos de Artemis Ortia reunindo meninos em seu altar e chibatando-os até a morte. (365) Entretanto, com o correr do tempo, os ritos e mitos mais selvagens foram desaparecendo e houve um governo divino mais organizado, o que nada mais era do que um reflexo do desenvolvimento da estabilidade política da região. (366)
Inicialmente a ira dos deuses não era abordada mediante o uso de orgê, que não é uma palavra homérica, mas cholos (cólera), kotos (rancor), mēnis (ira) e seus verbos associados. Esta última era uma palavra utilizada quase que exclusivamente na esfera sacra. Apenas na literatura de tragédia passou-se a usar orgē para a ira dos deuses. Mais tarde, orgē adquiriu uma conotação negativa e foi tida como uma paixão inapropriada aos homens e aos deuses. (367)
No mundo romano
Percebe-se também nos grandes historiadores romanos como Tácito e Tito Lívio que a forma de pensamento cúltico e religioso adquire uma significância histórica que nunca havia tido para os gregos. Assim, entre os romanos já havia a ideia de que a ira da divindade cai especificamente sobre os ímpios, aqueles que desrespeitam os deuses. Para eles, a estabilidade do estado e do governo residia essencialmente sobre a religião, de modo que os eventos desastrosos que ocorriam na vida política e histórica – tais como dissensões internas, lutas de classes, guerra civil e rebelião, além das doenças e dores ao homem particular – eram vistos como relacionados à ira dos deuses, motivada especialmente pela culpa religiosa e a negligência às cerimônias. (368) Entretanto, eles também apresentam a possibilidade de se contrabalançar tal ira, e mesmo promover a reconciliação, através de ações cúlticas tais como orações, votos, sacrifícios e ritos de expiação. (369)
No pensamento pagão, os deuses com frequência se iravam contra os homens, mas esta ira podia ser aplacada e a boa vontade deles assegurada por iniciativa do ofensor, que ofertava um sacrifício conciliatório. Entretanto, no AT o procedimento é outro, pois a conciliação é realizada pelo próprio Deus e não pelo transgressor. (370) Além disso, a ira de Deus não é caprichosa nem possui aquelas qualidades antiéticas tão comuns nos relatos da ira dos deuses pagãos. (371) Também é relevante que o NT, ao tratar da ira de Deus, seguindo a LXX, não emprega as palavras gregas utilizadas para descrever a ira dos deuses – cholos (cólera), kotos (rancor) e mēnis (ira) e seus verbos associados – mas apenas orgē e thumos. (372)
Desse modo, o conceito da ira de Deus, que é comum em Paulo, deriva da apocalíptica judaica do AT e não da tradição grega. (373)
Resumo e Conclusões
Ao discorrer sobre o significado da ira divina, este capítulo iniciou com uma discussão linguística que abarcou o emprego de expressões antropomórficas e da antropopatia nas descrições das características de Deus, ambas revelando que a ira é sua aversão ao pecado, contra o qual trava um combate sem tréguas. Na sequência, foram analisados os vocábulos hebraicos e gregos que os escritores bíblicos empregaram para retratar a ira de Deus.
No AT vários deles possuem um caráter figurado: chârôn e chêmâh designam o ardor, a excitação, o fogo interno da emoção do ódio; ’aph (literalmente “nariz”) e rûah (alento) reproduzem o efeito da ira sobre a respiração e seus órgãos; ‘ebhrah, za‘am, za‘aph, transmitem a ideia de “espumar” ou “ferver” e qetseph, a de quebrar alguma coisa sob pressão. Portanto, a ira de Deus é descrita como uma paixão violenta que, pelo menos em algumas circunstâncias, necessita ser descarregada para acalmar-se (Ezequiel 5:13; 6:12; 7:8; 13:15; 16:42; 24:13). (374)
Já no NT são utilizadas apenas duas palavras, orgē e thumos, e não há diferença muito significativa entre elas, sendo que ambas são empregadas para traduzir as várias palavras do AT para ira. (375) Também não há nenhuma distinção precisa entre a ira como uma emoção divina e sua expressão, seja esta por meio de palavras – de ameaça e de maldição – ou de ações mais concretas. (376)
O estudo também avaliou a relação entre a ira e os outros atributos morais de Deus, de maneira especial a santidade, a justiça e o amor em suas várias formas. Assim, em relação à santidade, foi visto que em Deus há perfeição moral e espiritual e que ele demanda de todos os seres morais uma pureza que corresponda a sua, de modo que sua ira é apresentada como uma das perfeições divinas, expressão justa e natural de sua santidade como reação contra o pecado.
Com respeito à justiça de Deus, foi demonstrado que toda punição do pecado é considerada como justa intervenção da ira de Deus contra aqueles que não se conformam com sua santidade. Todavia, porque isso não acontece como um princípio de efeito automático, há a impressão de que o governo divino não é justo. Para se evitar essa ideia, faz-se necessário que a justiça divina seja vista também como escatológica e no escopo da eternidade. Então, quando o plano de salvação se concretizar, essa justiça será vista como perfeita e Deus, considerado justo por todo o universo, tanto pelos que serão salvos quanto pelos que se perderão.
As considerações sobre o amor de Deus demonstraram que este não é simplesmente um sentimento ou emoção, mas um amor racional e voluntário que se baseia numa escolha deliberada, onde o componente emocional se encontra subordinado à verdade e santidade. Embora Deus ame suas criaturas de muitas formas (misericórdia, graça, bondade, longanimidade), também espera que elas correspondam ao seu amor. Este amor de Deus não pode apenas ignorar as ofensas do pecado, caso contrário não passará de mero sentimentalismo. Para ser compreendido, necessita incluir os aspectos da justiça e da santidade que se opõem ao mal em todas as suas formas e àqueles que o rejeitam.
Sendo assim, a ira de Deus, além de ser a mais verdadeira expressão de sua santidade e justiça punitiva contra o pecado, é também a reação do seu amor desprezado ou abusado. Em realidade, as evidências bíblicas apontam para o fato de que sua ira não é incompatível com seu amor e que tais atributos coexistem em sua personalidade e que, além disso, Deus experimenta simultaneamente, para com o pecador, tanto a ira quanto o amor: a ira, por causa da falta de santidade nele, e o amor, em razão de sua necessidade.
A comparação da ira de Deus tanto com a ira humana quanto com a ira dos deuses da mitologia pagã, demonstrou que a ira divina não inclui muitos dos aspectos negativos tão comuns a estas. Antes, é sempre seu desprazer e reação contra o mal, inteiramente previsível, coerente, constante e imutável, em perfeita harmonia com sua justiça e santidade, e até o dia final do julgamento, temperada com misericórdia, que busca de uma maneira adequada, preservar a ordem e promover a paz.
Pesquisas feitas no Oriente Médio descobriram que embora haja textos de orientação mitológica, que apontam para a ira dos deuses como um tipo de paixão maliciosa e temperamental, que frequentemente caracteriza uma personalidade insensível, há outros, de cunho histórico, que retratam a ira dos deuses como um sentimento admissível, ocasionado por ofensas humanas que violavam alguma das exigências fundamentais da vida, da moralidade, ou da lei, e que visava, deste modo, a coibir excessos e a restaurar a ordem.
A história da Grécia revela que todos os objetos e forças que havia na terra e no céu, todas as bênçãos e todos os terrores, bem como todas as qualidades do homem, eram personificadas nos deuses. E ainda havia demônios, harpias, fúrias, fadas, monstros, sereias e ninfas – tão numerosos quanto os homens. Nenhum deles era onipotente nem onisciente, antes rivalizavam entre si e, por vezes, voltavam-se contra os homens. Com a intenção de aplacar sua ira, erigiam-se templos, faziam-se preces e ofereciam-se sacrifícios, inclusive humanos. Entretanto, com a passagem do tempo e o desenvolvimento da estabilidade política da região, essas cerimônias mais selvagens foram desaparecendo.
Também entre os romanos já havia a crença tanto de que a estabilidade social e individual repousava sobre a religião – de modo que todos os eventos desastrosos eram resultados direto da ira dos deuses – como de que era possível abrandar essa ira através de orações, votos e sacrifícios conciliatórios. Em contrapartida, embora seja um fato que o Deus da Bíblia, por um lado, também se ira contra aqueles que transgridem suas leis e busca manter a ordem do universo aplicando o devido castigo, por outro, ele é retratado como mesclando sua ira com compaixão e amor e mesmo tendo a iniciativa de restringi-la e de promover a reconciliação.
O capítulo a seguir expõe a realidade da ira de Deus no mundo dos homens: o que a desperta, como acontece e seus resultados, bem como a forma como ela cumpre os propósitos de Deus e beneficia o universo. (Clique aqui e vá para as Referências bibliográficas) ou (Clique aqui e volte para o Sumário) ou (Clique aqui e vá para o capítulo 2: A Realidade da Ira de Deus).

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A Ira de Deus – Emilson dos Reis – CAPÍTULO 2 – A REALIDADE DA IRA DE DEUS – Ligado na Videira

A REALIDADE DA IRA DE DEUS
Uma simples leitura das Sagradas Escrituras é suficiente para se constatar a contínua presença da ira de Deus no mundo dos homens. Por vezes, ele abandona os homens que teimosamente recusam seu auxílio, retirando deles sua mão restritiva e protetora, e permite que sofram as consequências naturais de seus pecados. Em outras ocasiões, ele lhes envia a punição que seus pecados merecem, tanto no decorrer de sua vida como no juízo final.
Os registros bíblicos demonstram que ao enviar seus justos juízos sobre os homens Deus faz uso de variados instrumentos, tais como anjos, homens, forças da natureza, pragas, doenças e acidentes. As manifestações de sua ira possuem dois aspectos, um histórico e outro escatológico. Desse modo, embora no presente ela esteja sendo revelada na experiência daqueles que se distanciam da verdade de Deus, ainda resta uma manifestação futura e final que ocorrerá na vinda do Senhor e no juízo final. Todavia, as Escrituras também enfatizam que o escape da ira divina é possível e que foi o próprio Deus que, em seu amor, o proveu em Cristo, e que o mesmo se encontra disponível a todo aquele que nele crer e a ele se submeter.
A Ira de Deus no Antigo Testamento
O texto do AT está repleto de informações a respeito da ira divina. Patriarcas, reis e profetas a descreveram. Uma análise de suas narrativas e profecias torna evidente o que a causava, quais seus efeitos sobre aqueles que a recebiam e o tempo em que ela se manifestava.
As Causas da Ira de Deus
Ao se considerar o tema da ira de Deus, no AT, percebe-se que há basicamente duas causas. Na maioria das ocorrências ela é causada por ações humanas que violam a aliança, mas também pela desumanidade do homem para com os semelhantes.
A quebra da aliança
Escavações arqueológicas realizadas no Oriente Médio descobriram documentos, na forma de tabletes, de culturas vizinhas ao antigo Israel, os quais revelam que eram comuns dois tipos principais de tratados internacionais. Um deles ocorria entre partes iguais, com obrigações idênticas de ambas as partes; (1) o outro, era feito entre um superior e um inferior, (2) como o que acontecia entre um suserano e seu vassalo. (3)
Os tratados hititas – feitos com uma nação inferior – continham, entre outros itens, um prólogo histórico que relembrava o relacionamento já ocorrido entre as partes, destacando a bondade manifestada pelo superior para com o inferior, dando assim motivo para este ser grato e obediente aquele. Outros tratados, feitos entre um suserano e seu vassalo, também continham um procedimento básico que indicava a penalidade que ocorreria se a parte inferior se negasse a cumprir o que fora estipulado pela parte superior.
Enfim, fazer uma aliança foi o modo encontrado pelo mundo antigo para formar relacionamentos mais amplos que garantissem uma maior segurança, e todo este procedimento proveu o contexto cultural em que a aliança entre Deus e Israel foi formulada. Tal aliança, feita no Sinai – embora fosse singular no sentido de que não ocorreu com nenhuma outra nação e colocasse Israel num relacionamento especial com Deus – corresponde ao padrão deste tipo de tratado. (4) Ela ocorrera por iniciativa divina como um ato de graça soberana (ver Deuteronômio 4:13, 23, 32-40; 29:13) com um povo que ele mesmo redimira (Deuteronômio 26: 13:5; 21:8) e estipulava, por um lado, que Deus adotara Israel como seu povo e que por isso o protegeria e abençoaria ricamente e, por outro, que Israel lhe seria santo (Levítico 19:2; 11:44; 20:7, 26) e obediente (ver Êxodo 20-24). Se cumprissem com sua parte gozariam do favor e das bênçãos de Deus (Deuteronômio 7:12-24; 28:1-13), mas se falhassem receberiam as maldições (Deuteronômio 28:15-68) e a ira de Deus (Deuteronômio 6:10-19).
Além disso, é teologicamente significativo que, no AT, sempre que um termo para ira se refere a Deus, o nome divino empregado é Yahweh, o Deus da aliança (Êxodo 32:1-10; Deuteronômio 11:16-17; 2Reis 24:2), demonstrando assim a íntima associação entre a ira de Deus e a histórica aliança de fé de Israel (Amós 3:2). (5) Portanto, é nesse contexto da teologia da aliança que a ira de Deus no AT deve ser compreendida.
Isto implica duas verdades: (1) qualquer violação da lei dentro da nação, de modo coletivo ou individual (Deuteronômio 29:27; Juízes 2:20; Josué 23:16; Esdras 9:14), provocava a ira de Deus (Ezequiel 5:13; Oseias 5:10; Isaías 9:8-10), (6) especialmente quando seu povo seguia após outros deuses (Êxodo 32; Números 25; Deuteronômio 2:15; 4:25; Josué 2:14; 1Reis 11:9; etc.); e (2) quando alguma outra nação oprimia Israel, incorria na ira de Deus (Isaías 10:5-27; Jeremias 50:11-17; Ezequiel 36:5-6). (7) De fato, no AT, a mais importante razão para a manifestação da ira de Deus era a quebra da aliança entre Deus e seu povo, a falha em cumprir as obrigações desta aliança (Deuteronômio 29:28; 2Reis 22:13; 2Crônicas 34:1; Ezequiel 20:13, 21). (8) Como regra, a ira de Deus era uma reação à ingratidão e incredulidade de Israel, que não fora fiel à aliança e, portanto, Deus, que queria manifestar amor ao seu povo (Oseias 1:9), aparecia como um Deus irado (Miqueias 7:9; Esdras 8:22). (9)
A ira de Deus foi o tema central dos profetas que viveram antes do exílio, embora nem todos usassem o termo ira. Eles combatiam o falso senso de segurança que o povo tinha contra a ira e o julgamento, com destaque para Jeremias e Ezequiel. Esses profetas nunca cessaram de anunciar o que Deus fez por Israel com sua eleição e guia (Amós 2:9-11; 3:2; Oseias 11:3-10; Isaías 1:2), e este é o pano de fundo contra o qual eles trazem sua mensagem da ira de Deus. Seja referindo-se ao culto sincretista (Isaías 1:10-17; Jeremias 6:20; Oseias 6:6; Amós 5:21-27) ou à injustiça social (Isaías 1:15-17; Josué 5:28; Amós 5:7, 10-12; Miqueias 3:1), à política que trata de armamentos e alianças (Isaías 30: 1-5; Jeremias 2:35-37; Ezequiel 16:26), ou mesmo à adoração de outros deuses, a questão era que o povo tinha abandonado seu Deus e desprezado seu amor, quebrado a aliança, e por isso, merecia a ira divina. Esta é a mais profunda raiz do conceito de ira, e nesta luz podemos compreender a esmagadora força da mensagem. É o amor ferido de Deus que desperta sua ira. Vem como resultado da quebra da relação de aliança. O Senhor sente-se enciumado e zeloso por causa da atitude de Israel, sua esposa, e isto encontra expressão na ira (Deuteronômio 32:20; Salmos 78:58; 79:5; Ezequiel 16; 23). (10)
Todavia, a mesma expressão também denota o zelo de Deus por seu povo quando Israel é ameaçado por outras nações e ele se posiciona como um amante esposo para destruir estas nações e salvar seu povo (Isaías 42:13; 59:17-18; 63:15; Zacarias 1:14-21; 8:2-15; Naum 1:2). (11) As profecias que se referiam aos tempos posteriores ao cativeiro e que tratam da ira de Deus, apresentam-na como endereçada contra as nações, em razão do mal que intentaram fazer contra Israel (Obadias 1-15; Jeremias 10:25). (12)
A desumanidade
Uma análise de todas as perícopes que tratam da ira divina no AT revelou que ela nunca é retratada como atuando no mundo sem uma de duas justificativas: ou rebelião contra a pessoa de Deus – na forma de orgulho, sincretismo ou idolatria – ou falha de comportamento em relação aos semelhantes, (13) o que é válido tanto para Israel como para as demais nações. Nos numerosos oráculos pronunciados pelos profetas contra as nações se percebe os desdobramentos desses motivos, que são: arrogância e orgulho (Isaías 2:12-17; 10:13-16; 13:11; 14:13; 16:6; 47:8, 10; Jeremias 48:29-30, 42; 49:16; 50:29, 31-32; Ezequiel 28:2; 30:10, 18; 31:10-11, 14; Obadias 3; Zacarias 9:6); idolatria (Isaías 2:18-21; 17:8; 19:1-3; 20:9; Jeremias 48:7, 13, 35; 49:3; 50:2; 51:17, 47; Ezequiel 30:13; Naum 1:14; Habacuque 2:18-19; Zacarias 9:7); feitiçarias e encantamentos (Isaías 47:9-15; Naum 3:4); maldade (Isaías 13:11; 47:10; Jeremias 51:6, 24; Naum 1:11); iniquidade (Isaías 13:11); confiança nas riquezas (Jeremias 48:7; 49:4; 51:13; Ezequiel 28:4-5); injustiça no comércio (Ezequiel 28:18); inimizade contra Israel (Ezequiel 25:3-7, 12-14; 35:5-6, 11-15; Joel 3:2-8; Amós 1:11, 13; Obadias 10-14; Sofonias 2:8); e furor incessante, violência excessiva, no relacionamento com outros povos (Isaías 14:6; 16:6; 47:6; Jeremias 51:35; Ezequiel 25:15-16; 28:16; Amós 1:3, 6, 9; 2:1; Naum 3:1; Habacuque 2:8, 17).
As perícopes que tratam da ira de Deus contra as nações estrangeiras apresentam a crueldade humana que havia em seus habitantes como o principal fator a atraí-la e demonstram que os não israelitas são julgados com base em seu conhecimento e que, mesmo assim, podem ser responsabilizados. (14) Quanto a isso, é significativa a profecia de Amós. Embora fosse destinada a Israel (Amós 1:1), e com brevidade mencionasse a Judá (Amós 2:4-5), primeiramente pronuncia julgamento sobre as nações que estavam à sua volta: Síria, Filístia, Fenícia, Edom, Amom e Moabe (1:3-2:3). Em Amós 1 e 2 as nações são condenadas por crimes contra a humanidade. (15) Enquanto que Israel e Judá seriam castigados por pecarem contra a vontade revelada de Deus, as outras nações seriam punidas porque agiram em desacordo com a luz natural que possuem todos os homens, (16) transgrediram princípios universais de moralidade e justiça, os quais estavam escritos na consciência de todas as pessoas sendo parte da moralidade universal da espécie humana (17) e que foram desde o início comunicados através da divina Palavra, explicitamente ordenados. (18)
Deus as reprova não por fazerem guerra, nem mesmo por negociarem escravos, mas por sua excessiva crueldade para com as populações que elas haviam conquistado. Ele condena a destruição furiosa e a paixão para humilhar, a supressão de toda esperança para o futuro do país ocupado por suas tropas, a eliminação completa dos adversários. (19) Mesmo aquelas nações que foram usadas por Deus para punir o seu povo rebelde, sofrerão sua ira em razão de seus excessos em sua missão de castigar. (20)
Os pecados denunciados são atos de desumanidade (para com qualquer ser humano e não apenas contra um israelita), considerados perversos segundo os padrões daqueles dias; são os mesmos crimes que levaram Deus a destruir os antediluvianos (Gênesis 6-7), os habitantes de Sodoma e Gomorra (Gênesis 19) e os cananitas (Levítico 18 e 20); (21) são também pecados contra Deus. (22) As expressões da ira divina contra aqueles que os praticam mostram o amor de Deus para com os seres humanos e seu interesse em que haja justiça em toda a terra. (23)
Como outros profetas, Amós afirma que Deus controla os destinos das nações, estabelecendo (6:14) e pondo abaixo (2:9), como lhe apraz. Mas Deus não apenas as restringe, ele atua como seu juiz quando elas transgridem seus princípios morais. (24) Amós declara que Deus tem o direito de julgar a todos por duas razões básicas: ele é o criador de todos (Amós 4:13; 5:8-9; 9:5-6) e o soberano que domina sobre todos (Amós 2:9-10; 3:1-2; 4:11; 6:14; 9:7-10). (25) Parece que sua visão tem como base o texto de Gênesis 1-11, onde Deus é apontado como criador, soberano e legislador. Ali é patenteado que desde o início Deus deu mandamentos que regulam a relação dos homens: com Deus (submissão e obediência – Gênesis 1:28-30; 2:16-17; 3:11, 16-19; 4:3-7; 6:13-7:9; 8:15-18; 9:1-17), com seus semelhantes (igualdade, respeito pelo homem e sua esposa, relações sexuais e casamento – Gênesis 1:26-28; 2:18, 20-24; 3:16; 4:7, 9-15; 5:1-2; 9:5-7, 18-10:32), e com o mundo criado (governo, trabalho, alimento – Gênesis 1:26-29; 2:15-16, 19-20; 3:17-19, 23; 9:1-5, 7); e também que a transgressão dessas leis estabelecidas trazia juízo divino sobre os violadores (Gênesis 3:16-19; 4:10-12; 6:5-7, 11-13, 17; 7:4, 10-24; 11:5-9).
Portanto, em razão de tudo isso, Deus tem todo o direito de impor suas regras, requerer obediência e punir sua transgressão. (26) Além disso, a resposta da ira de Deus à crueldade humana é necessária para salvar a humanidade de si mesma, ajudar a manter a ordem e dar esperança e significado para os que são oprimidos; e em razão de haver algo em nossa natureza profundamente psicológica que clama por justiça, necessitamos tê-la para manter uma existência mental saudável e racional no mundo. (27)
Os Efeitos da Ira de Deus
A ira de Deus frequentemente se exprime por meio de punições. (28) Essas expressam a reação da natureza divina em face do mal, a indignação judicial da pureza contra a impureza e, por isso, não são vingativas, mas vindicativas, destituídas de toda paixão ou capricho. (29) As declarações de que Deus estava irado eram um indicativo de que a punição estava a caminho (Isaías 10:4). Portanto, “estar irado” pode ser sinônimo de “destruir” (Ezequiel 9:14). Quando a ira de Deus é provocada, segue-se com frequência o extermínio ou a destruição (Êxodo 32:10; Deuteronômio 6:15; 7:4; Josué 23:16). (30)
De um modo geral, pode ser dito que a punição divina tem como propósito beneficiar o próprio Deus, o transgressor e a sociedade. O propósito mais importante é a vindicação da santidade e justiça de Deus (Jó 34:10-11). Nesse caso, sua lei é satisfeita e a punição ocorre para o bem dele que está punindo. (31) Outro objetivo da punição é disciplinar o pecador, corrigi-lo e recuperá-lo do mal e do pecado que ele tinha cometido. Sendo assim, o próprio pecador é beneficiado. (32) Esta finalidade da punição é com frequência mencionada na Bíblia (Levítico 26:23). Algumas vezes era alcançada em certa medida (Salmos 78:32-35), mas em outras, não (Isaías 1:5). (33) Finalmente, também objetiva dissuadir os homens de pecar, servindo de advertência para que outros, especialmente aqueles que tenham a mesma disposição mental daquele que está sendo punido (Deuteronômio 17: 12-13), não enveredem pelo mesmo caminho, não sofram o prejuízo que o mal costuma causar e nem sejam prejudicados como alguns foram pela punição que veio sobre o pecado. Assim, a punição serve de exemplo e a sociedade é beneficiada. Caso contrário, a própria impunidade seria um incentivo à prática do mal. (34)
Há dois tipos de punições. O primeiro se refere àquelas que são consequências naturais dos atos de pecado (Jó 4:8; Salmos 9:15; 94:23; Provérbios 5:22). Isso pode ser visto na pobreza que resulta da preguiça (Provérbios 6:9-11) e na ruína da família em decorrência da embriaguez (Provérbios 23:21). Muitas vezes elas persistem em acompanhar o homem mesmo quando este se arrepende e é perdoado, embora haja situações em que são abrandadas ou neutralizadas pelos meios que Deus colocou à nossa disposição. O segundo são as penalidades impostas por Deus como juiz (35) quando o pecado é punido por um ato direto de Deus, tais como: o Dilúvio (Gênesis 6-7), a destruição por fogo e enxofre (Gênesis 18:21-22; 19:23-25), a guerra (Levítico 26:17); a peste (Levítico 26:25); o exílio (Levítico 26:33); etc. (36)
O fato de Deus ser o governante moral do universo implica o direito e dever de recompensar e punir de modo justo, necessário e proporcional, o mérito ou o demérito, para o bem do próprio universo. (37) Assim, segundo as Escrituras Sagradas, a punição era aplicada em cada caso segundo a proporção do pecado cometido. A lei de Moisés, que exigia que o mesmo ferimento fosse aplicado ao culpado (Êxodo 21:23-25; Levítico 24:19-20; Deuteronômio 19:21) buscava estabelecer um “princípio de equidade”, a fim de que o castigo equivalesse ao crime. (38) De fato, era muito menos severa que aquelas adotadas em outras nações. Os crimes sexuais, tais como prostituição e homossexualidade e relações carnais com animais, eram punidos com a pena de morte (Levítico 18 e 20). A lei mosaica estipulava várias formas de castigo: a morte por apedrejamento, que incluía a participação máxima da comunidade naqueles casos em que ela era afetada de modo geral (Levítico 20:2-5, 27; 24;15-16; Números 15:32-36; Deuteronômio 13:1-5; 17:2-7, 17); por fogo (Levítico 20:14; 21:9); pela espada (Êxodo 32:27; Números 35;19, 21; Deuteronômio 13;15); a mutilação (Êxodo 21:23-25; Deuteronômio 25;12); o açoitamento (Deuteronômio 25:1-3); multas monetárias (Êxodo 21:22; Deuteronômio 22:18-19, 29) e a escravização (Êxodo 22:3). (39)
O Tempo da Ira de Deus
A ira divina ocorre já no tempo presente. Embora, por um lado, Deus seja paciente e tolerante para com os pecadores, por outro, cada dia é um dia de ira para os pecadores (Salmos7:11) (40) e essa ira exerce um papel sobre a completa vida humana (ver Salmos 90:2-11). Como consta na literatura sapiencial: “[...] o caminho dos pérfidos é intransitável” (Provérbios 13:15). E foi Deus quem determinou que fosse assim. (41)
Nos primórdios de Israel, a ira de Deus era concebida como a operação de um ato individual de punição, algo transitório, enquanto que seu amor e justiça eram tidos como permanentes. Posteriormente, segundo a pregação dos profetas, as punições eram esforços para purificar e educar, mas também apontavam para a iminente e final manifestação da ira de Deus. Assim, a ideia da ira de Deus passou de uma desgraça temporária para um julgamento escatológico inescapável: o Dia do Senhor torna-se o dia da ira. (42) A expressão “dia do Senhor”, (43) como empregada nos profetas, era, em primeiro lugar, uma referência a um dia de julgamento na história, quando Deus intervinha para punir o pecado que havia chegado ao seu clímax. Entretanto, tendo uma conotação escatológica, apontava também para os eventos finais da história humana, com a vinda do Senhor e o juízo final. (44)
A Ira de Deus no Novo Testamento
A ênfase da mensagem do NT é o amor de Deus manifestado na dádiva de Cristo, para tornar-se um conosco e morrer por nós. Todavia, a par desse enfoque, pode ser percebida a realidade da ira de Deus. Os argumentos dos evangelhos, das cartas apostólicas e do Apocalipse apontam aquilo que atrai a ira de Deus e os efeitos que ela tem sobre os homens, bem como sua manifestação nos acontecimentos da história e seu significado escatológico.
A Causa da Ira de Deus
Na abordagem do tema da ira divina no NT, Deus é visto como o Criador de todos (Romanos 1:18-25). (45) A causa básica da ira divina é o pecado. Mas, o que é pecado? É qualquer falta de conformidade com a lei de Deus, (46) mas é mais do que isso porque a lei pode não incorporar tudo que o caráter de Deus é. Pecado é tudo aquilo que contradiga o caráter de Deus, é uma oposição a Deus, (47) é a quebra do relacionamento pessoal com Deus. (48) O pecado é uma ação (1João 3:4), mas também um estado da vontade e condição pessoal que se opõe a Deus e sua vontade (Romanos 7:14; 8:6-8), (49) de modo que se não houvesse Deus nem a possibilidade de uma relação com ele, não poderia existir pecado. (50)
Portanto, em essência, pecado é asebeia (impiedade – Romanos 1:18) e abrange uma grande diversidade da dinâmica humana. (51) Ou, como Paulo descreveu, “tudo que não procede da fé é pecado” (Romanos 14.23). Todavia, a realidade do pecado abrange mais do que a relação entre Deus e o ser humano: inclui o relacionamento do homem com o resto da humanidade, de maneira que os pecados podem ser classificados como pecados religiosos ou ofensas morais. Os pecados religiosos (asebeia – impiedade) envolvem negligência e rebelião contra Deus, enquanto que as ofensas morais (adikia – injustiça) abarcam toda espécie de desvio de conduta e são, consequentemente, contra os homens (Romanos 1:18). Os pecados contra os homens derivam dos pecados contra Deus. (52)
O pecado não é inconsequente, antes tem resultados definidos, que mais cedo ou mais tarde acabam aparecendo (Romanos 6:23; 12:19). Por ser uma violação da ordem moral estabelecida por Deus e repudiar sua luz, sua lei e seu amor, é destrutivo, e como um câncer moral e espiritual, devora pouco a pouco a alma do homem, impedindo-o de se tornar o que Deus planejou que ele fosse. É o veneno da morte que, sem o adequado tratamento que apenas o céu pode aplicar, resultará na eterna separação de Deus. (53)
Assim, por ser o pecado o que é e por suas maléficas consequências, Deus não tem nenhum prazer nele (Romanos 8:3; 1João 1:5; 3:5; 3João 11), não pode aprová-lo, nem encorajá-lo (Tiago 1:13-14), nem tolerá-lo indefinidamente (Apocalipse 18:4-8). (54) Antes, o pecado sempre provoca a oposição de Deus e desperta sua ira (Romanos 1:18; Efésios 5:6; Colossenses 3:6). Como disse Agostinho, “a ira de Deus não é uma perturbação de seu espírito, senão um juízo pelo qual o castigo é pronunciado sobre o pecado”. (55) É sua atitude de desprazer frente ao pecado e ao mal e seu firme ódio contra ele. É sua declarada determinação de punir o pecado em todas as suas formas. (56)
A locução “ira de Deus” é empregada para expressar qualquer manifestação do desagrado de Deus contra o pecado, e inclui seu desprazer, sua forte resistência e também seu ataque judicial após isso (Romanos 2:5-8). (57) Em suma, é a reação divina ao pecado (58) (Efésios 5:6), a qual se origina não apenas em sua escolha, mas em sua própria natureza (59) e, de acordo com o apóstolo Paulo, é revelada contra todas as deficiências na esfera religiosa e na esfera moral (Romanos 1:18). (60)
Os Efeitos da Ira de Deus
As consequências da ira de Deus podem ser vistas basicamente na índole humana, ímpia e perversa e em contínuo distanciamento de Deus (Romanos 3:9-18), no ato de Deus abandonar os homens permitindo que sigam suas próprias paixões e recebam as consequências inevitáveis de seus pecados (Romanos 1:20-32) e na aplicação de punições (Judas 7).
A natureza de filhos da ira
O primeiro efeito da ira de Deus sobre nós é que somos “por natureza, filhos da ira” (Efésios 2:3). A expressão “filhos da ira” é um hebraísmo e significa que somos merecedores da ira e estamos sujeitos a ela, (61) ao passo que “por natureza” quer dizer por nascimento. Pelo nascimento somos todos filhos da ira. Não nos tornamos, somos. Este texto não diz que nascemos neste mundo num estado de inocência e neutralidade e que, depois, por causa do pecado, nos tornamos pecadores e então incorremos na ira de Deus. Ele diz que o pecado se encontra no homem como um princípio inato, e que já nascemos neste mundo sob a ira de Deus. (62)
A atitude divina de entregar
Os últimos versículos do primeiro capítulo de Romanos descrevem a humanidade abandonada por Deus e a cena é terrível. Depois de discorrer sobre a impiedade e perversão dos homens em seu sucessivo afastamento de Deus, e sua recusa de responder positivamente à revelação de Deus, deificando a razão humana e chegando à loucura da mais corrupta forma de práticas idolátricas (Romanos 1:18-23), o apóstolo por três vezes emprega a expressão “Deus os entregou”. Suas palavras são: “Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências de seu próprio coração [...], os entregou Deus a paixões infames; [...] Deus os entregou a uma disposição mental reprovável [...]” (Romanos 1:24-32). (63) Esta entrega não originou a condição moral, pois esta condição já existia. Não deslizaram por este caminho porque Deus os abandonou ou os induziu ao pecado, antes Deus os deixou ir sem freio pelo caminho em que já se encontravam. (64)
Os eruditos se dividem quanto à natureza deste abandono. Alguns entendem que embora haja um destaque para o aspecto judicial do processo, a punição do pecado não ocorre por qualquer intervenção direta pela qual Deus disciplina os ofensores, mas é uma consequência que naturalmente acompanha uma vida de desobediência. É o caminho em que as leis de um universo moral operam. (65) Consiste simplesmente na permissão para que a humanidade siga seu próprio caminho. Portanto, a punição do pecado é o próprio pecado.
Segundo esta corrente de pensamento, Deus nos entrega a nossos próprios desejos e nos permite controlar nosso próprio destino de modo que “liberdade para fazermos o que queremos é a punição de uma rebelião contra Deus”. (66) Outros, diferentemente, creem que o abandono de Deus não é uma consequência puramente natural do pecado, mas uma solene intervenção da justiça de Deus na história da humanidade. (67) É definitivamente judicial e punitivo, e não apenas permissivo no sentido que Deus permitiu ou retirou sua graça. É o primeiro estágio no exercício de uma atividade punitiva positiva para a ignorância culpada e a perversidade intencional, (68) que resultará finalmente no abandono do homem ao julgamento da morte (Romanos 6:23; João 3:36), (69) quando Deus empregar atos específicos de juízo, como os que ocorreram no Dilúvio e em Sodoma. (70)
As três penalidades mencionadas não se referem a estágios progressivos ou intensificações do juízo divino, mas a três grandes aspectos deste único julgamento, três terríveis lados dele: “impurezas”, “vis paixões” e “uma disposição mental reprovável,” i.e., uma mente em que as distinções entre o bem e o mal são confusas ou perdidas. (71) Como resultado de sua rebeldia o homem descamba para a tolice indescritível da idolatria, o deplorável amor próprio e para uma sociedade que despreza as pessoas e que destrói a si mesma. (72)
Abandonar os homens às suas próprias paixões é uma forma de ira. (73) É digno de nota que se Paulo não tivesse declarado que estas coisas são sinais da ira, nós as interpretaríamos como sinais da graça, porque esta visitação de sua ira consiste em permitir que a humanidade siga seu próprio caminho (Atos 7:42; 14:16). (74) Por haverem abandonado voluntariamente a Deus, o Senhor os entrega a uma rebeldia ainda maior. Ele retira sua mão restritiva e protetora permitindo que as consequências do pecado sigam seu curso inevitável e destrutivo. Permite que os rebeldes sigam desembaraçadamente pelo seu caminho descendente, sem freio, sem qualquer intervenção divina, até a plena profundeza da depravação. (75) Desse modo, pecado gera pecado, e trevas aprofundam as trevas, o que endurece os homens, e precipita-os para mais terríveis graus de depravação. (76) O abandono da verdade de Deus resulta na degradação da imagem de Deus, na perda da dignidade e na destruição dos relacionamentos pessoais, pois apenas a verdade de Deus pode restringir o mal. (77)
Por não compreenderem o significado da santidade, da justiça e do amor de Deus alguns imaginam que ele nunca abandona os homens. A verdade é que Deus nunca abandona aquele que aceita a Cristo como seu Salvador (2Timóteo 2:13). Embora ele seja criador de todos os homens e todos possam escolher ser filhos de Deus, é pai somente daqueles que nasceram de novo pela fé em Cristo. (78) As desobediências isoladas destes são tratadas de outra maneira, com o castigo e disciplina do amor paterno (Hebreus 12: 5-13), enquanto que trata os pecados dos rebeldes como juiz e os deixa ceifarem o que semeiam aqui e serem entregues à justiça divina no último dia. (79)
Todavia, esta ação divina de entregar o homem ao seu próprio pecado não é aqui um abandono eterno, pois, enquanto a vida segue, Deus em sua graça provê oportunidades para a salvação. Escrevendo aos coríntios, depois de apresentar uma lista de pecados semelhantes à de Romanos 1:29-31, Paulo menciona que alguns deles haviam vivido daquele modo e, todavia, Deus os transformara (1Coríntios 6:11). (80)
A punição
Desde o início, a punição com a qual Deus ameaçou o homem, caso ele pecasse, foi a pena de morte (Romanos 5:12-14; 6:23; 1Coríntios 15:22), que inclui: (1) morte espiritual, que resultou na natureza pecaminosa com a qual nascemos, e que nos torna impuros, afeta todo o nosso viver e nos faz carregar o fardo da culpa e ter medo da punição (Efésios 2:3, 5); (2) os sofrimentos da vida, tais como as fraquezas, as doenças, os conflitos íntimos e também a corrupção e as convulsões da natureza (Romanos 7:15-24; 8:18-23); (3) a morte física, (Gênesis 3:19; Romanos 5:12-21; 1Coríntios 15:12-23; Hebreus 9:27), o que não é somente resultado natural, mas, também, penalidade do pecado; (4) a morte eterna, a completa e definitiva separação de Deus, que inclui os sofrimentos físicos e angústias de consciência (Mateus 5:29-30; Mateus 18: 8-9; Marcos 9:43-48; Apocalipse 14:9-11; 20:10, 15; 21:8) que os ímpios receberão quando forem lançados no fogo preparado para Satanás e seus anjos (Mateus 25:41). Quando o homem pecou, essa penalidade efetivamente ocorreu, embora ainda não em sua plenitude, sustada que foi, temporariamente, pela graça de Deus. (81)
Em se tratando da punição final, embora todos os ímpios recebam o mesmo salário, a morte (Romanos 1:32; 2:5-6; 3:23), haverá diferentes graus de punição, baseados no demérito da ofensa, conforme as obras de cada um (Mateus 16:27; 2Timóteo 4:14; 1Pedro 1:17; Apocalipse 2:23; 20:12-13; 22:12), o que refletirá a infinitamente sábia, santa e justa vontade de Deus tão bem estipulada em sua lei. (82) A expressão grega “eis aiōnai aiōnion”, literalmente, “pelos séculos dos séculos” e outras semelhantes, encontradas nas Escrituras (Lucas 1:33; Romanos 1:25; 11:36; Mateus 18:8; 19:16, 29; 25:41, 46) não denotam necessariamente existência eterna. Seu significado depende mais daquilo que está associado do que da própria expressão. A figura vem de Isaías 34:10 onde o profeta retrata a destruição de Edom e, todavia, se percebe que ele não intentava indicar que o fogo abarcaria todo o lugar e arderia eternamente, porque o mesmo texto descreve vários animais vivendo naquele lugar após este ser assolado (vs. 11-15). (83)
O Tempo da Ira de Deus
No NT, a expressão “dia do Senhor” é uma referência direta àquela ocasião em que Deus será revelado como justo juiz (ver 2Coríntios 1:14). (84) Ali são empregadas diversas expressões sinônimas: “o dia da ira” (Romanos 2: 5; Apocalipse 6:17); “o dia do julgamento” (Mateus 11:22); “o último dia” (João 6:39); “o dia de Deus” (2Pedro 3:12); “aquele dia” (2Timóteo 1:12, 18; 4:8); “o dia (1Coríntios 3:13; Hebreus 10:25); e “o Dia de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Coríntios 1:8). Embora apareça o termo “dia”, isto não é uma referência a 24 horas, mas a um período de tempo indeterminado, suficiente para Deus cumprir o seu propósito. (85) A expressão é ampla o bastante para abranger todo o período que inclui o fim desta era e a inauguração da próxima. É um dia de juízo e ira para os ímpios, mas também de redenção para os justos. (86)
Desse modo, o NT apresenta a ira de Deus como ocorrendo no tempo histórico (ex.: Romanos 1:18) e no tempo escatológico (ex.: Sofonias 3:8; Apocalipse 6:16-17), (87) seguindo, desse modo, a mesma ideia apresentada no AT (Sofonias 3:8).
Tempo histórico
Em sua carta aos Romanos, o apóstolo escreveu: “[...] visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé. A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (Romanos 1:17-18). Uma análise detalhada deste texto revela vários aspectos dessa revelação da ira divina. (1) Deus tem feito duas revelações: uma de sua justiça, sob o anúncio do evangelho; a outra, de sua ira, dos céus. Uma é de fé em fé, e diz respeito àquele que crê e resulta em vida e salvação. A outra é “contra toda impiedade e perversão dos homens” e está agora em constante progresso. (88) (2) A revelação da ira é parte da auto-revelação divina, por um lado associada com o evangelho porque está sendo revelada do mesmo modo que a justiça, diante dos nossos olhos (89) e, por outro, revela-se independentemente da Palavra, porque em qualquer lugar, mesmo aonde o evangelho ainda não chegou, ela se manifesta sobre as nações. (90) (3) Como a futura salvação dos crentes está agora no presente sendo revelada no evangelho de Jesus Cristo e é apropriada pela fé, assim a futura ira de Deus está na atualidade sendo revelada na experiência daqueles que se distanciam da verdade de Deus. (91) (4) A ira se revela não apenas no evangelho ou por algum ato sobrenatural, mas, pelo que a história mostra, na degradação que resulta do pecado e pela universal convicção da humanidade de que o pecado é inevitavelmente punido por sofrimento, miséria e morte. (92) Desse modo, há uma aplicação da ira de Deus que, embora parcial, já ocorre no presente, na história do mundo, e prefigura a ira em sua manifestação final. (93) (5) Essa revelação procede “do céu”, o lugar onde tem Deus a sua morada e onde está seu trono, o que mostra que a inseparável relação entre o pecado e as consequências da ira de Deus está em conformidade com uma ordem divinamente estabelecida. (94) (6) O uso do passivo denota que o próprio Deus está revelando (95) e o verbo é empregado de modo a que se refira a uma revelação presente e constante. (96)
Por que a ira de Deus é uma resposta ao pecado, ela começou com a entrada do pecado no universo e desde então permanece sobre a raça inteira. (97) Quando o homem cometeu o primeiro pecado, a terra foi amaldiçoada por Deus (Romanos 8:20-23; conforme Gênesis 3:17-19). Isto foi parte da ira de Deus, e continua sendo. (98) Sua ira está dinamicamente, efetivamente, operando no mundo dos homens (99) e é revelada em todo o curso da providência em todas as épocas.
Algumas vezes ela irrompe em terríveis julgamentos, algumas vezes em justiça punitiva executada pela lei e a sociedade (ver Romanos 13:4). Mas também ela já começa a se manifestar no próprio instante em que se comete um ato de pecado. O fardo da culpa, a acusação da consciência e o sentimento de remorso são manifestações dessa ira. Também o são os sofrimentos físicos que o pecado causa, bem como o sofrimento mental, a infelicidade, os desajustes na família, a degeneração e o aviltamento do pecador e sua finitude (Romanos 1:18-31; Gálatas 5:19-21; Colossenses 3:5-9).
Portanto, a ira de Deus, embora seja um fenômeno escatológico, já lança suas sombras na experiência presente. Seus juízos ainda não são juízos totais, mas juízos dentro da história (Romanos 1:18-31). Possuem um sentido pedagógico e são aplicados como que com freios acionados, mesclados com uma profusão de paciência e longanimidade (Romanos 2:4), realizando o propósito de Deus, preservando o mundo para a revelação da sua justiça no evangelho (1Timóteo 2:4; 2Pedro 3:9) com a intenção de induzir as pessoas ao arrependimento (Apocalipse 9:20). (100)
O mesmo pode ser visto no evangelho de João onde o tema da ira de Deus é abordado uma única vez. Em seu registro do encontro de Nicodemos com Jesus, o apóstolo anotou a conclusão da mensagem de Cristo para o príncipe judeu: “Por isso, quem crê no filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (João 3:36). Fica assim evidenciado que o julgamento escatológico de Deus já está operando aqui e agora, pois a missão salvadora de Jesus torna-se um julgamento para aquele que não crê em Jesus. O incrédulo passa o julgamento sobre si mesmo por não crer no enviado de Deus, o único que pode tirá-lo das trevas e da morte e, assim, permanece em um presente estado de alienação de Deus em contraste com a vida eterna que o crente já possui no presente. A hora da decisão torna-se para o que não crê a hora da condenação, da qual o futuro julgamento será apenas a manifestação (João 5:29).
Desse modo, o evangelho tem a dupla função de salvar e julgar, revelar tanto a salvação como a ira de Deus. (101)
Tempo escatológico
Alguns dizem que não há necessidade de um juízo final porque a lei moral é como a lei física: executa-se a si mesma, ou seja, o transgressor recebe a consequência automaticamente. Como alguém que não respeita as leis de saúde acaba adoecendo. Tal pensamento está equivocado porque a lei moral tem analogia com outra lei, a civil, que não se executa a si mesma, mas depende de uma pessoa para tanto. Por sua própria natureza, exige um julgamento. Por isso, Deus “estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça” (Atos 17:31). (102)
No texto do NT a ira de Deus com o sentido escatológico ocupa um lugar importante. O tema é introduzido pela pregação de João Batista anunciando a “ira vindoura” (Mateus 3:7) e termina com “o lagar do vinho do furor da ira do Deus Todo-Poderoso” (Apocalipse 19:15). A ênfase recai não sobre guerras ou calamidades naturais, mas sobre o castigo que os ímpios terão ao final da história humana, (103) o que será simplesmente o fim de um processo já em andamento, que objetiva pôr um fim ao pecado (Mateus 25:41, 46; 2Tessalonicenses 1:7-10; Apocalipse 20:15; 21:8). (104) E porque a ira de Deus é uma resposta ao pecado, é correto esperar que ela termine quando o pecado deixar de existir (Apocalipse 21:4; 22:3). (105)
O último livro da Bíblia apresenta os juízos de Deus em três séries, não simultâneas, mas sequenciais, e cada vez mais severas: os sete selos (Apocalipse 6:1-8:1), as sete trombetas (Apocalipse 8:1-9:21; 11:15-19) e as sete taças (Apocalipse 16:1-21). (106) O fluxo desse escrito é baseado, em sua maior parte, nestas séries. O restante é parentético, ou antecipando ou revendo uma fase daquele fluxo. (107) A abertura de todos os setes selos precede a abertura do livro que se encontra na mão direita daquele que estava assentado no trono (Apocalipse 5:1). Esse livro contém as profecias do fim do mundo, que incluem uma variedade de ações, entre as quais o derramamento da ira de Deus. Assim, a ruptura do sétimo selo abre o livro e começa a história do tempo final (Apocalipse 8:1). (108)
Os selos podem ser chamados de selos da ira de Deus. (109) Cada selo apresenta uma fase diferente do grande conflito entre Cristo e Satanás e é empregado para demonstrar ao universo a justiça de Deus. (110) Os juízos apresentados nos primeiros selos (Apocalipse 6:1-11) – que envolviam guerra, fome, peste, morte e martírio dos santos – originaram-se em decisões humanas, pelo mal no coração dos homens. As sementes do mal que os homens semearam floresceram, frutificaram e arruinaram o mundo. (111) Todavia os juízos descritos no sexto selo (Apocalipse 6:12-17) originam-se com Deus, como uma punição divina. Com esse selo tem início o julgamento final. (112)
As sete trombetas (Apocalipse 8:1-9:21; 11:15-19) retratam, simbolicamente, eventos políticos e militares específicos de destaque na história humana, (113) entre a primeira e a segunda vindas de Cristo, (114) que afetaram a igreja e seu testemunho. (115) São consideradas como juízos parciais, (116) uma “terrível série de ais que prenunciam o Fim” (117) e têm a intenção de chamar ao arrependimento aqueles que delas escaparem. (118)
As pragas das sete taças contêm alguma semelhança com outras que são mencionadas nas Escrituras. Elas têm como modelo as pragas que caíram sobre o Egito (Êxodo 6:1 a 12:30). Ambas são literais e golpeiam algum aspecto da religião apóstata, mostram a superioridade de Deus e seu poder e a derrota de quem o desafiou, bem como o livramento de seu povo. (119)
Ainda, a despeito das semelhanças com as pragas das sete trombetas, enquanto que estas são parciais (1/3), as das taças não têm tal limitação. Não são uma simples repetição, mas, castigos bem mais graves, punitivos e posteriores no tempo. (120) Portanto, sob os juízos das taças, o mundo é resgatado por Deus. A ira de Deus é revelada e o império de Satanás é golpeado vez após vez pelo próprio Deus, até que Cristo volte e ponha fim a este mundo de desgraça. (121)
O extravasar da ira de Deus por meio das sete pragas é vindicado no cântico de Moisés e no cântico do Cordeiro (Apocalipse 15:3-4), na declaração do anjo responsável pela terceira praga (Apocalipse 15:4-6) e pela voz que provém do altar (Apocalipse 15:7). Em todos estes casos a ira de Deus se baseia na santidade de Deus. (122) Nessas pragas, Deus terá derramado totalmente sua ira (Apocalipse 15:1) no contexto particular que antecipa o juízo final, o que não se refere à totalidade da ira de Deus, uma vez que ainda haverá o lago de fogo (Apocalipse 19:20; 20:10, 14-15; 21:8), que, então, será a manifestação final da ira de Deus. Elas são apenas uma introdução à última e decisiva expressão de ira de Deus, (123) uma manifestação extraordinariamente extensa e intensa dessa ira contra a atitude desafiadora, soberba e criminosa daqueles que tem frustrado o propósito de Deus no mundo – a besta e os que a apóiam. São a resposta de Deus ao último e maior esforço de Satanás para frustrar o governo divino. (124)
O Apocalipse fala da ira das nações, da ira do dragão e da ira de Deus e do Cordeiro, o que permite se chegar à conclusão que o grande conflito entre o bem e o mal é um conflito entre duas iras, a ira de Deus e do Cordeiro versus a ira de Satanás e de suas instrumentalidades (Apocalipse 12:7; 11:18). (125) A ira das nações que desafiam a Deus chegará à sua consumação em uma expressão final de ira (Apocalipse 11:18). Por outro lado, a visitação da ira de Deus sobre aqueles que de modo irreversível se posicionam contra sua soberania é absolutamente essencial para o estabelecimento de seu reino misericordioso no mundo (Apocalipse 14:10). Isso inclui a necessidade de juízo, (126) o qual precisa ser adiado até o fim do mundo para que se possa levar em conta não apenas os resultados imediatos de nossos atos, mas, também, os de longo alcance, pois, quando alguém morre, sua influência permanece. (127)
Uma análise de Romanos 2:1-5 permite a conclusão que diante do tribunal de Deus cada ser humano confrontará cinco perigos: (1) O perigo do conhecimento (v. 1). Quem é capaz de discernir a verdade ou falsidade em outro, demonstra ser responsável por sua própria conduta naquele ponto. E se ele souber mais do que o outro, será ainda mais responsável. Assim, enquanto parece que apenas julga o outro, está condenando a si mesmo. (2) O perigo de pecar (v. 2). A base do julgamento é a verdade, não a nossa racionalização. A condenação está sobre aqueles que pecam, não apenas sobre aqueles que admitem que pecam. Não há segurança no pecado. (3) O perigo de julgar (v. 3). É bastante comum a tendência humana de condenar alguém por um pecado, contudo fazer uma exceção para si mesmo quando pratica o mesmo. Mas a Escritura diz: “Pensas que te livrarás do juízo de Deus?” (4) O perigo de desprezar o tribunal divino e o modo como ele opera (v. 4). A misericórdia divina é frequentemente confundida com indulgência. A demora em punir é tomada como desistência em punir. Assim, as riquezas de sua bondade, tolerância e longanimidade, manifestadas com a intenção de conduzir o transgressor ao arrependimento, são vistas com desdém como fraqueza ou frouxidão. (5) O perigo da dureza (v. 5). Quem rejeita as ternas misericórdias de Deus, torna-se insensível aos brandos procedimentos de Deus. Desse modo, quanto mais Deus demora em retribuir, mais se multiplica a ofensa e sua respectiva punição se acumula, sendo estocada como se fosse um grande tesouro, aguardando o tempo de sua manifestação, no juízo. (128)
Quem será julgado? O juízo incluirá: (1) os justos (Mateus 25:35-36) – que embora reconciliados (2Coríntios 5:20-21) e justificados (Romanos 5:1; 8:1), ainda têm que prestar contas e cujas boas obras serão reveladas e reconhecidas como fruto de sua fé e provas de sua justificação; (129) (2) os maus – com diferentes graus de culpabilidade, segundo a luz, as bênçãos e as oportunidades que tiveram (Lucas 12:48), compreendidos por: (a) as nações pagãs, julgadas segundo a lei escrita nos seus corações e pela luz fornecida pela natureza (Romanos 1:20; 2:12, 16); (b) os que viveram sob a luz da lei do AT, que serão julgados por ela (Lucas 16:31; Romanos 2:12); (c) os que viveram sob a economia cristã, que serão julgados também pelo evangelho (João 12:48; Mateus 11:22, 24; Hebreus 10:28-29); e (3) os anjos caídos (2Pedro 2:4; Judas 6; Mateus 8:29). (130)
Qual o propósito do julgamento? O julgamento não tem a intenção de informar a Deus, que a todos conhece com perfeição. Antes, é para colocar tudo às claras (Mateus 10:26). Não é descobrir a verdade, mas revelar a verdade. (131) Na ocasião o caráter de cada um será revelado de tal modo que a própria pessoa e todos os que a conheceram vejam a justiça do veredito. (132) Cada um receberá o que lhe é devido. (133) Mas é também verdade que, ao participarem do julgamento, estarão também, em certo sentido, julgando o próprio Deus: seus princípios, suas leis, seu modo de agir (Romanos 3:4). Então serão manifestos os grandes propósitos de Deus; todos conhecerão tanto sua ira como seu amor. Ao final todos proclamarão que seus caminhos e seus juízos foram justos (Apocalipse 16:5 e 7; 19:1; 15:3; 19:6; 11:15; 12:10; 22:5). (134) Procedendo assim, nenhuma dúvida se levantará nem se poderá jamais levantar na mente de ninguém. (135)
A doutrina do juízo final é positiva e traz vários benefícios para a nossa vida atual. (1) Ela satisfaz o nosso desejo íntimo de justiça no mundo. Mostra que tudo que acontece é registrado com fidelidade, que Deus detém o comando de todas as coisas e que, por fim, a justiça triunfará (2Pedro 3:9-13; Apocalipse 20:11-15) (2) Ela nos leva a viver sem amargura ou ressentimento, pelos agravos que sofremos, confiando tudo aos cuidados de Deus, como Jesus, que “quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente” (1Pedro 2:22-23; veja também Romanos 12:19), sabendo que todo o mal que nos for feito receberá sua retribuição: ou será tido como pago por Cristo (se o ofensor se salvar) ou será pago no juízo final (se o ofensor se perder). (3) Ela nos incentiva a uma vida justa e a buscar maior galardão (Mateus 6:20). Para o incrédulo que a conhece acredita-se que pode servir para que ele tenha, pelo menos, um pouco do temor a Deus e seja refreado em sua maldade. (4) Ela serve de grande estímulo à obra de evangelização (2Pedro 3:7-9; Apocalipse 22:17 conforme 20:11-15). (136) (Clique aqui para a continuação deste capítulo 2 – A Ira de Deus nos Escritos de Ellen White).

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A Ira de Deus nos Escritos de Ellen White (continuação de) A Ira de Deus – Emilson dos Reis – CAPÍTULO 2 – A REALIDADE DA IRA DE DEUS – Ligado na Videira

A Ira de Deus nos Escritos de Ellen White
Em seus comentários sobre o texto bíblico e ao discorrer sobre os atributos e o caráter de Deus, Ellen White muitas vezes faz referência à ira de Deus e à sua manifestação por meio de juízos. (137) Ela definiu essa ira como “a terrível manifestação de Seu desagrado por causa da iniquidade”. (138) Para ela é sempre a transgressão da lei, (139) o pecado, que causa a manifestação da ira divina contra o pecador. (140) Talvez a expressão “ira” não pareça muito adequada quando aplicada a Deus, todavia, algumas vezes ele se exprimiu “segundo a maneira dos homens, para que a justiça de Seu trato pudesse ser compreendida”. (141)
Além de misericordioso e benigno, ele também é justo e imparcial (142) e, por ser legislador e governante moral, precisa fazer e executar Suas leis. (143) Ele mantém como que uma conta aberta com todas as nações, a qual é encerrada quando estas atingem o limite que Ele fixou. Então, cessa a paciência divina, de modo que a misericórdia não mais intercede a favor delas e tem início o ministério de Sua ira. (144) O mesmo também ocorre no plano particular, pessoal, pois Deus está medindo tanto as nações como os indivíduos. (145)
Deus não tem nenhum prazer em castigar, antes, sente pesar quando o faz (Ezequiel 33:11). (146) Ao reter seus juízos e demonstrar misericórdia de todas as maneiras possíveis, ele busca atrair aqueles que estão no erro. (147) Sua paciência e longanimidade objetivam enternecer-lhes o coração. (148) Através das gerações ele tem concedido aos homens um período limitado de luz e privilégios a fim de que se reconciliem com ele. (149) Durante esse tempo, seu Espírito opera no coração humano, convidando, (150) aconselhando, (151) advertindo, (152) reprovando e convencendo do pecado. (153)
Se o pecador finalmente rejeita esse ministério do Espírito, nada mais há que Deus possa fazer por ele. Então, “já não resta mais sacrifício pelos pecados, mas certa expectação horrível de juízo, e ardor de fogo, que há de devorar os adversários” (Hebreus 10:26 e 27). (154)
Seus juízos retributivos não podem ser contidos indefinidamente. (155) Quando, finalmente, os homens completarem a medida de seus pecados, “a ira de Deus, que por tanto tempo tem estado dormitando, despertará” (156) e eles a receberão, sem mistura. (157)
“[...] passado o período de nossa prova, se formos achados transgressores da lei de Deus, encontraremos no Deus de amor um ministro de vingança. Deus não Se compromete com o pecado. Os desobedientes serão punidos [...]. O amor de Deus agora se expande para incluir o mais baixo e vil pecador que, contrito, venha a Cristo. Estende-se para transformar o pecador num obediente e fiel filho de Deus; mas nenhuma alma pode ser salva se continuar em pecado.
O pecado é a transgressão da lei, e o braço que é agora poderoso para salvar, será forte para punir quando o transgressor ultrapassar as fronteiras que limitam a paciência divina”. (158)
Portanto, quando a ira de Deus vem sobre os homens, não é apenas por causa dos pecados que cometeram, (159) mas porque rejeitaram sua graça (160) e os meios que ele designou para restaurar o pecador: (161) menosprezaram as reprovações e advertências de seu Espírito, (162) desprezaram sua mensagem e seus mensageiros, (163) manifestaram obstinada resistência às reprovações da consciência, (164) e recusaram aceitar seu Filho como Redentor. (165)  É a deliberada oposição a Deus, (166)  a persistente rejeição de suas presentes misericórdias e advertências, (167) ou preferir continuar num estado de incredulidade, de resistência,168 determinados a não ceder, (169) enfim, o desdenhar da salvação, (170) que os fará receber os justos juízos de Deus. (171)
Os Propósitos da Ira de Deus
Analisando as muitas manifestações da ira de Deus, Ellen White indica que elas possuem uma diversidade de propósitos, que podem variar conforme as circunstâncias: (1) Manter a honra e o governo de Deus, revelando seus atributos de justiça e santidade. Nesses casos, as manifestações de ira mostram sua superioridade sobre os deuses das nações e sua aversão ao pecado, e levam os homens a temê-lo e a se dispor a ouvir sua voz. (172) (2) Deter os pecadores em seu mau caminho e conduzi-los ao arrependimento, à reforma da vida e ao caminho da salvação. (173) (3) Proteger aqueles que não incorreram em pecado de modo que não sejam prejudicados pelo mal. (174) (4) Servir de testemunho para as gerações futuras para que não cometam os mesmos pecados a fim de não incorrerem nos mesmos castigos. (175) (5) Manifestar misericórdia para com os próprios pecadores, (176) pois a continuação de sua vida resultaria em ódio e contenda entre eles mesmos, de modo que se destruiriam uns aos outros, resultando em maior sofrimento. (177) (6) A completa erradicação do pecado e dos pecadores. (178)
Tipos da Ira de Deus
Para Ellen White, os juízos divinos podem ser classificados como diretos ou indiretos. Ela chama de juízos indiretos as ocorrências em que Deus se afasta e deixa o pecador seguir seu próprio caminho. (179) Nesses casos o Espírito Santo é retirado definitivamente do pecador e este fica à mercê de suas próprias paixões e da maldade de Satanás. (180) Não há mais a interferência divina em sua vida. O exemplo mais evidente de um caso assim pode ser visto na destruição de Jerusalém, no ano 70. (181) Após descrever o que ocorreu, a autora afirma que “jamais foi dado um testemunho mais decisivo do ódio ao pecado por parte de Deus, e do castigo certo que recairá sobre o culpado”. (182)
Outras vezes os juízos de Deus são diretos, o que significa que Deus é sua fonte. Podemos ver exemplos disso nos juízos de Deus sobre o mundo antediluviano porque se havia tornado “incurável”, (183) sobre os habitantes de Sodoma porque “eram incorrigíveis no pecado”, (184) e sobre os amorreus, os antigos moradores de Canaã, que apesar de terem visto “o poder divino manifestado de maneira assinalada”, não apresentaram nenhuma “mudança para melhor”. (185)
Falsas Ideias Sobre a Ira de Deus
Em seus escritos, Ellen White analisa e combate o que para ela são falsos ensinamentos a respeito dos juízos de Deus e de Sua ira. Ela focaliza especialmente: (1) a doutrina do tormento eterno como castigo pelo pecado. Para ela, essa doutrina retrata a Deus como um ser vingativo, que se alegra com o sofrimento de suas criaturas, o que tem levado os homens à grande perturbação, incredulidade e rebeldia. (186) Esse ensino derivou dos dogmas da filosofia pagã, entre os quais a “crença na imortalidade natural do homem e sua consciência na morte” que, especialmente através do papado, acabaram sendo incorporados à fé cristã. (187) A autora argumenta que, se por um lado, a ideia de os ímpios serem atormentados eternamente por causa dos pecados de uma breve vida terrestre não reflete a justiça, (188) por outro, o acúmulo de pecado, devido às maldições e blasfêmias que os ímpios proferem enquanto torturados, não promove a glória de Deus, antes “o apresenta como o maior tirano do Universo” (189) e perpetua o pecado. (190) (2) A ideia de que a recompensa segue-se imediatamente após a morte. Se fosse assim, não haveria necessidade de um juízo futuro, como é tão amplamente ensinado no evangelho (191) (Mateus11:22; 12:41-42; 2Timóteo 4:1; 1Pedro 4:5; 2Pedro 2:9; 3:7; Judas 6; Apocalipse 20:11-15). Além disso, o pensamento de que seus queridos que faleceram sem estarem preparados estão agora sofrendo nas chamas, traz imensa angústia para os que continuam vivos. (192) (3) O conceito de que as ameaças de Deus não se cumprirão literalmente, antes o seu propósito é meramente amedrontar os homens e levá-los à obediência. (193) Ao final, não importa como vivam os homens, toda a humanidade se salvará. (194) Tal consideração, embora admita a misericórdia divina, passa por alto sua justiça e serve de incentivo a uma vida ímpia. (195) (4) A morte é um sono eterno. Esta crença nega o valor da Bíblia (196) a qual declara repetidamente que esta vida não é tudo e que todos os que morreram um dia ressurgirão: uns para a vida eterna e outros para a destruição eterna (João 5:28-29; Apocalipse 20:4-6, 11-15).
Instrumentos da Ira de Deus
Ao enviar Seus justos juízos sobre os homens, Deus faz uso de variados instrumentos, tais como anjos, homens, forças da natureza, pragas e doenças.
Os anjos
Uma leitura atenta das Escrituras Sagradas revela que Deus emprega como agentes de sua ira tanto os anjos que lhe são sempre leais como aqueles que se rebelaram contra ele.
Os anjos da luz
Nas páginas da Bíblia pode-se perceber com frequência a atividade dos anjos em favor dos homens. Eles trazem revelações ou orientações específicas, animam, confortam, cuidam e protegem (Gênesis 24:7; 1Reis 19:4-8; 2Crônicas 32:21; Salmos 34:7; 91:11; Mateus 1:18-21; 2:13-15; Lucas 1:8-20, 26-38; Atos 5:17-21; 10:1-5; 12:3-11). Como registrou o autor da carta aos Hebreus: “Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para serviço a favor dos que hão de herdar a salvação?” (Hebreus 1:14). Todavia, há também um “poder destruidor exercido pelos santos anjos quando Deus ordena”. (197)
No relato do Gênesis, por exemplo, o contexto mostra que os viajores que visitaram a Abraão (Gênesis 18) eram anjos, “mensageiros celestiais” e “ministros da ira”, que se dirigiam a Sodoma com a finalidade de destruí-la (Gênesis 19). (198) Também, quando ocorreu a décima praga contra o Egito (Êxodo 12:29-30), “um único anjo destruiu todos os primogênitos dos egípcios, enchendo a Terra de pranto”. (199) Séculos mais tarde, quando o rei Davi mandou transportar a arca sagrada para a capital, “estendeu Uzá a mão à arca de Deus e a segurou, porque os bois tropeçaram. Então, a ira do Senhor se acendeu contra Uzá, e Deus o feriu ali por esta irreverência; e morreu ali junto à arca de Deus” (2Samuel 6:6-7). Uzá “demonstrou uma manifesta desconfiança de Deus, como se Aquele que tinha trazido a arca da terra dos filisteus não pudesse tomar conta dela. Os anjos que atendiam à arca feriram Uzá por sua impaciente presunção de colocar a mão sobre a arca de Deus”. (200)
Outra ocorrência se deu nos dias do rei Ezequias, por ocasião da invasão dos assírios que, comandados por Senaqueribe, afrontaram e blasfemaram de Deus. O juízo divino veio por meio de um anjo. “Naquela mesma noite, saiu o Anjo do Senhor e feriu, no arraial dos assírios cento e oitenta e cinco mil” (2Reis 19:35); “destruiu todos os homens valentes, os chefes e os príncipes no arraial do rei da Assíria” (2Crônicas 32:21).
Semelhantemente, nos dias da igreja primitiva, percebe-se que um anjo foi “o mensageiro da ira e juízo a Herodes [...] trazendo sobre ele o castigo do Todo-poderoso [...] [de modo que ele] morreu em grande angústia de espírito e corpo, sob o juízo retributivo de Deus” (201) (Atos 12:20-23). Ainda nos eventos escatológicos que ocorrerão por ocasião do derramamento das sete últimas pragas, os anjos de Deus executarão seus juízos, pois serão “mensageiros de vingança” (202) (Apocalipse 15:1, 8; 16:1-17). Portanto, os anjos que têm a função de proteger e livrar a uns, podem receber a ordem de punir a outros.
Os anjos das trevas
Há algumas situações em que Satanás e seus anjos são os executores dos juízos de Deus. Isto não significa que haja uma espécie de parceria entre Deus e Satanás ou que este preste algum tipo de obediência Àquele. Todavia, quando o pecador, por sua contumácia no pecado, ultrapassa os limites da misericórdia, Deus se afasta dele e não mais interfere em sua vida, deixando-o seguir seu próprio caminho e entregue à sua própria sorte. Então, Satanás, cuja índole é causar aflição a quem puder, tem amplo espaço para agir a seu bel-prazer. (203) Fatalmente, tal indivíduo é mergulhado num mundo de sofrimento e desespero e o que lhe sucede também é considerado como juízo de Deus.
Foi o que aconteceu, de modo coletivo, por ocasião da destruição de Jerusalém no ano 70 de nossa era, conforme fora predito por Cristo (Mateus 24 e Lucas 21). Em Sua longanimidade, Deus a poupou por quase 40 anos, a fim de que mais luz resplandecesse sobre aqueles que não estavam endurecidos no pecado. Contudo, como persistissem em rejeitar a misericórdia divina, completaram a medida de seus pecados. (204) “Afastou Deus então deles a proteção, retirando o poder com que restringia a Satanás e seus anjos, de maneira que a nação ficou sob o controle do chefe que haviam escolhido”. (205)
A partir daquele momento, tudo que aconteceu à cidade foi por vontade e ação de Satanás, (206) o qual “suscitou as mais violentas e vis paixões da alma. Os homens [...] tornaram-se satânicos em sua crueldade”. (207) Como consequência, houve saques, torturas, dissensões internas, combate dos exércitos estrangeiros, fome, peste e muito derramamento de sangue. (208) Assim, “as horríveis crueldades executadas na destruição de Jerusalém são uma demonstração do poder vingador de Satanás sobre os que se rendem ao seu controle”. (209) Todas essas desgraças são classificadas como juízos de Deus. (210)
Ainda é acrescentado que a profecia de Cristo sobre os “juízos que deveriam cair sobre Jerusalém há de ter outro cumprimento, do qual aquela terrível desolação não foi senão tênue sombra [...] da condenação de um mundo que rejeitou a misericórdia de Deus e calcou a pés a Sua lei”. (211) Isso ocorrerá após Cristo completar sua obra de intercessão pelos homens e sair do santuário celestial. (212) Discorrendo sobre aquele tempo Ellen White diz: “Removeu-se a restrição que estivera sobre os ímpios, e Satanás tem domínio completo sobre os que finalmente se encontram impenitentes. … Os ímpios passaram os limites de seu tempo de graça; o Espírito de Deus, persistentemente resistido, foi, por fim, retirado. Desabrigados da graça divina, não têm proteção contra o maligno. Satanás mergulhará então os habitantes da Terra em uma grande angústia final”. (213)
Esses acontecimentos futuros são apresentados como cumprimento de uma visão apocalíptica e simbólica, na qual “quatro ventos” querem soprar para “fazer dano à terra e ao mar”, mas são impedidos, durante algum tempo, por “quatro anjos”. Depois que os servos de Deus são selados, os ventos são soltos (Apocalipse 7:1-3). Esses quatro ventos representam as forças demoníacas que em sua fúria desejam arruinar a humanidade (214) enquanto que os anjos que os seguram simbolizam os anjos de Deus que limitam o poder das forças do mal. (215) “Com insone vigilância eles estão mantendo em xeque os exércitos de Satanás até ser concluído o selamento do povo de Deus”. (216)
Aqueles que foram selados são servos de Deus, isto é, aceitaram plenamente seu oferecimento de salvação e refletem “completamente a imagem de Jesus”. (217) De modo algum sofrerão a ira de Deus. (218) Quando Deus ordenar a seus anjos que soltem os ventos, “o mesmo poder destruidor exercido pelos santos anjos quando Deus ordena, será exercido pelos maus quando Ele o permitir. Há agora forças preparadas, e que aguardam apenas o consentimento divino para espalharem a desolação por toda parte”. (219)
Os homens
Em diferentes ocasiões, Deus também se valeu de homens como executores de seus juízos podendo ser um indivíduo ou uma coletividade. Alguns deles eram seus inimigos enquanto que outros eram de seu povo. Alguns sabiam que estavam cumprindo um juízo divino, enquanto que outros não. Todos, porém, a seu tempo, realizaram o propósito divino.
Um indivíduo como executor da ira de Deus
Pouco antes dos israelitas entrarem em Canaã foram seduzidos pelas mulheres que habitavam na localidade de Baal-Peor. Prostituíram-se com elas e participaram dos sacrifícios aos seus deuses, o que despertou a ira de Deus. Na ocasião um príncipe simeonita, atrevidamente, trouxe uma dessas mulheres midianitas à sua tenda, no arraial de Israel, fazendo “ostentação de seu pecado à vista da congregação, como que a desafiar a vingança de Deus”. (220) Então, o sacerdote Fineias, tomando de uma lança foi após eles e os matou (Números 25:6-8). Como consequência, “o sacerdote que executara o juízo divino foi honrado perante todo o Israel, e o sacerdócio foi confirmado a ele e sua casa para sempre”. (221) Com seu ato ele desviou a ira de Deus (Números 25:11-13).
Grupos de indivíduos como executores da ira de Deus
Dentro do povo de Israel, em diferentes momentos de sua história, houve grupos de indivíduos a quem Deus utilizou como instrumentos de sua ira contra a rebeldia. Vemos um exemplo disso logo após a saída de Israel do Egito, no episódio da adoração do bezerro de ouro (Êxodo 32:1-29). Depois que o povo se afastou dos caminhos de Deus, podia-se classificar os israelitas em três grupos. O primeiro era formado por aqueles que não haviam participado da idolatria. Esse foi o caso da tribo dos levitas. O segundo, por aqueles que, embora houvessem pecado, demonstravam seu arrependimento. E o terceiro, por aqueles que persistiam em sua rebelião, incluindo os que haviam encabeçado o evento. Por ordem divina, o primeiro grupo destruiu o terceiro, enquanto que o segundo, foi poupado. (222) Desse modo, os levitas, “que efetuaram esta terrível obra de juízo, estiveram a agir com autoridade divina, executando a sentença do Rei do Céu”. (223) Posteriormente, em Baal-Peor, logo após a ação de Fineias, “Deus ordenou que os líderes desta apostasia fossem mortos pelos magistrados. Esta ordem foi prontamente obedecida [...] para que a congregação [...] pudesse ter uma intuição profunda da aversão de Deus ao seu pecado, e do terror de Sua ira contra eles” (224) (Números 25:1-5).
Houve também ocasião em que o Senhor usou um grupo de homens infiéis para cumprir seus propósitos. Isso pode ser visto na conspiração encabeçada por Absalão contra Davi, seu pai, o que trouxe a este intensa aflição, ocasionando a perda de muitas vidas e fazendo perigar o reino (2Samuel 15-18). Esta revolução é considerada como “o justo juízo de Deus” por causa do pecado de Davi (225) (2Samuel 12).
Israel como executor da ira de Deus
Nas narrativas bíblicas encontramos diversas situações em que Deus empregou o povo de Israel para executar sua ira contra as nações. Desse modo, após a rebeldia de Baal-Peor, o Senhor ordenou a Israel, por meio de Moisés, que destruísse os midianitas (Números 31:1-18). Esse episódio pode ser visto como um exemplo de tantos outros em que Deus exigiu que Israel fizesse guerra contra outros povos. Nesses casos, “Deus os suportou até que encheram a medida de sua iniquidade, então trouxe sobre eles rápida destruição. Usou Seu povo como instrumento de Sua ira, para punir as nações ímpias, que os haviam afligido, e seduzido à idolatria”. (226)
Posteriormente, quando os israelitas entrassem em Canaã, deveriam destruir totalmente as nações que ali habitavam. Instruído por Deus, Moisés lhes disse: “Quando o Senhor, teu Deus, te introduzir na terra a qual passas a possuir, e tiver lançado muitas nações diante de ti, os heteus, e os girgaseus, e os amorreus, e os cananeus, e os ferezeus, e os heveus, e os jebuseus, sete nações mais numerosas e mais poderosas do que tu; e o Senhor, teu Deus, as tiver dado diante de ti, para as ferir, totalmente as destruirás; não farás com elas aliança, nem terás piedade delas” (Deuteronômio 7:1-2).
E foi isso o que ocorreu em vários dos combates relatados por Josué. Quando diversos reis se uniram e os atacaram, “o Senhor os entregou nas mãos de Israel; e [...] feriram-nos sem deixar nem sequer um. [...] [e] nesse mesmo tempo, voltou Josué, tomou Hazor e [...] a todos os que nela estavam feriram à espada e totalmente os destruíram, e ninguém sobreviveu; e a Hazor queimou” (Josué 11:1-23). Em todas essas batalhas os israelitas eram “encarregados de executar Seus juízos”. (227)
Também, no princípio da monarquia em Israel, Saul recebeu, por meio do profeta Samuel, a incumbência de guerrear contra os amalequitas. Foi-lhe dito: “Assim diz o Senhor dos Exércitos: Castigarei Amaleque pelo que fez a Israel: Ter-se oposto a Israel no caminho, quando este subia do Egito. Vai, pois, agora, e fere a Amaleque, e destrói totalmente a tudo o que tiver, e nada lhe poupes” (1Samuel 15:2-3; conforme Deuteronômio 25:17-19). Aqueles que foram convocados para acompanhá-lo “deviam empenhar-se na guerra unicamente como um ato de obediência a Deus, a fim de executar Seu juízo sobre os amalequitas”. (228)
Nações pagãs como executoras da ira de Deus
De todos os agentes da ira de Deus no AT, as nações são apresentadas como os mais poderosos. Elas foram empregadas para castigar outras nações pagãs (229) (Isaías 13:1-5, 16-19; 20:1, 4; 23:13-15; 36:18-20; 37:8-13, conforme 37:21-27), mas também, muitas vezes, para punir o próprio povo de Israel por sua infidelidade. (230) Desse modo, Israel foi afligido por diversas nações vizinhas (Juízes 2:11-15; 4:1-2; 6:1-2), pelos filisteus, nos dias do sacerdote Eli (1Samuel 4:1-11), pelos assírios, comandados por Salmaneser, a quem Deus chamou de “cetro da minha ira”, e de quem disse “a vara em sua mão é o instrumento do meu furor” (Isaías 10:5). De fato, “a destruição que abateu o reino do norte foi um juízo direto do Céu. Os assírios foram meramente os instrumentos de que Deus Se serviu para realizar o Seu propósito” (231) (Isaías 7:17-20).
O mesmo pode ser dito de Babilônia e de seu rei. Deus os usou como instrumentos de sua ira para punir o impenitente Judá. Em consequência, houve ataques e invasões, a capital foi devastada e saqueada, a nação caiu e veio o cativeiro (2Crônicas 36:17-21; Salmos 106:40-41; Lamentações 2). (232) Também o domínio romano sobre os judeus, ocorrido séculos mais tarde, é interpretado como um dos juízos de Deus, em razão de seus pecados e de seu afastamento do Senhor. (233) Portanto, com frequência, a ira de Deus toma a forma de guerra e carnificina e tais formas humanas de violência são empregadas para a glória de Deus (Êxodo 14:4, 17-18, 26-31; Isaías 42:10-13; Ezequiel 38:21-23). (234)
A natureza
Com muita frequência, Deus tem usado os elementos da natureza e, em alguns casos, até os animais para mostrar Seu desagrado com o pecado.
Elementos da natureza
Deus é o criador da natureza e a tem usado para cumprir seus propósitos, incluindo a punição dos que sistematicamente se rebelam contra ele. Foi assim por ocasião do Dilúvio (Gênesis 6-7), considerado como um “terrível derramamento da ira de Deus”, (235) e na destruição de Sodoma e das demais cidades do vale de Sidim (Gênesis 18:16-19:29), quando “o Senhor fez chover do Céu enxofre e fogo”, (236) o que foi chamado de “os fogos de Sua vingança”. (237)
Um dos episódios mais esclarecedores, que demonstram como Deus se vale dos elementos da natureza para manifestar Sua ira, pode ser visto nas dez pragas que vieram sobre o Egito. Claramente, Deus preferiu usar os recursos da natureza, de modo que, enquanto as pragas caíam, muitos se convenceram de que Faraó “se achava opondo a um Ser que fez de todas as forças da natureza ministros de Sua vontade”. (238) Deste modo, na primeira delas, as águas se tornaram em sangue (Êxodo 7:20-21), em outra houve uma chuva de pedras misturada com fogo (Êxodo 9:22-25) e, posteriormente, houve trevas espessas (Êxodo 10:21-23). (239)
Ainda na história de Israel, quando da rebelião encabeçada por Coré, Datã e Abirão, 250 príncipes de Israel, contrariando a vontade divina, se ajuntaram contra Moisés e Arão na tentativa de assumir a liderança da nação, Deus enviou seus juízos sobre os rebeldes usando a terra e o fogo. Assim, a terra se abriu e tragou os chefes da rebelião e, depois, o “fogo que flamejou da nuvem consumiu os duzentos e cinquenta príncipes” porque não se arrependeram (240) (Números 16:1-35). Do mesmo modo, a grande seca que se abateu sobre Israel durante três anos e meio, nos dias de sua apostasia, sob o governo de Acabe (1Reis 17:1, 7; Tiago 5:17) deveria ser reconhecida como “juízo de Jeová”. (241)
Tratando deste tema, Ellen White declara que ao longo do tempo Satanás tem levado cidades e nações a provocarem a ira de Deus por meio de seus pecados de maneira que fossem destruídas através das forças da natureza; (242) e apresenta esses juízos como já estando presentes no mundo (243) e como devendo ocorrer, em escala cada vez maior, à medida que o fim se aproxima. (244) Por isso, diz ela, “quão frequentemente ouvimos de terremotos e furacões, de destruição pelo fogo e inundações, com grandes perdas de vidas e propriedades!” (245)
Também as profecias apocalípticas apontam para as sete últimas pragas que incidirão sobre os ímpios, quando Deus usará a natureza para puni-los. Então, todas as águas se tornarão em sangue (Apocalipse 16:3-4), o sol será afetado de modo que “os homens se queimarão com intenso calor” (versos 8-9), haverá trevas (verso 10) e um “terremoto como nunca houve” e também uma “grande saraivada” com enormes pedras (versos 17-21). (246)
Animais
Semelhantemente, algumas vezes Deus usou os animais para efetuarem o seu juízo. Em quatro das pragas que vieram sobre o Egito ele empregou pequenos seres do reino animal: rãs (Êxodo 8:5-6), piolhos (Êxodo 8:16-17), moscas (Êxodo 8:24) e gafanhotos (Êxodo 10:13-15) – que, sendo muito numerosos, causaram grande desconforto e graves prejuízos. (247) Os próprios israelitas, em sua peregrinação, sofreram um juízo por esse meio. Ao se tornarem impacientes e murmurarem contra Deus e contra Moisés, cometeram “grande pecado”. (248)
“Então, o Senhor mandou entre o povo serpentes abrasadoras, que mordiam o povo; e morreram muitos do povo de Israel” (Números 21:6). Deus, que até então cuidara deles e suprira-lhes todas as necessidades (Deuteronômio 8:14-16), retirou “sua proteção até que fossem levados a apreciar Seu misericordioso cuidado, e a voltar-se para Ele com arrependimento e humilhação”. (249)
Como parte das bênçãos que Israel receberia, se fosse fiel, está a promessa de que Deus os ajudaria a conquistar as terras de Canaã, e isso incluiria o uso de vespões. “Também enviarei vespas diante de ti, que lancem os heveus, os cananeus e os heteus de diante de ti” (Êxodo 23:28). Muitas décadas depois, quando já haviam se estabelecido em Canaã, Josué, recordando o que Deus fizera por eles, declarou, em nome do Senhor: “Enviei vespões adiante de vós, que os expulsaram da vossa presença, bem como os dois reis dos amorreus, e isso não com a tua espada, nem com o teu arco” (Josué 24:12). Portanto, essas investidas dos vespões estão associadas com o uso que Deus fez dos israelitas como instrumentos para punir as nações de Canaã. (250) Também, após a destruição das dez tribos de Israel, quando o rei da Assíria trouxe estrangeiros para que habitassem nas cidades de Samaria em lugar dos filhos de Israel, porque eles não temerem a Deus, “mandou o Senhor para o meio deles leões, os quais mataram a alguns do povo” (2Reis 17:24-25).
Outro incidente ocorreu em relação ao profeta Eliseu, quando houve um “exemplo de terrível severidade”, com o objetivo de salvaguardar a importante e longa missão de Seu servo. No início de seu ministério, quando caminhava de Jericó a Betel, “uns rapazinhos saíram da cidade, e zombavam dele, e diziam-lhe: Sobe, calvo! Sobe, calvo! Virando-se ele para trás, viu-os e os amaldiçoou em nome do Senhor; então, duas ursas saíram do bosque e despedaçaram quarenta e dois deles.” (1Reis 2:23-24). Este “terrível juízo que se seguiu foi de Deus”. (251)
Doenças e pestilências
A ira de Deus tem-se manifestado também por meio da pestilência. (252) Um dos primeiros exemplos bíblicos pode ser visto na narrativa sobre a rebelião liderada por Coré. Depois da destruição daqueles que haviam liderado a conspiração, “no dia seguinte, toda a congregação dos filhos de Israel murmurou contra Moisés e contra Arão, dizendo: Vós matastes o povo do Senhor” (Números 16:41). Como resultado, sofreram a ira de Deus na forma de uma praga que dizimou a quatorze mil e setecentos deles (253) (versos 42-50). Posteriormente, porque os israelitas participaram do culto licencioso aos deuses pagãos, junto a Baal-Peor, “acendeu-se a ira de Deus [...]. Por meio de juízos que se não fizeram esperar, o povo foi despertado para a enormidade de seu pecado. Uma pestilência terrível irrompeu no arraial, da qual dezenas de milhares de pronto foram presa” (254) (Números 25:1-3, 9).
De igual modo, séculos mais tarde, nos dias de Davi, a peste atingiu Israel. Movido por orgulho e a ambição e a fim de mostrar a “força e prosperidade” do reino de Israel sob sua administração, Davi mandou realizar um censo. Isso ofendeu a Deus. (255) O próprio Davi, reconhecendo seu pecado, confessou: “Muito pequei em fazer tal coisa; [...] procedi mui loucamente” (1Crônicas 21:8). “Então, enviou o Senhor a peste a Israel; e caíram de Israel setenta mil homens.” (1Crônicas 21:14). Em realidade, embora os próprios israelitas estivessem descontentes com o levantamento do censo, “tinham acariciado os mesmos pecados que determinaram a ação de Davi. Assim, [...] pelo erro de Davi Ele puniu os pecados de Israel”. (256)
Deus também utilizou algumas vezes as doenças, especialmente a lepra. Embora adquirir a lepra não seja necessariamente uma indicação de que seu portador esteja recebendo um juízo divino, houve pelo menos três exemplos bíblicos em que isso ocorreu. Talvez fosse por essa razão que a lepra, nos dias de Cristo, “entre os judeus, era considerada um juízo sobre o pecado, sendo chamada: ‘o açoite’, ‘o dedo de Deus’”, (257) e a mais temida das doenças. (258)
O primeiro caso ocorreu no início da jornada de Israel pelo deserto. Zípora, ao ser trazida por seu pai para se reunir a Israel, viu o estafante trabalho de Moisés, seu esposo, e manifestou sua preocupação a Jetro, que sugeriu medidas para aliviarem seu trabalho. Como resultado, outros foram escolhidos para dividir as cargas com Moisés (Êxodo 18), o que levou Miriã e Arão a se ressentirem com a suposta perda de sua influência. Na sequência, Miriã, movida por inveja e descontentamento, lançou queixas e acusações contra Moisés. Então, o Senhor se manifestou e os repreendeu (Números 12:1-8) e “Miriã foi castigada”, (259) recebendo um juízo de Deus. (260) Diz o texto sagrado: “E a ira do Senhor contra eles se acendeu [...] e eis que Miriã achou-se leprosa, branca como a neve” (Números 12:9-10). Depois, “em resposta às orações de Moisés, a lepra foi purificada”. (261)
A segunda ocorrência se deu com Geazi, o servo do profeta Eliseu. Quando cobiçou parte dos presentes que Naamã, após ser curado da lepra, oferecera ao profeta, e, mentindo, tentou conseguir um talento de prata e duas vestes festivais, recebendo, como castigo divino, a lepra que antes estivera sobre Naamã (2Reis 5:9-27). (262)
O terceiro exemplo aconteceu quando o rei Uzias entrou no templo com a intenção de queimar incenso, o que era prerrogativa unicamente dos sacerdotes, que, com firmeza o impediram. Considerando sua elevada posição não suportou o ser repreendido e encheu-se de ira. Então, “foi ele subitamente ferido pelo juízo divino. Em sua testa apareceu lepra… Até o dia de sua morte, alguns anos mais tarde, Uzias ficou leproso… pelo presunçoso pecado com que mareou os anos derradeiros de seu reinado” (263) (2Crônicas 26:16-21).
Há ainda outros exemplos. As Escrituras relatam que o rei Davi adulterou com Bate-Seba e por meio de um artifício assassinou seu esposo (2Samuel 11), e como “isto que Davi fizera foi mal aos olhos do Senhor” (v. 27). Então acrescentam que o Senhor enviou o profeta Natã a Davi a fim de repreendê-lo (2Samuel 12:1-15) e completam o quadro com a informação de “que o Senhor feriu a criança que a mulher de Urias dera à luz a Davi; e a criança adoeceu gravemente. [...] Ao sétimo dia, morreu a criança” (2Samuel 12:15, 18).
Houve também um caso em que um rei teve parte de seu corpo ferida por Deus. Isso aconteceu logo após o cisma de Israel, quando Jeroboão, o primeiro rei das dez tribos, estava junto ao altar pagão de Betel para queimar incenso. Deus lhe enviou um profeta com uma mensagem de reprovação por seus pecados. E “tendo o rei ouvido as palavras do homem de Deus… estendeu a mão [...] dizendo: prendei-o! Mas a mão que estendera contra o homem de Deus secou, e não a podia recolher” (1Reis 13:4). Então, o rei pediu que o profeta implorasse o favor de Deus para que voltasse a ficar são. O profeta orou e seu desejo foi atendido (v. 6). Esse temporário secamento do braço é apresentado como um juízo de Deus. (264)
Além disso, temos os conhecidos exemplos da sexta praga sobre o Egito, que consistiu em “úlceras nos homens e nos animais” (265) (Êxodo 9:10) e a primeira das sete pragas que incidirão sobre os ímpios no final dos tempos, que será de “úlceras malignas e perniciosas” (266) (Apocalipse 16:1-2).
Acidentes
Alguns acidentes podem também ser vistos como juízos de Deus, embora nem sempre haja uma revelação específica que indique se ocorrem por uma ação divina direta ou apenas como um resultado do afastamento por parte de Deus. Esse foi o caso do rei Acazias, filho de Acabe. Ele “fez o que era mau perante o Senhor [...] serviu a Baal, e o adorou, e provocou à ira ao Senhor, Deus de Israel, segundo tudo quanto fizera seu pai [...] E caiu Acazias pelas grades de um quarto alto, em Samaria, e adoeceu” (1Reis 22:53 – 2Reis 1:2), vindo em consequência a falecer (2Reis 1:3-4, 17), vítima da ira de Deus contra ele. (267)
Ao comentar a situação do mundo em seus dias e nos dias futuros, Ellen White declara que a ira de Deus igualmente pode ser percebida em alguns acidentes na terra e no mar, (268) nos episódios em que edifícios suntuosos se transformam em cinzas, (269) navios são tragados pelo oceano (270) e nos “desastres de estradas de ferro”. (271)
Resumo e Conclusões
Este capítulo analisou o tema da ira de Deus a partir das perspectivas do AT, NT e dos escritos de Ellen White. Demonstrou como essa ira tem sido uma realidade no mundo dos homens desde o surgimento do pecado e que ela permanecerá atuante até a extinção do mal e a restauração de todas as coisas. Apontou o fator que desperta essa ira, ou seja, o pecado, em todas as suas formas, com destaque para a quebra da aliança com Deus e a desumanidade do homem para com seu semelhante. Porque o pecado não é inconsequente, mas destrutivo e, se não tratado adequadamente, resultará na morte eterna. Ele sempre aborrece a Deus, desperta sua ira e atrai seu ataque judicial.
O exame dos efeitos da ira de Deus constatou que eles são percebidos primeiramente em nossa própria constituição, porque o pecado se encontra no homem como um princípio inato e o faz ímpio e perverso. Em segundo lugar, no abandono de Deus, que entrega os rebeldes a seus próprios desejos e permite que sigam desembaraçadamente seu caminho descendente, sem freio, sem qualquer intervenção divina, até a plena profundeza da depravação (embora Deus nunca abandone quem aceita a Cristo como seu Salvador e esta ação divina de entregar o homem ao seu próprio pecado não seja necessariamente um abandono eterno, pois enquanto a vida segue, Deus, em sua graça, provê oportunidades para a salvação). E, finalmente, os resultados da ira divina são vistos nas punições, sendo que algumas são consequências naturais dos atos de pecado e outras, penalidades diretas impostas por Deus como juiz. Essas punições têm vários propósitos: a vindicação da santidade e justiça de Deus, a correção e recuperação do pecador, a dissuasão dos homens para que não enveredem pelo mau caminho nem sofram o prejuízo que o mal costuma causar e a erradicação do pecado e pecadores.
A ira de Deus abrange, em seu escopo, a história e a escatologia. Apesar de sua paciência e tolerância para com os pecados, sua ira é revelada ao logo de todas as épocas, seja por meio da acusação da consciência, do sentimento de culpa e remorso, dos sofrimentos físicos e angústias mentais, da quebra dos relacionamentos e do envilecimento que o pecado causa; seja por meio da justiça aplicada pela lei e a sociedade, seja quando irrompe em terríveis julgamentos. Em suma, a ira divina está, agora mesmo, em constante progresso, como uma resposta ao pecado. Todavia, porque ainda estamos no tempo da graça, os juízos divinos ainda não são juízos totais, mas juízos dentro da história. Possuem um sentido pedagógico e estão mesclados com a paciência e a longanimidade de Deus, preservando o mundo para que tenha a oportunidade de apreciar a revelação do evangelho de modo que, quem quiser, se volte para o Senhor.
Em seu sentido escatológico, a ênfase recai sobre o castigo que os ímpios – Satanás, seus anjos e os homens impenitentes – terão ao final da história humana. Antes, porém, deve ocorrer um julgamento, não para informar a Deus, mas a fim de pôr tudo às claras. A intenção não é descobrir a verdade, mas revelá-la, tendo em vista a segurança futura do universo. Por isso, Deus mantém com fidelidade os registros da vida de todos e permite que aqueles que viverão pela eternidade participem do julgamento. Desse modo, em certo sentido, Deus também estará sendo julgado: seus princípios, suas leis, seus propósitos, seu modo de agir. Ao final, todos compreenderão tanto sua ira como seu amor e proclamarão sua perfeita justiça. Procedendo assim, Deus protege todos os interesses, de maneira que nenhuma dúvida se levantará por toda a eternidade.
Os juízos divinos podem ser diretos ou indiretos. São chamadas de juízos indiretos as ocorrências em que Deus se afasta e deixa o pecador seguir seu próprio caminho. Em alguns casos, o Espírito Santo é retirado definitivamente do pecador e este fica à mercê de suas próprias paixões e da maldade de Satanás. Contudo, outras vezes, os juízos de Deus são diretos, o que significa que Deus é sua fonte.
Há uma variedade de instrumentos empregados por Deus ao longo da história humana para trazer seus justos juízos sobre os homens. Ele faz uso tanto dos anjos que lhe são leais como daqueles que se rebelaram. De fato, há situações em que Satanás e seus anjos são os executores dos juízos de Deus. Isto não significa que haja sociedade entre Deus e Satanás ou que este ofereça algum tipo de obediência àquele, mas que, ao Deus se afastar do pecador contumaz, aquele que ultrapassou os limites de sua misericórdia, Satanás o domina completamente e o sofrimento e desespero que se sucedem também são considerados como juízo de Deus.
Em muitas circunstâncias Deus também se valeu de homens como executores de seus juízos. Podia ser um indivíduo ou uma coletividade. Alguns deles eram seus inimigos enquanto que outros eram de seu próprio povo. Alguns sabiam que estavam cumprindo um juízo divino, enquanto que outros não. Todos, porém, a seu tempo, realizaram o propósito divino. Assim, algumas vezes Deus empregou Israel para punir as nações ao passo que em outras circunstâncias foram as nações pagãs que puniram Israel por sua rebeldia. Tanto no passado como no presente, Deus serve-se das autoridades constituídas para castigar os malfeitores.
Também, repetidamente, Deus tem aproveitado a natureza para mostrar seu desagrado com o pecado. Isso foi evidenciado no Dilúvio, na destruição de Sodoma, nas pragas que vieram sobre o Egito e em diversas rebeliões de Israel. Acrescentem-se ainda a expressão da ira divina por meio de pestilências, doenças e acidentes.
Portanto, a ira de Deus é um tema bastante recorrente na Bíblia e nos escritos de Ellen White, sendo suas causas, efeitos, propósitos, modos e instrumentos de manifestação muito bem definidos e amplamente exemplificados, e se apresentando como uma constante realidade no mundo dos homens, enquanto não se encerrar o grande conflito entre o bem e o mal.
O próximo capítulo expõe o tema da ira divina em sua vinculação com Cristo, o Filho de Deus: o que ele tem feito e fará para libertar-nos dela, mas também seu papel como executor dessa mesma ira nos eventos finais do grande conflito entre o bem e o mal. (Clique aqui e vá para as Referências bibliográficas) ou (Clique aqui e volte para o Sumário) ou (Clique aqui e vá para o capítulo 3: Cristo e a Ira de Deus).

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